17 agosto, 2009

Mutante

Posted in Corpo, Crenças, Desabafos, Egotrip, Memórias tagged , , , , , às 1:59 pm por Deborah Sá

Compartilhei aqui no blog grande parte da minha trajetória, a origem evangélica e outros percalços mais tortuosos, mas nunca mencionei “meus primeiros passos” fora desta “formação”.

Quando eu parei de estudar (aos 15) comecei a trabalhar com meu pai ajudando-o no suporte aos clientes (ele é analista de sistemas autônomo). Fiz um curso básico de HTML e de Clipper sendo que neste último descobri maneiras de fazer animações em formato “quadradão”. Eu gostava de desenhar e ler tirinhas, o professor se surpreendeu porque nunca nenhum aluno dele teve essa idéia. Infelizmente (?) não fiz backup e perdi as “preciosas” animações.

Nessa mesma época entrei em uma paranóia com a minha aparência (minha barriga era o alvo principal) e ia caminhando para o curso em um sol escaldante com os cabelos muito compridos, a saia marrom com desenhos na barra e uma blusinha laranja. Sempre bebendo muita água. Perdi 10 quilos rapidamente e os ganhei quase por completo. Pesava 78 quilos aos 15 anos com 1,64 de altura. Embora tenha ganhado muitos elogios pela modificação da silhueta, continuava triste. Sentia que a gordura me impedia de ser bonita e atraente. Até porque cansei de ouvir que não era feia, só era gordinha e tinha o rosto bonito. Então a associação imediata foi que a única coisa que me impedia nesses anos todos de ser considerada bonita, inteligente e agradável eram mesmo os meus pneuzinhos.

Certo dia eu peguei o caderno com as matérias do meu curso de Clipper e joguei todas fora, restando apenas algumas páginas em branco. Foi aí que eu comecei a escrever e ler o que escrevia, me analisando a partir dali. Percebi que isso me fazia muito bem, era uma conversa franca com minha consciência.

Passei a arriscar cada vez um pouco mais. A primeira mudança foi cortar o meu cabelo.

Depois comecei a encurtar as minhas saias e passei a usar calças.

E não sentia tanto medo de Deus assim…Resolvi que daria uma chance para um moço que parecia legal. Ele foi o meu primeiro namorado.
No dia do meu primeiro beijo (aos 17) estava em um SESC ao ar livre e durante o beijo senti uma coisa cair no meu braço. Era cocô de passarinho. Ele não tinha papel na bolsa que usava sempre a tiracolo. Eu também não, então a saída foi limpar com o ticket do SESC.

No dia em que perdi a virgindade pensei que Deus ia me matar com um raio na cabeça. Só repetia: “A qualquer momento, a qualquer momento”. Ou que o ônibus ia bater e ficaria paraplégica. Dessas “pragas” que adoram rogar nas igrejas pra quem não “andava pelo caminho da justiça e da luz”.

Acabei relaxando e aproveitando aquele momento, mas ainda ia a igreja. No último dia que eu fui, o Cooperador disse na “Palavra”: “Se você não concorda com o que está aqui, vá embora! Deus não precisa de você!” E eu fui.

Com o tempo julguei que o melhor a fazer era romper com meu primeiro namorado. E assim o fiz. Nessa altura eu estava com mechas loiras no meu cabelo (nem tão) comprido.

Conheci mais alguns rapazes e entre eles estava o Yuri. [Que estou a 3 anos cheios de cumplicidade, risos, conchinhas e muito, muito diálogo. Ele não lê meu blog com muita freqüência mas se estiver lendo isso aqui, já sabe que te amo :) ]

Com o tempo fiz tudo o que sempre tive vontade de fazer: Cortei meu cabelo, pintei de vermelho, uso a roupa que quero na hora que quero, seja saia ou calça jeans, me tornei vegana e encontrei amigas maravilhosas que me aceitam como eu sou: Feminista, atéia, vegana, chorona e atrapalhada.

Agradeço ao apoio dos meus familiares, do meu namorado e da União de Mulheres. Amo vocês.

21 Comentários

  1. Nisia said,

    Boa tarde!
    Gostei do seu blog, e agora acompanho via feed.
    Este post que você acabou de postar (7 min atrás) me emocionou neste começo de tarde.
    A autodescoberta é uma coisa assim, difícil e gostosa, e nós nunca sabemos se estamos indo pelo caminho certo. O negócio é ir em frente, e como diz aquela poesia, “o caminho se faz ao caminhar”.
    Um abraço, é um prazer te ler.

  2. Zaíra said,

    Que eu choro sempre feito uma cachoeira não é nenhuma novidade.
    E te ler me fez chorar mais um pouco.
    Acho que encontrar histórias que eram tristes, mas foram superadas, estão me fazendo me reanimar e reunir forças para enfrentar todas essas injustiças que engolem as mulheres por aí, inclusive a mim.
    Vou te ler mais vezes. Se quiser, dê uma passada pelo meu blog, que nem sempre tem coisas úteis, mas sempre tem a minha verdade.

