16 julho, 2009

Quanto vale ou é por quilo?

Posted in Corpo, Gênero tagged , às 1:24 pm por Deborah Sá

Estou pasma. O “Metrô News” distribuído diariamente aos passageiros de SP publicou uma vaga de emprego absurda:
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Sim, um homem busca por uma empregada-puta por R$ 1.395,00 trabalhando de segunda a sexta, que seja “liberal e faça massagens relaxantes” e com direito a carteira assinada!
Não dão condições a uma mulher concorrer ao mercado de trabalho com um salário igualitário, detonam a auto-estima dela através da mídia e oferecem empregos sexuais. É claro que surgirão muitas mulheres desesperadas para essa vaga de emprego.
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Assisti ao Roda Viva com a Gabriela Leite fundadora da Da Vida, uma ONG que luta pelos direitos trabalhistas das prostitutas. Ela era de classe média baixa e deixou a faculdade pois estudava e trabalhava não restando tempo pra se divertir. Ao olhar as putas “se divertindo” em boates ela achou o máximo. Beber, jogar conversa fora e ganhar o dinheiro assim parecia menos estafante do que sua dupla jornada de trabalho. Nunca trabalhou “na rua”, apenas em “casas noturnas”. Segundo ela, as putas não trabalham de terça-feira e não beijam na boca, atualmente são Workaholics e não tem mais tempo de se divertir, trabalham de “sol a sol” e procuram “fazer um pé de meia” pra comprar uma casa longe do local de trabalho. Defende a legalização da prostituição conquistando respeito e libertando-as das “mãos” dos cafetões que as agenciam inescrupulosamente.
É grande o número de prostitutas que sofrem violência, afirmou que os piores locais que visitou são o Norte e Nordeste do Brasil, onde as meninas são acorrentadas e presas para que não fujam do local.
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Os anúncios que li hoje (e a qualquer dia da semana neste mesmo jornal) oferecem uma hora de anal sem parar por R$ 20,00, beijo na boca e “tudo” inclusive drinks por R$ 30,00. O mercado da prostituição é direcionado ao público masculino, até os garotos de programa em sua maioria atendem homens.
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Se o maravilhoso mundo da prostituição é mesmo tão estupendo, por que os homens são minoria nele? Por que a última opção de um homem é virar mendigo, enquanto uma mulher não pode ser mendiga sem correr o grande risco de ser estuprada?
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Nós já nascemos putas. Não importa se somos largadas nas ruas aos 5 anos, se fugimos de estupros dentro de casa e acabamos na rua ganhando umas moedas pra isso, se temos diplomas acadêmicos e não conseguimos mais pagar as contas. Se colocarmos a roupa curta, o batom vermelho e as cores escandalosas, em cada esquina estarão homens dispostos a comprar nosso sexo.
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Se perguntassem para cada puta do Brasil: O que quer? Deixar de ser puta ou ter outro emprego que lhe dê melhores condições de moradia, segurança e autonomia?
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O que acham que responderiam? É muito hipócrita querer que as putas deixem de ser putas quando em um “emprego comum” elas ganhariam menos dinheiro. Eu por exemplo, sou secretária e ganho menos que “a puta-empregada” mencionada acima. Deixando claro que não estou defendendo “os bons costumes”. Se uma mulher QUER ser prostituta e se sente bem assim, deve ser respeitada e protegida por lei. Mas não é o que vejo em qualquer documentário/depoimento pessoal sobre prostituição.
A pornografia, o capitalismo, a heteronormatividade e a misoginia alimentam esta profissão.
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O que é mais difícil? Oferecer a estas mulheres cursos de defesa pessoal, faculdades e cursos técnicos, prepararem a polícia para atendê-las com respeito e dando credibilidade aos seus relatos, inseri-las no debate público, se assim desejarem inseri-las no mercado de trabalho (convencional)?
Ou conscientizar os homens do que “eles consomem”, da violência contra a mulher, da mercantilização dos corpos femininos, da exploração sexual infantil que gera prostitutas adultas?

