5 fevereiro, 2013

O pastor da dominância pelo grito

Enviado em Crenças tagged às 11:17 pm por Deborah Sá

Nem em meus tempos de cristandade gostava desse tipo de pregação e oratória. Por certo muitos preferem e acham louvável uma liderança masculina que fala aos berros, que não abre espaço pro diálogo. Basta ver a entrevista no De Frente com Gabi dessa semana, se ela não interrompesse o pastor durante suas falas ele continuaria o monólogo. Uma pessoa que não aprendeu a ouvir não respeita a dialética, não é ponderada ou sensata, está absorta em sua própria torrente de egolatria. De igual modo apresentadores sensacionalistas são populares, é a afetação masculina de terno e gravata. Se uma mulher se porta assim (mesmo que usando louboutin) é tida como “sem classe”, espalhafatosa. Um homem no molde colérico ganha um BBB, vira líder, tem fama de polêmico e supostamente tem o poder de persuasão. O que é um equívoco, esses líderes não persuadem, eles metem medo, eles coagem. Um discurso cristão que afirma que Deus manda para o inferno quem não o ama é uma pronúncia de medo e dominação, de posse. “Se você me abandonar  mando te torturar”.  Nessa lógica cristã de rolo compressor Deus não suja as mãos mas manda seu parceiro, o Diabo, fazer o trabalho sujo no porão de tortura chamado inferno. Eu já amei a Deus mais do que amei minha própria vida, ao ponto de silenciar meus desejos, ao ponto de pedir a ele com todo coração que se fosse pra perder minha fé, que me levasse antes. A fé se foi aos poucos e tive medo de raios na cabeça, perdas na família, castigos eternos e terrenos, de pesares e angústias. Hoje além de gozar das delícias da coerência entre consciência e prática, não acredito em nada além desse plano terrestre, em vidas vindouras, em espíritos, anjos ou demônios. Mas creio que se Jesus caminhasse por entre as ruas ele estaria com os excluídos, os de cabelos coloridos e black power, fazendo rimas de rap e grafitando paredes, com as putas, com os viados, com as lésbicas, com transexuais e travestis. Ele defenderia o amor. Ele pegaria ônibus ou dormiria em um papelão com os pés sujos para fora. Ele defenderia justiça e igualdade social para humanos e também para os animais. Sobretudo creio que se Jesus estivesse entre nós, não comungaria entre os endinheirados, engravatados, arrogantes, tirânicos, tampouco com os que usam o seu nome para deferir maldições.

10 janeiro, 2013

Estar sóbria e sã me faz consciente para o que é sublime e material

Enviado em Crenças tagged às 10:49 am por Deborah Sá

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Life of Pi é o primeiro filme comercial que tem como protagonista um não-branco vegetariano.  Aborda a espiritualidade de modo não convencional e profundamente respeitoso, tarefa difícil quando maioria das obras culturais recentes (e alguns cristãos) falam de fé como um rolo compressor. Essa fé pode ser exatamente como o capitalismo: Predatória, agressiva, colonizadora, esmagadora. Ao sair do cinema foi impossível não repensar minha relação com a transcendência, os animais e a própria espiritualidade. Meu ancião preferido na igreja era um veterinário de profissão. Lembro de uma exortação onde defendia que os animais não eram desprovidos de alma e que da sua forma, louvavam a Deus. No canto das baleias, no vôo dos pássaros, cada um deles entregava a Deus um tributo e ao morrerem, tal qual o corpo material seu espírito não-humano fenecia. Foi esse mesmo ancião que conduziu meu batismo anos mais tarde. Não acreditava que minha alma fosse mais ou menos nobre do que a de um cavalo ou pássaro. Se havia algo de divino em mim certamente havia neles, pois era perceptível nos olhos miúdos de um roedor que brilhava a mesma matéria da qual eu era feita. A poeira de estrelas, o universo na boca de Krishna. Ao pôr em foco os olhos de um animal não enxergava apenas um pedaço de mim mesma, uma expectativa ou projeção, via outro ser que poderia ou não, me amar de volta. Qual a relevância se os animais são capazes de pensar como nós, humanos? Ou ainda, se são capazes de amar na mesma intensidade que amamos? A realidade é que jamais poderemos mensurar do que e como são ocupados espíritos e entranhas, mesmo em nossos pares em espécie.

