23 abril, 2013

Material girl – A mulher interesseira, sexo e capital

Enviado em Corpo, Desejo, Gênero, LGBT, O pessoal é político tagged às 12:08 pm por Deborah Sá

Sexo (como entendido) é performático, genitalizado, heteronormativo, cis-sexual. As revistas femininas e o incentivo ao sexo da mulher é sempre nos moldes de “esse é o meu poder e dele faço uso pra conseguir o que quero”. Os sujeitos são estimulados a fazerem mais sexo, ao ponto de mentirem a freqüência nas pesquisas: “ dou duas sem tirar”, “eu tenho cinco orgasmos múltiplos”. Não pega bem dizer que gosta de sexo no escuro, aquela coisa ao som de Barry White. Ninguém gosta de ser considerado morno sexualmente porque morno não mela calcinha nem levanta pau. A coisa precisa pegar fogo.

E pode pegar de várias maneiras, depende do que você busca e com quem se relaciona. Não há sexo desinteressado se feito além de dois integrantes, veja bem, se quero sexo só comigo, me masturbo. Quando estimulo outro corpo além do meu (de forma consentida é óbvio), tocando, lambendo, chupando e beijando estou pensando no outro. Gosto de ver a cara contorcendo ao gozar, é uma massagem no ego, faz bem. Aí as relações de poder ficam complicadas de discernir, ou como alguns preferem, mais fluidas. No sexo oral, por exemplo, quando uma mulher chupa um homem a reação é “Ele está se dando bem, quem é chupado está no comando”, mas quando um homem chupa uma mulher dificilmente se diz: “Ela está no comando, ela está se dando bem”. Porventura não teria maior “controle” a boca que conduz movimentos ritmados? As mãos que deslizam e enrugam os dedos na umidade? Que estremecem pernas, arrepiam braços, produzem gemidos e a vontade de quase implorar para que aquilo não pare e dure por todo o sempre?

Essa dualidade (quem manda, quem obedece), é imprecisa. Se entregar abertamente demanda confiança plena, confiamos em quem está a nossa frente, confiamos em deixar o corpo soltar o que tiver de deixar sair no tempo que necessita. Ou seja, se gozo maravilhosamente é por permitir a mim e permitir-me ao outro. Se ele controla com a língua, eu controlo com os quadris e é de movimento que somos feitos. Somos corpo, dentro e fora do sexo, somos corpo e sentido. Sexo não é desinteressado também por outro motivo, nós buscamos capital. Sim, até os anarquistas. E que tipo de capital? Isso cada um dirá por si. Meu capital estético de interesse é um pouco fora do comum (eu digo um pouco, porque se Jennifer Lawrence quiser meu corpo nu é só ligar), mas claro que há uma série de características físicas que facilmente me fazem sucumbir. Também tenho interesse pelo tamanho do capital cultural aliado a sensibilidade, adora literatura? Musicais? É vegano e sabe cozinhar? Muitos pontinhos. Ainda por cima não bebe e não fuma? Por favor, mande currículo com foto. É, com foto. E quer saber? Mesmo com todos esses requisitos pode ser que não role a chamada química (menos com você, Jennifer, tenho certeza que daríamos certo).

“Não mostre o que tem na carteira,  mostre o que tem na cabeça”, “Cubra seus peitos e mostre sua personalidade, mulher”  é só um modo de dizer que não se faz tanta questão do que carregam na carteira, mas no coração, nas idéias, no tamanho do capital cultural. Na apropriação de uma cultura legítima e quem sabe até, ver o filme esloveno e a última animação da Pixar com o mesmo gosto e olhos embotados de lágrimas.

