10 novembro, 2012
Está ouvindo os gemidos? São da engrenagem

Das primeiras fantasias sexuais que me recordo, embora os cenários variassem, uma coisa era certa: Sentia tesão em imaginar alguém com tesão em mim. O que transformava qualquer material pornográfico em algo monótono e completamente sem graça. A fantasia era tátil, demandava olhar sincero, mãos firmes, corpos entrelaçados, cheiros, línguas, deslizes, sorrisos maliciosos, a imprevisibilidade, o frio na barriga.
Uma vez no Multishow de madrugada vi uma mulher em salto alto com as pernas abertas se esfregando em um pneu gigante (de caminhão?), como se a agonia não fosse o bastante ela puxava e torcia os mamilos com a mesma emoção de quem lava uma louça, a diferença é que ela mordia os lábios e parecia raivosa. A cara dela não era de prazer, era tédio misturado com raiva e não entendi como alguém poderia se excitar com uma pessoa visivelmente insatisfeita. Nos sites de vídeos pornográficos, uma busca rápida por sexo oral levará a milhões de picas de caras feios igualmente raivosos, só que xingando. A impressão que dá é que nenhum deles parece feliz na cena, mas ao menos o cara extravasa com gritos enquanto a mulher só pode gemer e se beliscar. Masturbação feminina é coisa patética de se ver nesses sites, pra começar o que são aquelas unhas gigantes? E aqueles tapinhas na buceta? E a voz masculina comandando toda a ação mesmo quando são duas mulheres? E os gemidos mais forçados do que o sorriso que se dá para o chefe quando na verdade gostaríamos de mandá-lo pro quinto dos infernos? Porém, quando assumo que sou anti-pornografia a primeira acusação é de que sou frígida, anti-sexo, sex-negative, como dizem alguns.
Vamos às considerações básicas: A publicidade tem por função vender, se o produto é novo cria-se a necessidade dele, inventa-se um problema antes imperceptível, dá-se um jeito, o consumidor precisa ter certeza de que a vida dele não será mais a mesma se não tiver uma câmera com duzentos megapixels, um sabonete íntimo ou o novo boné de grife. Pela perspectiva histórica ou social também é crível admitirmos que os valores e conceitos modificam-se com o passar tempo. Somos seres culturais condicionados desde muito cedo, você não escolhe em que família nascer, o mundo já é mundo quando surgimos e nem pode-se desejar o que nunca foi apresentado como possibilidade. Não se pode vibrar com o Quadribol antes de Harry Potter, só desejamos e queremos o que sabemos que existe, ou o que nos dispomos a inventar.
A pornografia dita comportamentos e cria expectativas por isso mesmo é um prato cheio para as frustrações. Sabe a história de que mulheres lêem muitos contos de fada e esperam príncipes encantados se esforçando pra serem “princesas”? A atriz pornô encarna a “princesa encantada” de muitos homens, só que ao invés de estar montada em um cavalo branco está montada em um pau enquanto chupa outro. O que leva o sujeito a pensar que tem “algo de estranho” com sua parceira se aperta os mamilos dela como botões esperando que saia algo dali (um orgasmo barulhento) mas nada sai. Na pornografia não-hétero essas referências ativo/passivo também se manifestam aos montes e atire a primeira pedra quem nunca viu a mesmíssima reprodução de expectativas em casais de lésbicas e gays.
Após Linda Lovelace ser estuprada e espancada para fazer o filme Garganta Profunda, cafetões levavam suas prostitutas e namorados levavam suas namoradas para aprenderem como imitar a atriz. Reconheço que nem toda atriz passou por esse calvário, por ora, meu ponto é tão somente esse: É uma indústria que carrega forte caráter pedagógico de sexualidade normativa e como todo produto cultural, definitivamente não é neutro. Pelo bom senso, parem de sacralizar a pornografia e tirem dessa redoma inquestionável. Pornografia não surge do vácuo, não é o Santo Graal, não é sinônimo de sexo, é a apropriação e representação capitalista do erótico, é a mecanização em uma espécie de paralelo com a Revolução Industrial.