Não encontrei a transcendência dentro da religião (e olha que estive muito tempo dentro dela). Buscava amparo e amor, encontrei o medo e a culpa. As vezes em que experimentei um deslocamento entre mente e corpo foram em crises de ansiedade. Começava por uma angústia, seguida por suor, cabeça quente (sensação de ebulição), a visão desfocava, as pernas e braços desobedeciam, estava presa em um corpo rijo e desobediente em um alerta de perigo e terror. Busquei técnicas que me trouxessem de volta para a realidade, a primeira delas consistia em me concentrar e movimentar cada parte do corpo: Os dedos do pé, girar os calcanhares em movimentos circulares para dentro e para fora, continuar com os joelhos, os quadris e subir calmamente até a cabeça. Aprendi com a Yoga. A segunda maneira, conforme instruiu um psicólogo, era em fechar a mão em concha e dar leves batidinhas nos braços e pernas. Havia uma expressão na igreja que era “estar na carne”, que significa fingir a manifestação do espírito santo quando o que se diz e movimenta vem do próprio sujeito, usando o nome de Deus em vão, uma blasfêmia. A meu ver, não há meio de sair de nossos corpos e a pior das blasfêmias é o ódio, a agressão descabida sob os mais fracos, o berro. Os líderes religiosos que gritavam no púlpito e nos canais de TV da madrugada vociferando profecias de enxofre e ranger de dentes eram prepotentes, mesquinhos, sem qualquer elevação espiritual e sádicos. O medo do inferno e de Deus durou até eu perceber o quanto esse discurso de ódio não condizia com minha filosofia de vida. Abandonar a existência de Deus e consequentemente a crença na possibilidade de sua intervenção no curso da vida não impediu o contato com o sublime, a contemplação e a sensibilidade holística. Nas orações cristãs que antecedem refeições os presentes agradecem a Deus pelo alimento e saúde dos humanos, a gratidão nunca se dirige ao alimento, aos campos por serem férteis, a chuva pelo nutrir da terra, ao sacrifício do animal que jaz em pedaços. Talvez essa atitude seja explicada devido ao fato de que o respeito pela terra e a conexão com os animais sejam traços da fé não ocidental e de religiões pagãs. Na interpretação de muitos líderes cristãos, o que nos cerca pode ser tomado sem pedir licença, sendo o mundo um reino deixado pela divindade única que nos coroou como seus herdeiros para exercer domínio sob “inferiores” (não agraciados pelo sopro de vida do Criador).

Os momentos mais sublimes que tenho recordação são aqueles que estive diante de acontecimentos embebidos de beleza material. Como no dia em que cansada de uma rotina de trabalho desci do ônibus porque perto do parque vi um caminhão de morangos. Comprei uma caixa, me sentei na grama e com o sol se pondo comi com a visão de um céu alaranjado riscado de azul. Ou ainda, no dia quente em que após dar um banho de mangueira no Snoopy, com uma toalha em um dos ombros e ele nos braços, subi até a laje da minha avó e lá de cima avistei o céu muito azul. Com aquela sensação de formigamento que os raios solares fazem levantar na pele, estiquei a toalha no chão cinza, deitei e fiquei a deixar o sol bater enquanto o cão se sacudia e lambia meu rosto fazendo rir. Quando ele cansou, sentou sob duas patas e olhou para o horizonte com a ponta das orelhas ainda molhadas enquanto eu o observava em sua anatomia altiva e ensolarada. Senti que aquele era um momento de estímulos sensoriais variados, contemplação, que aquilo, era estar viva. Essas experiências não transcendem a matéria mas elevavam o espírito, portanto são sublimes muito embora não sejam místicas. Se não há qualquer garantia de que outros mundos ou dimensões nos aguardam após a morte, o que pode nos dar mais esperança do que a torrente sensorial e prazerosa que dispomos? Se essa é a derradeira jornada por que desperdiçá-la em dissabores e egoísmo? Estar diante das estrelas e reconhecer a pequeneza diante do universo em nossa fugaz existência com tudo o que coexiste nesse tempo breve, é uma dádiva. E no dia em que meu espírito repousar nos átomos que dançam pelos ares juntar-me-ei com toda a matéria que um dia foi tão ou menos sólida que meu peito.

14 setembro, 2010

A produção do conhecimento na Religião

Enviado em Crenças tagged , às 5:53 pm por Deborah Sá

Além da Congregação Cristã no Brasil (CCB) outras denominações assumem um formato passivo de experimentar a fé. Resumindo-se ao escutar as pregações @ fiel recebe os ensinamentos sem qualquer questionamento.

É preciso estudar a Bíblia para ter fé?

Qualquer crença ou ideologia não precisa de embasamento teórico para prática, em especial as religiões que valorizam a experimentação física e “espiritual” como comprovação da Cristandade.

O silêncio e concentração conjunta (“comunhão”) podem ser experimentados em meios seculares tendo como expoente mais próximo concertos de música: Mãos para cima, emoção elevada, identificação e representatividade.

