8 janeiro, 2015

Novo blog, novo endereço

Posted in Uncategorized às 11:20 pm por Deborah Sá

O recado é breve! Estou em um novo endereço! Cabine privativa (é só clicar). Beijos =**

16 dezembro, 2014

Estou de mudança

Posted in Uncategorized às 12:19 am por Deborah Sá

Me desligarei da vivência on-line. Aviso por consideração, há leitores que passam para ver se tem novidade. E tem. Não me reconheço mais neste endereço. Agradeço por todos os e-mails e comentários ao longo desses seis anos. Sou grata pelas leitoras e centenas de visitas diárias. Por ora, os escritos (a maior parte deles), não guardam sentido nesse instante, mas quem sabe, sejam úteis aos que trombaram aqui por acaso. Os textos permanecerão para consulta, os comentários serão trancados para não ter o trabalho de voltar em discussões passadas.

Preparei as malas com o mínimo possível, não tenho a pretensão de saber para onde vou.

Um beijo caloroso,
Deborah Sá

26 outubro, 2014

Entre a pureza e a malícia, como percebemos a infância

Posted in Corpo, Educação, Sexo, Violência tagged , às 2:49 pm por Deborah Sá

Lolita, novinha, menina-moça, criança viada. Em virais e memes, na literatura, nos animes, nas telenovelas. São abundantes os exemplos de como retratamos a sexualidade na infância e começo da adolescência. Ora são mostrados como indivíduos ardilosos usando “seu poder de sedução” contra “escravos de suas pulsões”¹, ora como criaturas imaculadas, joguetes na mão de adultos. Acentuamos e desaceleramos essas interpretações conforme temos apreço (ou familiaridade), pela figura analisada, somando a isso, a própria categoria de infância num termo mais abrangente. Em linhas gerais, a duração da infância é bastante imprecisa, no senso comum algumas crianças são mais crianças que outras. O que faz a criança ser parte desse recorte temporal é a manutenção de sua docilidade, afabilidade, sujeição e assexualidade. Quanto mais uma criança não demonstra irritabilidade, sentimentos como vingança, agressividade, fúria e libido, mais “conservada” está em sua pureza, torna-se obrigação resguardar sua segurança. Aliás, esse é o argumento número um daqueles que defendem a redução da maioridade penal “Se já tem maturidade para cometer um crime, já pode responder por ele”. Desse modo, a infância é uma categoria que não corresponde determinada faixa etária, primordialmente, é visão moral sobre sujeitos, tão somente se não forem esses, capazes de atos sádicos ou sexuais. Os que cometem tais ações não “são mais inocentes”. Na continuidade dessa linha de raciocínio, passíveis de sanções e penalidades.

Em idêntica proporção ao julgo normativo esperado dos corpos adultos, as crianças que passam por algum tipo de assédio ou violência sexual, mas, não parecem  “puras como as outras” são acusadas de “provocarem” porque usam roupas, maquiagens, adereços ou se comportam de forma “inadequada para sua idade”. Portanto, se assume que há sujeitos passíveis de violência (inclusive sexual), como medida corretiva, o que é indubitavelmente autoritário e perverso. Para compreender esse fenômeno é imprescindível considerar o peso enorme da misoginia e demais heteronormatividades. A menina é considerada “menos pura” e “provocante” porque não é julgada como criança, é lida como mulher. O menino é considerado “malicioso” porque gesticula e fala de tal forma que “não parece viril” e assim, sucessivamente. Mesmo as crianças que se esforçam na radicalização do gênero designado, são menosprezadas: Alguns adultos podem até gostar de crianças “comportadas”, mas, na cultura de pares (isso é, o que acontece entre crianças quando nenhum adulto está vendo), são lidos como covardes e pouco autônomos. Já a criança que se envolve em brigas, pode ganhar certa imunidade em seu círculo. Se for um menino, provavelmente, até alguma admiração. Entretanto, será um “caso perdido” (especialmente se não branco), ao parecer de professores, diretores e não raro encarado como “um futuro delinquente”. Portanto, raça e classe social também operam nas impressões e prospecções que fazemos do destino de crianças. Exigimos que “se emendem”, sejam projeto de infância perfeita, um protótipo de obediência e mansidão. Elas precisam ser mini-mulheres e mini-homens perfeitamente ajustados em um dos pólos.

