12 maio, 2013
Lógicas socializadoras e expectativas de aprendizagem nas classes populares
O que pais e tutores esperam ao deixarem seus filhos e tutelados na escola? Que tipos de características desejam ressaltar, modificar, aperfeiçoar ou ainda, erradicar em comportamentos de crianças e jovens? Seriam essas as mesmas expectativas de professores? E o modo pelo qual docentes exercem sua autoridade vai de encontro com o modelo parental, ou, sobretudo, o tenciona? Verifica-se que quanto mais se têm acúmulo de capital cultural (isso é, maior familiaridade e apropriação da cultura legítima[1]) em uma família, maiores são as chances de seus membros corresponderem a expectativas de aprendizagem e atenderem a hexis corporal (corporificação do habitus [2]) exigida pela escola. Sobre isso, Thin (2006), ressalta:
[...] Não é, portanto, somente o capital cultural ou o capital escolar que estão em jogo; é o conjunto das práticas socializadoras das famílias que estão implicadas nas relações entre os pais e os professores, e essas práticas devem ser compreendidas por sua distância do modo escolar de socialização, mais do que pelo capital escolar dos pais. Nossas pesquisas sobre as relações entre famílias populares e escola [...] nos levaram a entender essas relações naquilo em que elas são urdidas por dissonâncias e tensões entre lógicas socializadoras divergentes, até mesmo contraditórias, e, finalmente, como o lugar de uma confrontação desigual entre dois modos de socialização: um escolar e dominante; o outro, popular e dominado.
Portanto, na medida em que educadores constatam indisciplina em seus alunos, julgam que exista uma suposta falta de comprometimento dos pais em acompanhar esse desenvolvimento, há uma associação de causa e efeito onde a culpa pela indisciplina recai sobre os pais “que pouco se importam”. Em verdade, o educar de pais das camadas populares não é vazio de sentido nem contraditório, tal divergência só existe quando comparada com a cultura escolar, suas práticas e seu modo específico de gestionar o tempo. Em geral, pais das camadas populares esperam que seus filhos adentrem o universo letrado e tenham acesso a saberes que muitas vezes não tiveram na própria trajetória escolar. Porém, isso significa admitir em alguma medida seu insucesso enquanto aluno, a inabilidade para esse exercício intelectual e até mesmo, envergonhar-se do modo brutalizado de exercer a autoridade ao agredir fisicamente os filhos. Conforme Thin:
Além do fato de que a ação física corresponde mais à intenção de interromper rapidamente o ato repreensível, seria preciso levar em conta tudo aquilo que os castigos corporais implicam em relação ao corpo das classes populares, que devem sua existência no plano econômico à sua força física de trabalho.
Assim, o modo escolar de socialização (baseado em sujeitos auto-regulados – sem a necessidade de intervenção constante), colide diretamente com os modos de socialização no âmbito familiar (baseado em sujeitos repreendidos pela vigia e intervenção constante). Para a classe trabalhadora, o tempo do lazer não é associado a práticas educativas, mas, ao descanso do tempo do trabalho. Dessa forma, as atividades lúdicas ou interpretadas como demasiadamente abstratas, parecem de pouca aplicação na vida cotidiana (como aulas de Artes, Filosofia e História); e vistas com menor relevância se comparadas a Português e Matemática, ferramentas para o mercado de trabalho (ler, escrever, contar). A importância de exercer um ofício é fundamental para a valorização de toda identidade de classe. Embora esse grupo específico tenha ciência de sua posição desfavorável socialmente, reafirmar-se como um trabalhador é motivo de orgulho, conforme Sarti (1996) “é através do trabalho, então, que demonstram não serem apenas pobres. Ao lado da negatividade contida a noção de ser pobre, a noção de ser trabalhador dá ao pobre uma dimensão positiva” (p.66-67).
Em 2005, Paixão pesquisou o significado da escolarização para um grupo de catadoras de um lixão no RJ, apontando além dos embates econômicos, entraves simbólicos. Em geral, essas mulheres são a principal fonte de renda da família e aprendem o ofício acompanhando familiares que exerciam essa ocupação, sua renda é variável e com o benefício de um horário de trabalho mais flexível quando comparado aos empregos formais nos quais já atuaram (domésticas, babás e faxineiras), com rendimento mensal igual ou superior. Queixam-se da representação negativa na mídia e reclamavam para si o reconhecimento de sua função como labor digno, valor esse, de extrema importância na afirmação da identidade. As que aprenderam a escrever o próprio nome sentem-se aliviadas de escapar da violência simbólica que é assinar documentos com a marca do polegar, sentiam-se limitadas no ambiente escolar e não raro, apanhavam por não atender expectativas disciplinares e de aprendizagem. Esperam que seus filhos aprendam na escola um comportamento polido e ocupem cargos de maior prestigio social, tal desejo de ascensão para a prole é realista: Se desejariam filhos doutores, médicos, advogados? Certamente, mas sabem que esse anseio dificilmente se concretizará. Precipitadamente, a falta de ambição escolar pode ser vista como desinteresse, no entanto, essas mães mobilizam-se dentro do possível para que seu destino social e o sentimento de inferioridade não atravessem as gerações seguintes, como é explicitado na palavra de uma entrevistada “não quer os filhos burros como a mãe” (Paixão p. 162).
Muitas constituíram família precocemente e valorizam a maternidade como símbolo de estatuto de maioridade. Seu lazer é reservado aos domingos e entre os programas preferidos está assistir TV, receber visitas e ir à igreja, visto como um lugar alegre e evidentemente, repleto de exortações: “Ensinam como lidar com a família, para quem tem esposo, como lidar com o marido; são umas coisas, assim… legal! Às vezes, engraçadas também” (41 anos, dois filhos, 4ª série do ensino fundamental). Segundo Giddens, a alta modernidade conta com sistemas especializados, trata-se de um conjunto de especialistas que dizem como devemos nos comportar e agir em diferentes espaços da vida: Psicólogos, Nutricionistas e livros de auto-ajuda, por exemplo. Entrementes, a igreja e seus líderes cumprem o papel de orientar e instruir seus fiéis no campo afetivo, civil, moral e espiritual, além de reforçarem a importância do trabalho para uma vida mais próspera.
A dificuldade em vislumbrar um futuro que transcenda tais condições materiais, sociais e econômicas não é estreiteza de raciocínio, antes disso, é o pragmatismo da sobrevivência no cotidiano.
[1]Para Cuche (2002), a cultura é histórica e se dá na relação dos grupos sociais entre si. “As culturas de diferentes grupos se encontram em maior ou menor posição de força”. Lembrando que nem o mais fraco está totalmente submetido, a dominância cultural nunca é total e definitivamente garantida.
