08.17.09
Mutante
Compartilhei aqui no blog grande parte da minha trajetória, a origem evangélica e outros percalços mais tortuosos, mas nunca mencionei “meus primeiros passos” fora desta “formação”.
Quando eu parei de estudar (aos 15) comecei a trabalhar com meu pai ajudando-o no suporte aos clientes (ele é analista de sistemas autônomo). Fiz um curso básico de HTML e de Clipper sendo que neste último descobri maneiras de fazer animações em formato “quadradão”. Eu gostava de desenhar e ler tirinhas, o professor se surpreendeu porque nunca nenhum aluno dele teve essa idéia. Infelizmente (?) não fiz backup e perdi as “preciosas” animações.
Nessa mesma época entrei em uma paranóia com a minha aparência (minha barriga era o alvo principal) e ia caminhando para o curso em um sol escaldante com os cabelos muito compridos, a saia marrom com desenhos na barra e uma blusinha laranja. Sempre bebendo muita água. Perdi 10 quilos rapidamente e os ganhei quase por completo. Pesava 78 quilos aos 15 anos com 1,64 de altura. Embora tenha ganhado muitos elogios pela modificação da silhueta, continuava triste. Sentia que a gordura me impedia de ser bonita e atraente. Até porque cansei de ouvir que não era feia, só era gordinha e tinha o rosto bonito. Então a associação imediata foi que a única coisa que me impedia nesses anos todos de ser considerada bonita, inteligente e agradável eram mesmo os meus pneuzinhos.
Certo dia eu peguei o caderno com as matérias do meu curso de Clipper e joguei todas fora, restando apenas algumas páginas em branco. Foi aí que eu comecei a escrever e ler o que escrevia, me analisando a partir dali. Percebi que isso me fazia muito bem, era uma conversa franca com minha consciência.
Passei a arriscar cada vez um pouco mais. A primeira mudança foi cortar o meu cabelo.
Depois comecei a encurtar as minhas saias e passei a usar calças.
E não sentia tanto medo de Deus assim…Resolvi que daria uma chance para um moço que parecia legal. Ele foi o meu primeiro namorado.
No dia do meu primeiro beijo (aos 17) estava em um SESC ao ar livre e durante o beijo senti uma coisa cair no meu braço. Era cocô de passarinho. Ele não tinha papel na bolsa que usava sempre a tiracolo. Eu também não, então a saída foi limpar com o ticket do SESC.
No dia em que perdi a virgindade pensei que Deus ia me matar com um raio na cabeça. Só repetia: “A qualquer momento, a qualquer momento”. Ou que o ônibus ia bater e ficaria paraplégica. Dessas “pragas” que adoram rogar nas igrejas pra quem não “andava pelo caminho da justiça e da luz”.
Acabei relaxando e aproveitando aquele momento, mas ainda ia a igreja. No último dia que eu fui, o Cooperador disse na “Palavra”: “Se você não concorda com o que está aqui, vá embora! Deus não precisa de você!” E eu fui.
Com o tempo julguei que o melhor a fazer era romper com meu primeiro namorado. E assim o fiz. Nessa altura eu estava com mechas loiras no meu cabelo (nem tão) comprido.
Conheci mais alguns rapazes e entre eles estava o Yuri. [Que estou a 3 anos cheios de cumplicidade, risos, conchinhas e muito, muito diálogo. Ele não lê meu blog com muita freqüência mas se estiver lendo isso aqui, já sabe que te amo
]
Com o tempo fiz tudo o que sempre tive vontade de fazer: Cortei meu cabelo, pintei de vermelho, uso a roupa que quero na hora que quero, seja saia ou calça jeans, me tornei vegana e encontrei amigas maravilhosas que me aceitam como eu sou: Feminista, atéia, vegana, chorona e atrapalhada.
Agradeço ao apoio dos meus familiares, do meu namorado, minhas amigas, o Wen Do e a União de Mulheres. Amo vocês.