A Bíblia usa de vocabulário rebuscado em parábolas livres de interpretação e seus pregadores em grande parte, não incentivam os ouvintes a múltiplos entendimentos desta leitura. Mas para refutar argumentações contrárias (portanto teóricas) não seria útil a compreensão do que é incumbido de diretriz moral?

Na igreja que eu freqüentava a escrita nunca era estimulada

Redigir os sentimentos permite o autoconhecimento e para tanto não é necessário uma gramática impecável, o estilo individual imprime nossa historicidade, estilo e forma estilística. Entristece-me que muit@s tenham vergonha de tornar pública sua escrita, por não “escrever direito” ou “fazer sentido”. Escrever é como compor uma música e o direcionamento das frases fazem um conjunto harmonioso para aquele que torna concreto o que ecoava dentro de si.

Quando é possível questionar?

Para elucidar questões pendentes após o término dos cultos, era possível dirigir-se ao Cooperador/Ancião. Por “Congregar” em regiões periféricas da cidade convivi com pessoas de pouquíssima “instrução” que depositavam toda a interpretação bíblica na “Via Direta” que se manifestava nos púlpitos.

A humildade cristã inibe a possibilidade de interpelar esse discurso já que @ fiel julga este ato um indício claro de sua falta de fé. A não “implementação” de reivindicações nas doutrinas intransigentes explica a proliferação constante de novas igrejas.

Pregadores são conscientes de sua importância no alívio a um povo cansado e ansioso por diretrizes e do controle social que exercem (fazendo do seu cargo um trampolim megalomaníaco).

26 abril, 2010

Sacrifício de Animais em Rituais Religiosos

Enviado em Crenças tagged às 2:26 pm por Deborah Sá

É praticamente consenso ser contra o sacrifício de animais em rituais das religiões afro-brasileiras.

Esta quase unanimidade deve-se ao forte preconceito que estas religiões despertam na maioria das pessoas. Na minha quarta série havia uma garota umbandista e eu era uma das únicas a não temer conviver ao seu lado “Eu não, ela é macumbeira” – diziam os alunos.

Evangélicos e católicos (em geral, espíritas são mais esclarecidos) pregam o medo ao desconhecido associando os Orixás a algo extremamente nocivo, sem ao menos sugerir uma pesquisa para melhor compreensão das múltiplas formas de fé.

Tupã ou Iansã?

Negras e índias são vistas como “serviçais” enquanto ao índio e o negro são chamados de “preguiçosos”, a fé professada por quem colonizou é a norma. Os ritos são vistos com desdém por quem dança “na presença do espírito santo”, quem não conhece alguém que teve medo de passar ao lado de um despacho?

Construiu-se esta imagem d@ negr@ mal intencionad@ que por uma oferta de sangue alcança seu pedido “não civilizado”, “brutal” e “bizarro”. Este preconceito racial fica ainda mais evidente quando classificam em “Magia Negra” e “Magia Branca”.

Criar/comprar uma galinha e matar para um Orixá é crueldade?
Comer canja é justificável sob qual ótica?
É mais fácil lutar contra a prática de uma religião que sempre foi vista como “selvagem” que admitir a manutenção de uma indústria da exploração humana e animal: A pecuária.

Na cantina da sua igreja vende coxinha?

16 abril, 2010

Escutei outra versão na igreja

Enviado em Crenças às 5:42 pm por Deborah Sá

Nela, a moça escondia dos colegas da faculdade que era evangélica e só ia de calça. O desfecho é o mesmo do vídeo.
Lógico que não em ritmo de forró, mas sim em um testemunho:

Meu passado evangélico aqui.

17 dezembro, 2009

Mais uma pessoa tenta me converter

Enviado em Cotidiano, Crenças tagged às 10:45 am por Deborah Sá

Ontem resolvi cortar o cabelo, já que o dito cresce em uma velocidade impressionante. Enquanto esperava me divertia com o livro Deus um Delírio do Richard Dawkins (meu presente do Dia das Crianças), a mulher terminava de fazer chapinha em uma ruiva de farmácia, a moça foi acompanhada do namorado que tirava sarro dela, enquanto ficava visivelmente insegura.