[2] Ato de um estrutura social ser incorporada pelos seus integrantes e naturalizada no modo de viver, sentir, agir. Nesse caso, um bom aluno é aquele que sabe “se portar” de forma disciplinada.
Referências Bibliográficas:
CUCHE, D. CAP. 5 – Hierarquias sociais e hierarquias culturais; CAP 6. – Cultura e identidade. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, EDUSC, 2002.
GIDDENS, A. Apresentação; Os contornos da Alta modernidade. Modernidade e identidade, Rio de Janeiro, Jorge Zahar. Ed, 2002
PAIXÃO, L.P.Socialização na escola IN: PAIXÃO, L.P. & ZAGO, N (org.) Sociologia da Educação: Pesquisa e realidade brasileira. Petrópolis. Editora Vozes, 2007.
SARTI, C.A. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. Campinas: Autores Associados, 1996.
PAIXÃO, L.P.Significado da escolarização para um grupo de catadoras de um lixão. Cad. Pesquisa. [online]. 2005, vol.35, n.124, pp. 141-170. http://www.scielo.br/pdf/cp/v35n124/a0835124.pdfAcessado em 31 de Março de 2013
THIN, D. Para uma análise das relações entre famílias populares e escola: Confrontação entre lógicas socializadoras. In: Revista Brasileira de Educação, vol. 11, n. 32, maio-ago. 2006
25 março, 2013
O aluno não sabe fazer “O” com o copo?
A escola que já era vazia de sentido para alunos e um trabalho pesadíssimo para professores estende seu expediente. Imagine um emprego estafante onde você se sente apenas um número e as tarefas propostas (em sua grande maioria) são completamente monótonas, uma cantilena sem fim e então, é aumentada a carga horária. Você que me lê, certamente passou décadas dentro dessa instituição então diga com sinceridade: Você não se sentia um lixo nos bancos escolares? E você, educador comprometido, também não se sente um lixo pela péssima infra-estrutura, pela pressão em fazer mágica em 12 meses com a tarefa hercúlea de “melhorar” a “bagagem do aluno” (ou seja, o acúmulo até aquele momento específico da vida), ao mesmo tempo em que prepara ele para os anos seguintes?
As escolas de tempo integral se forem apenas uma extensão do que a escola já é, pioram o quadro geral. É preciso investir na formação de professores, tornar esse trabalho mais valorizado, fazer o professor se sentir menos vulnerável. Sim, porque o professor em muitos momentos se sente extremamente vulnerável. Ele “tem que” responder as recomendações da Diretora, da Coordenadora Pedagógica, do Plano Nacional de Educação, dos alunos com cara de bunda (quando sacrificou o fim de semana planejando aula e corrigindo provas), dos pais dos alunos que acham que fariam o trabalho melhor que ele (mesmo que malemá aguentem dois filhos em casa por algumas horinhas, quem dirá prender atenção de dezenas de crianças).
Explicando melhor o tamanho da bucha: Os alunos chegam e é necessário traçar um perfil para saber “em que pé está” essa formação. Nada garante que o que você ensinou será “reaproveitado” pelos professores que receberão esses alunos nos anos seguintes. Há evasão, eles mudam de estado, de escola, enfim, muitos são os motivos para que talvez você não veja boa parte deles nos anos que seguem. Recentemente, Alckimin acabou com aulas de Geografia, História e Ciências no Ensino Fundamental. O que isso significa? Que os índices de desempenho estão baixíssimos. A escola cada vez mais explicitamente é feita para o escrever-ler-contar. Esse déficit é culpa de quem? Certamente não é só do professor, nem dos alunos, nem só dos pais. É da forma escolar como um todo. Mas uma coisa é certa, professores e tutores não são idiotas, mais ainda, sei que isso pode chocar alguns mais sensíveis por isso peço licença para ir mais fundo: Sequer os alunos são estúpidos.
Nem aquele aluno que escreve “alfasse”? Pois é, nem o aluno que escreve “derrepente”. Digo mais, os erros ortográficos dizem muito sobre como estruturamos nossa língua, sobre sua fluidez e uso, prosódia, fonética e fonologia. Um erro de grafia ou uma série deles, não é um ato de preguiça, antes disso, é reflexão que busca dentro de todas as variantes possíveis uma resposta mais adequada para a escrita de um enunciado. Isso significa que temos de abolir o ensino da “forma culta”? Não. Mas tratar o aluno como alguém que precisa ser medicado, que vê espelhado, que não sabe processar informações, não ouve corretamente, enfim, que é um sujeito torto e que o problema é de uma suposta estreiteza de raciocínio categoriza como patologia, além de ser uma inverdade. As pessoas têm que perder o medo das palavras, elas não mordem. Se você não sabe escrever tão bem quanto gostaria não importa. Coloque no papel, na tela do computador, na máquina de escrever, no papel de pão, no guardanapo.
As palavras estão aí para ser usadas e corremos atrás delas todas as vezes que tentamos dizer o que sentimos, seja em uma conversa de bar, seja na sala de aula. Ou seja, não tenha medo porque você já faz uso das palavras e de uma maneira refinada o suficiente para que ao receber sua mensagem, terceiros sejam capazes de te entender. A escrita e a leitura devem ser instrumentos para a autonomia e desenvolvimento, inclusive para o mercado de trabalho, mas não só para ele.
O perigo do discurso de uma educação voltada principalmente para o mercado de trabalho; é de que tudo que importa é ser produtivo. A produtividade em sua maioria quando para filhos da classe trabalhadora, é sinônimo de um trabalho mecânico, manual ou braçal, mau remunerado e de fácil substituição. O aluno da classe trabalhadora tem o direito de ter acesso a bens culturais diversos, música, leitura, escrita, arte, atividade física que vá além de “futebol para os meninos, vôlei para as meninas”. Ele precisa ter acesso a Filosofia, História, Ciências, Geografia, Biologia, Literatura, porque talvez esse seja o único momento que ele tenha acesso aos livros e a esse tipo de discussão. É patrimônio intelectual que deve ser oferecido não só a quem tem dinheiro a pagar por ele. A educação não deve bastar quando “ao menos um” presta atenção na aula, a educação de qualidade é um direito para todos, sem exceção (e um entre quarenta e cinco é “A” exceção).
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Erro ortográfico, irreflexão do emissor ou do leitor?
