26 junho, 2009

A minha história de horror

Posted in Desabafos tagged às 9:27 am por Deborah Sá

Já dizia a sábia Lola que toda mulher tem uma história de horror pra contar. E comigo não foi diferente.

A primeira vez que publiquei a minha história -na internet- foi em uma comunidade feminista dia 11/03/2009

“Talvez me arrependa de contar de maneira tão pública, mas sinto que enquanto todas as mulheres não sairem do armário e mostrarem o quanto o círculo de violência está perto, as notícias de abuso serão tão distantes que o alerta de quem sentiu parecerá uma banal paranóia.

Eu tinha 10 anos quando o padrasto (meu “vô”) assistia futebol com meu pai e um tio. Ele me chamou para deitar com ele, levantando o cobertor, meu pai pediu que eu fosse, eu fui porque não tinha malícia “e sempre fui retardada para essas coisas”. Ao acordar ele passava a mão em mim, em pânico não abri os olhos e meu corpo duro de medo sem reação, dormi novamente. A situação se repetiu em outros dias, ele nunca fez ameaças verbais, mas o que eu faria? Diria: Ah não, não quero deitar! E se alguém desconfiasse?

Eu ia, até porque alguém dizia “Vá lá, deitar com o vô”. Ele chamava, os outros pediam e tudo se repetia. Os minutos eram eternos e ninguém via quando acontecia, não sei se ele esperava alguém sair da sala pra fazer, até porque eu nunca abria os olhos até ele terminar. Mexer o corpo era pior, ele mudava “o foco”. Nunca houve pênis, só mão.

Eu temia que meu pai o matasse, eu temia que ele fizesse algo com minha irmã, eu temia que a minha família acabasse. Mas contei pra minha mãe. Ela falou que nem eu nem minha irmã deveríamos voltar pra lá. Ele e minha vó moravam no quintal de casa. Depois de pouco tempo (uma semana acho), ele morreu.

Eu me culpei pois usava shorts na época, tinha as pernas grossas e tal. Mas vejo que isso era besteira. Tudo foi feito em silêncio o que a minha imaginação fez concreto em um grande temor. A religião me fez ter nojo do meu corpo “pecaminoso” e o círculo escolar social fez eu me envergonhar dele. Era gorda, triste, com o sexo vergonhoso e o destino traçado por penitências de pecados imaginários.

Ao escrever em um caderno me analisei e fui me libertando. Com a ajuda do Yuri (namorado), consegui tornar isso mais público. Só contei pro meu pai ano passado (tenho 22 anos agora). Às vezes ainda sinto medo do nada, ás vezes me sinto impotente e perseguida, ás vezes sinto que meu corpo é morto, que minha apatia é reflexo da minha inutilidade no mundo. Ás vezes me sinto um lixo e a culpa não é só do meu vô. É do modo que cresci, do modo que esmagaram a minha auto-estima e do modo que o terror psicológico me segue, como se eu nunca fosse só, como se a todo minuto alguém fosse me “pegar”. Sentir medo de algo que só você “vê”, parece patético, mas é frustrante.”

Update: Do modo que escrevi parece que “tudo” durou uma semana. Demorou mais de um mês pra que eu contasse pra minha mãe, “isso” acontecia umas duas vezes por semana. Ele morreu uma semana depois que eu contei.

11 Comentários

  1. Lola said,

    Puxa, Deborah, que história triste! Horrível, horrível. Mas que bom que vc teve a coragem de contar pra sua mãe. A maior parte das crianças esconde isso de todo mundo. É como vc descreveu: elas culpam a si mesmas. E imagino que deve ter sido a maior barra pra vc ele ter morrido uma semana depois. O seu sentimento de culpa deve ter sido imenso. Mas, olha, não é por nada não: que bom que o fdp morreu. Porque o seu inferno durou apenas uma semana. Pode apostar que, se ele continuassse vivo, aquilo iria durar muito tempo, e ele não iria ficar “só” na passada de mão, não. Eles ficam cada vez mais ousados. Muito triste que tantas crianças tenham que passar por isso. Pô, CRIANÇAS, que é quem a sociedade deveria proteger. E dentro da família… Geralmente é dentro da família!
    Queria saber o que seu pai disse quando vc contou pra ele. Como ele reagiu? Ah, sinto muito, hoje em dia, com tudo que a gente sabe sobre pedofilia, criança não tem nada que “ir dormir” com parentes. Pode ser paranoia, mas é justificada.
    E sobre o “sábia Lola”… Faz parecer que eu tenho 105 anos! Abração, De!

  2. Deborah Sá said,

    Lola, coloquei um update no post:

    Update: Do modo que escrevi parece que “tudo” durou uma semana, demorou mais de um mês pra que eu contasse pra minha mãe, “isso” acontecia umas duas vezes por semana. Ele morreu uma semana depois que eu contei.

    Ou seja, meu “inferno” durou bem mais que uma semana, mas justo quando contei, ele morreu em seguida.

    Meu pai ficou pasmo quando contei. Disse que se ele ainda estivesse vivo ele mesmo denunciaria e tal. Mas sei lá, pareceu muito tranquilo. Achei um pouco estranho, ele deve ter chorado um monte escondido depois.

