26 junho, 2009

Who’s Bad?

Posted in Só falam nisso tagged , , às 10:35 am por Deborah Sá

Ontem foi um dia absurdamente comum. Acordei, tomei banho peguei minha marmita e fui para o Terminal. O tempo estava chuvoso e pra variar meu ônibus atrasou, o que fez com que eu me atrasasse no serviço. Bastam uns pingos d’água e a cidade pára.

Fiz relatórios, cobrei uns fornecedores, almocei, voltei para os relatórios até que notei o horário: 17:10. Já estava mais do que na hora do meu café. Comi umas bolachas maisena e tomei meu chazinho diário. Preparei-me pra sair e fui.

Ao atravessar olhei para os lados e andava calmamente quando SURGE um Fiat Idea, veio em baixa velocidade e parou perto de mim, só virei pro lado e coloquei as duas mãos pra frente em sinal de “Pare”. Quem eu pensava que era? O Superman? O carro parou e eu disse:

– Desculpa

Motorista: -Não, eu que me desculpo eu que estava errado.

Olhei frenética para os lados para continuar andando (fiquei com medo de vir uma moto e morrer de vez).Saí andando com as pernas moles, meio fora de mim, em uma experiência estranha de realidade profunda, como se eu estivesse naquele momento imersa na realidade e vivesse desde então, caminhando “desligada” do mundo. Sim, eu sou uma pessoa aérea e bem desligada. Mas fui inocente nesse episódio, olhei para os lados antes de atravessar, andei em um passo normal, mas o motorista entrou na rua sem dar seta e com farol muito baixo (nem lembro se estava mesmo ligado).Só sei que quase encostei as mãos no capô quando estiquei os braços.

Eu podia ter morrido no mesmo dia do Michael Jackson.

Passou todo aquele filminho “Amélie” na cabeça: Meu funeral, os amigos virtuais se lamentando, os cachorros que eu não ia mais ver, nunca mais ia ter a experiência transcendental de gozar, ainda nem paguei a primeira parcela do meu celular… Ou ainda, perder uma mão (eu não pensei em virar cadeirante, imaginei perdendo a mão) e ter um coto. E como as pessoas ficariam com nojo de olharem pra mim e se esforçariam em uma mesa de domingo, em comer e desviar o olhar. Em eu ter de readaptar a minha vida toda, cozinhar, digitar, escrever…

Na rua comprei morangos e fiz um suco ao chegar em casa. Enquanto lavo a louça a minha mãe diz:

-Michael Jackson morreu

– O que? O_O

Seco a mão e corro para a TV.

TV: Ainda não temos certeza da morte, ele foi levado ao hospital…espere temos notícia da CNN não é? Jornalista correspondente de NY?

Correspondente: Sim, temos a notícia confirmada agora. Michael Jackson morreu.

Levei um choque. Há lendas que não imaginamos mortas e o Michael Jackson é uma delas.

Minha tia emprestou ao meu pai um VHS com uma coletânea de videoclipes do Michael Jackson. Na época minha irmã tinha uns 4 anos, ficou vidrada *____*

Assistia sem parar, teve até uma época em que dizia: “Eu sou o Máicôn Jékízon”  Ela também teve a fase “Eu sou o Dinho Mamonas”

<irmã boba coruja mode on>

Então falar dele me faz lembrar da época que ela tinha cabelinhos cacheados e era um capeta, roubando meu corretivo e riscando a casa toda, assistindo Cine Trash com meu pai…e o inesquecível dia que eu juntei minha mesada pra comprar um Pega-Peixe e um cubinho transparente de chicletes que rolavam pelas divisões da caixa. Ela adorou e foi um dos dias mais simples e bonitos da minha vida. Sim, eu sou completamente apaixonada pela minha irmanzéénha *__*

</irmã boba coruja mode off>

Cof, cof, então né? O Michael Jackson (foco Deborah, tenha foco…) nunca foi meu ídolo, mas ele era inegavelmente bom nas danças (tudo bem que eu prefiro o Prabhu Deva) e nas músicas. Da vida pessoal dele tenho pena, pelo que sei o pai dele era autoritário e ganhava dinheiro à custa dos filhos, teve uns escândalos de pedofilia mas não dá pra saber se era verdade. E pra ajudar era perseguido pela mídia como uma aberração. Eu tenho medo dessa perseguição da mídia quando vejo casos como o do Michael e da Britney.