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Sei que algumas delas se casam e formam uma “família” e que há homens que se apaixonam por putas e enfrentam todo o preconceito.
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Mas quando leio estes anúncios, a última coisa que imagino é um homem (cliente) perguntar a uma prostituta qual sua história, quais seus sonhos e o que ela realmente quer pra si.

15 Comentários

  1. asnalfa said,

    Gente do ceu… to horrorizado… to estudando duro pra conseguir uma vaga de R$ 800,00 (ensino superior!!!!) e tem essa garotas de programas com quase o dobro do meu!!
    A proposito, essa Abiane é travesti… vc reparou que ela escreveu “atv”…
    pois é..

    • Deborah Sá said,

      Asnalfa o preço que o cara tá pagando ainda tá baixo. Porque são duas profissões em uma, em tempo integral. Ele diz que é “casa de família”, você já fez uma faxina? Sabe como é exaustivo? Imagina depois da faxina, toda dolorida ter que fazer massagens no cara e ainda dar a bunda. É dose…
      E outra coisa, ATV é abreviação de ativo que não necessariamente significa ter um pinto. Tem gente que usa consolo, dedo, ou ainda pisa em cima, bate estas coisas.

    • Deborah Sá said,

      Sem contar que a maioria das moças que anunciam cobram R$ 20,00 sem preservativo. Imagine só a rotina dessas moças :(

  2. Iara said,

    Deborah, muito bom o post. Em 2005, fui ao Fórum Social Mundial. Um debate lá me marcou muito: o d@s profissionais do sexo. Só havia mulheres e travestis, nenhum homem quis falar. O discurso de algumas mulheres me marcou bastante e me fez sentir muito moralista. Porque algumas estavam lá, organizadas, dizendo: “eu gosto do que eu faço, de ser puta.”. Tinha uma senhora avó, no segundo casamento, dizia que os genros sabiam o que ela fazia, e tudo bem. Mas que elas sabiam a situação de semi-escravidão em que muitas mulheres se encontravam, e que era contra qualquer forma de trabalho degradante. Mas que não era assim, em uma situação degradante, que se sentiam.

    Sabe uma coisa que me impressionou? Quando disseram que criminalizar o facilitador era preconceito contra o trabalho sexual. Helloooo, a gente não tem patrão? O capitalismo não acha normal ter patrão? Então porque puta não pode ter um patrão? Porque é imoral pra puta e não pra secretária?

    Falando sério, sai tonta. Não tenho mais certeza nenhuma sobre este tema, o que eu acho ótimo, aliás. Fiquei convencida que não dá fazer generalizações sobre nada.

    • Deborah Sá said,

      Olá Iara. Por isso defendo que as putas que GOSTAM de ser putas tem de lutar mesmo pelos direitos delas. O problema não é ter cafetão, é a mulher ter de dar uma boa parte do que ganha para o patrão, inclusive pagar pelo aluguel de morar no bordel, alimentação…e nunca se livrar dele.
      A maioria dos relatos que eu ouço de ex-putas é que elas sofriam muito na profissão. Certamente essas que nem usam preservativos sofrem muito com isso, muitas dessas ONGs que as apoiam, buscam instruí-las a se protegerem. Já assistiu ao filmes Filhas do Sol?
      Escrevi há um tempo atrás “Grilhões” onde imaginei um mundo sem mulheres, com os homens agenciando e forçando a prostituição masculina:
      http://www.grilhoes.wordpress.com

      Em alguns trechos é auto-biográfico e me ajudou a expulsar “fantasmas” :P

      Um abraço :)

  3. Iara said,

    Lógico, você tá plena de razão. O que mais tem é meninas em situação “análoga à escravidão” (quer eufemismo mais besta?). Mas isso na prostituição, no corte de carta, na mineração. Uma situação muito diferente da garota maior de idade, que paga a comissão dela pro dono do Bahamas, você não acha?

    Sim, a prostituição só faz sentido no patriarcado. Acho sim que é muito machista. E lógico que essas que não exigem o uso de preservativo devem estar numa situação lamentável. Não quero que pareça aqui que eu acho tudo isso um mau menor, ou que tenho uma visão “glamourizada” da coisa.

