09.09.09

Chá das cinco

Enviado em Desabafos, Egotrip às 5:33 pm por Deborah Sá

Transfiro qualquer sentimento
Em gotas de chá também há lamento
Confundo tédio com sono e vontade de comer
A preguiça de um post com a vontade de viver

Meio termo nunca sei se senti
Enquanto o mate aumenta a angústia
A camomila me faz dormir

PS: Era exatamente esse tipo de coisa que eu escrevia no meu caderno/diário. Esses desabafos tão pequenos sempre me aliviaram.

08.17.09

Mutante

Enviado em Corpo, Crenças, Desabafos, Egotrip tagged , , , , , às 1:59 pm por Deborah Sá

Compartilhei aqui no blog grande parte da minha trajetória, a origem evangélica e outros percalços mais tortuosos, mas nunca mencionei “meus primeiros passos” fora desta “formação”.

Quando eu parei de estudar (aos 15) comecei a trabalhar com meu pai ajudando-o no suporte aos clientes (ele é analista de sistemas autônomo). Fiz um curso básico de HTML e de Clipper sendo que neste último descobri maneiras de fazer animações em formato “quadradão”. Eu gostava de desenhar e ler tirinhas, o professor se surpreendeu porque nunca nenhum aluno dele teve essa idéia. Infelizmente (?) não fiz backup e perdi as “preciosas” animações.

Nessa mesma época entrei em uma paranóia com a minha aparência (minha barriga era o alvo principal) e ia caminhando para o curso em um sol escaldante com os cabelos muito compridos, a saia marrom com desenhos na barra e uma blusinha laranja. Sempre bebendo muita água. Perdi 10 quilos rapidamente e os ganhei quase por completo. Pesava 78 quilos aos 15 anos com 1,64 de altura. Embora tenha ganhado muitos elogios pela modificação da silhueta, continuava triste. Sentia que a gordura me impedia de ser bonita e atraente. Até porque cansei de ouvir que não era feia, só era gordinha e tinha o rosto bonito. Então a associação imediata foi que a única coisa que me impedia nesses anos todos de ser considerada bonita, inteligente e agradável eram mesmo os meus pneuzinhos.

001

Certo dia eu peguei o caderno com as matérias do meu curso de Clipper e joguei todas fora, restando apenas algumas páginas em branco. Foi aí que eu comecei a escrever e ler o que escrevia, me analisando a partir dali. Percebi que isso me fazia muito bem, era uma conversa franca com minha consciência.

Passei a arriscar cada vez um pouco mais. A primeira mudança foi cortar o meu cabelo.

002Depois comecei a encurtar as minhas saias e passei a usar calças.

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E não sentia tanto medo de Deus assim…Resolvi que daria uma chance para um moço que parecia legal. Ele foi o meu primeiro namorado.
No dia do meu primeiro beijo (aos 17) estava em um SESC ao ar livre e durante o beijo senti uma coisa cair no meu braço. Era cocô de passarinho. Ele não tinha papel na bolsa que usava sempre a tiracolo. Eu também não, então a saída foi limpar com o ticket do SESC.

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No dia em que perdi a virgindade pensei que Deus ia me matar com um raio na cabeça. Só repetia: “A qualquer momento, a qualquer momento”. Ou que o ônibus ia bater e ficaria paraplégica. Dessas “pragas” que adoram rogar nas igrejas pra quem não “andava pelo caminho da justiça e da luz”.

Esse não era o véu que usava na igreja, é um encharpe que usei para foto

Esse não era o véu que usava na igreja, é um encharpe que usei para foto

Acabei relaxando e aproveitando aquele momento, mas ainda ia a igreja. No último dia que eu fui, o Cooperador disse na “Palavra”: “Se você não concorda com o que está aqui, vá embora! Deus não precisa de você!” E eu fui.

Foto atual

Foto atual

Com o tempo julguei que o melhor a fazer era romper com meu primeiro namorado. E assim o fiz. Nessa altura eu estava com mechas loiras no meu cabelo (nem tão) comprido.