Como “A Necrofilia da Arte”* fará sua parte, será um porre todo mundo dizendo o quando ele era bom. Que descanse em paz, e continue seguindo a luz do fim do túnel fazendo o Moonwalk.

*Música do Pato Fu

A minha história de horror

Posted in Desabafos tagged às 9:27 am por Deborah Sá

Já dizia a sábia Lola que toda mulher tem uma história de horror pra contar. E comigo não foi diferente.

A primeira vez que publiquei a minha história -na internet- foi em uma comunidade feminista dia 11/03/2009

“Talvez me arrependa de contar de maneira tão pública, mas sinto que enquanto todas as mulheres não sairem do armário e mostrarem o quanto o círculo de violência está perto, as notícias de abuso serão tão distantes que o alerta de quem sentiu parecerá uma banal paranóia.

Eu tinha 10 anos quando o padrasto (meu “vô”) assistia futebol com meu pai e um tio. Ele me chamou para deitar com ele, levantando o cobertor, meu pai pediu que eu fosse, eu fui porque não tinha malícia “e sempre fui retardada para essas coisas”. Ao acordar ele passava a mão em mim, em pânico não abri os olhos e meu corpo duro de medo sem reação, dormi novamente. A situação se repetiu em outros dias, ele nunca fez ameaças verbais, mas o que eu faria? Diria: Ah não, não quero deitar! E se alguém desconfiasse?

Eu ia, até porque alguém dizia “Vá lá, deitar com o vô”. Ele chamava, os outros pediam e tudo se repetia. Os minutos eram eternos e ninguém via quando acontecia, não sei se ele esperava alguém sair da sala pra fazer, até porque eu nunca abria os olhos até ele terminar. Mexer o corpo era pior, ele mudava “o foco”. Nunca houve pênis, só mão.

Eu temia que meu pai o matasse, eu temia que ele fizesse algo com minha irmã, eu temia que a minha família acabasse. Mas contei pra minha mãe. Ela falou que nem eu nem minha irmã deveríamos voltar pra lá. Ele e minha vó moravam no quintal de casa. Depois de pouco tempo (uma semana acho), ele morreu.

Eu me culpei pois usava shorts na época, tinha as pernas grossas e tal. Mas vejo que isso era besteira. Tudo foi feito em silêncio o que a minha imaginação fez concreto em um grande temor. A religião me fez ter nojo do meu corpo “pecaminoso” e o círculo escolar social fez eu me envergonhar dele. Era gorda, triste, com o sexo vergonhoso e o destino traçado por penitências de pecados imaginários.

Ao escrever em um caderno me analisei e fui me libertando. Com a ajuda do Yuri (namorado), consegui tornar isso mais público. Só contei pro meu pai ano passado (tenho 22 anos agora). Às vezes ainda sinto medo do nada, ás vezes me sinto impotente e perseguida, ás vezes sinto que meu corpo é morto, que minha apatia é reflexo da minha inutilidade no mundo. Ás vezes me sinto um lixo e a culpa não é só do meu vô. É do modo que cresci, do modo que esmagaram a minha auto-estima e do modo que o terror psicológico me segue, como se eu nunca fosse só, como se a todo minuto alguém fosse me “pegar”. Sentir medo de algo que só você “vê”, parece patético, mas é frustrante.”

Update: Do modo que escrevi parece que “tudo” durou uma semana. Demorou mais de um mês pra que eu contasse pra minha mãe, “isso” acontecia umas duas vezes por semana. Ele morreu uma semana depois que eu contei.

23 junho, 2009

Vida de Madame

Posted in Consumo, Publicidade tagged , às 4:28 pm por Deborah Sá

(1) O comercial fala do poder de dirigir o carro, mas quem dirige? O homem. Quando ela deseja poder é algo como uma “madame”, o dinheiro não vem dela, o poder de guiar também não. Acho que todos já passaram pela fase de ter de pedir dinheiro para os pais:

– Pai, me dá R$ 10,00?
– [Discurso de como a vida está difícil]…Mas pra que você quer?