    Por outro lado, não sei se cacredito que, extintas as razões externas para uma mulher se prostituir, findo o patriarcado (olha a utopia) a prostituição acabaria. Acho que tem um fetiche ligando sexo a mercadoria que só o fim do capitalismo (nossa, como fui longe agora!) conseguiria, talvez, após muitas gerações enterrar.

  4. marjorierodrigues said,

    Belo post, Deborah. Eu fico entristecida ao ver esses anúncios, sabe? Os orelhões aqui perto são cobertos desses adesivinhos. Todos do tipo “deixdo tudo, aceito tudo, não tenho frescura”. Ou seja: não tenho vontade própria. Estou a seu serviço. O cara que contrata uma prostitua dessas não quer sexo, dado que está sendo avisado desde o começo que a vontade e a sexualidade dela não importa. Ele também não quer uma mulher, já que pouco importa quem ela seja, do que goste, o que queria, quais seus sonhos, sua personalidade. Ele quer apenas um buraco. É o cúmulo da objetificação. E eu acho que um homem que procure isso não se diferencia muito de um estuprador, que também só trata a mulher como um buraco, como uma coisa sobre a qual quer exercer poder. Mas aí, quando eu escrevi isso lá no blog, choveu caras dizendo “eeei, não é bem por aí, mimimi”. Não percebem que a prosituição é uma espécie de estupro institucionalizado. Do consentimento forçado (pelas circunstâncias econômicas) tornado válido e aceito. Se o cara não vê problema em pagar uma prostituta, eu suponho que ele tenha uma certa dificuldade para entender a concepção feminista de estupro. Afinal, como é que ele vai entender quando dizemos que consentimento é um sim entusiasmado e não qualquer sim?

    Vou deixar aqui o link pro post. Acho que vc leu e comentou, mas como mnha memória é fraca, lá vai: http://marjorierodrigues.wordpress.com/2009/03/25/da-prostituicao/

    Bjo!

  5. Vanessa said,

    Deh,

    Gostei demais do seu post. Tomei a liberdade de linká-lo no meu blog.

    É realmente deprimente que tenhamos que ser tão mal remuneradas. Daí, como você bem disse, pra que uma moça vai ficar ralando que nem cão, se ela ganha o dobro por menos tempo?

    O que pega mesmo é a desvalorização/objetificação do próprio corpo. Se bem que a coisa já é a banalizada desde que nascemos (sim, temos xoxotas!), porque como você bem disse: ainda que mendigas corremos o risco de sermos estupradas.

    E já que somos todas putas, que ao menos ganhemos tutu com isso! Então pra que ficar ralando 10,12 horas pra ganhar 800,00?

    Partindo disso, dá pra entender perfeitamente o porque de uma moça desiludida resolver trampar numa zona. E independente de qualquerrrrr coisa, o respeito às escolhas prevalece.

    Infelizmente, aos olhos da maioria, ainda nascemos com o dito buraco…Quando tem dono é sagrado(mas pro vizinho é público), mas quando não tem, é mais do que público, é da galera.

    Tem hora que sinto um desejo súbito de matar alguém…

    (Ah, relaxa, eu também tenho curso superior e assim como você nunca ganhei 1000lão por mês. Tô ralando pra conseguir uma vaguinha que vai me pagar 750,00 por mês…Como sobreviver? Não sei…)

  6. Fabio M said,

    Pois bem, eu cheguei aqui através do link da Vanessa e também vou lincá-lo ao meu blog, principalmente porque esse post complementa um que eu também linquei na semana passada, esse chupado do Liberal, Libertário, Libertino:

    http://sinosdobram.wordpress.com/2009/07/15/as-feministas-e-as-domesticas/

    Enfim… espero que perdoe esse roubo virtual.