A Revolução Pornográfica converte a encenação sexual em saber sexual, por exemplo, quando se sugere para alguém que fantasie algo que não envolva os genitais, a cara é de total espanto porque esse saber foi depositado na pornografia, parafraseando a bíblia “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. Concordar com isso é assumir que o prazer é tão complexo e burocrático que somos incapazes de exercer reflexão e criatividade, de inventar. Um produto com um marketing tão bem sucedido que se transformou em sinônimo de sexo.
A pornografia é o controle dos corpos, o que se deve, como e onde fazer. E não pense que isso faz das novas gerações mais esclarecidas, garotas ainda não são estimuladas a conhecer o próprio corpo, garotos aprendem de forma muito restrita sobre corporeidade e lésbicas são abordadas por sujeitos desagradáveis que acreditam que elas precisam de um pinto. Quem encara a pornografia como um enunciado de “sua primeira vez” tem grandes chances de se decepcionar, seja do que se espera do próprio corpo tanto quanto do corpo de quem se relacionará: Fluídos apoteóticos, posições que disfarçam “defeitos”, palavras de ordem que mais parecem a moça do Google Tradutor… A pornografia é como um álbum de fotos de uma rede social onde o importante é parecer feliz, na prática significa que é mais urgente tomar viagra e impressionar do que admitir que algo não anda bem, é mais essencial pagar mais de cinquenta reais em uma lingerie e fingir o orgasmo do que ter coragem de sugerir que a pessoa te toque de outra forma, ou ainda, que você está muito carente e só queria mesmo um abraço. A masturbação que pode ser incrível e divertida se reduz ao tédio de quem vê do outro lado da tela opaca seu reflexo mecânico.
Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Anti-Pornografia
10 abril, 2008
Pornô
Busca-se pornografia pois este ato é visto como “normalmente masculino”. Uma garotinha que tenta subir em árvores é vista como “menina-macho”. Como se o ato de subir em árvores fosse parte do gene masculino exclusivamente, sendo assim, uma garota “normal” não teria este desejo genuíno (de subir em árvores). A pornografia retrata a mulher como depósito de esperma e “ensina” ao homem o quanto é benéfico “cobrir a fêmea”.O sexo pornográfico é “brutal e explícito” e visto com muita normalidade pelos homens, já que “este é o modo macho de ver o sexo”. O homem é cobrado para ser fodedor e fincar sua lança fálica nos cus alheios com consentimento ou não, até porque, pornograficamente falando, aquela situação de “ela diz que não, mas no fundo está adorando” é bem comum.
Já a mulher tem de se sujeitar e gostar destas situações já que é sua obrigação gostar de “ser tratada como sua espécie merece”. Sei que muitos vão discordar de mim, mas a “Revolução Sexual” a meu ver é na verdade uma “Imposição Sexual”. Na qual a mulher se vê pressionada a viver lubrificada, fazer garganta profunda, dançando em um mastro e com os cabelos gigantescos dando muito prazer ao seu amo e senhor. Tudo isso sem sair do salto. E os homens sempre com a obrigação de “comerem tudo o que vêem pela frente (ou por trás também)”.
Vejo na pornografia não só um problema para a imagem feminina, mas também uma influência negativa aos homens. Reduzem-se a rôlas descomunais e nada mais. Não pensam, não sentem, apenas metem. A atriz que protagonizou “Garganta Profunda” diz que era ameaçada com uma arma pelo então seu marido e produtor. Diz ainda “quem vê o vídeo, assiste meu estupro”. Basta uma rápida procura na internet e sites de notícia, para notar que não só ela, mas outras mulheres que “saíram do mundo do pornô”, também eram “estupradas”. Vídeos caseiros pipocam todos os dias na internet, muitos deles nem mostram o rosto “de suas mulheres”, quem garante que o vídeo que assiste não foi forçado?
A pornografia move muito dinheiro e este dinheiro é investido em mais filmagens e propaganda pornográfica. É claro que é difícil um homem/garoto não gostar de pornografia, afinal ele foi ensinado que é algo absolutamente normal para seu gênero.
Notícia no site da BBC sobre atriz do “Garganta Profunda”:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/cultura/020424_lindalovelacebg.shtml