Terminada a chapinha a mulher lavou meu cabelo (adoro massagem na cabeça), ouvi o rapaz rindo e a cabeleireira perguntou:
“Não gostou não?”. Sentei na cadeira e ela me disse:
- Não entendo! Uma moça bonita daquela, namorando um moleque que ri da cara dela.
- É, eu não agüento essas coisas não, tem que mandar se lascar
- Você descoloriu seu cabelo?
- Não, tingi várias vezes até pegar o tom que quero, aliás, preciso tingir novamente, tá amarelando… E você já usou muitas cores?
- Já, até raspei, a melhor coisa que já fiz na vida, mas não pode ligar para o que falam.
- E corta cabelo há muito tempo?
- Por que pergunta?
- Sempre pergunto para as pessoas como elas começaram na profissão, se gostam do que fazem…
- [Imaginem o máximo de tom místico pra contar a história] Ah, a história é muito confusa, é muito longa, você não vai entender…
- Desculpe. Se não quiser, não precisa contar.
- Eu era casada, e eu fui até uma pessoa… Falou que eu tinha que procurar uma profissão, ia passar por um período difícil e precisava me arranjar…
-… Economicamente
- Não, profissionalmente.
-…
-Então eu tinha passado em frente uma escola de cabeleireiros e perguntei pra pessoa: “Tipo o que?” e ela disse: “Cabeleireiro”. Aí fui crescendo na profissão. E ai, gostou? Tá bom (o corte)?
- Gostei sim, obrigada.
- Eu pensei que não ia ficar bom não, mas ficou. E essa sobrancelha aí? Não vai tirar não?
- Essa é de estimação. Sabe quando algo faz parte do que você é?
- *Faz careta* Mas é porque fica bonito.
- Não obrigada.
Júnior: – Ai que linda que você está, que diferente.
- Obrigada ^^

Me despedi e saí.
Quando estava a poucos metros de casa uma moça atrás de mim diz:

- Moça, moça.
- Oi
- Posso falar uma coisa rapidinha pra você? Qual seu nome?
- Claro. É Deborah e o seu? *pensei que era mais uma pessoa que ia perguntar a tinta que uso no cabelo, no domingo uma mulher me parou no Bazar Vegano pra perguntar isso*
- Bianca (acho que era esse o nome dela…), eu sou uma serva de Deus e queria saber se posso orar por você.
-  Pode sim *na sua casa né?*, sem problemas.
A moça colocou a mão no meu ombro: Repete depois de mim?
- Não, vou me sentir desconfortável.
- Oh senhor (cobrindo os olhos com uma mão enquanto outra colocava no meu ombro)! , abençoa a Deborah, a família dela. Tire do caminho todas as armadilhas de Satanás…

[Nisso minha mente viajou, o que será que ela viu em mim? Meu guarda-chuva? O porteiro achou estranho, se levantou...]

Arco íris :)

…Oh, senhor, guarda ela…

[Será o Deus um Delírio que me fez rir minutos atrás em minhas mãos?]

Será que ela só leu "Deus" na capa?

Tu sabes de tudo Senhor…

[Ou meu recém corte de cabelo?]

…derruba ele Senhor, entra na vida dela agora e para sempre. AMÉM. *Olhos de esperança aguardando ouvir “meu” amém*
- ….(sorriso amarelo)
- Fala “amém”!
- Não… Vou me sentir desconfortável.
- Você tem telefone? *A moça tinha olhinhos de piedade*
- Tenho, mas… Vou me sentir desconfortável. E ele é onipresente né? Sabe onde estou não precisa…
- Deixa só anotar seu nome no papel, é Deborah né? Vou orar por você, posso? Na minha casa? *_*
- Pode sim, sempre que quiser. E…
- Siiim *_*
- Boa sorte…na sua vida aí…
- Obrigada pra você também! *______*

Entrei no prédio:

Porteiro: Tudo bem (apreensivo)?
- Tudo, estão orando por mim.
Porteiro: Mas será mesmo? Se for tudo bem. Ela pegou algum dado seu?
- Meu nome.
Porteiro: É por que não sabe pra que vão usar (ele insinuou que a moça ia “por meu nome na macumba” ou algo do tipo).
- Eu não tenho medo dessas coisas não, tenho medo é de faca, coisas que cortam, físicas, reais…
Porteiro: Ah, mas se você é forte com Deus como você está falando, então nada te pega! Que bom que você acredita tanto assim.

Entrei absorta no elevador. Por que não falei pra ele que era filha de Iansã?*

*Parafraseando uma colega de faculdade do Yuri que respondeu isto a um garoto que perguntou se era de alguma igreja. Como negou, ele emendou “É da macumba então?”
**Confesso que simpatizo mais com os Orixás do que com os Santos católicos.