Sempre achei um saco ter que pedir dinheiro pra comprar coisas básicas (absorvente por exemplo), ou maiores (como iniciar um curso). Imagina ter que pedir dinheiro pro marido pra comprar desinfetante?

(2) No desejo da mulher “estar por cima” em cadeia hierárquica “mandaria no chofer”. Algo como: “Um dia você limpará minha privada MUAHAHAHHAHA”.
Sério, nunca me senti melhor que uma empregada doméstica. Ao reconhecer os “privilégios” que temos diante dos outros, imediatamente nos damos conta o quanto a desigualdade social é discrepante.

(3) Juro que pensei que a mulher estaria no volante ao decorrer do vídeo.

(4) Ser madame

Pense na figura de “madame”.
Ela deve ser bonita e jovem certo? E se imaginar uma mulher cheia de botox na cara, certamente ela teve um passado “glorioso” de miss ou algo do tipo.
Qual é o poder da madame? É a beleza.

Essa “moeda de troca” entre homem-poderoso/mulher-troféu me assusta. Nós mulheres, não temos referencial de mulheres bem sucedidas, mais velhas e poderosas. Os homens por exemplo estão cheio de exemplos assim, eles podem ser calvos, barrigudos, terem olheiras, cabelos brancos…mas basta um terno e voilà! Temos uma imagem de “poder”. A maioria dos políticos e empresários de sucesso tem características físicas que em mulheres são consideradas dignas de asco.

A mulher só pode alcançar seu ápice, se investir energia física, mental e monetária para alimentar sua imagem construída de bela. Gastam-se muitos cifrões com cremes rejuvenescedores, roupas da moda, cirurgias invasivas e tantos outros procedimentos. Conforme o tempo passa, essa busca frenética pela manutenção da juventude só progride. Ninguém parece conseguir a proeza de segurar a língua nos dentes ao ver uma mulher com poucos frios brancos na cabeça.

Acredita-se que ao chamar uma mulher de Sra. é lembrá-la que sua chama de vida (e utilidade) se esvai em cada ruga. E chamar um homem de Sr. é sinal de respeito e autoridade, como se cada ruga da em sua mão de veias saltadas fosse batida contra a mesa bradando:
– Tô vivo porra! E tragam as gatinhas que meu pinto ainda sobe!

PS: Vi este comercial na TV, mas foi ao ler o post da Lola que me inspirei.

17 junho, 2009

Homem usa site para contratar estuprador de sua mulher

Posted in Gênero tagged , às 9:40 am por Deborah Sá

Os dois foram detidos nos EUA pelo crime cometido em 31 de maio. Mulher entregou faca para o marido, que não fez nada em sua defesa.

A polícia de Kannapolis (Carolina do Norte, EUA) deteve dois homens que responderão na Justiça pela acusação de estupro. Segundo divulgado pelas autoridades no sábado (13), os homens combinaram os detalhes da ação — o estupro da mulher de um deles — depois de se encontrarem no Craiglist, um site popular de classificados. Com ajuda do serviço on-line, policiais localizaram na sexta-feira (12) Rodney Liverman, de 39 anos. Ele foi acusado de estupro e outras três acusações sexuais. Sua primeira audiência está marcada para esta segunda (15), e as autoridades determinaram fiança de US$ 250 mil. O ataque foi realizado no dia 31 de maio, na casa da vítima, em Kannapolis. Segundo a polícia, Liverman entrou no quarto do casal com uma faca, pediu dinheiro e exigiu que a mulher tirasse a roupa, antes de estuprá-la. O marido, que também estava no quarto, assistiu ao ataque. A mulher conseguiu pegar a faca, que o estuprador havia deixado sobre a cama, e entregá-la ao marido. Ele, no entanto, não fez nada para impedir a agressão. Quando o estuprador deixou a casa, o marido falou para a vítima tomar banho e não ligar para a polícia. O marido, também detido, foi acusado de participação no estupro e sua fiança está em US$ 200 mil. O nome do casal não foi divulgado.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1194903-5602,00-HOMEM+USA+SITE+DE+CLASSIFICADOS+PARA+CONTRATAR+ESTUPRADOR+DE+SUA+MULHER.html

[Comentário: E ainda tem quem acredite que o patriarcado não existe…]

15 junho, 2009

Humilhação Escolar

Posted in Corpo, Desabafos, Egotrip, Memórias tagged , , às 4:08 pm por Deborah Sá