Conheci mais alguns rapazes e entre eles estava o Yuri. [Que estou a 3 anos cheios de cumplicidade, risos, conchinhas e muito, muito diálogo. Ele não lê meu blog com muita freqüência mas se estiver lendo isso aqui, já sabe que te amo :) ]

Com o tempo fiz tudo o que sempre tive vontade de fazer: Cortei meu cabelo, pintei de vermelho, uso a roupa que quero na hora que quero, seja saia ou calça jeans, me tornei vegana e encontrei amigas maravilhosas que me aceitam como eu sou: Feminista, atéia, vegana, chorona e atrapalhada.

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Agradeço ao apoio dos meus familiares, do meu namorado, minhas amigas, o Wen Do e a União de Mulheres. Amo vocês.

06.26.09

A minha história de horror

Enviado em Desabafos tagged às 9:27 am por Deborah Sá

Já dizia a sábia Lola que toda mulher tem uma história de horror pra contar. E comigo não foi diferente.

A primeira vez que publiquei a minha história -na internet- foi em uma comunidade feminista dia 11/03/2009

“Talvez me arrependa de contar de maneira tão pública, mas sinto que enquanto todas as mulheres não sairem do armário e mostrarem o quanto o círculo de violência está perto, as notícias de abuso serão tão distantes que o alerta de quem sentiu parecerá uma banal paranóia.

Eu tinha 10 anos quando o padrasto (meu “vô”) assistia futebol com meu pai e um tio. Ele me chamou para deitar com ele, levantando o cobertor, meu pai pediu que eu fosse, eu fui porque não tinha malícia “e sempre fui retardada para essas coisas”.
Ao acordar ele passava a mão em mim, em pânico não abri os olhos e meu corpo duro de medo sem reação, dormi novamente. A situação se repetiu em outros dias, ele nunca fez ameaças verbais, mas o que eu faria? Diria: Ah não, não quero deitar! E se alguém desconfiasse?
Eu ia, até porque alguém dizia “Vá lá, deitar com o vô”. Ele chamava, os outros pediam e tudo se repetia.
Os minutos eram eternos e ninguém via quando acontecia, não sei se ele esperava alguém sair da sala pra fazer, até porque eu nunca abria os olhos até ele terminar. Mexer o corpo era pior, ele mudava “o foco”. Nunca ouve pênis, só mão.
Eu temia que meu pai o matasse, eu temia que ele fizesse algo com minha irmã, eu temia que a minha família acabasse.
Mas contei pra minha mãe. Ela falou que nem eu nem minha irmã deveríamos voltar pra lá. Ele e minha vó moravam no quintal de casa.

Depois de pouco tempo (uma semana acho), ele morreu.

Eu me culpei pois usava shorts na época, tinha as pernas grossas e tal. Mas vejo que isso era besteira. Tudo foi feito em silêncio o que a minha imaginação fez concreto em um grande temor. A religião me fez ter nojo do meu corpo “pecaminoso” e o círculo escolar social fez eu me envergonhar dele. Era gorda, triste, com o sexo vergonhoso e o destino traçado por penitências de pecados imaginários.

Ao escrever em um caderno me analisei e fui me libertando. Com a ajuda do Yuri (namorado), consegui tornar isso mais público. Só contei pro meu pai ano passado (tenho 22 anos agora).

Às vezes ainda sinto medo do nada, ás vezes me sinto impotente e perseguida, ás vezes sinto que meu corpo é morto, que minha apatia é reflexo da minha inutilidade no mundo. Ás vezes me sinto um lixo e a culpa não é só do meu vô. É do modo que cresci, do modo que esmagaram a minha auto-estima e do modo que o terror psicológico me segue, como se eu nunca fosse só, como se a todo minuto alguém fosse me “pegar”. Sentir medo de algo que só você “vê”, parece patético, mas é frustrante.”

