05.22.09
Indício
Josefina estava esfregando o chão na terça-feira. O pequeno passou de patins por entre a sala.
- Ô Jôse! Faz um chocolate pra o menino por favor?
Largando o esfregão, lavou a mão e enxugou no vestido florido amarelo e cor-de-rosa, o tecido era leve e dava mesmo pra notar a fisionomia corpulenta que se desenhava em tantas curvas arredondadas. Josefina contava 57 anos, seus cabelos eram brancos e compridos em um coque. Com seu andar que lembrava um pingüim, via-se aquele corpo caminhando no corredor, pés levemente arrastados e meias finas curtas, que estavam um pouco desfiadas nas laterais. O pouco que se via das suas batatas eram as veias azuladas de varizes distribuídas de maneira espaçada.
- Jôse, você joga videogame? – Menino, eu não sei dessas coisas não. São muito caras.
- Não são não, toda vez que eu quero um, meu pai me dá, quer que eu peço pra ele? Aí você pode ter um também.
- Não, obrigada viu menino? Mas olha, lembra sempre que você tem muita sorte!
- O que você faz quando sai de manhã?
- Eu vou no mercado, faço feira. Essas coisas.
- Eu posso ir?
- Acho que não tem problema não.
- Eu posso levar o carrinho?
As rodinhas se arrastavam e o pequeno demonstrava alguma dificuldade em descer as calçadas com o carrinho. Josefina ficava contente em ter companhia. Aquele quartinho era mesmo solitário.
- Eu quero de pizza!
- E pra senhora?
- Eu quero os de vento mesmo.E um caldo de cana.
Sentaram cada um em um banco. O garoto olhava intrigado para o modo que ela comia, segurava os pasteís com as pontas dos dedos, mordia, recheava com a salada e ao limpar os cantos da boca fazia um biquinho engraçado, enquanto passava os dedinhos gordos pra limpar.
- Cuidado que está quente!
- Eu agüento!
Ele mordeu com cuidado e puxou a cabeça pra trás pra fazer aquela “liga” do queijo. Começou a abanar a boca em um gesto frenético.
- Tá -(assoprando com força o pastel) um pouco…fuuuuuu…quente. Dizia com um sorriso e as bochechas rosadas. -Quer?
- Não menino, obrigado, é muito gorduroso pra mim, queijo tem muita gordura, não tenho idade pra isso.
- Olha Jôse! Que vestido bonito!
- É, mas é de menina.
- Claro, todo vestido é de menina! Mas é mesmo bonito…Jôse…(falando baixinho) você me dá uma boneca? – Acho que não tem problema não.
Ele correu para o quarto e bateu a porta eufórico, suas mãozinhas suavam pra abrir a embalagem. Ele cheirou a cabeça da boneca, e este era um dos melhores cheiros adocicados que sentira. Sabia que era isso que ele queria. Por toda a sua vida, até o fim.
Cães e gatos rolando no chão, giz de cera nas paredes e massinha incrustada nos tapetes, ele queria muitos bebês, ele queria ser mãe.