E se não se nasce mulher, torna-se, onde estão os exemplos de ser “mulher”? Onde está “ser homem”? A educação e os modelos de comportamento estão em todas as partes e as crianças, em constante interação com variadas plataformas (mídias e círculos sociais), contendo padrões. Assim, por mais que more em uma família nuclear tradicional e jamais briguem em sua frente, uma criança tem acesso aos meios de comunicação, frequenta a escola, o bairro, a igreja, percebe quando adultos mentem, o que chamam de bonito ou de feio, o que incentivam e o que desaprovam nos comportamentos, que tipo de modo de agir vira piada. A criança responderá aos estímulos tentando achar uma boa equação entre o que ela deseja (mesmo que seja um tanto destoante de onde pertence), e o que ela deve fazer para ser reconhecida, respeitada. As crianças duvidam das explicações dos adultos e aceitam sem pestanejar outras tantas, não são elas que fazem as regras. Participam de dinâmicas nas quais suas vontades são pouco consideradas e os limites físicos, bastante rígidos. Por exemplo, se uma criança pequena não quer tomar banho, pular a guia da calçada, ir para uma festa; os adultos escolhem por ela a roupa, colocam embaixo do chuveiro, tomam no colo e levam para qualquer canto. É o adulto que coloca de castigo. É o adulto que bate para repreender e dentro da vida privada, respaldado. É o adulto que define se ela já não é “mais tão criança” e deverá ser condenada.

A criança não é portanto, dona de seu corpo, uma vez que está a mercê de outros corpos adultos ou mais velhos, os quais não só podem proteger do mundo externo, dar carinho, alimento, abrigo, mas também, empregando persuasão e força, causar danos. Considerando desde o início do Séc. XV (onde as primeiras noções sobre infância ganham notoriedade), são inúmeros os casos de adultos e tutores que matam crianças. Os contos de fadas, canções de ninar, mesmo as notícias de telejornal recentes explicitam para as crianças que viver é perigoso. Muitas das que passam por situações de violência sentem-se impelidas em acatar como punição e castigo, “porque merecem, porque são crianças ruins/más”. A culpabilização da vítima atravessa a infância, seja porque não são “puras” o bastante para serem cuidadas, seja porque não atendem a intransigência dicotômica de “ser homem”, “ser mulher”. A legislação moral é severa e recai sobre os corpos, não importa se mal caíram os dentes de leite.

¹ Para explorar mais esse assunto: Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo.

Referências: ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro (RJ): Editora Guanabara, 1981

MULLER, Fernanda. Infâncias nas vozes das crianças: culturas infantis, trabalho e resistência. Educ. Soc., Campinas , v. 27, n. 95, Aug. 2006 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000200012&lng=en&nrm=iso&gt;. Acessado em 26 Oct. 2014.

Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo

Posted in Corpo, Educação, Infância, O pessoal é político, Violência tagged , , às 2:13 pm por Deborah Sá

Escrevi durante vários anos priorizando a experiência de mulheres e crianças que passaram por violência sexual, o leitor mais antigo (ou mais paciente), encontrará pencas de materiais escritos em meus arquivos que passam das centenas. Ademais, preparei um escrito introdutório que subsidiará a leitura do presente texto. Talvez, um dos mais difíceis que produzi até o momento. Dada a alta densidade de envolvimento emocional com o tema, me reservo ao direito de desvelar esse assunto com descolamento de papéis em um exercício intelectual não neutro, uma vez que minhas convicções políticas afetam meu discurso, em uma relação dialógica entre passionalidade e o compromisso com a análise reflexiva.