07.08.09
Você sem Deus não é nada
E se não acreditar mais nele, ele deixa de existir.
Nada acontece do dia pra noite. As idéias e as concepções de realidade se formam de maneira contínua e por uma série de acontecimentos com valores distintos para as pessoas.
Antes de descrever os motivos que me levaram ao ateísmo, é importante levar em consideração a minha história de vida relacionada à instituição religiosa que pertenci por muitos anos. A descrição mais detalhada está no Dossiê CCB parte I II e III.
Qual é o ateu que nunca questionou: Deus existe mesmo?
E qual cristão nunca pensou: É mesmo (só) imaginação?
Lembro de pedir auxílio em alguns momentos de minha infância e adolescência, ás vezes deu certo, em outros momentos não.
Como qualquer desejo em probabilidade relativa.
Durante uma época concordei com a Reforma na CCB proposta por Ricardo Adam. Ele defende que mulheres deveriam tocar qualquer instrumento, sentar perto dos homens, pregarem, fazerem sexo (com prazer), usarem maquiagem e etc. Ele já sofreu ameaças de morte e perseguições.
Na CCB havia algo chamado “voto”, que é quando você promete pra Deus que ao atender seu pedido, dirá na frente da igreja “a graça alcançada”. Não é obrigatório descrever o que conseguiu, só se desejar.
Na Reunião de Jovens era comum agradecerem por concluírem o ano letivo sem recuperação ou um novo emprego. Os cooperadores sempre frisavam a necessidade de se esforçar, se apenas pedíssemos para Deus pra “passarmos de ano” e não estudássemos as matérias, de nada adiantaria.
Achava justo. Até porque sempre pensei que Deus não tinha função de babá. E me fez pensar. Por que tudo que conseguia de “bom” era mérito de Deus? Por que tudo que não acontecia ou dava muito errado era erro humano?
Quando humanos mal intencionados me humilharam ou me fizeram muito mal, o que Deus fez? Nada. Muitos me diziam/dizem: A culpa não é de Deus, a culpa é do humano.
Qual o critério de preces de Deus? Ele ajuda uma menina a passar na prova, mas não a protege de ser molestada? As guerras acontecendo, pessoas passando fome e ele preocupado se estamos ou não “puxando o saco” dele? Contando pra todo mundo o quanto ele foi maravilhoso em ajudar a passar em um vestibular que nos matamos de estudar na madrugada?
É o tal livre-arbítrio? Até a lei terrena sabe: Você tem liberdade de ir e vir, contanto que não mate ou cause um grande dano a outros seres vivos. Mas pela lógica de “Deus” o correto é relativizar ao ponto da liberdade absoluta. Quanto ás punições, deixe que se passem décadas, meses ou anos até que o agressor bata o carro e fique paraplégico, seu filho/filha passe a mesma humilhação*, ou se nada disso acontecer, o inferno com seu tempo infinito o aguardará.
Não seria melhor impedir que a violência chegasse a “esse ponto”? Ou ainda realmente punir os agressores?
Erro do humano, que se apliquem as leis dos humanos…
Ou seja, Deus lavou as mãos
* É pavorosa essa idéia cristã de justiça, o que tem a ver a pobre criança filha de um pai agressor com os erros dele?
Qual a função de Deus? E por que devo adorá-lo por isso?
Sempre pensei na analogia do Frankenstein. Ele me deu a vida e daí? Eu pedi pra nascer?
Vamos imaginar um relacionamento familiar. É justo que os filhos reconheçam o esforço dos pais em mantê-los vivos, mas isso não significa desconsiderar as falhas cometidas conosco e elevá-los a um status de Deus. Deus é assim, deve ser adorado por representar uma divindade.