Invariavelmente somos expostos a erros ortográficos, quer seja em letreiros, livros ou até mesmo em mídias impressas. Toda manifestação da escrita é passível de conter tais “deslizes”. Usualmente, a primeira reação diante desses “atos falhos” é um misto de perplexidade e curiosidade. Quem será o emissor da mensagem? Por que troca, omite, inventa, inverte as letras? Será que transcreve apenas o modo de falar? Por que insere ou suprime espaços em branco na construção de frases? É mais fácil se precipitar na suposição dessas respostas quando, antes de atentar para a mensagem escrita, se faz juízo de valor de quem a escreve. Dessa maneira, infelizmente, muitos professores subestimam e taxam alfabetizandos de um suposto “déficit” ou de uma “incapacidade generalizada” de estar, sentir e perceber o mundo. Debruçar-se sobre um texto e analisar esses “porquês” demanda o empenho de despir-se de tais pré concepções. Segundo Cagliari (1999, p. 121):
“[...] Uma outra maneira de “ver” tais “erros” é considerá-los não uma mera transcrição dos sons da fala, mas o resultado de uma reflexão produtiva (e construtiva) a respeito de fatos do próprio sistema de escrita com o qual se está começando a lidar”.
Ainda de acordo com Cagliari, o princípio acrofônico (no qual cada letra corresponde tão somente a um som) é insuficiente para analisar um texto produzido por alfabetizandos, isso porque, outro fator é detectado: A busca pela forma congelada das palavras. Trata-se do acúmulo ortográfico que cada um desenvolve ao longo da vida e uma vez munidos dessa “gramática internalizada”, o processo de alfabetização e da linguagem como um todo, estará em constante atualização. Ou seja, ao escrever temos uma intuição (resultado do acúmulo da gramática internalizada) de como determinadas palavras devem ser escritas independentemente do seu som. A palavra “carrossel”, por exemplo, poderia ser escrita como “carrocéu”, “carrosel” (nem sempre a tonicidade é grafada com acentuação, em exemplo, a palavra “mel”). Contudo, a escrita é uma representação da fala, logo, muitas dúvidas podem surgir na combinação desses dois fatores (o que ouvimos e como registramos a escrita).
Certa vez, notei em um anúncio de almoço a seguinte expressão “Macarrão alho e olheo”, ambas as palavras são similares na sonoridade, porém, com distintas formas congeladas de escrita. “Alho” não possui acento no “a”, mas “Óleo” possui em “o”. Com base no som poderia se escrever igualmente “Áleo e Óleo”, “Alho e Olho” ou ainda “Alhio e Olhio”. Essa pluralidade de opções é disponibilizada toda vez que vamos escrever, como uma paleta de cores que se expande em dezenas de combinações quando solicitada, levando em consideração, inclusive, a ortografia como neutralizadora das variações linguísticas. Portanto, isso não significa que quem escreveu na lousa do restaurante não soubesse diferenciar um macarrão de condimentos e demais ingredientes. O que fez foi escolher uma única combinação dentre tantas outras, se aproximando do que acreditava representar mais assertivamente a escrita do prato do dia. Nosso sistema de escrita demanda a separação entre uma frase e outra pelo uso do espaço em branco. Isso nem sempre é fácil perceber, dado o modo que falamos devido à prosódia. Segundo Tenani (2011, p. 94):
A segmentação não-convencional de palavra gráfica é definida quer a partir da ausência, quer a partir da presença do espaço em branco que delimita a palavra em local não previsto pelas convenções ortográficas. Quando há ausência do espaço em branco, trata-se de hiposegmentação, como em “ajudime”, “porfavor”. Quando há presença do espaço em branco, trata-se de hipersegmentação, como em “na quela”, “cava lo”.
É preciso cautela para analisar hiposegmentações, hipersegmentações e a mescla dessas categorias (híbridos), quando o texto é manuscrito. A caligrafia, por exemplo, mesmo quando realizada sem esse propósito, pode separar letras, uma das outras. A segmentação não-convencional ocorre com recursos gráficos como espaçamentos e hifens. Divergindo do que ocorre na translineação sem hífen (a passagem de uma palavra entre uma linha e outra), uma vez que a ausência nesse caso, não se trata de segmentação não-convencional das palavras. Assim, cada palavra do texto deve ser interpretada como um signo que existe em relação com as demais partes da estrutura. Para tanto, cabe analisar como a grafia dessas mesmas letras bem como seus espaçamentos se desenvolvem ao longo do texto.
Uma hipótese levantada por Tenani, é que tais registros gráficos são motivados por possíveis estruturas prosódicas da língua, como a palavra prosódica, o grupo clítico e o pé métrico. Sendo que: “[...] Nas hipersegmentações, há evidência do pé troqueu dissílabo e, nas hipossegmentações, do grupo clítico (com predomínio de próclise)” . São, portanto, indícios de uma prática dialética entre fala e escrita onde um elemento não se sobrepõe a outro, mas em verdade, se constituem enquanto peças imbricadas e suplementares. Superficialmente, essas segmentações não-convencionais podem levar a crer que seu emissor possui uma espécie de “iletramento”, o que é uma inverdade, pois, ao construir esses enunciados, quem escreve demonstra repertório fonológico e como esse se manifesta e desenvolve.
A partir da amostra realizada por Chacon (2005, p. 86), com hipersegmentações extraídas de 451 textos produzidos por alunos da primeira série de uma escola municipal de ensino fundamental do interior de São Paulo, constatou-se que dos 136 trissílabos hipersegmentados ocorreram: ”[...] ou em limites de sílabas (e só nesses limites) ou em limites de sílabas e pés [...] a ruptura promoveu uma curiosa e bastante recorrente combinação entre uma sílaba e um pé, ou entre um pé e uma sílaba”.
Esse exercício demanda uma reflexão sobre a correspondência entre grafema e fonema. Constatou-se em algumas amostras que esses espaços em branco delimitavam pedaços de palavras ou mesmo palavras inteiras, além de expor, sobretudo, as demarcações de limites prosódicos. Assim sendo, durante a elaboração de um enunciado não há aleatoriedade ou leviandade. Seu arcabouço é construído com os parâmetros que sustêm uma língua viva, cuja movimentação se dá entre práticas orais e letradas. É verbo que se faz carne e carne que se faz verbo.
Referências Bibliográficas:
CAGLIARI, L. C. O que é preciso para saber ler. In. MASSINI-CAGLIARI, G & CAGLIARI, L. C. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas-SP: Mercado das Letras, 1999, 131-159.
CHACON, L. “Hipersegmentações na escrita infantil: entrelaçamentos de práticas de oralidade e de letramento”.Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 77-86, 2005. [ 77 / 86 ]
MASSINI-CAGLIARI, G. “Erros” de ortografia na alfabetização: escrita fonética ou reflexões sobre o próprio sistema de escrita? In. MASSINI-CAGLIARI, G & CAGLIARI, L. C. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas-SP: Mercado das Letras, 1999, p.121-129.