Tratar o pedófilo como doente é individualizar um desejo legitimado socialmente. O desejo por crianças e meninas é construído. Sem necessariamente buscar por isso, é realmente fácil encontrar (mesmo em bancas de jornal), milhares de imagens de mulheres adultas usando adereços infantis com propósitos sexuais: Ursinhos de pelúcia, maria-chiquinha, chupeta, brinquedos. Há quem sinta prazer em encarnar “a criança” e quem sinta prazer em encarnar “o adulto”, a radicalização desses papéis em contextos sexuais seria o polêmico Infantilismo ou Age Play, neles, adultos mutuamente em acordo interpretam esses papéis. Mas não preciso ir aos extremos, a pornografia mais tradicional norte-americana usa muito o “Daddy” e em algumas regiões do Brasil, se chama carinhosamente o cônjuge masculino como “Papai”. Em várias representações de seriados, filmes, ou telenovelas encontramos a figura de uma garota realmente jovem iniciando e “provocando” homens maduros. Dito isso, reitero o quanto é danoso supor que o desejo por essas situações de poder muito específicas, brotaram de corações malévolos e mal intencionados. O desejo por crianças e pré-adolescdentes não é sintoma de uma doença, mas, manifestação de uma cultura etarista e patriarcal, por meio dela, crianças não são donas de seus corpos. Em padrões moralmente assentados “não são mais crianças”. Nessa cultura alguém mais forte, com mais dinheiro, adulto, preferencialmente homem, pode ser um tanque de guerra. O estupro, é um crime de guerra ideológica demarcando a vulnerabilidade daquele que é violentado. Guerra é história e territoriedade e embora bélica, não é necessariamente fálica.

Posso pressentir muitos que leem, torcer o nariz, como assim, não é relacionada diretamente ao pênis? Não é. Amarre um corpo que possua o referido genital de tal modo que apenas o dito cujo, fique exposto. Por si só, é bastante frágil e sensível, no máximo tem força para sustentar alguns objetos e se precisa de mais força, exige movimento da pelve, isolado não representa ameaça. Simbolicamente, é a virilidade masculina, portanto, sou completamente contrária a ideia de castração como medida punitiva de pedófilos e/ou estupradores. Mesmo se empregada como proposta de punição ao simbólico, se ataca, mais uma vez a ideia de masculinidade, pune-se com a “desmasculinização”. O mesmo vale para estupro de estupradores, ora, se o estupro é a reafirmação do poder com violação não consentida, quem estuprará o estuprador? Quem violará sua masculinidade? Quem “o fará de mulherzinha”, “menos homem”? Logo, combater a barbárie estuprando e emasculando é contraproducente, violentamente patriarcal e mantenedor de idênticos preceitos.

Outra sugestão dada no calor da emoção é o sistema carcerário. Pois bem, encarcerar é tirar da vista, apartar e mais uma vez, individualizar uma discussão bem mais complexa do que bandidos e mocinhos, entre gente “civilizada” e quem “não tem conserto”. Prefere-se dizer que não é “problema nosso”, mas de meia dúzia de “desajustados”. A maioria das pessoas que cometem crimes sexuais contra crianças são bastante próximas das vítimas, isso é, pais, mães, tias, babás, avós, avôs. Considerando o número elevadíssimo das estatísticas se for para levarmos a cabo essa sanção, seria raro uma pessoa em todas as classes sociais, que não tivesse ao menos algum grau de relação ou parentesco com alguém penalizado. Você, leitor, leu corretamente. Eu não acredito que a medida de intervenção aos pedófilos que concretizaram seus atos seja a prisão, a morte, a castração. Isso é endossar a caricatura dos filmes. O pedófilo não é um sujeito excêntrico, reservado, deslocado da vida social, com um sorriso perverso diante das crianças que brincam no parque. Quanto menos familiar esse rosto parecer, mais fácil exigir medidas drásticas de isolamento, tortura e privação da vida comum. Estatisticamente, assim como nos dados de violência contra mulher, quem agride não são desconhecidos, são namorados, amigos, familiares, maridos.