Update: Do modo que escrevi parece que “tudo” durou uma semana, demorou mais de um mês pra que eu contasse pra minha mãe, “isso” acontecia umas duas vezes por semana. Ele morreu uma semana depois que eu contei.

06.15.09

Humilhação Escolar

Enviado em Corpo, Desabafos, Egotrip tagged , , às 4:08 pm por Deborah Sá

Nunca fui de muitos amigos, tive alguns colegas de classe é verdade. Mas esse sentimento profundo de amizade é mais freqüente agora do que no meu passado.
É tão estranho que nas fotos dos álbuns do Orkut de quem estudei estamparem tantos sorrisos. Parece mesmo que vivi em um mundo separado deles. Quando encontro alguém “daqueles tempos”, costumam dizer: “Ah…bons tempos do colégio…”

Minha vontade é dizer: “Bons tempos pra quem cara pálida?”
Não culpo aqueles que pareciam se importar, a meia dúzia de gatos pingados que sentava pra conversar comigo. Eu não sabia como me abrir, era algo fora de questão, além do meu alcance.
Culpo principalmente a direção da escola. E esta escola é o Carlos Ayres.

Carlos Ayres – Anos 90

Foi a escola onde as provocações tronaram-se maiores, gerando muita tensão. Sim, é verdade que as provocações, humilhações e apelidos vieram de outros lugares também: A minha rua, minha casa, a igreja…
Mas o Carlos Ayres é uma instituição e deveria zelar pelo bem-estar dos alunos. E falhou miseravelmente no meu caso. E isto tem de ser publicado:

Entrei nesta escola na 5ª série e saí na 8ª.
Praticamente todo ano tinha “um garoto perseguidor”, ele me seguia e também outras meninas até o ponto de ônibus fazendo provocações. Ocorria durante todo o ano letivo.

Na oitava série eu tive um dos piores anos da minha vida. Aos 15 anos.
Não era estimulada ao estudo, sempre sentia que aprendia mais fora da escola com minhas leituras do que dentro dela.
Em um dia comum, estávamos eu e a Ana Cláudia copiando o final da matéria da lousa e o sinal do intervalo foi acionado. Todos saíram da sala, com exceção de nós duas, em pouco tempo a porta da sala bate. Ouvimos risadas.

O Dênis e o Danilo nos trancaram na sala. Eles do lado de fora enquanto faziam provocações e riam da nossa cara. Ao lado da sala havia mato e a Merendeira tinha posto fogo ali há pouco tempo. Logo a sala estava cheia de fumaça, a Ana Cláudia bateu na porta e pedia pra sair, eu só abaixei a cabeça na carteira e senti vergonha.
Assim que o sinal foi acionado indicando o fim do intervalo, uma mulher da secretaria abriu a porta:
- O que vocês duas estão fazendo aqui? Vão ter que se explicar!
-Silêncio-
Ana Cláudia: – Foi o Dênis e o Danilo! Roubaram a chave da professora e trancaram a gente aqui!
Eu: -Balancei a cabeça concordando-

Os alunos entraram. As aulas continuaram e em poucos minutos o Dênis e o Danilo voltaram rodando os cadernos no indicador com pose de malandro e rindo. Nada aconteceu com eles.

Tempos depois estava estudando e senti algo no meu cabelo: -na época era comprido- chiclete babado. Corri chorando no banheiro, arranquei com raiva o tufo do meu cabelo. O ódio era maior que a dor do pedaço arrancado. Voltei correndo, deitei os braços na mesa e escondi meu rosto envergonhado. Em pouco tempo o Alex veio me perguntar quem tinha feito isso. Eu não sabia, ele impositivo fez questão de saber quem foi e “espremeu” o pessoal da sala.
O culpado era o Amaral. Um garoto que parecia o jogador de futebol e por isso tinha esse apelido. O Alex o levou até a minha mesa e fez ele se desculpar.
- Pede desculpas pra ela!
- …
- Pede desculpas pra ela!
- De…desculpa
- Meu, por que você fez isso comigo? Eu não mexo com a vida de ninguém! Fico quieta o tempo todo!
- Me mandaram…
- Ah! Mandaram? E você não tem personalidade não? Só faz o que te mandam?
A sala fez “Vixeeeeeeeeeeeeeeee” e aquela barulheira coletiva.

