8 julho, 2009

Vigiai e estai sempre atentos

Posted in Corpo, Crenças, Gênero tagged , , , às 5:21 pm por Deborah Sá

É muito mais fácil influenciar pessoas cansadas, desprotegidas e com carência afetiva. Nisto, as mulheres tornam-se um público-alvo interessante. Toda a estrutura social fragiliza a confiança das mulheres em si mesmas, reafirmando a idéia de sacrifício que é comumente veiculada com o mito do amor romântico. Deus, projeta a idéia máxima do apogeu masculino “o homem foi feito a semelhança de Deus”, a submissão e a eterna vigilância.

Que mulher não se “policia”? Não é o que nos dizem as revistas femininas? Para atentar para cada alimento ingerido, o número de mastigações, o intervalo entre refeições, as calorias vazias? Cada quilo ganho é um fardo “um pecado”. Cada jejum e quilo perdido  uma vitória, elevação. Há dietas para “purificar o corpo” e é essa prova de resistência e “temor a Deus (beleza)” que nos faz envaidecer da “luta contra a carne”. E logo “pecamos” em um doce super calórico que nos faz sentir mal por este descontrole.

A energia utilizada nesta vigilância desgasta a mente e o corpo. Lembro que em minha dieta mais extrema, além de comer pouquíssimo tomava muitos copos d’água. Sentia muito frio, sono e cansaço. Uma candidata assim é perfeita para uma mídia que vende sonhos em cremes rejuvenescedores e de “funções terapêuticas”. Negando o desejo oral (alimento), a mulher permite esfregar no próprio corpo produtos que aludem aos alimentos “proibidos”. São hidratantes de chocolate, perfumes de morango com chantilly, sabonetes de pêssego. Esses produtos também “acalmam” com fragrâncias de camomila e maracujá. Em algumas religiões há autoflagelação em busca da plenitude no êxtase religioso. Muitas mulheres submetem-se a bisturis, próteses e outros métodos menos invasivos á estrutura corporal como salto alto e cintas modeladoras.

É rentável ao “mercado” que as mulheres permaneçam frustradas. Essa frustração no passado fez as vendas de máquinas de lavar e outros eletrodomésticos aumentarem. Hoje lucram a industria dietética, a de academias de ginástica, cosmética, revistas femininas, livros de auto-ajuda, esotérica e tantos outros nichos imagináveis. Esse culto a beleza não é mera associação. Assim como na religião ele inclui a noção pecado/resignação, vigilância constante, penitência, jejum e desprendimento da antiga identidade “Agora sou de Jesus, joguei meus discos de rock no lixo” / “Agora serei magra, joguei minhas fotos “gordas” no lixo”. Evitando sempre os lugares onde existam “tentações”. Sendo estes sorveterias ou discotecas.

O que os difere é o número de adeptos e o nível de alcance da “pregação”. Todos são “vigilantes” de nossa aparência. Citam nossa forma física em conversas informais, estampa em toda a mídia o modelo “a seguir” implantando a culpa em condutas esperadas em manchetes “A atriz perdeu 7 quilos com a dieta do agrião, caminha 3 quilômetros por dia, cuida dos 3 filhos e do marido também ator”. Qual foi a última vez que você comeu algo realmente delicioso sem se culpar?

5 Comentários

  1. Lola said,

    Deborah, vc, como mulher com muita experiência religiosa, bem que poderia desenvolver um texto comparando o culto à forma física como a nova religião das mulheres. Porque é tão parecido, né?

  2. Talita said,

    Respondendo à sua pergunta: a última vez que comi sem culpa foi há uns 3 anos, quando eu era magérrima. Ainda sou magra, mas não tanto quanto antes, e isso me faz estranhar muito meu corpo, não me acostumei ainda às minhas novas proporções.
    Quando eu era magrelinha, nem fazia questão de sobremesa, fast food, refrigerante. Depois que engordei um pouco fiquei louca por esse tipo de comida! Acho que quanto mais a gente tenta se afastar de alguma coisa, mais a gente pensa nela.
    Daí vira um ciclo: a gente quer emagrecer, não consegue, fica triste e desconta a tristeza num sorvete, aí engorda mais ainda e fica triste e desconta a tristeza num hamburguer… ad infinitum.
    P.S.: Ah! Sua série sobre religião ta ficando ótima!
    Mas já estou trabalhando esse complexozinho. Aceitei que ainda sou bonita sim e já vejo com outros olhos minhas amigas gordinhas. Somos todas lindas, cada qual a seu modo.

  3. Raiza said,

    Nossa Déborah que texto genial!Eu nunca tinha parado pra pensar nessas associações que você fez,principalmente nesses cremes hidratantes com sabores.Realmente de bater palmas.
    Respondendo a sua pergunta:Eu como sem culpa na maioria das vezes.meus pais de vez em quando censuram,mas não é por isso que vou deixar de comer.

  4. Deh said,

    Respondendo à questão no ótimo post, xará: hoje. COmo faço todo santo dia. Como mesmo.
    Outro dia saiu um papo à mesa, entre minha cunhada, minha sogra. Uma falando pra outra algo que tinha no meio “sua gorda”. A outra disse “mas eu não estou gorda!” e a tréplica foi “mas eu não disse que você estava gorda”.
    Eu acompanhava e, pra variar, me meti: “Mas então. Olha, se alguém me chamar de gorda eu só vou responder ‘mas eu estou gorda. Se alguém me disser isso não vou me ofender. Porque eu como com gosto e assumo o que ganho de peso com isso”.
    Mas confesso que faço todo um trabalho mental contra esse condicionamento de come-olha no espelho-confere pneus-pensa na comida”. Porque é isso que acontece: condicionamento puro.
    Beijo!

  5. alice said,

    sei q vc deu uma pausa no blog, mas vou comentar assim mesmo pq queria acrescentar uma coisa a respeito da vigilância, pra quem eventualmente bater os olhos nos comentários.

    uma das coisas que eu mais odeio é qd pessoas magras, ao justificar pq estão comendo ou gostam de comer algo calórico, dizem: “se eu ficar comendo isso vou acabar virando uma (porca/baleia/bola/bolha/balofa/monstra/etc)”. machuca!

    elas dizem isso pra mostrarem ao mundo q sabem q precisam continuar magras, como se fosse um “gente, me perdoa por admitir q eu gosto disso, prometo n comer mais”.

    mas é super cruel pra quem já é gordo ouvir q aquela pessoa magra, qd pensa nela mesma com alguns kg a mais, se definir com palavras tão ofensivas. pq é isso q ela pensa de nós, gordos, no fim das contas.


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