12 fevereiro, 2009

A Culpa

Posted in Desabafos às 10:52 am por Deborah Sá

(essa é uma reflexão depois do post que fiz ontem)

É de se pensar como algo se torna uma violação e como isto é relativo pra muitas pessoas. Eu condeno um homem que viola uma mulher não importa se é um distúrbio, uma “recaída da carne”, uma busca por provar que é macho ou qualquer outra “motivação”. Se ele não matou a moça, ela não se torna sortuda! “Ah, sorte sua que ele não te matou”. Duvidam muito que um homem bonito seja um estuprador já que há uma associação entre beleza e disponibilidade de pretendentes ávidas. Imagino o quão doloroso é para uma moça “feia” ser estuprada, há quem acredite que ela devia se envaidecer já que alguém demonstrou desejo por ela, ou simplesmente, não acreditam no relato (!).

É incrível como culpam a vítima, ao ponto de sentirem pena do agressor: “É coisa de amor”, “Ela que estava bêbada sabia do risco”, “A roupa era provocante”, “A ocasião faz o ladrão”.

Até que ponto somos inocentes? A culpa é nossa quando “cumprimos ordens”? De um superior? Dos nossos pais, chefes, líderes religiosos? É necessário quebrar certos elos hierárquicos em nome dos próprios princípios?

Em Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (filme lindo *-*), o personagem do Jim Carrey quando criança mata um passarinho graças a pressão de alguns colegas, chora.

E eu já passei por algumas situações difíceis também, cedi à pressão e fui contra meus princípios algumas vezes no passado. Seja em um altruísmo martirizante onde me entreguei para “salvar” outros que julgava em perigo, seja “cumprindo ordens”.

Hoje me sinto uma idiota por não ter revidado mais vezes, por ter tanto medo e covardia e não ter gritado, brigado, sido expulsa ou o que for. E o duro é que mesmo chorando, julgava ser destino, desígnio de Deus e assim me sujeitei aos desejos de outros.

Não me expressaram claramente ameaças, apenas o silêncio somado ao medo fazia com que eu imaginasse punições ainda mais graves á minha alma. As minhas grandes feridas nunca foram expostas, elas sempre estiveram na minha cabeça e talvez por isso há quem diga que são pequenas ou inexistentes. Não há marcas em meu corpo.

1 Comentário

  1. Você sabe as respostas para as suas perguntas !!

    Sinto a violência hoje como a condiçao mais latente da vida, porque tudo é violência; sim ela é imperdoável, absurda e repulsiva no caso do estupro, não há condições de aprovar um ato desses, é todo o mal, ignomia, a crueldade escancarada. Mas a violência está nesses pequenos fatos cotidianos também de forma tão sutil que nem percebemos: a condição da igreja, do ser superior controlando o que é certo o que é errado, o que se pode fazer o que se nao, a hierarquia da ordem, dizendo o que voce é o que voce não é, o trabalho que te enjaula em um escritório e pede tarefas indesejadas muitas vezes, a familia apoiada na tradição e nos “bons costumes” que nao são os seus, fora a midia, o transito, a alimentaçao e tudo mais, quase tudo hoje é opressor.

    É como a sociedade de Dogville (onde ela tambem sofre violações sexuais) uma sociedade tradicional extremamente repressora em todos se vigiam em nome do “bem estar social”e dos “costumes morais”. E o individuo, para ser igual no grupo, é explorado ao ponto de nao ser mais livre. Sem liberdade, sem sua condiçao humana, o crime, a violencia e a exploração se tornam “aceitáveis” para aqueles habitantes. E dai que surge, no caso do filme, o grave erro de que a culpa é da vítima.

    Nosso princípios devem seguir a inércia da vida moderna, mas os antidepressivos pararam de funcionar, sinto orgulho porque tem consciencia de sua condiçao, as marcas nao aparecem mas estão ai. Desrespeite sua própria dor !!

    ps: Brilho eterno de uma mente sem lembranças é lindo, mas é muito chato !!


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