7 julho, 2009
Dossiê CCB – Primeira Parte
Antes de começar este post é necessário frisar que eu não tenho nada contra quem acredita em Deus. Tenho consciência plena de que ter fé em algo não faz da pessoa um ser alienado e que há sim, os que seguem a vida de forma honesta e atentando para a máxima de “Amai o próximo como a ti mesmo”. Ou ainda se preferem “All you need is love”.
Minha mãe tinha apenas 19 anos quando nasci (conheceu meu pai na igreja). Sou a primogênita e cresci em um lar com bastante afeto, até os 5 anos morei em uma casa “nos fundos” de um quintal.
Nesta época fui introduzida na escolinha (pré) e gostava bastante, surpreendi a minha mãe em acenar adeus sorridente no primeiro dia de aula, ao contrário das crianças “comuns” que choram nesta data.
Gostava muito de desenhar e conversar (mais com as professoras/inspetoras do que com os alunos).
Na verdade sempre fui esta metralhadora de palavras, minha mãe conta que aprendi primeiro a falar e depois do primeiro tombo “fiquei com medo/preguiça e demorei pra tentar de novo”. Inclusive o dia que andei foi dentro da igreja (literalmente meus primeiros passos).
Quando meus pais passaram a viver com a recém nascida filha-girino deles (nasci de 7 meses e só tinha os olhões expressivos), meu pai foi “ordenado cooperador de jovens”. Gostava de ir a igreja (ao contrário da minha irmã), principalmente por cantar e “sentir a presença de Deus”.
“Sentir a presença de Deus” pode ser comparado a assistir um show de uma banda que você adora. Sabe quando vem uma banda estrangeira para o Brasil e você finalmente vê ao vivo tocando sua música preferida? É algo assim.
Nesta igreja os homens têm muitos cargos no ministério da igreja (como toda igreja, há hierarquias) e para as mulheres só sobram três com pouco destaque “no poder efetivo”.
Mais detalhes no Post Dossiê CCB – Segunda Parte
Me “agarrei” na religião porque meu histórico é complexo. Eu não achava paz. Seja em casa, na escola ou como era de se esperar na igreja também.
A praga dos piolhos
Por volta dos 14 anos, peguei piolho. Mas não eram piolhos simples, eram piolhos MUTANTES. Depois de gastar muito dinheiro com Scabim, Kllew e tantos outros me convenci que era uma praga de Deus.
Minha cabeça ficou cheia de feridas de tanto pente fino, vinagre, água quente…e eu podia jurar que era uma espécie de penitência. Estava pagando por algo errado, algo que nem imaginava o que era. Mas de alguma forma devia aceitar essa “provação”.
Ao ir em uma médica ela me receitou um remédio via oral, pois meus piolhos (segundo ela), ganharam resistência com os remédios que tomava. Só mesmo com meu sangue “contaminado” morreriam, ao tomar o remédio e acordar, meu travesseiro estava cheio de pontos pretos.
My body is a cage
Como qualquer garota comum, eu pensava muito em sexo. E como qualquer garota religiosa comum, eu me culpava por isso. Como podia não ter vergonha do meu corpo? Se eu era a “bola de sebo”, “a bola sete”, “a rolha de poço”? Ah tá, claro. Meu rosto era lindo, do resto uma bela bosta. Meu tesão por pescoços me matava, de que adiantava os moços de terno e gravata com o pescoço descoberto? Era uma provocação do diabo, só podia…
Cada lugar uma pregação
A CCB tem uma sede, de lá os anciões se reúnem e decidem os “Ensinamentos” que o povo precisa. Por exemplo: Lançaram o Twitter? Deve ter um monte de gente com dúvidas se Deus “agrada disso”, então no Brás oram em conjunto e chegam a um consenso.
Socializando com “irmãos”
Certa vez me voluntariei para ajudar na limpeza. Sempre que o culto acaba, algumas pessoas pegam umas vassouras e limpam a igreja. É um bom motivo para socializar entre “irmãos”. Nesta época (aos 15 anos), conheci algumas pessoas que foram simpáticas, mas fui descobrindo que viviam de aparências (uma moça fazia sexo anal pra permanecer virgem) e eram os rapazes eram tão estúpidos quanto os garotos comuns. Não havia como conversar de música ou seriados já que não sabia de imediato se a pessoa que achava a TV uma maldição no lar. Música secular era no máximo Família Lima.
“Moderninhos”, costumavam gostar de filmes como Velozes e Furiosos 1, Capital Inicial e tudo que tocava na MIX FM. As “moderninhas” usavam cabelo na altura dos ombros, saias na altura do joelho, esmalte de cores claras e em regiões mais nobres da cidade vi moças de batom vermelho. Já na periferia era comum ver moças com o corpo “mais coberto” o cabelo cheio de creme e perfumes fortes. Conheço uma moça que não pôde tocar o órgão no dia em que usava base nas unhas (base é aquele esmalte transparente).