Fazer uma cirurgia plástica pra conseguir um homem rico que banque é se desvalorizar? É ser nada feminista? Bem, alguém que julgue esse tipo de capital importante precisa literalmente investir no corpo, com malhação, dieta balanceada, cirurgias e toda a parafernália possível, esse alguém, pode realmente julgar que estabilidade financeira é algo mais importante do que ser colunista da revista Piauí, Caros Amigos ou ganhar um Jabuti. E essas pessoas não são imbecis, elas não “sofrem de baixa auto estima”, elas não precisam ser ”iluminadas”. Uma patricinha, uma piriguete ou um rapaz gay que é bancado em troca de sexo não merecem desprezo. É muito fácil sentar a bunda e escrever usando vinte e dois teóricos sobre o assunto quando na vida isso não enche barriga. É totalmente diferente da prostituta que trabalha na rua com discriminação e o perigo da violência, mas mesmo assim, há uma aproximação: Não adianta oferecer curso de fazer bolsa em garrafa PET ou dar um livro teórico achando que isso afastará mulheres, travestis e transexuais desse mercado. É preciso ouvir, construir políticas públicas, lutar para que sejam respeitadas.

Os sujeitos tem o direito de ter acesso ao patrimônio intelectual da humanidade, mas julgar que trabalho ou o gosto por atividades ditas intelectuais são mais nobres que as do corpo, especialmente as que envolvem sexo como moeda de troca, é esquecer que sexo é interesse. Fazer sexo por interesse financeiro é apenas um dos vários tipos de capital (estético, cultural). Isso não nos transforma em um objeto, isso não é “contribuir para que não respeitem”, as pessoas tem o direito de buscar a forma que acharem mais conveniente de se sustentarem. “E quando essas mulheres começarem a ficar velhas? Não serão trocadas?”  pode ser que sim, pode ser que não. Igualmente, ser feminista ou ativista não impede que as pessoas pisem na bola, troquem parceiros, encontrem “alguém melhor”. Assim como o marido não tem poder sobre a esposa, a namorada não pode mandar na namorada, um cliente (ou um mantenedor) não pode bater em quem fez sexo com ele (ou quem dele depende economicamente). Não é porque há um contrato implícito e uma das partes tem um maior capital – ou prestígio – cultural, econômico, estético, que poderá ditar as regras sobre o corpo de quem está ao lado. Usar o sexo como moeda de troca não é se transformar em mercadoria e nem sempre é sintoma de vulnerabilidade econômica, muito embora, existam tais aproximações; além da evidente segregação de quem tem faz dessa a maior fonte de renda. Ao mesmo tempo em que é importante frisar que nada é neutro, é bom que saibamos que essa liberdade irrestrita e sem fronteiras simplesmente não existe.

Se o relacionamento é aberto ou fechado, se é papai e mamãe ou orgia, se é assim ou assado sempre há paredes de contenções, o mundo sempre nos supera, criam-se combinados, modos de entrar e sair, formas de convivência. Alguns tem muros maiores, outros menores. Não me cabe aqui gritar aos quatro ventos o quanto a minha água é mais limpa que a de meus vizinhos, o céu não tem cobertura e se chove me molho tanto quanto quem me lê.

27 abril, 2012

Nós

Enviado em Desejo às 8:15 pm por Deborah Sá

Não me falta teto, não me falta sangue
Não me falta tremor e gozo, não me falta corpo
Não me falta amor, não me falta o som das unhas no pêlo
Não me falta um gosto.
Sede ampla, sede aberta e desabrochada,
Sede úmida e tenra, como a manga em toda polpa
Sede líquido que desce por entre as pernas em torrente
Sejam nossas mãos entrelaçadas
Sejam os arranhões e as marcas nas ancas
Sejam seus sussurros em meu ouvido
Sejam rompantes das gargalhadas que escapam
Seja meu peso sobre o teu
Que o tempo seja uma categoria lá fora
Daquelas tantas que não nos cabem
E que sua língua me habite
Para quase todo sempre

27 janeiro, 2012

Que sejam

Enviado em Desejo às 10:30 am por Deborah Sá

Que sejam biscates, que sejam bichas luxuosas,
Que sejam saias minúsculas e sorrisos debochados
Que sejam sapatões de moicano e cabelos coloridos
Mulheres de cueca, homens de fio dental
Batom vermelho ornamentando vastos bigodes
Que sejam Poliamor, multiamor, multicolor
Que explodam faíscas de olhares fascinados.
Que sejam corpos e fluídos, sorrisos e gozos.
Que sejam descobertas e desabrochares
Que sejam o suor de alívio e o tremor de deleite.

