23 junho, 2009

Vida de Madame

Posted in Consumo, Publicidade tagged , às 4:28 pm por Deborah Sá

(1) O comercial fala do poder de dirigir o carro, mas quem dirige? O homem. Quando ela deseja poder é algo como uma “madame”, o dinheiro não vem dela, o poder de guiar também não. Acho que todos já passaram pela fase de ter de pedir dinheiro para os pais:

– Pai, me dá R$ 10,00?
– [Discurso de como a vida está difícil]…Mas pra que você quer?

Sempre achei um saco ter que pedir dinheiro pra comprar coisas básicas (absorvente por exemplo), ou maiores (como iniciar um curso). Imagina ter que pedir dinheiro pro marido pra comprar desinfetante?

(2) No desejo da mulher “estar por cima” em cadeia hierárquica “mandaria no chofer”. Algo como: “Um dia você limpará minha privada MUAHAHAHHAHA”.
Sério, nunca me senti melhor que uma empregada doméstica. Ao reconhecer os “privilégios” que temos diante dos outros, imediatamente nos damos conta o quanto a desigualdade social é discrepante.

(3) Juro que pensei que a mulher estaria no volante ao decorrer do vídeo.

(4) Ser madame

Pense na figura de “madame”.
Ela deve ser bonita e jovem certo? E se imaginar uma mulher cheia de botox na cara, certamente ela teve um passado “glorioso” de miss ou algo do tipo.
Qual é o poder da madame? É a beleza.

Essa “moeda de troca” entre homem-poderoso/mulher-troféu me assusta. Nós mulheres, não temos referencial de mulheres bem sucedidas, mais velhas e poderosas. Os homens por exemplo estão cheio de exemplos assim, eles podem ser calvos, barrigudos, terem olheiras, cabelos brancos…mas basta um terno e voilà! Temos uma imagem de “poder”. A maioria dos políticos e empresários de sucesso tem características físicas que em mulheres são consideradas dignas de asco.

A mulher só pode alcançar seu ápice, se investir energia física, mental e monetária para alimentar sua imagem construída de bela. Gastam-se muitos cifrões com cremes rejuvenescedores, roupas da moda, cirurgias invasivas e tantos outros procedimentos. Conforme o tempo passa, essa busca frenética pela manutenção da juventude só progride. Ninguém parece conseguir a proeza de segurar a língua nos dentes ao ver uma mulher com poucos frios brancos na cabeça.

Acredita-se que ao chamar uma mulher de Sra. é lembrá-la que sua chama de vida (e utilidade) se esvai em cada ruga. E chamar um homem de Sr. é sinal de respeito e autoridade, como se cada ruga da em sua mão de veias saltadas fosse batida contra a mesa bradando:
– Tô vivo porra! E tragam as gatinhas que meu pinto ainda sobe!

PS: Vi este comercial na TV, mas foi ao ler o post da Lola que me inspirei.

8 Comentários

  1. marjorierodrigues said,

    Ai, obrigada, obrigada, obrigada. Quando eu vi esse comercial, fiquei feliz por ele desviar do clichê da maria Gasolina. Mas eu continuava me sentindo mal. Tinha algo nesse comercial que me incomodava muito e eu não conseguia verbalizar o pq. Aí teu post vem e panz. Obrigada mesmo.

  2. Ciclista T said,

    Imaginar que a mulher optou por uma “vida de madame” e que o dinheiro para pagar o chofer não é dela é uma das interpretações possíveis. A interpretação que mais desvaloriza a mulher, eu ouso dizer.

    Já que o comercial começa numa reunião de negócios, entendi que a mulher batalhou e progrediu profissionalmente; se não está na direção do carro, é porque prefere assim. De qualquer maneira, está no controle completo da sua vida. Prefiro esta minha interpretaçao positiva que valoriza a mulher. Um abraço.

  3. Você pode até ser a Déborah que discorda da maioria, mas concordo em gênero, número e grau com este post! hahaha

  4. Raiza said,

    Sabe a impressão que esse comercial me deu?
    Que a mulher só trabalhou pra conseguir conquistar o cara,que comprou o carro pra ela e agora está dirigindo.
    A idéia que me passou é que a mulher só conseguiu sucesso mesmo quando conseguiu parar de trabalhar e arranjou quem a bancasse.

  5. Andréia Freire said,

    Eu entendi que ela continuou trabalhando, e com um salário maior ela comprou o carro e ainda contratou um motorista. o_O Já que a propaganda começa numa reunião e tal.

  6. Wanessa said,

    Débora, vejo, pela primeira vez, sua opinião como mirabolante, pois no comercial, tanto a figura masc. como a femin. são muito bonitxs (dentro do padrão..), e nada ficou explícito que ela que está pagando o chofer e não dirige porque não quer, né… e ainda está lendo um jornal, e não uma “tititi” ou se maquiando, por exemplo…
    Eu gostei do comercial…
    E uma coisa que achei mto positiva nele foi o desvio marcante daquela idéia de que toda mulher visa ter um relacionamento romântico.
    Ora, o moço está visivelmente interessado nela, mas os planos Dela não incluem um companheiro amoroso ao seu lado, o que é uma idéia bem pouco considerada sobre as aspirações femininas! =)

  7. wanessa said,

    corrigindo:
    *[…]e FICOU explícito que ela que está pagando o chofer[…]
    Sorry.

  8. _Vegan said,

    concordo que seria melhor se ELA estivesse dirigindo o carro…
    [aliás, acharia melhor se o comercial fosse sobre bicicletas, já que bikes não poluem hehehe]

    a impressão que ficou para mim do comercial é que, partindo do pressuposto que em nossa cultura dirigir um carro [ainda mais um carro de luxo] é sinônimo de poder, o fato de ela não estar dirigindo seu próprio carro passa a idéia que, mesmo ela sendo endinheirada, ela não pode “desfrutar” deste poder social porque não é algo “feminino”; ou, ainda, que mesmo que ela seja poderosa economicamente, algum outro homem que tenha menos dinheiro terá mais direito de dirigir o carro dela do que ela mesma.
    como se o homem pudesse “roubar” o direito dela de ter o domínio em seu próprio carro.


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