10.27.09
Windowsill
Juro que se eu bebesse algo alcoólico, esse seria meu recurso esta noite. Como não o faço fui até uma lanchonete vegana e pedi um suco de maracujá. Talvez um dos mais amargos que já tomei, não por falta de açúcar, mas da raiva guardada e da impotência.
Queria mesmo é abrir meu coração para aquele atendente que nem sei o nome e dizer o quanto eu ando triste, o quanto a dor no peito vem rasgando nesses dias.
Semana passada minha irmã me disse que uma professora quando lecionava para crianças de 8/9 anos um grupo de garotos forçou uma menina da mesma faixa etária a praticar sexo oral neles. Ela tem deficiência mental. Os garotos não. A mãe da garota e a direção da escola não quiseram denunciar, alguns dos meninos eram “filhos de bandido”.
O Yuri sabe o quanto essa notícia acabou com meu dia, passei minha noite de sexta definhando chorando.
Não há lugar no mundo seguro para uma mulher
Crianças de 8 anos tem ereção? Tem porra já? Mas tem supremacia masculina, isso sim. São “imitações” inconscientes de uma estrutura familiar conturbada? Oras, se não vamos culpar crianças por estupro, podemos inocentar um serial killer de passado problemático?
Hoje ao sair do trabalho com minha irmã um grupo de garotos jogava pedra no mato, eu sabia que por ali existia um gato preto e me aproximei esperando o pior.
Eu: Ei, o que vocês estão fazendo? Não tem vergonha não?
Garoto: Ninguém te chamou, não é da sua conta.
Minha irmã: Não pode fazer isso, tacar pedra no gato, porque você está fazendo isso?
Outro garoto: Tem que tacar mesmo, ele estava matando um passarinho!
Eu: E você não come carne?
Garoto: Como…(cortado pelo “Líder”)
“Líder”: Escuta aqui, segue “seus caminho”
Garotos: (Jogam mais pedra)
Eu me aproximo e cruzo os braços de frente para um deles, ele fecha a cara e me imita.
“Líder”: Você quer bater na gente é?
Eu: Não, porque eu não sou covarde
Grupo: Viiiixeee olha só quanto nós somos
“Líder”: Segue “seus caminho”, segue “seus caminho”…
Outro garoto: Agora que eu vou matar esse gato, tem que matar mesmo, ele é preto!
TODOS os garotos eram negros.
Isso me deixou sem palavras por um instante.
Eu: Por isso mesmo, não podemos ter preconceitos.
“Líder”: Segue “seus caminho”, segue “seus caminho”…
Minha irmã: Isso é covardia
Os garotos saíram andando, perto uma senhora com seu Golden Retriever perguntou para minha irmã:
- O que aconteceu?
- Estavam tacando pedra no gato.
- Isso não pode! É crime! E começou a falar com os garotos que permaneciam. O líder disse algo como “Depois chamamos uns trutas pra dar um jeito nessas duas”.
E eu fui para a lanchonete.
Meu pai ligou preocupado, soube do ocorrido.
Uma coisa eu digo, não vou encostar a mão naquelas crianças, mas se vierem pra cima de mim vou revidar. E se eu morrer ser presa todo mundo já sabe o motivo.
Agora dá licença que vou preparar janta pra usar de marmita amanhã e pegar ônibus cheio.
Sempre vivi na periferia, estudei nas suas escolas, sofri a humilhação de gente que tinha tanto dinheiro quanto eu. Mas eles têm o “gueto” masculino, sua força, seus comparsas, eu só tenho vontade de chorar e lutar. Lutar sempre.
Fico pensando se quero mesmo ser professora de História, pra ter que agüentar gente que não tem metade da minha estatura querendo botar o dedo na minha cara. Seja porque tem o papai rico com mil advogados ou os mil manos em uma terra sem lei.
Este post foi escrito ao som de Windowsill do Arcade Fire
09.20.09
Roça?
O vídeo está com qualidade ruim, a Sparta me atrapalha (e quase faz meu celular cair no chão), há vacas, bezerros e até pintinhos. Um passeio com as crianças
PS: Tem receitas novas: Samossas e Arroz de forno no www.escolhavegan.wordpress.com
09.09.09
Chá das cinco
Transfiro qualquer sentimento
Em gotas de chá também há lamento
Confundo tédio com sono e vontade de comer
A preguiça de um post com a vontade de viver
Meio termo nunca sei se senti
Enquanto o mate aumenta a angústia
A camomila me faz dormir
PS: Era exatamente esse tipo de coisa que eu escrevia no meu caderno/diário. Esses desabafos tão pequenos sempre me aliviaram.