Qual é a função dele? Pra que precisamos o adorar? Por que só ele precisa ser adorado? Por que tantos protestantes dão risada da crença católica de rezar e pedir auxílio a uma imagem de um santo? Dizem que essas imagens são mudas e não respondem, tem boca mais não falam. Defendem que o Deus protestante dá resposta “no coração”. É exatamente a resposta do santo: “No coração”. A credibilidade para o ato é a mesma, já que ambos não são experimentados no campo da razão e da lógica. Não se pode ver ou constatar fisicamente, já que se trata de uma crença baseada no sentimento.
Qualquer Deus tem a mesma credibilidade. E coincidentemente os Deuses tem seus desejos sincronizados com os ideais dos seus fiéis.
Antigamente diziam que Deus não aprovava divórcios. O discurso de algumas novas correntes de pensamento cristão é mais complacente neste aspecto. Notei que “acreditar em forças invisíveis” predispõe as pessoas a terem síndrome do pânico, apresentar paranóias e imagens destorcidas da realidade.
Assim, constatei que “Deus” era o reflexo da consciência coletiva.
Vigiai e estai sempre atentos
É muito mais fácil influenciar pessoas cansadas, desprotegidas e com carência afetiva. Nisto, as mulheres tornam-se um público-alvo interessante.
Toda a estrutura social fragiliza a confiança das mulheres em si mesmas, reafirmando a idéia de sacrifício que é comumente veiculada com o mito do amor romântico. Deus, projeta a idéia máxima do apogeu masculino “o homem foi feito a semelhança de Deus”, a submissão e a eterna vigilância.
Que mulher não se “policia”? Não é o que nos dizem as revistas femininas? Para atentar para cada alimento ingerido, o número de mastigações, o intervalo entre refeições, as calorias vazias? Cada quilo ganho é um fardo “um pecado”. Cada jejum e quilo perdido uma vitória, elevação.
Há dietas para “purificar o corpo” e é essa prova de resistência e “temor a Deus (beleza)” que nos faz envaidecer da “luta contra a carne”. E logo “pecamos” em um doce super calórico que nos faz sentir mal por este descontrole.
A energia utilizada nesta vigilância desgasta a mente e o corpo. Lembro que em minha dieta mais extrema, além de comer pouquíssimo tomava muitos copos d’água. Sentia muito frio, sono e cansaço. Uma candidata assim é perfeita para uma mídia que vende sonhos em cremes rejuvenescedores e de “funções terapêuticas”.
Negando o desejo oral (alimento), a mulher permite esfregar no próprio corpo produtos que aludem aos alimentos “proibidos”. São hidratantes de chocolate, perfumes de morango com chantilly, sabonetes de pêssego. Esses produtos também “acalmam” com fragrâncias de camomila e maracujá.
Em algumas religiões há autoflagelação em busca da plenitude no êxtase religioso. Muitas mulheres submetem-se a bisturis, próteses e outros métodos menos invasivos á estrutura corporal como salto alto e cintas modeladoras.
É rentável ao “mercado” que as mulheres permaneçam frustradas. Essa frustração no passado fez as vendas de máquinas de lavar e outros eletrodomésticos aumentarem. Hoje lucram a industria dietética, a de academias de ginástica, cosmética, revistas femininas, livros de auto-ajuda, esotérica e tantos outros nichos imagináveis.
Esse culto a beleza não é mera associação. Assim como na religião ele inclui a noção pecado/resignação, vigilância constante, penitência, jejum e desprendimento da antiga identidade “Agora sou de Jesus, joguei meus discos de rock no lixo” / “Agora serei magra, joguei minhas fotos “gordas” no lixo”. Evitando sempre os lugares onde existam “tentações”. Sendo estes sorveterias ou discotecas.
O que os difere é o número de adeptos e o nível de alcance da “pregação”. Todos são “vigilantes” de nossa aparência. Citam nossa forma física em conversas informais, estampa em toda a mídia o modelo “a seguir” implantando a culpa em condutas esperadas em manchetes “A atriz perdeu 7 quilos com a dieta do agrião, caminha 3 quilômetros por dia, cuida dos 3 filhos e do marido também ator”
Qual foi a última vez que você comeu algo realmente delicioso sem se culpar?