TENANI, L. “A segmentação não-convencional de palavras em textos do ciclo II do Ensino Fundamental”. Revista da ABRALIN, v.10, n.2, p. 91-119, jul./dez. 2011.
5 setembro, 2012
Não é moda, quem pensa incomoda
Sem prazer em estudar para as provas de escola, preferia ler e pesquisar onde a curiosidade levava. A ânsia de saber mais, somada a uma postura insegura e uma silhueta rechonchuda me fizeram piada pronta. Há pouco tempo percebi que de algum modo, aquele posicionamento representava uma afronta ao lugar que pertencia.
Ia aos mesmos mercados, não andava de carro, assistia aos mesmos programas na TV, ria das mesmas piadas, tinha pais divorciados, acreditava em Deus, ia até a Belmira Marin tomar um sorvete na loja de um real, até a Cidade Dutra pagar uma conta, comer o churrasquinho de gato na calçada do Carlos Ayres. Ou seja, o espaço físico era compartilhado. Quando comecei a fazer uma lista dos filmes que queria ver mas não os encontrava nas locadoras do bairro, tive de pegar ônibus para ir até o Shopping Interlagos ver se achava por lá. Um dos que me deu mais felicidade foi alugar O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Anos mais tarde, meu pai comprou um jornal na banca que vinha com esse DVD e me presenteou. Era solitário assistir sozinha, ter esses gostos um tanto diferentes sem ninguém para comentar, então insistia bastante para que minha irmã acompanhasse, ás vezes ela tinha paciência, outras vezes não. Sei que para algumas pessoas parecia petulância “como é que ela gosta desses filmes chatos, demorados, “cabeça”?”. Não sabiam quantas vezes os versos “Olhos abertos fixados no céu, perguntando a Deus qual será o meu papel. Fechar a boca e não expor meus pensamentos, com receio que eles possam causar constrangimentos. Será que é isso? Não cumprir compromisso abaixar a cabeça e se manter omisso.”, fizeram arrepiar.
Passaram-se alguns anos e entrei no supletivo, um dos moços, começou a me tratar com a gentileza própria de quem flerta, não dei bola. Até perceber que ele era um tremendo homofóbico e a antipatia só cresceu. Quando um professor fazia perguntas demorava a levantar a mão (detesto monopolizar os espaços), mas a sala sabia, ou eu, ou ele, falaríamos algo a respeito. Por educação, esperava ele se pronunciar e em seguida me posicionava, na maior parte dos casos, me opondo, não pelo simples prazer de discordar, mas porque eram opiniões preconceituosas. Revoltado, convenceu seus amigos: Se abria minha boca na sala de aula rompiam palmas do fundo da sala, assovios, barulhos. A reação era esperar terminar, fazer uma reverência, continuar a fala. Uma hora eles cansaram. A gota d’água foi o dia em que cheguei na sala de aula e vi um aluno que eu gostava de conversar, fã de RAP, segregado por ter a fala mais lenta (era seqüela de um aneurisma), encolhido, sentado, enquanto o tal homofóbico, de pé, apontava o dedo o acusando de ser louco por tomar remédios psiquiátricos. Ao intervir ele se defendeu com aquela ladainha de “você acha que sabe-tudo”, quando expliquei que além de não saber de tudo (senão não estaria no EJA, continuando os estudos), jamais usei o conhecimento pra humilhar alguém, ao contrário dele, que se achava muito superior por nunca consultar um psicólogo tornando evidente o quanto era um ignorante sobre (mais esse) assunto.
No ambiente de trabalho formal convivi com provocações diárias, zombavam das minhas caixas de chá, me chamavam de madame, dos absurdos que ouvi estão as frases “Tem um gato sujando meu carro, o que acha de eu mata-lo?” e a máxima “Tudo o que você sabe da vida é porque viu na internet (sobre defender cotas, LGBTTT minorias em geral)”. Ou seja, compreender e fazer uso da linguagem, arranhar no inglês, é indicativo de que estou em um recorte de dominância mesmo que não tenha o objetivo de fazer uso pra oprimir, é isso que a tensão entre classes sociais faz. Por mais que vivesse na periferia, a música que ouvia, o gosto para filmes, ser vegetariana, destoava. Compreendo que a barbárie é intrínseca na criação em todos extratos econômicos, nesse mesmo emprego já ouvi pessoas aos risos contando como era divertido participar de um linchamento, o dia que bateram em uma “mulher-macho”, como matariam suas esposas se descobrissem uma traição… Analogamente, mas dessa vez em um emprego em uma avenida chique de SP, ouvi que a polícia tinha de ser mais dura e piadas machistas surgiram uma após outra.
Por ocupar essa posição singular (nova classe média?), saliento o quão ingênuo é o mito de que na classe trabalhadora só existem espertalhões (como pensam certos funcionários dos escritórios nas avenidas caras), ou quem crê que na periferia todo mundo só curte pagode, funk, usa chinelo de dedo com um sorriso no rosto e o coração puro, uma versão atualizada do bom selvagem (como pensam alguns universitários de faculdades federais e públicas). Gente sádica, mal intencionada e intransigente há em toda parte. Ser machista, arcaico e preconceituoso não é um dado de classe, entrementes é fator cultural e o que antecede a ruptura é o estrondo da colisão.
22 fevereiro, 2012
Ativista, uma postura pedagógica.
A possibilidade de ação é tolhida por arestas que delimitam o alcance, para minar as contenções seguimos o famoso “trabalho de formiguinha”. A chance de organizar um levante popular se torna possível em conjunto e adesão maciça e para tanto é preciso conjuntura, condição, solo fértil. E quem prepara esse terreno senão os que fazem parte dele? É no fazer-se que está o descobrir-se, reinventar-se, permitir-se.
Reconhecer condicionamentos é de grande valia como auto-análise, mas quando isolado é dado fatalista que amargura ou ainda, age no separatismo entre “libertos” e “marionetes”, parâmetro aplicado pelos detentores do “conhecimento”.
O equívoco é presumir que os que não seguem determinado esquadro são inconscientes de suas coreografias orquestradas, alheios ao olhar de autônomos que os vêem como roedores de pesquisa científica, isso é subestimar a capacidade de aprendizado em uma pedagogia (paternalista, diga-se de passagem) de mera absorção e réplica, inevitavelmente gerando dogmas de respaldo em reverência exacerbada por fontes e bibliografias.