    Eu fiz terapia por um tempo o que me ajudou bastante a superar. Tive uma crise de pânico e outras sensações horríveis =/
    Mas graças a minha força de vontade e ajuda de quem me ama, tô firme e forte :D

  3. Anônimo said,

    Realmente terrível a história.
    Acho ótimo que as pessoas tenham coragem de contar. Primeiro porque mostra que o problema existe sim, depois porque pode ajudar a própria pessoa.
    Não tenho idéia do que é passar por esse tipo de coisa, mas passei por outros tipos de eventos traumáticos. Escrever em um caderno e contar para algumas pessoas me ajudou demais a superar.

    Triste isso acontecer, ainda mais dentro da família… Pudessem todos ter coragem de contar.

  4. Lola said,

    Ah tá, De, agora ficou claro. Não sei se tava dúbio antes ou se eu é que me confundi à toa. Mas quanto tempo durou o abuso?
    Sobre a reação “tranquila” do seu pai, sim, posso apostar que ele chorou um monte escondido depois. É sempre traumático pra gente ver nosso pai chorar, e eles sabem disso, por isso evitam. Eu vi meu pai chorar em exatamente duas ocasiões (por isso me lembro): uma foi quando a mãe dele (minha vó, com quem eu não tinha muito contato, porque ela morava na Argentina) morreu, e outra foi quando nosso cachorrinho bateu as patinhas.
    Mas olha, De, parabéns mesmo pela coragem em contar sua história. E por ter se reconstruído.

  5. Deborah Sá said,

    Se não me engano, no máximo dois meses.
    Não era todo dia sabe? Acontecia uma vez, aí passavam uns dias e acontecia novamente e assim foi.

    Eu temi que ele fizesse algo com minha irmã (que na época tinha 4 anos), ela jura que não se lembra de nada. Na época perguntei pra ela “o vó passa a mão em você assim? E assim?” Ela disse que não, então falei com minha mãe com medo que ele mudasse “o foco”.

  6. […] o uso de “porrada” pra levar alguma fêmea para o “abate”, quando você conhece tantas mulheres que foram estupradas, espancadas e/ou mortas para o mesmo objetivo. Este cômodo está cheio de pessoas que acham que […]

  7. […] A minha história de horror […]

  8. Kathleen said,

    eu fui molestada quando era menininha tb, a história é looooonga, ele nunca me estuprou de verdade, mas ficava tocando onde não devia, falando e fazendo coisas inapropriadas para uma criança, me ameaçava, eu não entendia o que ele fazia comigo…. minha mãe pegava muito no meu pé pra eu sentar com os joelhos fechadinhos, pra sentar de perninha fechada pq ninguém podia ver a calcinha (meu uniforme de colégio era aqueles de saia rodada), eu só percebi que aquilo era meio estranho pq ele queria tirar minha roupa a todo custo, eu estudava em colégio católico daqueles fervorosos, super tradicionais. imagina o que eu senti depois que tava mais crescida e entendi o que houve….
    ah, quando tudo começou, eu tinha feito 7 anos há pouco tempo.
    beijos

    • Deborah Sá said,

      Kathleen,

      Sinto muito pelo o que ocorreu. Sei como é difícil e essa violência acontece com meninos e meninas todos os dias, quebrar o silêncio é importante para nos trazer alívio, faz com que as pessoas ao nosso redor percebam que essa ocorrência está mais próxima do que pensam, também ajuda quem passou por essa violência se identificar e perceber que não é sua culpa.
      É muito comum esse sentimento de buscar falha no próprio comportamento, exonerando quem abusa da responsabilidade sobre seus atos. É preciso conversar com a criança sobre sexualidade, criar um ambiente de diálogo franco para que se sinta confortável em compartilhar o que a desagrada, em geral subestimam a percepção da criança, não lhe dão voz, tratam seus sentimentos e angústias como bobagem, o que tolhe a criatividade e constrói uma auto estima melindrosa.
      É necessário repensar o modo que encaramos os gêneros, o sexo, a confiança, o diálogo, sempre levando em consideração a palavra e autonomia dos sujeitos, mesmo que esse sujeito mal saiu das fraldas.

      Um abraço

  9. Kathleen said,

    do jeito que eu escrevi ficou sem sentido né? lendo de novo percebi isso…. rs
    eu só percebi que aquilo não era normal, justamente pela minha mãe encher o saco pra eu sentar bonitinha…. se ninguém podia ver nem a calcinha, imagina ver sem roupa nenhuma.
    Na verdade o monstro não era ninguém do colégio (citei o uniforme pq era disso que minha mãe falava tanto)… é um primo do meu pai, ou seja meio parente meu tb.
    É isso mesmo, tudo que criança fala é besteira, ninguém dá chance de falar…. esse horror todo durou 2 anos, desde que eu tinha 7, até 9 anos quando ele mudou de cidade.
    hoje to com 21 anos, tem coisa que não sai da cabeça… até hoje eu penso se eu fiz alguma coisa que chamou a atenção dele, que se ele fez isso foi pq eu deixei…. coisas assim.
    beijos

    • Deborah Sá said,

      Fica tranquila, acho que seu comentário fez sentido. A triste estatística é exatamente essa, de que os abusos são cometidos por pessoas próximas. Não se culpe, você não fez nada que “tenha provocado”, nada justifica um estupro ou um contato físico com intenção sexual sem consentimento.

      Um abraço,


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