07.07.09
Dossiê CCB – Primeira Parte
Antes de começar este post é necessário frisar que eu não tenho nada contra quem acredita em Deus. Tenho consciência plena de que ter fé em algo não faz da pessoa um ser alienado e que há sim, os que seguem a vida de forma honesta e atentando para a máxima de “Amai o próximo como a ti mesmo”. Ou ainda se preferem “All you need is love”.
Minha mãe tinha apenas 19 anos quando nasci (conheceu meu pai na igreja). Sou a primogênita e cresci em um lar com bastante afeto, até os 5 anos morei em uma casa “nos fundos” de um quintal.
Nesta época fui introduzida na escolinha (pré) e gostava bastante, surpreendi a minha mãe em acenar adeus sorridente no primeiro dia de aula, ao contrário das crianças “comuns” que choram nesta data.
Gostava muito de desenhar e conversar (mais com as professoras/inspetoras do que com os alunos).
Na verdade sempre fui esta metralhadora de palavras, minha mãe conta que aprendi primeiro a falar e depois do primeiro tombo “fiquei com medo/preguiça e demorei pra tentar de novo”. Inclusive o dia que andei foi dentro da igreja (literalmente meus primeiros passos).
Quando meus pais passaram a viver com a recém nascida filha-girino deles (nasci de 7 meses e só tinha os olhões expressivos), meu pai foi “ordenado cooperador de jovens”. Eu gostava de ir a igreja (ao contrário da minha irmã), principalmente por gostar de cantar e “sentir a presença de Deus”.
Esse “sentir a presença de Deus” pode ser comparado a assistir um show de uma banda que você adora. Sabe quando vem uma banda estrangeira para o Brasil e você finalmente vê ao vivo? E eles tocam a sua música preferida? É algo assim.
Nesta igreja os homens têm muitos cargos no ministério da igreja (como toda igreja, há hierarquias) e para as mulheres só sobram três com pouco destaque “no poder efetivo”.
Mais detalhes no Post Dossiê CCB – Segunda Parte
Me “agarrei” na religião porque meu histórico é complexo. Eu não achava paz. Seja em casa, na escola ou como era de se esperar na igreja também.
A praga dos piolhos
Por volta dos 14 anos, peguei piolho. Mas não eram piolhos simples, eram piolhos MUTANTES. Depois de gastar muito dinheiro com Scabim, Kllew e tantos outros me convenci que era uma praga de Deus.
Minha cabeça ficou cheia de feridas de tanto pente fino, vinagre, água quente…e eu podia jurar que era uma espécie de penitência. Eu estava pagando por algo errado, algo que nem imaginava o que era. Mas que de alguma forma devia aceitar essa “provação”.
Ao ir em uma médica ela me receitou um remédio via oral, pois meus piolhos (segundo ela), ganharam resistência com os remédios que tomava. Só mesmo com meu sangue “contaminado” eles morreriam. E ao tomar o remédio e acordar, meu travesseiro estava cheio de pontos pretos.
My body is a cage
Como qualquer garota comum, eu pensava muito em sexo. E como qualquer garota religiosa comum, eu me culpava por isso. Como podia não ter vergonha do meu corpo? Se eu era a “bola de sebo”, “a bola sete”, “a rolha de poço”? Ah tá, claro. Meu rosto era lindo, do resto uma bela bosta. Meu tesão por pescoços me matava. De que adiantava os moços de terno e gravata com o pescoço descoberto? Era uma provocação do diabo, só podia…
Cada lugar uma pregação
A CCB tem uma sede, de lá os anciões se reúnem e decidem os “Ensinamentos” que o povo precisa. Por exemplo: Lançaram o Twitter? Deve ter um monte de gente com dúvidas se Deus “se agrada disso”, então no Brás oram em conjunto e chegam a um consenso.