A acusação de pedofilia pode incitar linchamentos mesmo sem provas. Pessoalmente, já tive de intervir em um desses casos no começo de minha graduação. Durante uma assembléia estudantil, houve a denúncia: Um motorista de ônibus fretado foi acusado de ter realizado sexo com uma menor, no trajeto entre o ponto de chegada e partida. A história se amontoou em várias versões, desde o número de pessoas que presenciaram o fato mas nada fizeram para impedir, até supostos vestígios como um chinelo e uma camisinha usada (?), nunca realmente localizados. O resultado foi presenciar pessoas comovidas se jogando no chão (!), gritando, parte de um grupo saindo em busca de facas e demais objetos para matar o acusado. Depois de tentar argumentar fui taxada de “defender estuprador”, “de não perceber o quanto isso era machista”, ou ouvir “vamos estuprar o estuprador”, essa última frase, dita por um indivíduo que desprezo completamente por muitas razões. O fato é que a história minguou de um dia pro outro, mesmo entre as feministas que me acusaram (estavam ocupadas pintando cartazes para uma marcha). Fiquei surpresa e com uma carta nas mãos (contrária ao linchamento), sem saber como processar essa informação. Os anos passaram e a aspereza do tema me sobe como a bile, toda vez que a discussão retoma. Descrevo esse evento com riqueza de detalhes para ilustrar que nesse assunto febril, se faz necessário muita cautela para o debate. Correndo risco de ser colocada no mesmo patamar de quem faz o crime (mais uma vez), tomo a iniciativa de me posicionar. Indiferentemente se é centro-esquerda, centro-direita, anarquista, conservador ou liberal, quando a denúncia é o estupro “justiça pelas próprias mãos”, “meter na cadeia”, “capar”, são atitudes esperadas.

A retaliação aplaca muito pontualmente os ânimos de quem toma as dores do violentado. Não desfaz o crime ocorrido, não impede que novos crimes com a mesma motivação aconteçam. Porque não é isolado, o desejo é socialmente construído, inclusive por crianças. Costumeiramente fazemos vista grossa ou tratamos como algo “perigoso” a criança que se toca sozinha, repete gestos de danças de duplo sentido. As crianças não agem para atrair adultos, se movem porque é simplesmente divertido e “todo mundo faz”. Sejamos francos, “danças proibidas” que “são má influência” para jovens e crianças fazem parte da cultura popular há muito tempo e não é isso, que nos dá estreiteza ética. Julgar alguém passível de morte e estupro por gestos e vestuário, sim. Voltando ao pedófilo que dá vazão ao seu desejo: Os adultos que assediam crianças o fazem porque possuem respaldo social para isso, implicitamente. Aos que sentem desejo por crianças e nunca concretizaram, recomendo que busquem ajuda profissional para reinterpretar e encontrar outras formas de lidar com a libido. Nesse assunto de imensa complexidade, especulo algumas alternativas e além das citadas acima, apresento outra, a educação. Não assumo nesse pressuposto, que os humanos tenham uma natureza boa e são corrompidos por um mundo decadente, em verdade, nascemos e somos frutos de nosso tempo histórico com valores e impressões demarcadas. Ao mesmo tempo, somos capazes de vislumbrar algumas possibilidades, rejeitando conjecturas apontadas como absolutas. Por educação, não me encerro nos bancos escolares, considero também a indústria cultural, a linguagem, os discursos, os saberes científicos, jurídicos, as instituições, a heteronorma, o capitalismo, o etarismo. As raízes estão parte expostas, parte enterradas e com ramos bastante firmes. É mais fácil pintar o outro em tons grotescos do que assumir os respingos de nossas cores primárias.