OBS: Lembram do gatinho preto? Tirei uma foto dele ontem:

Está vivo :)

17 agosto, 2009

Mutante

Enviado em Corpo, Crenças, Desabafos, Egotrip tagged , , , , , às 1:59 pm por Deborah Sá

Compartilhei aqui no blog grande parte da minha trajetória, a origem evangélica e outros percalços mais tortuosos, mas nunca mencionei “meus primeiros passos” fora desta “formação”.

Quando eu parei de estudar (aos 15) comecei a trabalhar com meu pai ajudando-o no suporte aos clientes (ele é analista de sistemas autônomo). Fiz um curso básico de HTML e de Clipper sendo que neste último descobri maneiras de fazer animações em formato “quadradão”. Eu gostava de desenhar e ler tirinhas, o professor se surpreendeu porque nunca nenhum aluno dele teve essa idéia. Infelizmente (?) não fiz backup e perdi as “preciosas” animações.

Nessa mesma época entrei em uma paranóia com a minha aparência (minha barriga era o alvo principal) e ia caminhando para o curso em um sol escaldante com os cabelos muito compridos, a saia marrom com desenhos na barra e uma blusinha laranja. Sempre bebendo muita água. Perdi 10 quilos rapidamente e os ganhei quase por completo. Pesava 78 quilos aos 15 anos com 1,64 de altura. Embora tenha ganhado muitos elogios pela modificação da silhueta, continuava triste. Sentia que a gordura me impedia de ser bonita e atraente. Até porque cansei de ouvir que não era feia, só era gordinha e tinha o rosto bonito. Então a associação imediata foi que a única coisa que me impedia nesses anos todos de ser considerada bonita, inteligente e agradável eram mesmo os meus pneuzinhos.

001

Certo dia eu peguei o caderno com as matérias do meu curso de Clipper e joguei todas fora, restando apenas algumas páginas em branco. Foi aí que eu comecei a escrever e ler o que escrevia, me analisando a partir dali. Percebi que isso me fazia muito bem, era uma conversa franca com minha consciência.

Passei a arriscar cada vez um pouco mais. A primeira mudança foi cortar o meu cabelo.

002Depois comecei a encurtar as minhas saias e passei a usar calças.

003

E não sentia tanto medo de Deus assim…Resolvi que daria uma chance para um moço que parecia legal. Ele foi o meu primeiro namorado.
No dia do meu primeiro beijo (aos 17) estava em um SESC ao ar livre e durante o beijo senti uma coisa cair no meu braço. Era cocô de passarinho. Ele não tinha papel na bolsa que usava sempre a tiracolo. Eu também não, então a saída foi limpar com o ticket do SESC.

004

No dia em que perdi a virgindade pensei que Deus ia me matar com um raio na cabeça. Só repetia: “A qualquer momento, a qualquer momento”. Ou que o ônibus ia bater e ficaria paraplégica. Dessas “pragas” que adoram rogar nas igrejas pra quem não “andava pelo caminho da justiça e da luz”.

Esse não era o véu que usava na igreja, é um encharpe que usei para foto

Esse não era o véu que usava na igreja, é um encharpe que usei para foto

Acabei relaxando e aproveitando aquele momento, mas ainda ia a igreja. No último dia que eu fui, o Cooperador disse na “Palavra”: “Se você não concorda com o que está aqui, vá embora! Deus não precisa de você!” E eu fui.

Foto atual

Foto atual

Com o tempo julguei que o melhor a fazer era romper com meu primeiro namorado. E assim o fiz. Nessa altura eu estava com mechas loiras no meu cabelo (nem tão) comprido.

Conheci mais alguns rapazes e entre eles estava o Yuri. [Que estou a 3 anos cheios de cumplicidade, risos, conchinhas e muito, muito diálogo. Ele não lê meu blog com muita freqüência mas se estiver lendo isso aqui, já sabe que te amo :) ]

Com o tempo fiz tudo o que sempre tive vontade de fazer: Cortei meu cabelo, pintei de vermelho, uso a roupa que quero na hora que quero, seja saia ou calça jeans, me tornei vegana e encontrei amigas maravilhosas que me aceitam como eu sou: Feminista, atéia, vegana, chorona e atrapalhada.

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Agradeço ao apoio dos meus familiares, do meu namorado e da União de Mulheres. Amo vocês.

8 julho, 2009

Você sem Deus não é nada

Enviado em Crenças tagged , , às 5:28 pm por Deborah Sá

E se não acreditar mais nele, ele deixa de existir.

Nada acontece do dia pra noite. As idéias e as concepções de realidade se formam de maneira contínua e por uma série de acontecimentos com valores distintos para as pessoas.

Antes de descrever os motivos que me levaram ao ateísmo, é importante levar em consideração a minha história de vida relacionada à instituição religiosa que pertenci por muitos anos. A descrição mais detalhada está no Dossiê CCB parte I II e III.