Socializando com “irmãos”
Certa vez me voluntariei para ajudar na limpeza. Sempre que o culto acaba, algumas pessoas resolvem pegar umas vassouras e dar uma limpada na igreja. É um bom motivo para socializar entre “irmãos”. Nesta época (uns 15 anos), conheci algumas pessoas que foram simpáticas. Mas fui descobrindo que viviam de aparências (conheci uma moça que fazia sexo anal pra permanecer virgem) e eram tão estúpidos quanto os garotos comuns. E pior, não dava nem pra conversar de música ou seriados já que não dava pra saber de imediato se a pessoa que você conversava achava a TV uma maldição no lar. Música secular era no máximo Família Lima.
Claro que tinham uns “moderninhos”, eles costumavam gostar de filmes como Velozes e Furiosos 1, Capital Inicial e tudo que tocava na MIX FM. As “moderninhas” usavam cabelo na altura dos ombros, saias na altura do joelho, esmalte de cores claras e em regiões mais nobres da cidade vi moças de batom vermelho. Já na periferia era comum ver moças com o corpo “mais coberto” o cabelo cheio de creme e perfumes fortes. Conheço uma moça que não pôde tocar o órgão no dia em que usava base nas unhas (base é aquele esmalte transparente).
Dentro de casa meus pais sempre foram liberais, mas eu fiquei tão alienada na igreja que me “entreguei de corpo e alma” e fui afundando em tristeza. Na verdade da minha casa, eu fui a última a “largar” a igreja.
Minha mãe foi/é mega mal vista pela maioria das pessoas que se diziam suas amigas. Cortou o cabelo, tingiu, encurtou as saias e usa maquiagem.
Meu pai “perdeu a liberdade” por uma série de mal entendidos e conchavos mal intencionados.
Minha irmã nunca gostou mesmo…
Perder a liberdade nesta igreja significa só ter o direito de assistir ao culto. Não podendo chamar hinos, orar, nem exercer nenhum tipo de ação ativa.
É claro que há pessoas que ainda me cumprimentam na rua, que ao verem meu pai perguntam de mim e etc. Mas a maioria virou a cara mesmo.
Por ter uma vivência de longa data nesta instituição – dos 0 aos 16 anos-, não conseguirei resumir em apenas um post.
Confira Dossiê CCB – Segunda Parte e Dossiê CCB – Terceira Parte
Dossiê CCB – Segunda Parte
Hierarquia na Congregação Cristã no Brasil
Cargos Masculinos
Anciões: O nome já é auto-explicativo, são em geral homens mais velhos que estão a um bom tempo em outro cargo “de púlpito”, eles são os correspondentes á chefes de cada filial (também chamada de “comum”). Presidem a “Reunião da Mocidade” que acontece quinzenalmente para os jovens não casados.
Cooperados oficiais: São os que presidem os cultos noturnos, destinados aos casados e adultos. Este culto é chamado “Culto Oficial”
Cooperadores de Jovens: São os que presidem os cultos para crianças e jovens não casados (todos os domingos). Este culto é chamado “Reunião de Jovens e Menores”
Encarregados de orquestra: São os que regem as orquestras durante os ensaios.
Músicos: Só há instrumentos clássicos, nada de bateria ou guitarra, o negócio lá é órgão, violino, flauta transversal, fagote…
Porteiros: Ficam na porta, recolhem “coleta” (dízimo) do lado masculino.
Auxiliar de Jovens: Leia a descrição da função em “Recitativo”
Obreiros: Recolhem roupas e outros objetos para distribuírem gratuitamente aos mais pobres. Fazem missões de evangelização e etc.
Cargos Femininos
Organista: O órgão é o único instrumento que uma mulher pode tocar. Só há um órgão por igreja.