O que falta em certos ativistas e acadêmicos é admitir sua postura de educador, um ortodoxo, prepotente, ultrapassado e intransigente, mas ainda assim, um educador. Em nada se distanciando daquele professor de vocabulário rebuscado tomado pela cólera de um aluno que ousa questionar seus métodos. Um ativista ou educador que se acomoda entre seus pares repetindo velhos discursos e não se atualiza, não compartilha e abusa de discursos de autoridade “Vá estudar antes de falar comigo”, “Você sabe com quem está falando?”, “Você é alienado”, tem grandes chances de ter a hostilidade e desprezo voltado no estilo bumerangue. E ao contrário do que presumem isso não se deve ao fato de que “a verdade é para poucos”, mas de que o alto nível exigido é impraticável e sua postura mesquinha é de imenso desserviço.
As informações devem circular para que idéias originais não encerrem em si mesmas, mas criem outro ponto de partida na elaboração compartilhada. De que adianta um novo pensar se em nada dele é extraído? Se o toque é impróprio, a crítica é blasfêmia e a intervenção é vandalismo, deixem que os guardiões das tradições regozijem na sisudez.
Prefiro o saber quanto mais democrático, quanto mais popular, que inquieta, instiga, emociona e não é determinado pelas certezas. Da ciência da abertura permanente de ser incompleto, nem por isso triste e confuso, nem por isso acostumado. Pra que o expressar da dúvida não seja motivo de vergonha ou desconforto, mas uma amostra genuína da curiosidade que nos aproxima de quem acrescenta o entusiasmo diante do que é inédito.
Se a margem para gozar em liberdade é tão estreita, é por não se tratar de um direito, mas um privilégio restrito. Somos construídos pelo meio e circunstâncias combinados ao acaso aleatório, não nos cabe mensurar o livre-arbítrio.
23 janeiro, 2012
Lei da Palmada – Instrução ou punição?
Faz praticamente vinte anos que olhei meu braço e vi ranhuras de um chinelo, uma havaiana branca de tiras azuis, corri quase como uma quadrúpede ensaiando bipedismo ao colocar os braços na frente pra evitar chineladas. E elas vieram, sem que recorde o motivo. Presenciei adultos punindo crianças entre elas minha irmã de rosto corado depois de levar uma bronca, sem compreender porque truculência resolveria ambas as dificuldades. Quando somos realmente pequenas (os) e os adultos parecem figuras majestosas e soberanas é absolutamente inquestionável qualquer coisa que venha deles, um ângulo que revelam para qualquer hóspede cotidiano é o quanto vivem a beira de um colapso nervoso, a vida adulta é um copo de cólera tilintando o excesso.
Nem todas as crianças são anjos de candura, algumas podem ser ardilosas o bastante para acusar injustamente colegas mais dispersos, incitar intrigas, agredir os mais novos, maltratar animais, punir essa minoria (que costuma atear o comportamento de manada) não a tornará mais maleável se a fórmula para o delito e intransigência inexiste, nem todo pedófilo foi molestado na infância, nem toda criança que é ferida o repete em estruturas menores.
A Lei da Palmada inquieta porque retém um dos plenos poderes da educação ortodoxa: O “direito” de agredir quem contraria suas expectativas de aprendizagem, se essa descrição soa tremendamente injusta é porque o é. Qual a diferença entre uma criança frustrada que quebra os bibelôs de sua mãe para uma tutora que belisca quem não soube lavar a louça da forma que ela esperava? É a violência patrimonial e física, alternada e imediata, o jogo de poder entre crianças e adultos transtornados sobre o que sentem em relação um ao outro, um teste de nervos. Sim, o (a) tutor (a) pode estar em “um dia difícil”, sobrecarregado com as atribuições da modernidade, mas isso não significa que a criança esteja satisfeita em seus dissabores. O mínimo que se espera é que haja maturidade de quem tem mais vivência para estabelecer a conciliação.
Assumir o caráter irrevogável da violência na educação de jovens e menores é presumir que enquanto estiverem abaixo da hierarquia dos guardiões das tradições, maior será a vulnerabilidade á palmatória de seus mestres e se porventura os subjugados apanham é por merecerem tal tratamento, seguindo o abominável ditado: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Somente é dado poder equivalente para os infantes quando se tornam gerentes de sua própria prole, ou seja, sua peculiar semi-propriedade privada. Para os que temem um reinado opressor de quem mal saiu das fraldas, o que os difere dos maridos que temem a falsa acusação de suas esposas na Delegacia da Mulher?
Não pretendo definir se a índole inata da criatura humana na civilização minimamente estabilizada (guerras, conflitos extremos, ser apartado do convívio social, são fatores que extrapolam a análise) é boa ou má, todavia não parece razoável o ataque para cada descompasso que enfrentamos entre nossos pares, que dirá aplicar rigorosas penas aos que como espectadores e integrantes do seu redor podem não ter a completa dimensão das estruturas que circundam, mas inevitavelmente são afetados pelos impactos das condições do presente.
Os filhos de pisadelas e beliscões não necessitam reger em antigos compassos.
5 maio, 2011
Imposições de conduta
A última estrutura que tive medo de questionar foi D-uz, sendo uma das imposições de vigilância mais duras que enfrentei; nessa circunstancia uma autoridade cristã é um canal direto entre os desígnios celestiais e a vida prática. Para além de ser aceita em um determinado grupo, isso pode implicar na morte e tormento eternos. Só quem realmente já “temeu a D-uz” sabe o quão pungente é sua relevância.
Adentrei aos poucos e abracei as ideologias Feminista, Atéia e Vegana. É claro que ao identificar-se com um grupo se espera mais sincronia com outras lutas pessoalmente valiosas, embora nunca esperasse a perfeição (isso não existe) de movimentos que visam desconstruções, foi inevitável não deparar-me com posturas equivalentes as experimentadas em bancos de madeira e solenidade cristã.
O discurso presunçoso de alguns ativistas é minoria, falar desses “líderes” ou “modelos” pode de fato afastar novas aspirações, o que muita gente parece não entender é que buscamos referências e nos sentimos agraciados quando surge alguém disposto a esclarecer dúvidas. O medo que muitas mulheres sentem em assumirem-se Feministas/Veganas/Atéias é que não são “fortes o bastante”, já que não raro encontram verdadeiros baluartes:
”Onívoros são comedores de cadáveres”, “Ovo-lactos são nojentos”, “Mulheres Bi são lésbicas com medo de sair do armário”, “Vocês dormem com o inimigo”
Não estou defendendo discurso “cheiroso” que contemple Especistas, Racistas, Lesbo-Trans-Homo-Fóbicos, Classistas… Mas sim, o mínimo de reconhecimento do peso que as palavras podem refletir sobre outr@s. Perdi as contas de quant@s sentiram-se ultrajad@s solicitando auxílio em um momento de fragilidade quando sujeitos “com moral” depreciaram suas vivências. Quem desmerece outrem, tem grandes chances de carregar um discurso hipócrita e demagogo, simulando uma moral transcendente realizando o que tanto critica as escondidas, ou encobrindo um passado/recente não tão louvável.