Outra vez saí no pátio e um monte de gente que nunca vi, me perseguiu com garrafinhas com “água” e me molharam. Ao chegar na secretaria e contar, a mulher riu da minha cara.

Outra vez uma “colega” desenhou isso na lousa:

Todos riram

Todos riram

Agradeço aos alunos que tentaram fazer o que a direção do Carlos Ayres mostrou-se negligente:

* Marcelo: Um rapaz alto, mais velho que segurava o Davi na saída, pra que eu ganhasse tempo e ir pro ponto de ônibus em paz.
* Alex: Um rapaz mais baixo que eu e com muito mais coragem.

[Depois da oitava série parei de estudar. Terminei anos depois o ensino médio com supletivo, em outra escola]

02.12.09

A Culpa

Enviado em Desabafos às 10:52 am por Deborah Sá

(essa é uma reflexão depois do post que fiz ontem)

É de se pensar no que torna uma violação e como isto é relativo pra muitas pessoas. Eu condeno um homem que viola uma mulher não importa se é um distúrbio, uma “recaída da carne”, uma busca por provar que é macho ou qualquer outra “motivação”. Se ele não matou a moça, ela não se torna sortuda! “Ah, sorte sua que ele não te matou”. Duvidam muito que um homem bonito seja um estuprador já que há uma associação entre beleza e disponibilidade de pretendentes ávidas. Imagino o quão doloroso é para uma moça “feia” ser estuprada, há quem acredite que ela devia se envaidecer já que alguém demonstrou desejo por ela, ou simplesmente, não acreditam no relato (!).

É incrível como culpam a vítima, ao ponto de sentirem pena do agressor: “É coisa de amor”, “Ela que estava bêbada sabia do risco”, “A roupa era provocante”, “A ocasião faz o ladrão”.

Até que ponto somos inocentes? A culpa é nossa quando “cumprimos ordens”? De um superior? Dos nossos pais, chefes, líderes religiosos? É necessário quebrar certos elos hierárquicos em nome dos próprios princípios?

Em Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (filme lindo *-*), o personagem do Jim Carrey quando criança mata um passarinho graças a pressão de alguns colegas. Ele chora.

E eu já passei por algumas situações difíceis também, cedi à pressão e fui contra meus princípios algumas vezes no passado. Seja em um altruísmo martirizante onde me entreguei para “salvar” outros que eu julgava em perigo. Seja “cumprindo ordens”.

Hoje me sinto uma idiota por não ter revidado mais vezes, por ter tanto medo e covardia e não ter gritado, brigado, sido expulsa ou o que for. E o duro é que mesmo chorando, julgava ser destino, desígnio de Deus e assim me sujeitei aos desejos de outros.

Não me expressaram claramente ameaças, apenas o silêncio somado ao medo fazia com que eu imaginasse punições ainda mais graves a minha alma. As minhas grandes feridas nunca foram expostas, elas sempre estiveram na minha cabeça e talvez por isso há quem diga que são pequenas ou inexistentes. Não há marcas em meu corpo.

12.01.08

Such a silly girl

Enviado em Animais, Cotidiano, Desabafos tagged às 9:23 am por Deborah Sá

Hoje enquanto eu ouvia “Te First of the gang to die” o ônibus brecou bruscamente. Parei a música, muitos ficaram apreensivos dentro do ônibus, mas a grande maioria mostrou impaciência pois ao que tudo indicava, ocorrera um atropelamento.