Porteiras: Ficam na porta, recolhem “coleta” (dízimo) do lado feminino.
Obreiras: Equivalente ao masculino
Etapas do culto
Hinos: Não há música secular, o hinário é composto por 450 hinos, cada um para cultos específicos que vão desde batismos á funerais. As melodias são baseadas em músicas clássicas, por isso conheço muitas melodias de música erudita sem saber quem é o autor.
Despedida: Ato em que um casal vai na frente da igreja na Reunião da Mocidade e anuncia que vai casar e que por isso, não mais freqüentará a Reunião de Jovens e Menores, nem as Reuniões da Mocidade.
Oração: Todos ajoelham e fecham os olhos, quem “sentir Deus” abre a boca e fala o que vêm “no coração”.
Palavra: Momento onde quem está no púlpito faz uma conexão direta com Deus e através dele fala para os fiéis sua vontade.
Coleta: Um dízimo voluntário. Os cooperadores não recebem um centavo por pregar. Ao doar a pessoa escolhe para onde vai este dinheiro: Para pessoas mais pobres, para a manutenção daquela igreja, para missões de evangelização…
Testemunho: O indivíduo vai lá na frente no microfone e conta algum “livramento”, “milagre” ou coisas engraçadas. Em especial os velhinhos sempre contam coisas engraçadas. Duvida? Tem até uma comunidade no Orkut chamada “Testemunhos engraçados CCB”. Nunca esqueço quando um senhor foi ao microfone e disse “Quando eu vi uma mulher pelada, eu morri de alegria”. Eu tinha uns 5 anos e achei tão, mas tão engraçado e sem sentido que passei a imitá-lo em casa. E como criança inconveniente que era, queria fazer isso em todos os lugares e matar meus pais de vergonha. Mais situações engraçadas em Dossiê CCB – Terceira Parte – Pérolas na CCB
Batismo: Só acontece em cultos para este fim, veste-se um roupão cinza, entra-se no tanque e “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” TCHIBUM. Sim, sou batizada. Foi aos 14. Podem-se batizar a partir dos 12 anos, não é obrigatório mas há pressão em uma série de testemunhos de “jovens que não obedeceram ao senhor, bateram o carro e morreram antes de batizar e daí né….”
Santa Ceia: Acontece uma vez ao ano. Um pedacinho de pão, um pouquinho de vinho, uns hinos e etc. Tem que tomar todo ano senão…Tomei duas santas ceias na vida, na verdade criei um diarinho O_O
“ Querido Deus, meu primeiro batismo foi dia tal, presidido pelo ancião tal…”.
Recitativos: Em dado momento do culto de jovens há o que chamam de “Recitativo”. Os grupos de crianças e jovens são separados por tamanho e faixa etária, o “Auxiliar” escolhe um trecho da bíblia e distribui um versículo para cada jovem. Então todos vão em fila na frente da igreja e cada um lê o pedaço de papel que lhe foi entregue, sendo assim:
Primeiro da fila: Deus seja louvado
Todos: Aaaaamém
Primeiro da fila: Com a ajuda de Deus, iremos recitar Salmo 23 do versículo 1 ao 18 – O Senhor é o meu pastor e nada me faltará
Segundo da fila: Deitar-me faz em verdes pastos….
E assim até que termine a fila e entre a próxima com outro trecho da bíblia.
Expressões idiomáticas
Comum: Ou comum congregação, é como chamam as “filiais”.
Um diálogo típico de fim de culto:
- Ei irmãozinho, qual sua comum? (Risos)
- A paz de Deus irmãnzinha, a minha comum é Interlagos e a sua?
- Vila Ré. Tá só prova na minha vida, cada atribulação!
- Mas fica firme irmã, são provas como de Jó.
Caiu na graça: Saiu da igreja. Pecou de alguma forma.