08.17.09
Mutante
Compartilhei aqui no blog grande parte da minha trajetória, a origem evangélica e outros percalços mais tortuosos, mas nunca mencionei “meus primeiros passos” fora desta “formação”.
Quando eu parei de estudar (aos 15) comecei a trabalhar com meu pai ajudando-o no suporte aos clientes (ele é analista de sistemas autônomo). Fiz um curso básico de HTML e de Clipper sendo que neste último descobri maneiras de fazer animações em formato “quadradão”. Eu gostava de desenhar e ler tirinhas, o professor se surpreendeu porque nunca nenhum aluno dele teve essa idéia. Infelizmente (?) não fiz backup e perdi as “preciosas” animações.
Nessa mesma época entrei em uma paranóia com a minha aparência (minha barriga era o alvo principal) e ia caminhando para o curso em um sol escaldante com os cabelos muito compridos, a saia marrom com desenhos na barra e uma blusinha laranja. Sempre bebendo muita água. Perdi 10 quilos rapidamente e os ganhei quase por completo. Pesava 78 quilos aos 15 anos com 1,64 de altura. Embora tenha ganhado muitos elogios pela modificação da silhueta, continuava triste. Sentia que a gordura me impedia de ser bonita e atraente. Até porque cansei de ouvir que não era feia, só era gordinha e tinha o rosto bonito. Então a associação imediata foi que a única coisa que me impedia nesses anos todos de ser considerada bonita, inteligente e agradável eram mesmo os meus pneuzinhos.
Certo dia eu peguei o caderno com as matérias do meu curso de Clipper e joguei todas fora, restando apenas algumas páginas em branco. Foi aí que eu comecei a escrever e ler o que escrevia, me analisando a partir dali. Percebi que isso me fazia muito bem, era uma conversa franca com minha consciência.
Passei a arriscar cada vez um pouco mais. A primeira mudança foi cortar o meu cabelo.
Depois comecei a encurtar as minhas saias e passei a usar calças.
E não sentia tanto medo de Deus assim…Resolvi que daria uma chance para um moço que parecia legal. Ele foi o meu primeiro namorado.
No dia do meu primeiro beijo (aos 17) estava em um SESC ao ar livre e durante o beijo senti uma coisa cair no meu braço. Era cocô de passarinho. Ele não tinha papel na bolsa que usava sempre a tiracolo. Eu também não, então a saída foi limpar com o ticket do SESC.
No dia em que perdi a virgindade pensei que Deus ia me matar com um raio na cabeça. Só repetia: “A qualquer momento, a qualquer momento”. Ou que o ônibus ia bater e ficaria paraplégica. Dessas “pragas” que adoram rogar nas igrejas pra quem não “andava pelo caminho da justiça e da luz”.
Acabei relaxando e aproveitando aquele momento, mas ainda ia a igreja. No último dia que eu fui, o Cooperador disse na “Palavra”: “Se você não concorda com o que está aqui, vá embora! Deus não precisa de você!” E eu fui.
Com o tempo julguei que o melhor a fazer era romper com meu primeiro namorado. E assim o fiz. Nessa altura eu estava com mechas loiras no meu cabelo (nem tão) comprido.
Conheci mais alguns rapazes e entre eles estava o Yuri. [Que estou a 3 anos cheios de cumplicidade, risos, conchinhas e muito, muito diálogo. Ele não lê meu blog com muita freqüência mas se estiver lendo isso aqui, já sabe que te amo
]
Com o tempo fiz tudo o que sempre tive vontade de fazer: Cortei meu cabelo, pintei de vermelho, uso a roupa que quero na hora que quero, seja saia ou calça jeans, me tornei vegana e encontrei amigas maravilhosas que me aceitam como eu sou: Feminista, atéia, vegana, chorona e atrapalhada.
Agradeço ao apoio dos meus familiares, do meu namorado, minhas amigas, o Wen Do e a União de Mulheres. Amo vocês.
07.23.09
Eu não gosto de colorir
Um dia pensei em ti
Mas não queria
Penso em ti noite e dia
Luto contra isto
Mas és tu que eu preciso
Não vás embora um dia
Pois se tu não estás comigo
Minha vida é sem sentido
Minha primeira poesia – Na quinta série
Lembro de desenhar uma abelha na capa do trabalho. Não sei qual era o tema, nem que raios a abelha tinha relação com o meu poema, mas recordo que as meninas do meu grupo (como sempre, eu só colocava o nome nos trabalhos e deixava elas colorirem) acharam ótimo.
Eu nunca tive (grandes) problemas com notas nas matérias, sempre fui uma aluna disciplinada, embora algumas professoras (e minha mãe) me achassem um pouco “relaxada” com a minha caligrafia e a falta de dedicação em colorir.