Eu fiquei apenas curiosa, já que não era a primeira vez que o ônibus que eu estava, batia em alguém…

O ônibus acelerou lentamente, e eu que estava em um dos últimos bancos vi passar devagar um senhor que arrastava um Schnauzer preto pela coleira peitoral. Fiquei sem ação.

O cão mexia a cabeça ainda, parecia bem assustado e suas patas dianteiras não mexiam.

Os comentários que ouvi foram os mais variados possíveis:

- Só um cachorro

- É de madame não sabe andar.

- Se fosse pequeno ia voar…uahahha

- Tadinho…

 

E eu fiquei com a maior cara de tacho. Sabe aquela grande sensação de impotência? Merda de mundo…se fosse um humano, o motorista pararia, por obrigação…e os passageiros desceriam do ônibus. Mas um cão? Oras! Iam ficar completamente ultrajados de ter o percurso de sua viagem interrompido por um reles cão.

 

Para os animais, todos os humanos são nazistas.

 

Um pouco adiante, passei em frente ao memorial que construíram para as vítimas do acidente da TAM. Havia a seguinte faixa: “Queremos respeito com a vida humana”.

Para continuarmos vivos só podemos ser duas coisas: Ou sádicos ou masoquistas. Mas creio que ambos.

 

Dói-me o peito ver estas situações e me sinto frustrada por não mudá-las. Não tenho nome famoso, fama, dinheiro…o que me aproxima de fato da grande maioria das pessoas. Me sinto em plena era da escravidão, como se andasse por uma cidade em ruínas, mas que maquia e vende sonhos para desesperados compradores.

Pés descalços e manchados,somados a miséria nos rostos debochados, na terra que não é minha, mas é território dos que calejados tentam me assaltar. Eu não quero carregar o mundo nas costas, queria livrar o mundo da dor. Mas talvez sejamos apenas animais carniceiros e cínicos.

Todo mundo adora ver nos filmes, aqueles que lutavam contra o nazismo, os que cospem na cara de seus algozes, ou ainda quando um legítimo filho de nazista, luta frente a frente com seus familiares. Todo mundo acha a coisa mais maravilhosa. E hoje é exagerado tacar farinha na madame que anda de casaco, quem sabe no futuro serão os heróis?

Buzinas, confetes, megafones e amplificadores em minhas orelhas, claro que não posso me manifestar, sou autoritária se o faço.

As minhas lutas são silenciosas, pois não me é dado o direito de gritar. Às vezes me revolta, e às vezes esta revolta me deixa sem ação, até quando agüentaremos a castração em massa, de quem vai contra a massa?

11.14.08

Depilar

Enviado em Desabafos, Questão de Gênero tagged , , às 3:34 pm por Deborah Sá

O intuito deste blog é registrar e expressar a minha visão do mundo. Isto me faz muito bem, mas certas vezes me pergunto se esta não é uma maneira pública demais…ou talvez por ser mulher fui ensinada a me conter e ser o mais discreta possível.

 

O fato que pretendo expor é delicado. Delicado pois é íntimo, íntimo pois se trata do meu corpo, e do corpo de outras mulheres sem voz. E eu canso sabe? Sinto como se eu passasse muito tempo da minha vida em silêncio. É óbvio que eu falo muito, mas a maior parte do tempo, falei da impressão que o mundo me causa, pouco de como sou internamente.

E essa fase que vivo é esta de inquietação, de vontade de gritar, rir, chorar e sentir tesão. Às vezes em combos explosivos.

Eu detesto a minha mania de justificar. Como se eu precisasse sempre pedir desculpas pelo o que sou.

E este post é sobre depilação.

Mas o que é essa tal depilação? Oras, todo mundo sabe que até homens se depilam. Mas a cobrança feminina é compulsiva, têm mulher que passa gilete todos os dias. E porque elas fazem isto?