Falar em línguas: A “língua dos anjos”. Cada um se manifesta de um modo, lembro quando criança segurar o riso nestas manifestações religiosas. Tinha até a “Irmã Pombinha” que era uma idosa que ao “manifestar” parecia uma pomba fazendo “Prrrrr prrrr prrrr”.
Calamanáia: Modo jocoso de se referir a quem “fala em línguas” por qualquer bobagem.
Pecado de morte: Há níveis de pecado, pecado de morte costuma ser fornicação (sexo fora do casamento), blasfêmia e outras coisas “pesadas”.
Criatura: Todos os que não são da CCB
Carnal: Pouco consagrado. Exemplo: “Fulano é muito carnal”
Excursão: Fazer “Caravana” pra ir em uma igreja distante.
E para concluir: Homens sentam separados de mulheres. Dentro da igreja todas usam véu branco na cabeça. Se uma mulher visita a CCB logo as porteiras correm pra emprestar um véu e um hinário.
Por ter uma vivência de longa data nesta instituição – dos 0 aos 16 anos-, não conseguirei resumir em apenas um post.
Confira Dossiê CCB – Primeira Parte e Dossiê CCB – Terceira Parte
Dossiê CCB – Terceira Parte
Pérolas que ouvi na CCB ditas por anciões, cooperadores e outros homens com “ministério”:
* Ancião aponta para lado dos moços:
-Moço! Deus exorta! Será um grande médico, um grande engenheiro!
Em seguida aponta para as moças:
-Moça! Deus te diz! Será uma grande esposa, um grande apoio para teu marido! Uma ótima mãe e dona-de-casa!
* Algumas pessoas querem saber por que as mulheres não podem pregar na CCB. E quem disse que elas não pregam? Pregam no dia-a-dia na conduta, nos bons modos, no bom testemunho da palavra de Deus. Não precisam pregar aqui em cima pra exercer o ministério.
* Os animais tem alma, mas a alma morre com eles, quando eles morrem
* O homem deve ser submisso a Deus assim como a mulher tem de ser submissa ao homem.
* O menino deu uma facada na mãe porque ela não comprou a figurinha do Yugi Oh
* Acho mesmo tão bobo, esses crentes que choram na frente da televisão com filme e com novela, chorando em frente á uma caixa de isopor, mas tem vergonha de chorar na presença de Deus.
* Bichinho de pelúcia é do diabo, Deus não se agrada de criança empinando pipa, nem de quadros ou bonecas.
* Irmãozinho, moço! DEEEEEUS *gritando* SABE AS REVISTAS QUE VOCÊ GUARDA NA GAVETA, PERTO DA BÍBLIA! TEM MISERICÓRDIA UAULÁSSÁBIS SIRIQUEANDALÁNAPRAIA (“falando em línguas”)!!!!
*Eu sei que vendo todo mundo testemunhando alguns se empolgam, mas irmãos… Vamos agir com sabedoria…vir aqui na frente e contar “Estava andando perto de uma construção, daí caiu um saco de cimento na minha cabeça e GLÓRIA A DEUS, o saco estava vazio”, não é um testemunho…
*Se você discorda disso, vai embora. Deus não precisa de você
E é…eu fui.
Por ter uma vivência de longa data nesta instituição – dos 0 aos 16 anos-, não conseguirei resumir em apenas um post.
Confira Dossiê CCB – Primeira Parte e Dossiê CCB – Segunda Parte
11.06.08
O que Jesus faria em meu lugar?
Essa é uma colocação que muitos adoram fazer. Acham horrenda a história da crucificação de Cristo. “Deus mandou seu único filho para o sacrifício de nossas almas”.