Nunca fui de muitos amigos, tive alguns colegas de classe é verdade. Mas esse sentimento profundo de amizade é mais freqüente agora do que no meu passado.
É tão estranho que nas fotos dos álbuns do Orkut de quem estudei estamparem tantos sorrisos. Parece mesmo que vivi em um mundo separado deles. Quando encontro alguém “daqueles tempos”, costumam dizer: “Ah…bons tempos do colégio…”

Minha vontade é dizer: “Bons tempos pra quem cara pálida?”
Não culpo aqueles que pareciam se importar, a meia dúzia de gatos pingados que sentava pra conversar comigo. Eu não sabia como me abrir, era algo fora de questão, além do meu alcance.
Culpo principalmente a direção da escola. E esta escola é o Carlos Ayres.

Carlos Ayres – Final dos anos 90

Foi a escola onde as provocações tronaram-se maiores, gerando muita tensão. Sim, é verdade que as provocações, humilhações e apelidos vieram de outros lugares também: A minha rua, minha casa, a igreja…
Mas o Carlos Ayres é uma instituição e deveria zelar pelo bem-estar dos alunos. E falhou miseravelmente no meu caso. E isto tem de ser publicado:

Entrei nesta escola na 5ª série e saí na 8ª.
Praticamente todo ano tinha “um garoto perseguidor”, ele me seguia e também outras meninas até o ponto de ônibus fazendo provocações. Ocorria durante todo o ano letivo.

Na oitava série eu tive um dos piores anos da minha vida. Aos 15 anos.
Não era estimulada ao estudo, sempre sentia que aprendia mais fora da escola com minhas leituras do que dentro dela.
Em um dia comum, estávamos eu e a Ana Cláudia copiando o final da matéria da lousa e o sinal do intervalo foi acionado. Todos saíram da sala, com exceção de nós duas, em pouco tempo a porta da sala bate. Ouvimos risadas.

O Dênis e o Danilo nos trancaram na sala. Eles do lado de fora enquanto faziam provocações e riam da nossa cara. Ao lado da sala havia mato e a Merendeira tinha posto fogo ali há pouco tempo. Logo a sala estava cheia de fumaça, a Ana Cláudia bateu na porta e pedia pra sair, eu só abaixei a cabeça na carteira e senti vergonha.
Assim que o sinal foi acionado indicando o fim do intervalo, uma mulher da secretaria abriu a porta:
– O que vocês duas estão fazendo aqui? Vão ter que se explicar!
-Silêncio-
Ana Cláudia: – Foi o Dênis e o Danilo! Roubaram a chave da professora e trancaram a gente aqui!
Eu: -Balancei a cabeça concordando-

Os alunos entraram. As aulas continuaram e em poucos minutos o Dênis e o Danilo voltaram rodando os cadernos no indicador com pose de malandro e rindo. Nada aconteceu com eles.

Tempos depois estava estudando e senti algo no meu cabelo: -na época era comprido- chiclete babado. Corri chorando no banheiro, arranquei com raiva o tufo do meu cabelo. O ódio era maior que a dor do pedaço arrancado. Voltei correndo, deitei os braços na mesa e escondi meu rosto envergonhado. Em pouco tempo o Alex veio me perguntar quem tinha feito isso. Eu não sabia, ele impositivo fez questão de saber quem foi e “espremeu” o pessoal da sala.
O culpado era o Amaral. Um garoto que parecia o jogador de futebol e por isso tinha esse apelido. O Alex o levou até a minha mesa e fez ele se desculpar.
– Pede desculpas pra ela!
– …
– Pede desculpas pra ela!
– De…desculpa
– Meu, por que você fez isso comigo? Eu não mexo com a vida de ninguém! Fico quieta o tempo todo!
– Me mandaram…
– Ah! Mandaram? E você não tem personalidade não? Só faz o que te mandam?
A sala fez “Vixeeeeeeeeeeeeeeee” e aquela barulheira coletiva.

Outra vez saí no pátio e um monte de gente que nunca vi, me perseguiu com garrafinhas com “água” e me molharam. Ao chegar na secretaria e contar, a mulher riu da minha cara.