29 agosto, 2014

R.E.C.A.L.Q.U.E

Posted in Corpo, O pessoal é político, Sexo tagged , , , às 7:21 pm por Deborah Sá

É desnecessário dar pinta. Principalmente se for bissexual com cabelo esquisito, sapatão sem maquiagem, viado de short. É exagerado dar pinta se for não-monogâmico. Raso fazer sexo com amigos. É permitido conversar sobre gelzinho para oral, lingerie de colegial, chantilly com morangos e falar “pepeca” em conversas informais. É vulgar falar buceta, é doentio falar de podolatria, bondage ou algemas (que não sejam as de pelúcia). Feminismo é… okey. Porém, é despautério ser peluda e usar regata, gorda com roupa justa, esquerdistas e anarquistas e suas bandeirolas. Qual a necessidade de esfregar essas aberrações na cara dos outros? Porque tornar tão visível? Falta de etiqueta, compostura, discrição e principalmente, falta de tecido para esses rebeldes – oh, céus, literalmente! – sem calças.

Do mesmo modo que gordo não deve fazer gordice, viado não deve fazer viadagem, sapatão não precisa fazer rebuceteio. Concorda? Sua hora chegou! Filie-se a R.E.C.A.L.Q.U.E (Rede Examinatória de Cu Alheio por Liberdades Quadradas Universalizantes e Encarceramento)! É  bastante incômodo ver à luz do dia e na via pública esses comportamentos, como ação,  precisamos saber os mínimos detalhes do passado, presente e futuro desses esquisitões, não é mesmo? Esses são alguns dos benefícios de possuir a carteirinha: Hétero respeitável. Com ela você pode identificar e orientar taradices, ao mesmo tempo, descobrirá: Quais as posições praticadas e com quantas pessoas se fez sexo, ativa ou passivamente. Se pretende ter filhos. O quanto isso atrapalha o desempenho profissional. Qual evento traumático da família desestruturada ocasionou esses desejos. Se já usou drogas. Se encontram parceiros na rede mundial de computadores. Se já se envolveram com pessoas casadas (além de destruir a própria família para desgosto dos pais, destruíram outros lares). Se fazem uso de remédios controlados e muito mais! A triagem consiste em investigar quem possui gestos, entonações, roupas e outros indícios de dar pinta. O exame preliminar está disponível on-line no QUESTIONARIO_HETERO_de_RESPEITABILIDADE.

A detecção precoce de tais sintomas e intervenção adequada, permite uma vida de vigilância constante, auto-flagelo, culpa, vergonha e auto-ódio, levando em muitos casos ao suicídio, não é maravilhoso? Materiais em vídeo-aula possuem as seguintes temáticas: “Te coloco uma lupa pra sair do foco”, “Eu não sou preconceituoso, mas…“, Eu só quero o seu melhor, mas o que você faz é uma pouca vergonha”, “Faça entre quatro paredes, me conte detalhes”, “Falo isso para te proteger”, “Está na Bíblia Volume I, II e II”, “Está no DSM-IV”,  além do sucesso de vendas “Você é uma aberração, por isso vive triste”. Entre em contato com nossos associados! A R.E.C.A.L.Q.U.E tem imensa satisfação em agregar novos membros¹. Na busca por um mundo descafeinado, bege e com cheirinho de eucalipto! 

Organizações R.E.C.A.L.Q.U.E
Lavando as mãos e a sua consciência


 

¹ R.E.C.AL.Q.U.E possui parceria com setores religiosos, estatais, familiares, legislativos, além de humoristas e grandes emissoras de TV.