  7. […] Continua aqui. […]

  8. paulamaria said,

    Tem um documentário muito bom que passou no Multishow uns tempos atrás, foi feito juntamente com as meninas da Daspu.
    Dá uma procurada, vale a pena.
    :)

  9. Oi débora…..essa é uma questão que sempre me incomodou…

    Sempre fiquei na dúvida…são realmente vítimas? Se a condição econômica serve de justificativa pra este tipo de trabalho, os assaltantes, sequestradores, traficantes, não se enquadrariam no mesmo grupo?
    Dirão as feministas: “mas estes não sofrem como as prostitutas”. Será?

    Acho que a questão vai além do genero. Antes de ser um problema sexista, é um problema social. Essa mesma sociedade, constituida de homens e mulheres e não desta onde os homens são eternamente felizes as custas do sofrimento feminino.

    O sistema capitalista objetifica as pessoas. Em uma cultura como a nossa, onde vc é o que vc tem, o que vc pode comprar e seu valor é do tamanho da tua conta bancária, as pessoas se submetem a estes riscos. De qualquer forma, há uma escolha. COnheço mulheres que, tendo coragem de se separar de um marido violento, viveram a vida toda trabalhando pra criar a família. 2, 3, 4 filhos. Situação complicada, mas pergunte a elas pq não se prostituiram pra ter uma vida melhor?

    Não quero aqui, fazer o papel do moralista, que acha que a prostituição é suja e deveria ser abolida. Defendo o livre arbítrio: Se há quem queira viver desta forma ,que o faça. E concordo contigo no ponto da defesa dos direitos. Acho ridículo que nossa socieade feche os olhos para um problema tão serio quanto este (o da violência contra as prostitutas).

    Mas sempre questiono, são realmente vítimas? Ja disse la em cima, penso que é um problema sociológico e não de genero. Sendo assim, a pergunta cabe tanto a criminosos que “por falta de opção”, cometem uma violência a terceiros, quanto as meninas que cometem a violência contra si, em troca do dinheiro. Realmente, não há outra opção?
    Acho que neste patamar, se encaixam as atrizes dos filmes pornôs, que quando firmam um contrato, sabem exatamente o que vai se passar. Se o filme é sobre sexo com cavalos, isso esta descrito no contrato. São vítimas as que aceitam se submeter desta forma?

    É indiscutível que a mulher seja mais explorada nesse sentido, mas me questiono se o fim do patriarcado seria o bálsamo pra todos estes problemas, já que, na minha opnião, muitos dos que são objetificados pelo sistema, o fazem por vontade própria.

    • Deborah Sá said,

      Thiago, eu não acredito em “o mal” da sociedade e por esta mesma razão não acredito na cura.
      A queda do patriarcado não ocorrerá de uma hora pra outra, não tem só um símbolo, não é um muro. Está encrustado nas nossas mentes e cotidiano, a solução aí é desconstrução.
      E pra mim é questão de gênero sim, se assim fosse (social) homens e mulheres roubariam na mesma proporção. Mas por que não importando o que eu quero ser da minha vida sou “estuprável” e meu corpo é visto como rentável?

  10. Lisa Wang said,

    Sabe o que eu acho engraçado?

    O Brasil tem duas caras: uma que é a relidade do povão, essa dos anúncios, e outra que é o Brasil “limpo”, progressista, “em desenvolvimento”.

    E tem aquela ilha isolada do resto dos problemas sociais, que é o centro do poder em Brasília.

    Vê se existem esses problemas lá. Vê se algum deputado tem que dar a bunda para ganhar míseros R$20,00. Não, essas gracinhas têm benefícios de R$3.000,00, salário pelo qual muitos lutam mais de 20 anos de sua vida para conseguir. E o salário em si? É no mínimo 50 vezes o salário da maioria…

    Um mundo não está vendo o outro. O de cima abandonou o de baixo e não quer reeducá-lo, direcioná-lo, coisa que é DEVER do Estado, dever deles!

    E como uma prostituta conseguirá ser ouvida por esses emsmos homens do poder? Nunca que ela será ouvida!

    Mas está na Constituição que é direito de todo cidadão reclamar seus direitos. Bem, direito é, mas se ele é respeitado, aí já é outro assunto…

    • Deborah Sá said,

      Concordo com você Lisa.


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