Outra vez uma “colega” desenhou isso na lousa:

Todos riram

Todos riram

Agradeço aos alunos que tentaram fazer o que a direção do Carlos Ayres mostrou-se negligente:

* Marcelo: Um rapaz alto, mais velho que segurava o Davi na saída, pra que eu ganhasse tempo e ir pro ponto de ônibus em paz.
* Alex: Um rapaz mais baixo que eu e com muito mais coragem.

[Depois da oitava série parei de estudar. Terminei anos depois o ensino médio com supletivo, em outra escola]

8 junho, 2009

Alex DeLarge, Tony Maneiro e Capitão Nascimento

Posted in Filmes tagged , , , às 11:52 am por Deborah Sá

Quando vi o filme há uns anos atrás gostei do debate sobre a violência e como “castrar” o indivíduo pode ser (talvez) a única saída para estes jovens ultra-violentos. Violência contra violência.

Hoje basta andar pela rua e ver como as pessoas adoram o Alex DeLarge. Vestem-se em sua memória e brincam de tomar Moloko como algo mega descolado. Ele é violento, misógino e adoram.

O Tony maneiro que já falei mais profundamente aqui, também virou ícone, suas roupas e sua dança são “símbolos de uma geração”. Era referência de homem bonito pra época. Ele é violento, misógino e adoram.

O Capitão Nascimento, vi no cinema. Gostei de criticarem a passeata para crianças/jovens classe média com camisetas escritas “Paz”. Escrevi sobre a Menina Isabela aqui

Mas e o endeusamento do Capitão Nascimento? Ele apóia a tortura e é estúpido com sua esposa. Muitos adoram a cena que ele briga com a mulher “frescurenta” porque ele, tadinho, tá na flor da pele!
Fala firme e grosso o “cidadão-de-bem”, defende os valores das famílias “de bem”. Porque pra ele, favelado pode ser queimado e ter cabo de vassoura enfiado no cu, mulher pode ser torturada e asfixiada se for esposa de traficante. Ele é violento, misógino e adoram.

Três gerações, três protagonistas machos e os mesmos preconceitos.

Os Embalos de Sábado a Noite

Posted in Filmes tagged , , , às 11:47 am por Deborah Sá

Ninguém havia me preparado psicologicamente pra assistir este clássico. O que tem de errado em um filme sobre discoteca?
Se você, jovem leitor nem era nascido na época (como eu) não espere apenas ver o John Travolta dançando loucamente.

Tony Manero (John Travolta) é um rapaz muito comum, trabalha em um emprego medíocre ganhando um salário de merda em uma loja de tintas.
Seu irmão é padre, ele a ovelha negra. A mãe é aquela frustrada e consumida pela família que chora desesperadamente para manter as aparências. O pai é a figura autoritária e machista. Uma cena que marca bem a relação entre a família:

Tony feliz por seu aumento salarial tomado de boa-vontade começa a tirar os pratos da mesa.

Pai: Porque está fazendo isso?
Tony: Estou feliz, querendo ajudar
Pai: Deixa que elas fazem – enquanto beija a testa da irmã mais nova de Tony que tira os pratos da mesa.
Tony: Ganhei um aumento
Pai: De quanto?
Tony: Quatro dólares
Pai: Mas que merda!
Tony: Eu só ouvi duas vezes que sou bom em algo na vida! Uma com o reconhecimento do aumento, outra quando falam que sou bom em dançar!

Ao fundo, acima da lareira há uma foto do irmão padre.

Os amigos de Tony são preconceituosos. Não gostam de gays, nem de latinos. Vai pra “2001” dançar todo sábado à noite, e neste ambiente, Tony larga sua vida medíocre e torna-se o pop star, o rei da pista de dança. As moças vão até a mesa dele depois de sua “dança do pavão”. Elas pedem pra trepar com ele. Ele é “o cara”.

Do grupo de amigos, só o “bundão” tem carro. O carro é compartilhado no esquema “10 minutos para cada um com uma garota dentro”. O Tony tem uma moça completamente apaixonada por ele. Anette.