7 agosto, 2014

Fala pouco e bem…ter-te-ão por alguém

Posted in Gênero, O pessoal é político tagged , às 12:47 pm por Deborah Sá

Caríssimo leitor. Que saudade de contar meus dias! Feliz estou que ainda retorne para ter notícia dessa pequena ilhota, a qual faço questão de não fincar bandeiras, deixando vestígios propositais de meu regresso. Fiquei tantos dias sem tal ofício prazeroso… Temi ter enferrujado. Escrever sem valer nota, escrever para mostrar. Dilemas literalmente tomaram meu sono e roubaram algumas lágrimas de olhos facilmente umedecidos. Eu criei segredos, muito mal guardados como é de meu feitio. Segredos de amor. E de temor. E de prazer. E de dor. Mais que isso não posso apontar, além do que já disse para as orelhas sadias ao derramar minhas suposições. Voltei, não conseguiria me sentir bem ocultando isso de um velho conhecido: Aquele que me lê. Transcorri minhas pálpebras em muita coisa esse ano. Além das centenas de páginas xerocadas para a faculdade, faço questão de reservar um tempo, pequeno que for, para ler algo que realmente escolhi. O livro Infância de Graciliano Ramos tem aquecido por dentro, recobrando a responsabilidade em narrar. O Terteão me assombra por outras razões.

Dizer pouco e bem nunca foi meu forte. Se falo pouco me entrego: A cabeça pesa e congestiono feito sinusite. Os sintomas são parecidos, meus olhos perdem algum brilho, ganho ares de preocupação e apatia. Não raro, a imunidade desce e uma infecçãozinha aqui, um resfriadinho ali, coriza.  Dias atrás, uma amiga citou o termo oversharing, o primeiro movimento foi acatar. É isso mesmo, se deixar exponho demais, conto mais do que devia, é quase fisiológico. Pois bem, instantes depois um moço no twitter emendou com um artigo excelente sobre como isso é mais pesado para as mulheres. As que escrevem seus anseios e dúvidas de modo biográfico e confessional, são facilmente desacreditadas. Um homem que fala de suas dores e mergulha nas entranhas para mostrar para ao mundo, é um cronista. Uma mulher que faz o mesmo é mandada para o privado. Mulheres tem diários, homens tem livros publicados e colunas. Se uma tirinha desenhada por uma mulher tem uma piroca ou um cu, podem julgar pesado ou imaturo. Informações demais, ninguém quer saber das auguras em não encontrar a cordinha do absorvente interno. Se quero ser professora ou mesmo uma pesquisadora, preciso parecer minimamente respeitável, não? E se quero proteger as pessoas que amo das ideias controversas que me habitam e podem respingar nelas, devo andar na miúda, correto? Posso ouvir as vozes que já me foram ditas outras vezes (e nem faz tanto tempo): Qual a necessidade de se expor tanto? Poderia ser mais uma mulher de gestos contidos, ambições pequenas, bater cartão, sentindo-me bem com cabelos comportados e roupas mais ainda? Sim. Eu poderia. Mas eu não sou. E como feminista, essas coisas martelam. Esse é o medo em ser mulher e me expressar além das expectativas de meu gênero. Quer escrever? Mas cuide bem para não mostrar mais do que devia. A escrita é fenda e decote e sabem o que dizem de mulheres que se expõem. Não se dão o respeito. Concordo com as memórias infantis de Graciliano, Terteão é um homem. Ele escreve, anda, veste, ama, se move, fotografa, ao passo que fala somente o necessário.

28 julho, 2014

Nos degraus

Posted in Desejo às 1:55 pm por Deborah Sá

Bati a mão aberta no concreto. Senta aqui, do meu lado. Você veio. Sorrindo com aquela marca no rosto que me faz bambear, como por deboche, bem perto da boca. Meia dúzia de palavras trocadas. Não preciso muito mais que isso se possui algo que escapam os dizeres. Talvez seja o reflexo das lentes, talvez seus cílios grandes por trás deles. Provavelmente, é o que posso nomear e mais ainda, o que não cabe nas palavras ordenadas, civilizadas, ditas em via pública.