Qual é o ateu que nunca questionou: Deus existe mesmo?
E qual cristão nunca pensou: É mesmo (só) imaginação?

Lembro de pedir auxílio em alguns momentos de minha infância e adolescência, ás vezes deu certo, em outros momentos não.
Como qualquer desejo em probabilidade relativa.

Durante uma época concordei com a Reforma na CCB proposta por Ricardo Adam. Ele defende que mulheres deveriam tocar qualquer instrumento, sentar perto dos homens, pregarem, fazerem sexo (com prazer), usarem maquiagem e etc. Ele já sofreu ameaças de morte e perseguições.

Na CCB havia algo chamado “voto”, que é quando você promete pra Deus que ao atender seu pedido, dirá na frente da igreja “a graça alcançada”. Não é obrigatório descrever o que conseguiu, só se desejar.
Na Reunião de Jovens era comum agradecerem por concluírem o ano letivo sem recuperação ou um novo emprego. Os cooperadores sempre frisavam a necessidade de se esforçar, se apenas pedíssemos para Deus pra “passarmos de ano” e não estudássemos as matérias, de nada adiantaria.

Achava justo. Até porque sempre pensei que Deus não tinha função de babá. E me fez pensar. Por que tudo que conseguia de “bom” era mérito de Deus? Por que tudo que não acontecia ou dava muito errado era erro humano?
Quando humanos mal intencionados me humilharam ou me fizeram muito mal, o que Deus fez? Nada.  Muitos me diziam/dizem: A culpa não é de Deus, a culpa é do humano.

Qual o critério de preces de Deus? Ele ajuda uma menina a passar na prova, mas não a protege de ser molestada? As guerras acontecendo, pessoas passando fome e ele preocupado se estamos ou não “puxando o saco” dele? Contando pra todo mundo o quanto ele foi maravilhoso em ajudar a passar em um vestibular que nos matamos de estudar na madrugada?
É o tal livre-arbítrio? Até a lei terrena sabe: Você tem liberdade de ir e vir, contanto que não mate ou cause um grande dano a outros seres vivos. Mas pela lógica de “Deus” o correto é relativizar ao ponto da liberdade absoluta. Quanto ás punições, deixe que se passem décadas, meses ou anos até que o agressor bata o carro e fique paraplégico, seu filho/filha passe a mesma humilhação*, ou se nada disso acontecer, o inferno com seu tempo infinito o aguardará.

Não seria melhor impedir que a violência chegasse a “esse ponto”? Ou ainda realmente punir os agressores?
Erro do humano, que se apliquem as leis dos humanos…
Ou seja, Deus lavou as mãos

* É pavorosa essa idéia cristã de justiça, o que tem a ver a pobre criança filha de um pai agressor com os erros dele?

Qual a função de Deus? E por que devo adorá-lo por isso?

Sempre pensei na analogia do Frankenstein. Ele me deu a vida e daí? Eu pedi pra nascer?
Vamos imaginar um relacionamento familiar. É justo que os filhos reconheçam o esforço dos pais em mantê-los vivos, mas isso não significa desconsiderar as falhas cometidas conosco e elevá-los a um status de Deus. Deus é assim, deve ser adorado por representar uma divindade.

Qual é a função dele? Pra que precisamos o adorar? Por que só ele precisa ser adorado? Por que tantos protestantes dão risada da crença católica de rezar e pedir auxílio a uma imagem de um santo? Dizem que essas imagens são mudas e não respondem, tem boca mais não falam. Defendem que o Deus protestante dá resposta “no coração”. É exatamente a resposta do santo: “No coração”. A credibilidade para o ato é a mesma, já que ambos não são experimentados no campo da razão e da lógica. Não se pode ver ou constatar fisicamente, já que se trata de uma crença baseada no sentimento.

Qualquer Deus tem a mesma credibilidade. E coincidentemente os Deuses  tem seus desejos sincronizados com os ideais dos seus fiéis.
Antigamente diziam que Deus não aprovava divórcios. O discurso de algumas novas correntes de pensamento cristão é mais complacente neste aspecto. Notei que “acreditar em forças invisíveis” predispõe as pessoas a terem síndrome do pânico, apresentar paranóias e imagens destorcidas da realidade.

Assim, constatei que “Deus” era o reflexo da consciência coletiva.