Sentia certa timidez quando iniciei meus ativismos, por não ser acadêmica, não ter lido todos os livros referenciados ou compreender os termos, essa hierarquia é similar a eleger uma figura de embasamento teórico para nos tirar da escuridão rumo ao inóspito desconhecido. Sentar-nos e ouvirmos em silêncio uma missa em latim.
Toda contracultura estabelece padrões e nenhum deles é completamente original, embora seus agentes sejam seres sociais em permanente transformação, as bases são retiradas do “senso-comum”. E é nesse empirismo que baseio a busca por autonomia e quebra do classista “Discurso Válido”.
Sendo primordial reconhecer que grande parte dos ativistas está nas Universidades e/ou pertencem a classes abastadas (costumam ser os maiores “cagadores de regra”), amiúde consideram os demais como acéfalos indignos de contato, ridicularizando suas práticas. Em debates com o meio Universitário costumam enxergar-se em uma bolha, ignorando a presença de “intrusos”: “Acredito que todo mundo aqui tem uma empregada que…”, ”Estou falando isso, porque todos têm o mesmo ‘nível’”.
Soberba
Vangloriar-se de “boas ações” não faz sentido uma vez que se encara a justiça parte fundamental na construção de uma sociedade justa, torno-me proeminente por ser branca e apoiar as reivindicações do Movimento Negro? Não, tampouco sou superior por enxergar (dentro das limitações do meu tempo), não-humanos enquanto detentores de liberdades básicas: Respirar, interagir com outros de sua espécie e morrer em uma cadeia alimentar cuja função é integrada ao todo (sob perspectiva holística).
A meu ver, comunidades urbanas e seu conforto (compras no supermercado, acesso a internet) poderiam dispensar o consumo de derivados de animais. Isso não ocorre por questões sociais, históricas e em alguma medida negligência, seja do Estado “neutro” que sustém as relações de poder até onde lucram, seja dos que cientes do processo, estão pouco dispostos a lançar mão de privilégios. Isto não significa que essa é a única forma de conduzir, perceber e lutar por um mundo melhor, ou que ao usar algumas dessas ferramentas me converterei em árbitro universal.
Ninguém opera em totalidade, isentad@ de mínima incoerência. Embora usemos de inspiração vez por outra determinada figura, não devemos atribuir a terceiros a validação ou autorização para autonomia.
Altivez daqueles que respeitamos/admiramos
Relevar humilhações e injúrias é tarefa aflitiva, em especial se considerarmos quem nos direciona tamanhos insultos, é necessário quebrar o silêncio e expor o desconforto diante da afronta e dialogar honestamente. Porém, em determinadas circunstancias após sucessivas negociações percebe-se que nem sempre há disposição em respeitar particularidades, sendo não raro, indiferença e réplica escarnecedora.
Somos restringid@s intermitentemente por figuras de poder: Religiosos, Médicos e “Especialistas” de toda sorte, com quem firmaremos alianças? Teremos de nos submeter diante de familiares, amig@os, teóric@s e companheir@s alheios aos danos que nos causam? Permitir desdéns por possuir “elos” biológicos, materiais, metafísicos? Parcerias ideológicas e afetivas são benéficas tão somente se recíprocas, romper vínculos com quem nos coage descativa os cárceres que mantemos hábito.
11 março, 2011
F.A.Q Feminista

FAQ é um acrônimo da expressão inglesa Frequently Asked Questions, que significa Perguntas Frequentes
Você fala por quem? É uma porta-voz do feminismo?
Minhas opiniões são resultados das experiências que vivenciei, em dado momento optei por compartilhá-las através de um blog e fóruns da internet, quando essas declarações atingiram pessoas, elas reagiram: Algumas me contaram processos de superação similares aos que expus (abuso na infância e imagem deturpada por humilhações, por exemplo), outros “trollaram”.
Cada feminista possui convicções e exerce a individualidade de modo conveniente, há Feministas Onívoras, Fumantes, Espíritas, Atéias, Veganas, Católicas… Com essa pluralidade há de se esperar que ocorram divergências entre correntes de pensamento e suas associações com outras lutas, portanto, o que expresso aqui é uma interpretação pessoal.
“Os animais existem por suas próprias razões. Eles não foram feitos para humanos, assim como negros não foram feitos para brancos ou mulheres para os homens.” Alice Walker
Faz parte de algum coletivo? Acha que para ser feminista é preciso sair às ruas? Faz parte de algum partido?
Não possuo filiação em nenhum partido, há dois anos freqüento a União de Mulheres de SP . O contato com as mulheres desse coletivo mudou a minha vida, me tornei mais segura e confiante, tenho profundo orgulho por fazer parte disso.
As mulheres não são um número expressivo em manifestações sendo pouco estimuladas a participar da vida política (pública), a maior parte das tarefas “femininas” são reservadas ao “privado”. Logo, é indicado que mulheres ocupem os espaços (inclusive virtuais, as “web celebridades” são em sua maioria homens), mas isso é uma escolha que cabe a cada uma de nós (se expor ou não).
Acho que sou um pouco feminista, não sou radical. Gosto de homens.
Existem feministas hétero, qual seu conceito de “radical”?
Ser radical é ir na “raiz do problema”, no caso feminista é ir contra valores Patriarcais: A soberania do homem (e o que é associado) sob a mulher (e tudo o que ela representa).
São os homens que criam as categorias “de foder” e “de casar” gabam-se ao trepar com mais de seis mulheres em uma única noite, contando suas “performances” entre outros homens propiciando “a essas tais o que merecem”.
Os equívocos nesse método restringem tod@s em seus genitais, um homem que bate no peito para dizer “Gosto é de cu e buceta” expõe quão limitada é sua prática sexual.
É lastimável reduzir uma mulher disposta sexualmente em: “buceta-pau”.
Não sou feminista nem machista, sou humanista.
Feminismo é defender a independência das mulheres sobre seus corpos, a igualdade entre os gêneros também questiona as restrições emocionais que homens são submetidos: Não chorar nem demonstrar afeto entre tantas outras. No Feminismo “quem perde” são os homens que desejam controlar a vida das mulheres: Como se vestem e comportam, com quem devem fazer sexo…
Feminismo não tem muitos adeptos porque vocês não têm paciência de explicar! Grossas!