Depilar é uma imposição. Há várias notícias de famosas que foram flagradas com suas axilas peludas, pronto, são “desleixadas”, “porcas”…

É inconcebível para a maioria das pessoas que uma mulher se sinta sexualmente atraente com seus pêlos. Acreditem, é possível.

Certa vez li em uma comunidade:

“A maioria das mulheres que cobram a depilação aceitam um homem das bolas bem peludas entrando nelas”. Fato.

 

Vejo muitos depoimentos, reportagens e mulheres que me dizem: “Eu fico X dias sem fazer quando estou solteira”. Então muitos afirmam, que com “auto-estima” qualquer mulher se “cuida”.

 

O que é cuidar de si? E se amar?

Só é possível se amar quando se torna sem gosto? “Limpa”?

É completamente inusitado que outros digam como é que devo amar meu próprio corpo. Que só quando eu for atraente para “eles” o serei pra mim.

 

Questão higiênica? Quantos homens que não se depilam e são cheirosos? Então alguém aí pode dizer: “Ninguém vai te bater por que é peluda”. Falo por mim e muitas (mas não todas, obviamente) mulheres:

 

Não queremos nos depilar, se depilamos é pra não ser chacota, humilhação pública, é nossa letra escarlate. Não podemos gostar de nossas bucetas, de nossas formas e nosso próprio gosto. E quando nosso corpo denuncia sua forma, temos de fingir nossa eterna juventude, pêlos não existem em crianças. Nem em nossos corpos. Cortamos, queimamos, sangramos por este ideal. Ser limpa, ser pura, virginal. Nossa sexualidade é vigiada, muitas vezes contestada. E o ritual depilatório é passado de geração em geração, como o papai que leva o filhão pro puteiro, a mamãe ensina o quando o sexo é feio.

 

Tá, pode não ser a mãe que ensina, pode ser uma coleguinha ou tia também. Porque se elas passaram, você tem que ser assim também. E ai de você se discordar! Aliás, é piloto automático não? Oras, se minha mãe, e todas as mulheres que eu conheço depilam…nada mais natural do que eu o fazer certo? “Coisa de mulher”. E neste discurso que só tem dois lados, quando não se faz coisa de mulher é coisa de quê? De homem? Ou sapatão, que na cabeça de muita gente “é querer ser homem”.

 

Eu nasci no tempo errado, ou quem sabe no tempo exato pra esfregar na cara desse bando de conservador que eles vão ter de me aceitar.

“Se camufle pra evitar conflitos”. Aham…se eu e toda mulher tiver medo de agir, quando é que as coisas mudam? São sempre uns “malucos” que chocam, pra depois ajudar quem quer se libertar também tomar coragem.

 

Pelo amor ao seu corpo, liberte-o.

11.06.08

O que Jesus faria em meu lugar?

Enviado em Animais, Cotidiano, Crenças, Desabafos tagged , , às 7:59 pm por Deborah Sá

Essa é uma colocação que muitos adoram fazer. Acham horrenda a história da crucificação de Cristo. “Deus mandou seu único filho para o sacrifício de nossas almas”.

Hoje passei em frente a uma casa, tinha um lindo labrador marrom de olhos claros. Já havia o afagado outras vezes, fiz o mesmo. A alguns metros dali havia outro cão. Este, era preto, e seu pêlo era médio e embaraçado. A cada passante, o seu rabo balançava, na esperança de um pouco de atenção. Aproximei-me. Ele abanou o rabo (a pontinha era branca). Seu pêlo era um pouco duro, seus olhos castanhos e dóceis. Enquanto ganhava carinho, abria as perninhas deitado de lado. Como se mostrasse a pata traseira pra mim.

Quando me afastei olhei pra trás. A patinha traseira que ele levantava na verdade estava machucada. Ele mancava e saiu pulando. Perdido, sozinho. E ninguém se importava com ele.

Eu quis chorar, na verdade, choro agora.

O trânsito foi muito longo, e enquanto eu ouvia Belle & Sebastian (que combina magistralmente com a garoa e a cidade), pensei na frase que deu título a este post.