Nunca levei “bilhetinhos pra casa”, mas meu caderno sempre trazia observações como “Por que você não colore os seus desenhos? Desenho sem cor é sem vida!”, “Tenha mais capricho”, “Melhore a caligrafia”, “Mais dedicação!”. Em sua maioria os professores me adoravam, em especial os de português, ciências, história e artes (com exceção dos que exigiam desenhos coloridos).
Lembro de uma situação muito engraçada: A professora distribuiu uma imagem de mimeografo com um Chico Bento montado em uma espiga (!), naquele dia eu pensei que seria o meu melhor desenho colorido ever! Dediquei-me, fiz devagar, não fiz nada fora do traço e levei na mesa da professora. C
- Mas por que professora? ._.
- Você não coloca força no lápis, pode refazer e eu te dou outra nota.
Eu fiquei muito brava! Levei pra mesa e caguei estraguei meu desenho, sério, ficou horrível, colori com força, tudo fora das linhas, misturei as cores. Ou seja ficou um lixo. As meninas todas ficaram abismadas:
- Não acredito que vai entregar assim!
- Não faz isso!
- Ai meu Deus!
- Vai tirar D!
- Dane-se, eu fiz o desenho bom e ela não gostou, agora vai ficar com esse mesmo.
- Mas vai tirar D!
- Eu tenho notas boas em outras matérias mesmo (dando de ombros)…
Sempre achei um porre colorir. Não se pode colorir em direções opostas, fazer rápido, borrar a linha…
Achava uma bobagem as meninas perderem tanto tempo em fazer letras redondas e bonitas pra serem as últimas a copiar a matéria da lousa. Tantas canetas de glitter, cheirosinhas e escambau e tiravam notas tão medíocres quanto o resto da sala.
Nunca fui a garota mais inteligente da sala (ok, só no supletivo), não me matava de estudar, embora meu caderno fosse um dos mais completos da sala (era aquela que todo mundo pedia caderno emprestado), sempre gostei de escrever e os professores adoravam minhas redações. A minha única “rebeldia” era não gostar que ninguém fosse humilhado*, colorir e não ser “caprichosa”. Meus cadernos quando pequena quase sempre, tinha orelhas nas pontas.
Minha desorganização nunca foi um problema, e é verdade que onde estou, sempre tem bagunça. Especialmente quando saio pra trabalhar deixando tênis no meio do caminho, alguma coisa muito nonsense pra trás.
Esses dias, minha mãe me disse:
“Ô Deborah, só não perde a cabeça, deixou a geléia em cima do sofá! Sorte que deixou fechada”. Também já derrubei um livro do Yuri na privada, me queimei no forninho do trabalho na hora de comer torrada, quebrei a pulseira que o Yuri me deu, dois celulares e inúmeros brincos. Também perdi o Fiforó, meu sapinho que ficava na mochila.
* No supletivo tinha auto-estima suficiente para defender alunos que eram humilhados na minha escola, como no dia em que um rapaz fez chacota de outro por ele ir ao psicólogo.
E não sou prendada
Nunca gostei de arrumar a casa. Odiava quando a minha mãe me pedia pra ajudá-la a tirar o pó, enxugar a louça ou coisas assim. Meu pai nunca fez muito do serviço doméstico além de lavar a louça, consertar e outras tarefas de marceneiro, construiu portões de madeira, mesas, prateleiras e outra infinidade de objetos que não consigo recordar. A melhor parte em arrumar a casa era colocar música alta. No caso, dependia da fase que eu estava: Hanson, Beatles, Backstreet Boys, Spice Girls…
Cozinhar sempre foi mais divertido, afinal você aproveita de alguma maneira. Qual o proveito de limpar a casa? Ninguém reconhece, só repara quando está sujo e absolutamente ninguém sabe o quanto foi estafante tirar aquela maldita sujeira incrustada do azulejo. Lembro de um dia meu pai bravo procurar por pares de meia e não encontrar para trabalhar. Foi um basta, não ia passar porcaria de roupa nenhuma. Só jogar na máquina. Cada um que fosse até o cesto e pegasse as próprias roupas.
Lembro da primeira vez que o Yuri foi na minha casa e se deparou com uma pilha de roupas colossal. Eu não passo as minhas roupas.
Somente as camisetas sociais e as outras peças que realmente precisam do ferro. Hoje moro com a minha mãe, é bem mais prático pra ir ao trabalho. Minha mãe é MIL vezes mais prendada que eu. Não é uma costureira que faz até terno como a minha vó, mas sabe ao menos pregar um botão e fazer uma barra de calça.
Ontem uma amiga da minha mãe (costureira) esteve aqui:
- Eu costuro muito mal, mas se for esperar isso das minhas filhas você morre.