Nem todos que questionam o feminismo o fazem genuinamente, muitos iniciam interrogatórios simplesmente pelo prazer de irritar. Inúmeras vezes fornecemos dados, debatemos e nos dispomos a esclarecer as dúvidas para ouvir em resposta ofensas estéticas. Imagine advogar uma causa seriamente para aqueles que não estão dispostos a nada além de ridicularizar. Quer entender melhor o feminismo? Converse com uma feminista, se informe, use o Google, não culpe as feministas (que não são obrigadas a ter paciência infinita) pela sua preguiça.
Homens e mulheres são biologicamente diferentes!
Determinismo Biológico pode ser ultrapassado, embora faça sentido em algumas abordagens na mídia. É hora de superar isso, não?
Mulher gosta de cafajeste! Bonzinho só se fode!
Se um relacionamento não satisfaz é melhor encerrá-lo, mas já que os termos de análise são esses, há mais razões para mulheres abandonarem seus relacionamentos com o sexo masculino: São estatisticamente eles que roubam, matam, estupram, torturam, traem, seqüestram…
Mulheres educam crianças, a culpa do machismo é delas que ensinam isso.
A educação de uma criança e seu plano Pedagógico é configurada por todas as esferas sociais que interagir: Escola, entretenimento, amizades, brincadeiras, incluindo o relacionamento com seus tutores. Similarmente não dá pra culpar os gays pela homofobia, nem as negras pelo racismo. Há várias ramificações dos problemas da sociedade, não dá pra culpar um único foco, muito menos o alvo.
Feministas se vitimizam, tem até lei Maria da Penha!
Mulheres são vistas como passíveis de estupro, sair de casa tarde da noite é correr um risco além de ser assaltada, há quem culpe a roupa, a profissão, até os gestos para justificar um “corretivo peniano”, como se ao violar um corpo fosse suficiente para discipliná-lo socialmente. Estupro não é “punição”, é um crime de ódio. Qualquer mulher que já transitou sozinha em uma via pública temeu ataques dessa espécie, não é uma suposição paranóica. A violência contra a mulher está mais perto do que imaginamos, o difícil é quebrar o silêncio sabendo que nem todos acreditarão no que diremos.
Homens têm instintos, vocês não estupram porque não tem força.
Assumir que homens tenham impulsos incontroláveis de violência e atribuir caráter “estuprável” ás mulheres é conclusão abjeta. Mulheres não recebem qualquer estímulo ao desenvolvimento de massa e força física, no entanto, qualquer mulher sem treinamento encontra seres mais fracos os quais poderia golpear, todavia, são os homens que agridem em maior número crianças e animais.
Por que vocês escrevem com arrobas? Ou a letra X?
Em uma sala repleta de mulheres com um só aluno presente, faz-se necessário chamá-los de “alunos”, do contrário a masculinidade será ofendida. Nas escolas ouvimos “A História do Homem” por supormos que mulheres são contempladas. Em termos gerais as referências são masculinas e brancas, as arrobas e a letra x também são usadas em outros movimentos de inclusão como o Anarquismo.
Homens podem ser feministas?
Sim! E o mundo é “misto” .
Há muitos ambientes onde mulheres, negr@s, trans e cadeirantes podem debater, por isso defendo ações afirmativas (espaços exclusivos). Criar um espaço de fortalecimento da identidade não é sinônimo de segregação, as minorias necessitam de representatividade para que sejam atendidas, um morador de bairro nobre por mais bem intencionado, não conhece as especificidades de um bairro periférico.
A mulher moderna tem muitas tarefas, era bom o tempo que éramos Amélias, os casamentos duravam mais, havia menor número de divórcios
O feminismo defende a liberdade, se uma esposa está insatisfeita com uma relação encerrá-la será benéfico, qual o propósito de ser maltratada e permanecer em humilhação? Dependência econômica? Emocional? É nocivo para a auto-estima permanecer em um casamento infeliz, é fato que os casamentos duravam mais, as mulheres subjugavam-se em silêncio.
Integrar o mercado de trabalho foi uma das conseqüências da redução do salário dos homens, mas isso ocorreu sem a mudança da atribuição de tarefas domésticas: Mulheres de baixa renda além de limparem a própria casa, foram contratadas para limpar e cuidar das crianças de “patroas”. Atualmente famílias de classe-média encontram dificuldades em contratar Diaristas, enquanto não localizam quem ocupe o cargo essas tarefas são realizadas pelas moradoras: Mães e filhas cozinham, lavam, passam e tiram a mesa, deixando no máximo que os homens vez ou outra lavem a louça. Havendo distribuição, não há sobrecarga.
Donas-de-casa merecem respeito, se essa é sua escolha, siga-a e certifique-se que sua/seu companheira (o) não usará isso contra alegando que “te sustenta” ou que há obrigações “conjugais” em decorrência disso.
Aborto
Escrevi sobre aqui.
Feministas podem usar sutiã, salto-alto, maquiagem? Fazer Streap-Tease?
Sim, existem feministas que se sentem bem usando salto-alto, maquiagem e fazendo streap-tease. A crítica que feministas (inclusive eu) fazem sobre essas práticas referem-se a obrigatoriedade contida em padrões estéticos, restringindo as formas de sentir-se bela. Outro dado importante a ser considerado é que somos influenciadas pelo meio que fazemos parte, nossos desejos e concepções não vieram “do vácuo”, especular suas origens é um exercício de auto-análise que não restringe práticas.
Em tempo: A “queima de sutiãs” foi uma invenção midiática.
Se vocês odeiam tanto os homens, por que querem se parecer com eles?
Essa acusação é característica de quem faz uma idéia absolutamente caricata de um movimento que sequer pesquisou sobre, feministas são plurais. Ninguém “quer parecer homem”, há diferença entre gênero, orientação e prática sexual, não compreender essas categorias pode levar ao equivoco.
O que vocês têm contra pornografia? São frígidas?
O segmento feminista que é anti-pornografia argumenta contra uma indústria que sexualiza opressões (de classe, gênero e raça) e objetifica os sujeitos.
Alguns textos sobre
Devemos nos preocupar se a Pornografia seqüestrou nossa sexualidade?
Pornografia Gay Masculina – Uma matéria de Sexismo
Tenho que ser lésbica?
Ninguém escolhe por quem sente tesão. Em tempo, nossa matriz é baseada em relacionamentos heterossexuais com divisão nos papéis de gênero, sendo assim, é possível encontrar lésbicas que exigem comportamentos “femininos” de suas parceiras. O relacionamento lesbiano geralmente é mais igualitário não só por tratar de uma união entre gênero, identidade e prática sexual, mas porque essa transgressão quebra uma série de protocolos das dicotomias de poder, entre elas o intercurso e suas simbologias.