[Se não quiser o final do filme, não leia daqui pra baixo]

Anette é um capítulo a parte. Seguindo a risca o mito do amor romântico ela se rasteja por Tony e ele a ignora. Ainda mais depois que conhece Stephane e a escolhe como nova parceira de dança. Anette implora pra fazerem sexo e pra provocar ciúme diz que transará com todos seus amigos, bebe muito e os amigos comemoram “A Anette vai dar pra todo mundo!”. Um a um entram no carro e trepam com ela, Anette começa a chorar e eles continuam um a um. O Tony fica dirigindo no banco da frente enquanto ela é estuprada por seus amigos. Eles rindo e se divertindo, ela dizendo não e chorando.
Depois que o último sai de dentro dela o Tony vira a cabeça para trás e dirigindo-se a ela, diz algo como:
– Viu? Teve o que mereceu! Você se tornou vulgar.

É aquela velha história que “as putas” podem ser violadas como punição por má conduta. A cena foi tão horrível que me deixou de queixo caído.

A Stephane é a moça “com valor” e ríspida, por isto mesmo, se apaixona por ela. Ele tenta estuprá-la no carro. Ela chuta o saco dele e consegue fugir. Ao contrário de Tony ela tem contato com intelectuais e bebe chá “porque é mais chique”. Ele come cheese burguer e bebe café e mastiga de boca aberta.
No final ele vai até a casa dela. Ela diz “não falarei com um estuprador”. Eu respiro aliviada por ela não ceder.

Stephane termina por beijá-lo.

Foda-se Tony Manero e suas correntinhas douradas no seu peito cabeludo, mostrado o tempo todo de baixo para cima para que reforce sua imagem viril. Foda-se o close desnecessário dos peitos da loira do pôster da parede do seu quarto.

Filme nojento dos infernos!  Tony tem explosões de ciúmes, se envolve com brigas de gangues, vive em um bando de estupradores e todo mundo acha lindo.

5 junho, 2009

Memórias

Posted in Egotrip às 4:20 pm por Deborah Sá

Ao ler O Segundo Sexo – Segundo Volume, pude relembrar muitas memórias. E para que não se apaguem da memória, transcrevo aqui:

Lembro claramente de desejar um “eu adulto” aparecer para “eu criança”, bem semelhante aquele filme “Duas Vidas”, essa “Deborah” adulta era linda (magra), independente e tinha um namorado. Ela era imensa, me sentia pequena perto dela, se ajoelhava com seu terno preto perto de mim, colocava a mão na minha cabeça e dizia “Viu? Como tudo deu certo?”

Eu desejava toda essa coragem que sinto hoje.

Lembro de chorar muito no dia da minha primeira menstruação, achava que estava morrendo com uma hemorragia. Sim, eu sabia o que era menstruação, mas não que aconteceria em um dia sem avisar. Depois que minha tia me contou, morri de raiva. Senti MUITO nojo do meu corpo, um asco gigante. Isso não se deve ao fato do sangue, já odiava meu próprio corpo antes disso.

Aliás, quando foi que comecei a odiar meu corpo? Acho que foi logo que engordei aos 7, os apelidos e chacotas, as roupas que não entravam e pra finalizar o mais emblemático dos meus dias. Com meu avô.

Quando foi que me amei? Acho que aos 5 ou 6 quando meu coquetismo foi mais expressivo em fotos com óculos escuros engraçados. Achava-me linda e fazia caretas.

Quando foi que tive coragem? Certamente não foi quando as outras crianças brincavam de escalar e eu com medo não ia. E todo mundo me elogiava por eu ser quietinha “Ah! A Deborah sempre foi feminina/delicada”. Eu não sei andar de bicicleta, nunca escalei uma árvore. Desde que me lembro “criança”.

Já tentei adotar uma formiga, ela morreu quando eu dei um beijo nela. Chorei muito, idealizava seu crescimento em um pote de maionese que eu limparia com muito carinho para alimentá-la com folhinhas. Tudo muito rápido, tudo em vão. Aos 7 ou 8

Dois vizinhos me chamaram pra um aniversário, eram irmãos. Tinham uma prima também. Ao me chamarem para o quarto eu fui, a luz estava apagada, sei que um deles “pegou” a prima, outro me tentou “pegar”, todos faziam “qui qui qui” dando risada, eu fiquei apavorada, fugi dos braços dele, esmurrei a porta e fiz um escândalo. Os meninos abriram a porta desesperados dizendo “Não conta nada pra minha mãe”. Pois é, não contei. Aos 10.