Me “entreguei de corpo e alma” e fui afundando em tristeza. Na verdade da minha casa, fui a última a “largar” a igreja.
Minha mãe foi/é mega mal vista pela maioria das pessoas que se diziam suas amigas. Cortou o cabelo, tingiu, encurtou as saias e usa maquiagem.
Meu pai “perdeu a liberdade” por uma série de mal entendidos e conchavos mal intencionados.
Minha irmã nunca gostou mesmo…
Perder a liberdade nesta igreja significa só ter o direito de assistir ao culto, não podendo chamar hinos, orar, nem exercer nenhum tipo de ação ativa.
É claro que há pessoas que ainda me cumprimentam na rua, que ao verem meu pai perguntam de mim e etc. Mas a maioria virou a cara mesmo.
Por ter uma vivência de longa data nesta instituição – dos 0 aos 16 anos-, não conseguirei resumir em apenas um post.
Confira Dossiê CCB – Segunda Parte e Dossiê CCB – Terceira Parte
Atenção: Se você, cristão, homofóbico, racista e/ou machinho usar o recurso dos comentários pra me xingar e fazer ameaças saiba: Além de não aceitar seu comentário posso te denunciar por discriminação (reconheço IP). Então, não perca seu tempo.
Dossiê CCB – Segunda Parte
Hierarquia na Congregação Cristã no Brasil
Cargos Masculinos
Anciões: O nome já é auto-explicativo, são em geral homens mais velhos que estão a um bom tempo em outro cargo “de púlpito”, eles são os correspondentes á chefes de cada filial (também chamada de “comum”). Presidem a “Reunião da Mocidade” que acontece quinzenalmente para os jovens não casados.
Cooperados oficiais: São os que presidem os cultos noturnos, destinados aos casados e adultos. Este culto é chamado “Culto Oficial”
Cooperadores de Jovens: São os que presidem os cultos para crianças e jovens não casados (todos os domingos). Este culto é chamado “Reunião de Jovens e Menores”
Encarregados de orquestra: São os que regem as orquestras durante os ensaios.
Músicos: Só há instrumentos clássicos, nada de bateria ou guitarra, o negócio lá é órgão, violino, flauta transversal, fagote…
Porteiros: Ficam na porta, recolhem “coleta” (dízimo) do lado masculino.
Auxiliar de Jovens: Leia a descrição da função em “Recitativo”
Obreiros: Recolhem roupas e outros objetos para distribuírem gratuitamente aos mais pobres. Fazem missões de evangelização e etc.
Cargos Femininos
Organista: O órgão é o único instrumento que uma mulher pode tocar. Só há um órgão por igreja.
Porteiras: Ficam na porta, recolhem “coleta” (dízimo) do lado feminino.
Obreiras: Equivalente ao masculino
Etapas do culto
Hinos: Não há música secular, o hinário é composto por 450 hinos, cada um para cultos específicos que vão desde batismos á funerais. As melodias são baseadas em músicas clássicas, por isso conheço muitas melodias de música erudita sem saber quem é o autor.
Despedida: Ato em que um casal vai na frente da igreja na Reunião da Mocidade e anuncia que vai casar e que por isso, não mais freqüentará a Reunião de Jovens e Menores, nem as Reuniões da Mocidade.
Oração: Todos ajoelham e fecham os olhos, quem “sentir Deus” abre a boca e fala o que vêm “no coração”.
Palavra: Momento onde quem está no púlpito faz uma conexão direta com Deus e através dele fala para os fiéis sua vontade.
Coleta: Um dízimo voluntário. Os cooperadores não recebem um centavo por pregar. Ao doar a pessoa escolhe para onde vai este dinheiro: Para pessoas mais pobres, para a manutenção daquela igreja, para missões de evangelização…
Testemunho: O indivíduo vai lá na frente no microfone e conta algum “livramento”, “milagre” ou coisas engraçadas. Em especial os velhinhos sempre contam coisas engraçadas. Duvida? Tem até uma comunidade no Orkut chamada “Testemunhos engraçados CCB”. Nunca esqueço quando um senhor foi ao microfone e disse “Quando eu vi uma mulher pelada, eu morri de alegria”. Eu tinha uns 5 anos e achei tão, mas tão engraçado e sem sentido que passei a imitá-lo em casa. E como criança inconveniente que era, queria fazer isso em todos os lugares e matar meus pais de vergonha. Mais situações engraçadas em Dossiê CCB – Terceira Parte – Pérolas na CCB
Batismo: Só acontece em cultos para este fim, veste-se um roupão cinza, entra-se no tanque e “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” TCHIBUM. Sim, sou batizada. Foi aos 14. Podem-se batizar a partir dos 12 anos, não é obrigatório mas há pressão em uma série de testemunhos de “jovens que não obedeceram ao senhor, bateram o carro e morreram antes de batizar e daí né….”