E o que Jesus faria em meu lugar?

Eu não sei…mas o que faria um cão no meu lugar?

Os animais são grandes mártires. Muito mais resistentes em vários aspectos. Quando eu me corto, reclamo de dor. E quantos cães machucados eu não vejo todos os dias? Quantos não mancam e irreversivelmente tem sua mobilidade reduzida?

Passando por um caminhão, vi homens fortes na janelinha, eles estavam espremidos. E quantos animais não estavam em situações muito piores que aquela?

Quantas vezes eu passo em frente a granjas, todos de crista caída, imóveis, vejo as donas de casa com suas saias até o joelho, estampas floridas e dinheiro amassado na mão. Quase sempre é um chinês. E há uma horrenda janelinha onde provavelmente se vê a morte.

Deus mandou seu filho? Pra morrer pelos nossos pecados? Poderia cessar então, já que milhares de animais morrem todos os dias para saciar nosso costume e paladar. Isso é bem menos nobre bem mais vergonhoso.

Jesus virou vitela? Não, ele já tinha 33 anos. Se fosse abatido teria antes de estar bem gordo. Sua mãe, de tetas doloridas sangrando, dando além de sua capacidade. Ao final de sua vida “produtiva”, ela viraria um ingrediente de uma lanchonete qualquer, com um brinde em caixinha colorida. Uma vaquinha sorridente no brinde do mês? Cairia bem…muitas caixinhas de leite o fazem. Entregando a um estranho mais um mártir.

Você adora o seu Deus? Você adora Maria? Vá em frente.

Eu prefiro admirar a vaca. Ela dá seu leite, não por escolha, mas pela falta dela. A cada término de gestação, se vai o filho. Diria ela: “Perdoai, eles não sabem o que fazem?”.

09.22.08

Eu, radical.

Enviado em Animais, Cotidiano, Crenças, Desabafos, Questão de Gênero tagged , , às 1:45 pm por Deborah Sá

Em minha vida pessoal e virtual, sou taxada de adjetivos que são ofensivos para a maioria das pessoas. E a minha reflexão leva a crer que são grandes elogios, haja vista quem os diz.

 

Ser radical, é ser radicalmente contra determinada ação, postura ou hábito. O que parece de difícil compreensão a maioria das pessoas é que quando todos concordam, o argumento não se torna inquestionável. Muitas idéias hoje vistas como absurdas, eram perfeitamente aceitas no passado. “Como pode? Escravidão de negros, que absurdo…”

 

E os que pensam diferente o que ganham por aqui? A fama de loucos, tontos, fanáticos. Mas os outros em suas certezas nunca são fanáticos…

Eles são normais. Quando os fanatismos alheios têm muitos adeptos, estão corretos. “Como pode tanta gente estar “errada”"? A voz da massa é a voz de Deus?

Basta a maioria acreditar em Deus e ele existe? O senso comum é portador da verdade?

Imagine por um instante algo que você é radicalmente contra (aborto, estupro, infanticídio…). Como seria aceitar que a maioria das pessoas do mundo fosse a favor? Que em festas familiares, mídia, trabalho e etc as pessoas se divertissem ao contar o quanto é banal cometer tais atos. E quando você se manifestasse falassem:

-Credo que radical, é só uma fodinha (no caso do estupro), eu tenho muitos vídeos que comprovam que mulheres/crianças gostam disso mesmo que inconscientemente, tem a lei de tal parágrafo que permite isso…você acha que as leis aprovariam atos repressores?

 

 

Ao se manifestar você é taxado de opressor, sendo que coagido a manter silêncio, variavelmente não consegue se segurar depois de ouvir tantas “pérolas”, eles sim, eles podem falar o quanto querem, pois são protegidos e fortificados na certeza de que a maioria das pessoas está ao seu lado. Em seus argumentos ponderados e medianos são ovacionados.

 

Os tomates quase podres dão um bom molho.