Vigiai e estai sempre atentos

Enviado em Corpo, Crenças, Gênero tagged , , , às 5:21 pm por Deborah Sá

É muito mais fácil influenciar pessoas cansadas, desprotegidas e com carência afetiva. Nisto, as mulheres tornam-se um público-alvo interessante. Toda a estrutura social fragiliza a confiança das mulheres em si mesmas, reafirmando a idéia de sacrifício que é comumente veiculada com o mito do amor romântico. Deus, projeta a idéia máxima do apogeu masculino “o homem foi feito a semelhança de Deus”, a submissão e a eterna vigilância.

Que mulher não se “policia”? Não é o que nos dizem as revistas femininas? Para atentar para cada alimento ingerido, o número de mastigações, o intervalo entre refeições, as calorias vazias? Cada quilo ganho é um fardo “um pecado”. Cada jejum e quilo perdido  uma vitória, elevação. Há dietas para “purificar o corpo” e é essa prova de resistência e “temor a Deus (beleza)” que nos faz envaidecer da “luta contra a carne”. E logo “pecamos” em um doce super calórico que nos faz sentir mal por este descontrole.

A energia utilizada nesta vigilância desgasta a mente e o corpo. Lembro que em minha dieta mais extrema, além de comer pouquíssimo tomava muitos copos d’água. Sentia muito frio, sono e cansaço. Uma candidata assim é perfeita para uma mídia que vende sonhos em cremes rejuvenescedores e de “funções terapêuticas”. Negando o desejo oral (alimento), a mulher permite esfregar no próprio corpo produtos que aludem aos alimentos “proibidos”. São hidratantes de chocolate, perfumes de morango com chantilly, sabonetes de pêssego. Esses produtos também “acalmam” com fragrâncias de camomila e maracujá. Em algumas religiões há autoflagelação em busca da plenitude no êxtase religioso. Muitas mulheres submetem-se a bisturis, próteses e outros métodos menos invasivos á estrutura corporal como salto alto e cintas modeladoras.

É rentável ao “mercado” que as mulheres permaneçam frustradas. Essa frustração no passado fez as vendas de máquinas de lavar e outros eletrodomésticos aumentarem. Hoje lucram a industria dietética, a de academias de ginástica, cosmética, revistas femininas, livros de auto-ajuda, esotérica e tantos outros nichos imagináveis. Esse culto a beleza não é mera associação. Assim como na religião ele inclui a noção pecado/resignação, vigilância constante, penitência, jejum e desprendimento da antiga identidade “Agora sou de Jesus, joguei meus discos de rock no lixo” / “Agora serei magra, joguei minhas fotos “gordas” no lixo”. Evitando sempre os lugares onde existam “tentações”. Sendo estes sorveterias ou discotecas.

O que os difere é o número de adeptos e o nível de alcance da “pregação”. Todos são “vigilantes” de nossa aparência. Citam nossa forma física em conversas informais, estampa em toda a mídia o modelo “a seguir” implantando a culpa em condutas esperadas em manchetes “A atriz perdeu 7 quilos com a dieta do agrião, caminha 3 quilômetros por dia, cuida dos 3 filhos e do marido também ator”. Qual foi a última vez que você comeu algo realmente delicioso sem se culpar?

7 julho, 2009

Dossiê CCB – Primeira Parte

Enviado em Crenças tagged , , , às 10:13 am por Deborah Sá

Antes de começar este post é necessário frisar que eu não tenho nada contra quem acredita em Deus. Tenho consciência plena de que ter fé em algo não faz da pessoa um ser alienado e que há sim, os que seguem a vida de forma honesta e atentando para a máxima de “Amai o próximo como a ti mesmo”. Ou ainda se preferem “All you need is love”.

Minha mãe tinha apenas 19 anos quando nasci (conheceu meu pai na igreja). Sou a primogênita e cresci em um lar com bastante afeto, até os 5 anos morei em uma casa “nos fundos” de um quintal.
Nesta época fui introduzida na escolinha (pré) e gostava bastante, surpreendi a minha mãe em acenar adeus sorridente no primeiro dia de aula, ao contrário das crianças “comuns” que choram nesta data.
Gostava muito de desenhar e conversar (mais com as professoras/inspetoras do que com os alunos).

Na verdade sempre fui esta metralhadora de palavras, minha mãe conta que aprendi primeiro a falar e depois do primeiro tombo “fiquei com medo/preguiça e demorei pra tentar de novo”. Inclusive o dia que andei foi dentro da igreja (literalmente meus primeiros passos).

Quando meus pais passaram a viver com a recém nascida filha-girino deles (nasci de 7 meses e só tinha os olhões expressivos), meu pai foi “ordenado cooperador de jovens”. Gostava de ir a igreja (ao contrário da minha irmã), principalmente por cantar e “sentir a presença de Deus”.