Incomodo-me com os comentários machistas que ouço, mas não sei revidar, nem quero que me achem chata, sou covarde?
Não, não é covardia, é por motivação similar que tantas Trans, Lésbicas e Gays permanecem “no armário”, ninguém quer ser hostilizado, perder amigos, afastar quem se ama. O que ganhamos omitindo o que acreditamos? É preferível ser amada pelo o que simulamos? Esclarecer seus posicionamentos entre as pessoas em que confia é uma prova de que pretende tê-las ao seu lado com honestidade e tolerância.
Um judeu não precisa explicar porque piadas com Holocausto o ofendem, mas as Feministas precisam justificar o porquê das piadas sobre o Goleiro Bruno serem uma afronta. Você é uma mulher e tem o direito de se ofender com o Sexismo.
Interesso-me pelo “Feminismo Teórico”, quais leituras recomenda?
Antes de recomendar leituras, considero importante esclarecer que ser feminista não implica leituras obrigatórias, não é um teste dissertativo nem de assinalar quais respostas são certas ou erradas, tampouco qualquer feminista tem o poder de vetar “sua entrada no Mundo Feminista (?!)”
- Memórias da Transgressão – Gloria Steinem
- O Mito da Beleza – Naomi Wolf
- As boas mulheres da China – Xinran
- O Segundo Sexo I e II – Simone de Beauvoir
- The Sexual Politics of Meat – Carol J. Adams: O livro não foi traduzido para o Português, mas o usei de base para esse post, onde resumi alguns conceitos
- A Cor Púrpura – Alice Walker
- As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley
- A voz do dono – Tama Starr
- As heroínas saem do armário – Lúcia Facco
Na barra lateral a direita há a Categoria “Feminismo não é palavrão”, são links de blogs Feministas.
Se não fosse pelos homens ainda viveríamos em cavernas, nomes de rua são masculinos.
A História é construída pelas ações dos que nela habitam (tod@s), estudos de Gênero e seu debate são incluídos na pauta de muitas Universidades. Se as “Ciências” tem seus “Pais” (Freud, Galileu, Descartes) é devido ao acesso restrito a informação aos considerados de “segunda classe”, já reparou que quase todo “Grande Pensador” é/foi branco?
O problema é o Femismo! Femininazis!
Femismo não existe, é um termo usado para reforçar os estereótipos ameaçadores que alardeiam sobre o feminismo. Não há estrutura histórica que permita uma opressão as avessas: Seriam homens queimados por serem Bruxos, garotinhos sentando de perna fechada e garotas mijando na rua, casamentos forçados, estupros em massa, estigmatização médica (histeria e loucuras associadas ao gênero), Políticas, aparato Bélico e Estatal , grandes ídolos, Escritoras, ou seja, a base da nossa cultura seria de “Mulheres Viris” e “Homens Frágeis”
Post útil- Feminazi: ignorância a serviço do conservadorismo
Eu sou homem! E presto!
É fundamental reconhecer privilégios, não é motivo de soberba.
Colocar-se no lugar do outro (empatia) é o mínimo que se espera, sou branca e não sou “especial” por respeitar negr@s, tenho acesso a alimentação diversificada em uma cidade grande e posso ser Vegan. Bacana, estamos construindo um mundo melhor, quer uma medalha? Um troféu? Não espere mulheres aos seus pés por respeitá-las, buscamos igualdade, não subserviência.
Quem é aquela mulher mostrando os braços com lenço vermelho na cabeça?
Rosie, the Riveter entenda quem, clicando aqui
9 fevereiro, 2011
Trote da UNB
Sei que o fato aconteceu há quase um mês, mas meus compromissos profissionais impediram de opinar dentro de um prazo que gostaria. Aproveito para agradecer aos comentários que deixam nesse espaço, se não os respondo logo, não é por falta de consideração (vocês são ótim@s).
No trote ocorrido em 11 de Janeiro as calouras da FAV (Faculdade de Agronomia e Veterinária) da UnB (Universidade de Brasília), foram sujas de tinta tendo que lamber leite condensado em uma lingüiça encapada com uma camisinha, na frente de veteranos durante o trote. Hostilidades em ambientes universitários ganham alguma visibilidade na mídia e a comoção se dá por esperarem uma conduta solene entre os muros dessas instituições; para além dessa classificação simplista, o ambiente universitário não abarca uma massa crítica politizada sendo composto por indivíduos suscetíveis aos preconceitos de sua formação, tal qual são os sujeitos que não freqüentam esse ambiente.
A forma que veteranos da FAV escolheram para agregar as novas alunas reforça o caráter ambíguo que se espera da prática sexual feminina: Ao mesmo tempo em que nos cobram uma infinidade de façanhas, punem socialmente quando descobrem como as realizamos por meio de apelidos, piadas e assédios devastadores. Não são as feministas que imprimem uma natureza humilhante aos atos sexuais, é a pornografia, as piadas de mau-gosto e a moral cristã que se encarregam de estabilizar esses conceitos.
É possível ver nos registros em vídeo que os rapazes encorajavam as moças para “irem mais fundo”, “com mais vontade”, “garganta profunda”, essa camaradagem masculina é o prazer advindo do subjugo e controle sobre os corpos das mulheres, usando nesse caso cadáveres e produtos da exploração (que cedo ou tarde leva ao óbito), de animais não-humanos.
Por que o acesso ao “saber acadêmico” é restrito a tantos incapazes de reconhecer a regalia que é usufruir desses espaços? Uma das pressuposições que contribuem para essa permanência é associarmos o ingresso ao mérito, isso é, afirmar que a educação no Brasil é de acesso democrático.
Uma família de baixa renda não tem condições de pagar mensalidade do curso de Inglês, tênis, natação, intercâmbio, plano de saúde ou Psicólogo, geralmente não há qualquer orientação pedagógica, e aos vinte e poucos anos muitos filhos tornam-se Mães e Pais. Tutores de maior “instrução” cercam seus rebentos de amparos até que atinjam a maturidade (incluindo escolas de “renome” e Cursinho Pré Vestibular), enquanto alguns tantos sustentam famílias há quem use dinheiro doado e adie a autonomia financeira. Não me oponho quem goza desses benefícios, o indicado seria torná-los direitos (educação de qualidade, saúde, segurança, inclusão digital, lazer…).
Os recém-aprovados passam por rituais que evidenciem a subordinação aos veteranos (nem sempre) de oficio concluído, não raro notar que os escritos que ocupam as testas são menções zombeteiras dos que cursam faculdades privadas.