- Ah é? Você não sabe não, Deborah?
- Não
- Nem um botão, costurar um furo de uma meia?
- Não
- Mas precisa!
- Não preciso não ![]()
- Mas sabe por quê? Quando você tiver um bebê…
- Eu não vou ter bebê ![]()
- Nem um?
- Não…
- Mas imagina que mistura bonita, você e seu namorado, ele moreno, você branquinha…um de cada cor!
- É, na verdade vai ser bonito, vão ter três cores
- Três?
- É, uma vai ser rajadinha laranja, outro preto com branco, outra toda preta…
06.05.09
Memórias
Ao ler O Segundo Sexo – Segundo Volume, pude relembrar muitas memórias. E para que não se apaguem da memória, transcrevo aqui:
Lembro claramente de desejar um “eu adulto” aparecer para “eu criança”, bem semelhante aquele filme “Duas Vidas”, essa “Deborah” adulta era linda (magra), independente e tinha um namorado. Ela era imensa, me sentia pequena perto dela, se ajoelhava com seu terno preto perto de mim, colocava a mão na minha cabeça e dizia “Viu? Como tudo deu certo?”
Eu desejava toda essa coragem que sinto hoje.
Lembro de chorar muito no dia da minha primeira menstruação, achava que estava morrendo com uma hemorragia. Sim, eu sabia o que era menstruação, mas não que aconteceria em um dia sem avisar. Depois que minha tia me contou, morri de raiva. Senti MUITO nojo do meu corpo, um asco gigante. Isso não se deve ao fato do sangue, já odiava meu próprio corpo antes disso.
Aliás, quando foi que comecei a odiar meu corpo? Acho que foi logo que engordei aos 7, os apelidos e chacotas, as roupas que não entravam e pra finalizar o mais emblemático dos meus dias. Com meu avô.
Quando foi que me amei? Acho que aos 5 ou 6 quando meu coquetismo foi mais expressivo em fotos com óculos escuros engraçados. Achava-me linda e fazia caretas.
Quando foi que tive coragem? Certamente não foi quando as outras crianças brincavam de escalar e eu com medo não ia. E todo mundo me elogiava por eu ser quietinha “Ah! A Deborah sempre foi feminina/delicada”. Eu não sei andar de bicicleta, nunca escalei uma árvore. Desde que me lembro “criança”.
Já tentei adotar uma formiga, ela morreu quando eu dei um beijo nela. Chorei muito, idealizava seu crescimento em um pote de maionese que eu limparia com muito carinho para alimentá-la com folhinhas. Tudo muito rápido, tudo em vão. Aos 7 ou 8
Dois vizinhos me chamaram pra um aniversário, eram irmãos. Tinham uma prima também. Ao me chamarem para o quarto eu fui, a luz estava apagada, sei que um deles “pegou” a prima, outro me tentou “pegar”, todos faziam “qui qui qui” dando risada, eu fiquei apavorada, fugi dos braços dele, esmurrei a porta e fiz um escândalo. Os meninos abriram a porta desesperados dizendo “Não conta nada pra minha mãe”. Pois é, não contei. Aos 10.
04.29.09
E o Diabo criou a raiva
E viu que era bom.
Acabei de por a raiva pra fora e sabe? É algo gigantescamente bom. Não esmurrei ninguém. Só fiquei estressada pra caralho porque a porra do expediente foi corrido =D
E faz três dias que tento falar com a Telefônica e pedir que me expliquem a fatura =D
Mas nenhum atendente consegue =D
Cada um me passa valores diferentes =D
Nenhum desses valores batem com o da fatura =D
Um dos fornecedores promete uma coisa, eu cobro o dia inteiro e não adianta bosta nenhuma =D
Chego em casa e fico sem sono, agitada, mexendo na internet e acabo dormindo tarde =D
Acordo podre =D
Fazem dois dias =D
Amanhã tenho que chegar mais cedo novamente =D
E acho que hoje vou tomar sorvete (vegan) pra comemorar essa loucura toda.
PS: Nada como ouvir música no fone MÁXIMO no banheiro dançando de raiva.
04.14.09
Tomate e orégano
Comer é amar-se de dentro pra fora. É acarinhar o que dentro habita. É recompensa e lembrete. É infância resgatada e celebração entre amigos. Comer é sorrir e sentir prazer no calor que se faz em dia chuvoso. É ver fumacinha e embriagar. Comer é tão bom que talvez depois que partirmos daqui, será um dos primeiros itens que sentiremos falta.
Creme vegetal soya + uma rodela de tomate + orégano + pitada de sal * assado até virar torrada / dia chuvoso e cinza = Eu divagando.