“Sentir a presença de Deus” pode ser comparado a assistir um show de uma banda que você adora. Sabe quando vem uma banda estrangeira para o Brasil e você finalmente vê ao vivo tocando sua música preferida? É algo assim.

Nesta igreja os homens têm muitos cargos no ministério da igreja (como toda igreja, há hierarquias) e para as mulheres só sobram três com pouco destaque “no poder efetivo”.

Mais detalhes no Post  Dossiê CCB – Segunda Parte

Me “agarrei” na religião porque meu histórico é complexo. Eu não achava paz. Seja em casa, na escola ou como era de se esperar na igreja também.

A praga dos piolhos

Por volta dos 14 anos, peguei piolho. Mas não eram piolhos simples, eram piolhos MUTANTES. Depois de gastar muito dinheiro com Scabim, Kllew e tantos outros me convenci que era uma praga de Deus.
Minha cabeça ficou cheia de feridas de tanto pente fino, vinagre, água quente…e eu podia jurar que era uma espécie de penitência. Estava pagando por algo errado, algo que nem imaginava o que era. Mas de alguma forma devia aceitar essa “provação”.
Ao ir em uma médica ela me receitou um remédio via oral, pois meus piolhos (segundo ela), ganharam resistência com os remédios que tomava. Só mesmo com meu sangue “contaminado” morreriam, ao tomar o remédio e acordar, meu travesseiro estava cheio de pontos pretos.

My body is a cage

Como qualquer garota comum, eu pensava muito em sexo. E como qualquer garota religiosa comum, eu me culpava por isso. Como podia não ter vergonha do meu corpo? Se eu era a “bola de sebo”, “a bola sete”, “a rolha de poço”? Ah tá, claro. Meu rosto era lindo, do resto uma bela bosta. Meu tesão por pescoços me matava, de que adiantava os moços de terno e gravata com o pescoço descoberto? Era uma provocação do diabo, só podia…

Cada lugar uma pregação

A CCB tem uma sede, de lá os anciões se reúnem e decidem os “Ensinamentos” que o povo precisa. Por exemplo: Lançaram o Twitter? Deve ter um monte de gente com dúvidas se Deus “agrada disso”, então no Brás oram em conjunto e chegam a um consenso.

Socializando com “irmãos”

Certa vez me voluntariei para ajudar na limpeza. Sempre que o culto acaba, algumas pessoas pegam umas vassouras e limpam a igreja. É um bom motivo para socializar entre “irmãos”. Nesta época (aos 15 anos), conheci algumas pessoas que foram simpáticas, mas fui descobrindo que viviam de aparências (uma moça fazia sexo anal pra permanecer virgem) e eram os rapazes eram tão estúpidos quanto os garotos comuns. Não havia como conversar de música ou seriados já que não sabia de imediato se a pessoa que achava a TV uma maldição no lar. Música secular era no máximo Família Lima.
“Moderninhos”, costumavam gostar de filmes como Velozes e Furiosos 1, Capital Inicial e tudo que tocava na MIX FM. As “moderninhas” usavam cabelo na altura dos ombros, saias na altura do joelho, esmalte de cores claras e em regiões mais nobres da cidade vi moças de batom vermelho. Já na periferia era comum ver moças com o corpo “mais coberto” o cabelo cheio de creme e perfumes fortes. Conheço uma moça que não pôde tocar o órgão no dia em que usava base nas unhas (base é aquele esmalte transparente).

Me “entreguei de corpo e alma” e fui afundando em tristeza. Na verdade da minha casa, fui a última a “largar” a igreja.

Minha mãe foi/é mega mal vista pela maioria das pessoas que se diziam suas amigas. Cortou o cabelo, tingiu, encurtou as saias e usa maquiagem.

Meu pai “perdeu a liberdade” por uma série de mal entendidos e conchavos mal intencionados.

Minha irmã nunca gostou mesmo…

Perder a liberdade nesta igreja significa só ter o direito de assistir ao culto, não podendo chamar hinos, orar, nem exercer nenhum tipo de ação ativa.

É claro que há pessoas que ainda me cumprimentam na rua, que ao verem meu pai perguntam de mim e etc. Mas a maioria virou a cara mesmo.

Por ter uma vivência de longa data nesta instituição – dos 0 aos 16 anos-, não conseguirei resumir em apenas um post.

Confira Dossiê CCB – Segunda Parte e Dossiê CCB – Terceira Parte

Atenção: Se você, cristão, homofóbico, racista e/ou machinho usar o recurso dos comentários pra me xingar e fazer ameaças saiba: Além de não aceitar seu comentário posso te denunciar por discriminação (reconheço IP). Então, não perca seu tempo.

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