Que sejam corpos de tons vívidos
Matizes sob o prisma de prateadas jóias.
Indevidos são os que se acometem com nosso alvoroço
Entorpecidos por despertarmos luxúria
Incorretos são os que pensam que assim somos por ansiarmos ódio
Por não nos “darmos respeito”.
Todos os que estão abaixo do sol merecem deferência
Discretos ou escancarados
Com a altivez de um trotar indomável
Nem acima, tampouco abaixo
Somos onde quer que transitemos, majestosos.

13 agosto, 2010

Até o percutir da porta

Enviado em Desejo às 3:03 pm por Deborah Sá

Resvale entre excessos,
Venha, tome entre suas mãos qualquer trecho
Tente, é maior do que pretende abarcar
Ouça, a música está alta e guitarras me excitam
Veja, a pouca distância de frontes unidas
Beijo. Coxas, costas e ventre
Lábios. Grandes, pequenos, concomitantes

16 junho, 2010

Electronic Renaissance

Enviado em Desejo às 2:02 pm por Deborah Sá

- Divirto-me ao buscar músicas que dizem por mim.
- Mesmo? E qual cantaria pra mim?
- The Wrong Girl, do Belle and Sebastian.
- E uma pra você? O que sente agora?
- My Body is a Cage.
- Por quê?
- Me sinto terrivelmente atraída por você.
- …
- E definitivamente não quero te machucar, alguém seria capaz de amar por inteiro? Quem me amaria tão complicada havendo pessoas simples e sorridentes? Quero amar sem culpa, te fazer gozar e sorrir. Diga… O que gosta? Não é efêmero, todo prazer é sincero, abro-me. Tocar seus cabelos, desabotoar sua camisa, contar quadrados em xadrez do seu pijama. Aprecio a forma do meu corpo em suas mãos.

21 maio, 2010

Invocação

Enviado em Desejo às 1:02 am por Deborah Sá

Desejo
Morto
Quais dos azulejos contam minhas lágrimas?
Estariam cansados de tantos ciclos?
Aceitariam que é da minha condição?

Por todas as Deusas, peço silêncio.

Barulhos não me deixam pensar
Na agonia inquieta de minhas pernas
Peço que este tempo seja breve.
Dormir para quem sabe ouvir própria voz?
Permitam-me Deusas!
Rasgar todas as tarjas dos corpos que me fazem sonhar.

Por todas as Deusas, peço prazer.

Para que através delas renasça
De seu poder consecutivo crescente
Em rija auréola de papilas gustativas

27 abril, 2010

Nesta mesa

Enviado em Desejo às 12:30 pm por Deborah Sá

Um abraço. Sei que pode ser bom para nós.
Meu corpo lateja e talvez possa sentir minhas costas suando
Olhos dentro dos seus a perguntar: Por que não nesta mesa?

Beije minha nuca agora, excessos fartos entre seus dedos,
Por que não nesta mesa?
Mordidas em teu corpo, por que não nesta mesa?
Tua língua agora, por que não nesta mesa?

Sou imensidão aos olhos constatada pela língua, vasta aos dedos.
Quem não sorri ao fartar-se?

9 abril, 2010

Por entre livros

Enviado em Desejo às 9:50 am por Deborah Sá

Por isso escrevo, é mais fácil de organizar os sentimentos.

E eu queria te tocar hoje, te tocar entre livros. Queria rir e conversar sobre aquele parágrafo, aquela estrofe oblíqua e dissimulada e entenderia porque muitos me descrevem assim. Entenderia a minha dor e nisto se calaria, eu queria te tocar esta noite.
Como um carinho, um afago e uma força. Queria sentir a textura de nossos corpos ainda vestidos transmitindo ondas de calor em silêncio. Queria por instantes de pulsão ouvir o seu sorriso, apertar o seu cabelo e beijar a sua boca. Queria cada pedaço, cada sentir, cada cheiro. E também queria é claro, ouvir suas unhas roçando nos meus pêlos. Eu queria sentir o meu próprio gosto quando me beijasse e um leve sabor do sangue da sua boca, lábios úmidos escorrendo em nossos tremores.

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