    Um beijo.
    Gostei de te achar no meu caminho.
    Obrigada pelo abraço e pela acolhida.

    • Deborah Sá said,

      Oi Zá ^^
      Eu também sou uma cachoeira, não temos de negar nossos sentimentos não é mesmo? Depois dizem que só homens não podem chorar…quando choramos ganhamos o rótulo de “frágeis e uterinas” carimbado na testa! Este blog é um espaço para nos abirmos mesmo ^^
      Seja sempre bem vinda :)

  3. asnalfa said,

    Menina, adorei te conhecer pelas imagens! E que trasnformacao foi essa hein? Tanto visual quanto comportamental. Adorei mesmo! Agora so falta a foto de vc junto com o Yuri. Fiquei curioso!
    ahahah

    • Deborah Sá said,

      Depois eu pergunto se posso postar uma foto dele aqui. Eu sempre pergunto aos meus conhecidos se posso publicar as fotos deles :)

  4. B said,

    No dia que te conheci no Bambu vc estava no momento de fechar essa transição que vejo agora. É realmente impressionante sua força e, como a Zaíra, me serve de inspiração.
    Vc vai longe!
    beijos

    • Deborah Sá said,

      Be
      Sabe que te amo também né? Obrigada pela força sempre. Desde o primeiro momento que nos conhecemos ;)

  5. B said,

    *como a Zaíra disse.

  6. said,

    Oii…gostei do teu relato! Tb achei bem legal a forma como descreveu sua infância com a igreja.
    Deve ser bem difícil sair daquilo que se aprendeu quando criança né, ainda mais ter essa clareza de consîência (não no sentido do que é bem-mal, mas conseguir ver como funciona o seu redor mesmo). Acho isso uma ótima qualidade :)
    Ahh, sou vegetariana (não vegana) e atéia tb, só q no meu caso, não precisei quebrar com barreira nenhuma. Tive pais bem libertários, nesse sentido, não foi exigido essa revolução dentro de mim. Tudo veio mais fácil. Por isso admiro bastante esse trabalho de superar (no sentido de ter clareza) a visão de mundo que foi aceito como natural pela criação.

    Abraços!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada Má ^^
      Foi trabalhoso mais valeu a pena!
      Os meus pais nem eram autoritários, o que pegou mesmo foi eu ter mergulhado de cabeça na religião pra compensar meu vazio existencial. Seja bem vinda :D

  7. Vegana…
    Esse é meu Everest…
    Parabéns!

  8. luci said,

    que post fantastico! e, me permita dizer: que mudança! nem falo da fisica, tou impressionada pela mudança interior. acabei de ler pelo menos uns dez posts seus e senti muita pena pelas coisas que te aconteceram (como a igreja e colegio). é uma pena que quando a gente é pequeno/mais novo a gente é tão abestalhado! tem umas coisas que eu lembro da minha infância sempre pensando “como eu deixava isso acontecer? por que nao reagi?” e agora são anos pra se livrar de apenas alguns segundos de infelicidade no colegio.

    bom, nohs crescemos!

    • Deborah Sá said,

      Entendo perfeitamente!!
      Ás vezes me bate um arrependimento de não ter tomado alguma atitude. Mas fico feliz de poder fortalecer outras mulheres que passaram por situações tão similares.
      Um abraço

  9. marjorierodrigues said,

    nhón, que post lindo! *abraça*

    • Deborah Sá said,

      *abraça de volta e chama pra tomar um açaí*

  10. whothehelliscely said,

    Você é uma vencedora meu amor, eu sempre vou estar com você!

    Beijos

  11. Jaqueline said,

    Muito bom passar por esse processo de libertação e descobertas, foi uma mudança e tanto pela qual eu também passei.
    Abs

  12. Deborah said,

    Xará,

    você é bem bonita.

    legal você ter começado a trabalhar desde bem jovem

    Um abraço
    Deborah

  13. Alberto said,

    Tenho uma amiga vega, vocês se parecem bastante, principalmente, na parte do feminista, eu queria ter o cabelo igual o seu enquanto estava com os pneuzinhos a mais, amei a 2ª e 3ª fotos com cabelo curto a atual com vestidinho, eu tb fui numa palavra que disse a mesma coisa que você, tipo se não quiser vir não venha, mas se quiser, foi assim pra mim, uma das coisas que me aborrece é as outras pessoas tipo meu irmão, pintarem e bordarem depois batizarem na congregração e pra todos eles são santos, todos nós somos resultados de nossas experiências, e eles fazem tudo que querem antes de batizarem e quando pagam o preço, foi por ter tudo isso que quiseram e depôs ficam querendo impedir os outros de fazê-lo, tipo eu, com coisa de não voce teve o exemplo, mas eles fizeram neh.
    Voce tá bem melhor assim atualmente, continue assim

    • Deborah Sá said,

      o/


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