3 junho, 2014

Esse é um escrito de amor

Posted in Afetos às 11:51 am por Deborah Sá

Esse é um palavreado como tantos outros do mundo, toneladas devem ter sido reescritas e rascunhadas com conteúdo similar na história da humanidade. Talvez foram alvo de sabotagem, empurrados para a clandestinidade. Riscadas em pergaminhos e guardanapos, pelas paredes e cascas de árvore.  Em tavernas, escritórios, até nos banheiros. Melhor que amar uma vez, é amar quantas vezes couberem. E estou. Estuporantemente apaixonada. Um pouco de presunção cai bem e sinto que dada a própria mesquinhez de existir, tentamos fazer algo realmente novo. Nem nos nossos círculos, nem nas músicas, nem na literatura, não há modelos. Caminhamos pela incerteza e dizemos sem pesar: Não fazemos a mínima ideia de onde isso vai dar. E vamos.

Eu amo o despedaçado em você, suas histórias e seus reflexos. Eu amo até o pedaço mais escondido das suas entranhas, o riso convidativo e desafiador. Eu amo. A repetição não se encerra pois denota a intensidade do que sinto. Eu amo as letras por trazem um punhado teu. Eu amo a devassidão e libertinagem sem precedentes na breve história de nossos corpos. Eu amo. E você saberá ler o público privativo, saberá ler. Eu amo.

30 abril, 2014

Notas de uma anormal

Posted in Corpo às 2:00 pm por Deborah Sá

Dizem que a ajuda médica é necessária quando atrapalha a vida social. Bem, nunca experimentei a placidez de uma vida normal, nem pude observar, na parcela em que me cerco, traços desse êxtase quase cotidiano. A infância, esse conceito transformado desde a idade média, me abateu como a centenas de crianças do final dos anos 80, bastante amor, alguma dose de amargura. E passaram-se os dias sem avisar, pois, duvido que a maré nos acerte quando estamos prontos, a gente aprende a nadar forçosamente. Freestyle, tirando algum proveito da intempérie.

Por essa razão, não busco tratamento para o mar-de-dentro, esse que escoa pelos olhos e poros, nasci com ele, e se tem uma coisa que meu corpo aprendeu direitinho é a chorar. Nem sempre funciona quando espero e na intensidade prevista, mas surge, me faz engasgar um pouco com a água salgada, ao fim, sobrevivo, no corpo a corpo, no boca a boca, na transpiração. Há quem precise de remédios, quem os busque, não tenho nenhuma pretensão em ser prescritiva, até porque, a minha assinatura não vale nem os dois dígitos da minha conta bancária.

Todavia, faço a defesa pessoal (e os que nela encontram familiaridade, sejam bem vindos), pelo direito a anormalidade nem sempre tão sutil. Isso é, vez ou outra, arrepios me fazem tremer sem razão. Desde os onze anos de idade, em momentos de cansaço e tensão tenho dificuldade em levantar uma pálpebra. Sem contar, todas as vezes que fui chorar no banheiro do trabalho, da faculdade, ou ainda a paralisia generalizada que já experimentei em  manifestações ou lugares muito lotados. Já estive em profissionais da saúde mental, nos três casos, diagnósticos diferentes: Stress pós-traumático, síndrome do pânico, depressão e pasmem, bipolaridade. Nesse último, a profissional do SUS (em quinze minutos olhando para minha fuça), receitou um tarja preta e segundo sua avaliação precipitada, eu era bipolar porque falava rápido e gesticulava muito.