Santa Ceia: Acontece uma vez ao ano. Um pedacinho de pão, um pouquinho de vinho, uns hinos e etc. Tem que tomar todo ano senão…Tomei duas santas ceias na vida, na verdade criei um diarinho O_O
“ Querido Deus, meu primeiro batismo foi dia tal, presidido pelo ancião tal…”.
Recitativos: Em dado momento do culto de jovens há o que chamam de “Recitativo”. Os grupos de crianças e jovens são separados por tamanho e faixa etária, o “Auxiliar” escolhe um trecho da bíblia e distribui um versículo para cada jovem. Então todos vão em fila na frente da igreja e cada um lê o pedaço de papel que lhe foi entregue, sendo assim:
Primeiro da fila: Deus seja louvado
Todos: Aaaaamém
Primeiro da fila: Com a ajuda de Deus, iremos recitar Salmo 23 do versículo 1 ao 18 – O Senhor é o meu pastor e nada me faltará
Segundo da fila: Deitar-me faz em verdes pastos….
E assim até que termine a fila e entre a próxima com outro trecho da bíblia.
Expressões idiomáticas
Comum: Ou comum congregação, é como chamam as “filiais”.
Um diálogo típico de fim de culto:
- Ei irmãozinho, qual sua comum? (Risos)
- A paz de Deus irmãnzinha, a minha comum é Interlagos e a sua?
- Vila Ré. Tá só prova na minha vida, cada atribulação!
- Mas fica firme irmã, são provas como de Jó.
Caiu na graça: Saiu da igreja. Pecou de alguma forma.
Falar em línguas: A “língua dos anjos”. Cada um se manifesta de um modo, lembro quando criança segurar o riso nestas manifestações religiosas. Tinha até a “Irmã Pombinha” que era uma idosa que ao “manifestar” parecia uma pomba fazendo “Prrrrr prrrr prrrr”.
Calamanáia: Modo jocoso de se referir a quem “fala em línguas” por qualquer bobagem.
Pecado de morte: Há níveis de pecado, pecado de morte costuma ser fornicação (sexo fora do casamento), blasfêmia e outras coisas “pesadas”.
Criatura: Todos os que não são da CCB
Carnal: Pouco consagrado. Exemplo: “Fulano é muito carnal”
Excursão: Fazer “Caravana” pra ir em uma igreja distante.
E para concluir: Homens sentam separados de mulheres. Dentro da igreja todas usam véu branco na cabeça. Se uma mulher visita a CCB logo as porteiras correm pra emprestar um véu e um hinário.
Por ter uma vivência de longa data nesta instituição – dos 0 aos 16 anos-, não conseguirei resumir em apenas um post.
Confira Dossiê CCB – Primeira Parte e Dossiê CCB – Terceira Parte
Atenção: Se você, cristão, homofóbico, racista e/ou machinho usar o recurso dos comentários pra me xingar e fazer ameaças saiba: Além de não aceitar seu comentário posso te denunciar por discriminação (reconheço IP). Então, não perca seu tempo.
Dossiê CCB – Terceira Parte
Pérolas que ouvi na CCB ditas por anciões, cooperadores e outros homens com “ministério”:
* Ancião aponta para lado dos moços:
-Moço! Deus exorta! Será um grande médico, um grande engenheiro!
Em seguida aponta para as moças:
-Moça! Deus te diz! Será uma grande esposa, um grande apoio para teu marido! Uma ótima mãe e dona-de-casa!
* Algumas pessoas querem saber por que as mulheres não podem pregar na CCB. E quem disse que elas não pregam? Pregam no dia-a-dia na conduta, nos bons modos, no bom testemunho da palavra de Deus. Não precisam pregar aqui em cima pra exercer o ministério.
* Os animais tem alma, mas a alma morre com eles, quando eles morrem
* O homem deve ser submisso a Deus assim como a mulher tem de ser submissa ao homem.
* O menino deu uma facada na mãe porque ela não comprou a figurinha do Yugi Oh
* Acho mesmo tão bobo, esses crentes que choram na frente da televisão com filme e com novela, chorando em frente á uma caixa de isopor, mas tem vergonha de chorar na presença de Deus.
* Bichinho de pelúcia é do diabo, Deus não se agrada de criança empinando pipa, nem de quadros ou bonecas.
* Irmãozinho, moço! DEEEEEUS *gritando* SABE AS REVISTAS QUE VOCÊ GUARDA NA GAVETA, PERTO DA BÍBLIA! TEM MISERICÓRDIA UAULÁSSÁBIS SIRIQUEANDALÁNAPRAIA (“falando em línguas”)!!!!
*Eu sei que vendo todo mundo testemunhando alguns se empolgam, mas irmãos… Vamos agir com sabedoria…vir aqui na frente e contar “Estava andando perto de uma construção, daí caiu um saco de cimento na minha cabeça e GLÓRIA A DEUS, o saco estava vazio”, não é um testemunho…
*Se você discorda disso, vai embora. Deus não precisa de você
E é…eu fui.
Por ter uma vivência de longa data nesta instituição – dos 0 aos 16 anos-, não conseguirei resumir em apenas um post.
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