Pois bem, caríssimos profissionais da saúde: Sentar em um espaço e “me abrir” para ouvir em outras palavras que sou anormal ou outros impropérios bem ofensivos, não representa qualquer novidade. Isso sei desde o jardim de infância, dos bancos escolares aos religiosos. As pessoas anormais vivem da maneira que é possível. Ou seja, tenho uma vida afetiva bastante rica, com experimentações diversas e o fato, de certas práticas soarem excentricidades, não as esvazia de sentido, toda prática é carregada de intencionalidade e serve a propósitos específicos. Não pretendo construir um discurso ancorado no princípio de que esquisitos possuem a mesma demanda de pessoas normais, algo como “- Anormais também merecem um emprego, uma vida saudável”, porque no fundo, isso pode facilmente ser confundido com “- Eles merecem ser tolerados, contanto pareçam normais”.

Há interesses humanos acessados por todos, tais como a busca por reconhecimento, afeto e prazer, porém, parece um tanto mais evidente, que pessoas anormais, esquisitas, excêntricas ou qualquer adjetivo de dissidência que se queira usar, possuem demandas outras. E é com isso que não conseguimos lidar. Porque certos corpos/espíritos/desejos inclinam para direções tão opostas? E sabendo que a sociedade em sua maioria não sabe lidar com esses pontos fora da curva, não seria de responsabilidade desses últimos tentar adequação, sem sofrer o peso da diferença inscrita em seus corações e mentes? A minha resposta é: Não.

Será de imensa valia cultivar o empoderamento daqueles que são agredidos de diversas formas por seu desvio, mas, ainda mais desafiador, é problematizar a força motriz que legitima alguém ser agente desse padrão hegemônico[1], coagindo e sancionando normas pela incapacidade de lidar com outro que não atende suas expectativas de demandas aceitáveis. Culpabilizamos os anormais, pelas emoções e contrações musculares involuntárias, se nascemos ou não com essas inclinações, pouco importa, a verdade é que elas nos atravessam. Como um raio que percorre o corpo e precisa descarregar e se em sobrecarga, invariavelmente causa danos aos mais próximos. O gerenciamento (não extinção), da anormalidade, demanda tempo e não é possível controlar todas as reações e variáveis encontradas no caminho. Entrementes, acreditar no controle absoluto de algo ou mesmo na cura e estabilidade absoluta, é a maior das ingenuidades. Vivenciar pressupõe ruptura e solavanco, não existe experiência sem memória, escombros ou souvenir. Ao planejar, escrever, repensar, fazemos um ensaio, ganhamos um pouco mais de segurança, mas, ao abrir os olhos e defrontar com a realidade, o roteiro não é mais disponível, a cena está posta, o cenário montado. Minha decisão em não me medicar implica em jogar o ponto auditivo pela janela. Querem os anormais mais normais possíveis, postura de programa editado, só que em programa ao vivo e com platéia cheia.

[1]  Assumo aqui que as pessoas não são robôs, agir, em determinada circunstância em consonância com o discurso da norma, não significa que a pessoa não tenha dias ruins, angústias, medos, sonhos, etc.

30 março, 2014

I Festival Autônomo Feminista

Posted in Eventos às 11:45 pm por Deborah Sá

 

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Nesse final de semana ocorreram  palestras, debates, exposições e apresentações no I Festival Autônomo Feminista, com a organização do coletivo 2ª Opinião.  Pude reencontrar mulheres que há algum tempo não abraçava. Bruna, Jéssica, Elisa, Djamila, Estela, Marina, Tamara, entre outras, uma grata surpresa! As comidas à venda eram da Arde Patriarcado – Culinária vegana (quão genial esse nome!) e Lar Vegetariano. As fotos são da página do coletivo no Facebook!

Os debates versaram sobre vários aspectos, entre eles, mulheres negras na luta, invisibilidade lésbica, a não monogamia, a política sexual da carne, violência obstetrícia. Agradeço ao coletivo 2ª opinião pelo convite e oportunidade em falar sobre a relação entre feminismo e consumo de carne, foi experiência de muito aprendizado. Estendo o agradecimento também a todas que deslocaram-se pela cidade comparecendo ao festival, ajudando na organização, participando, dividindo experiências e inquietações. Que venha o próximo!

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