Hoje passei em frente a uma casa, tinha um lindo labrador marrom de olhos claros. Já havia o afagado outras vezes, fiz o mesmo. A alguns metros dali havia outro cão. Este, era preto, e seu pêlo era médio e embaraçado. A cada passante, o seu rabo balançava, na esperança de um pouco de atenção. Aproximei-me. Ele abanou o rabo (a pontinha era branca). Seu pêlo era um pouco duro, seus olhos castanhos e dóceis. Enquanto ganhava carinho, abria as perninhas deitado de lado. Como se mostrasse a pata traseira pra mim.
Quando me afastei olhei pra trás. A patinha traseira que ele levantava na verdade estava machucada. Ele mancava e saiu pulando. Perdido, sozinho. E ninguém se importava com ele.
Eu quis chorar, na verdade, choro agora.
O trânsito foi muito longo, e enquanto eu ouvia Belle & Sebastian (que combina magistralmente com a garoa e a cidade), pensei na frase que deu título a este post.
E o que Jesus faria em meu lugar?
Eu não sei…mas o que faria um cão no meu lugar?
Os animais são grandes mártires. Muito mais resistentes em vários aspectos. Quando eu me corto, reclamo de dor. E quantos cães machucados eu não vejo todos os dias? Quantos não mancam e irreversivelmente tem sua mobilidade reduzida?
Passando por um caminhão, vi homens fortes na janelinha, eles estavam espremidos. E quantos animais não estavam em situações muito piores que aquela?
Quantas vezes eu passo em frente a granjas, todos de crista caída, imóveis, vejo as donas de casa com suas saias até o joelho, estampas floridas e dinheiro amassado na mão. Quase sempre é um chinês. E há uma horrenda janelinha onde provavelmente se vê a morte.
Deus mandou seu filho? Pra morrer pelos nossos pecados? Poderia cessar então, já que milhares de animais morrem todos os dias para saciar nosso costume e paladar. Isso é bem menos nobre bem mais vergonhoso.
Jesus virou vitela? Não, ele já tinha 33 anos. Se fosse abatido teria antes de estar bem gordo. Sua mãe, de tetas doloridas sangrando, dando além de sua capacidade. Ao final de sua vida “produtiva”, ela viraria um ingrediente de uma lanchonete qualquer, com um brinde em caixinha colorida. Uma vaquinha sorridente no brinde do mês? Cairia bem…muitas caixinhas de leite o fazem. Entregando a um estranho mais um mártir.
Você adora o seu Deus? Você adora Maria? Vá em frente.
Eu prefiro admirar a vaca. Ela dá seu leite, não por escolha, mas pela falta dela. A cada término de gestação, se vai o filho. Diria ela: “Perdoai, eles não sabem o que fazem?”.
09.22.08
Eu, radical.
Em minha vida pessoal e virtual, sou taxada de adjetivos que são ofensivos para a maioria das pessoas. E a minha reflexão leva a crer que são grandes elogios, haja vista quem os diz.
Ser radical, é ser radicalmente contra determinada ação, postura ou hábito. O que parece de difícil compreensão a maioria das pessoas é que quando todos concordam, o argumento não se torna inquestionável. Muitas idéias hoje vistas como absurdas, eram perfeitamente aceitas no passado. “Como pode? Escravidão de negros, que absurdo…”
E os que pensam diferente o que ganham por aqui? A fama de loucos, tontos, fanáticos. Mas os outros em suas certezas nunca são fanáticos…
Eles são normais. Quando os fanatismos alheios têm muitos adeptos, estão corretos. “Como pode tanta gente estar “errada”"? A voz da massa é a voz de Deus?
Basta a maioria acreditar em Deus e ele existe? O senso comum é portador da verdade?
Imagine por um instante algo que você é radicalmente contra (aborto, estupro, infanticídio…). Como seria aceitar que a maioria das pessoas do mundo fosse a favor? Que em festas familiares, mídia, trabalho e etc as pessoas se divertissem ao contar o quanto é banal cometer tais atos. E quando você se manifestasse falassem:
-Credo que radical, é só uma fodinha (no caso do estupro), eu tenho muitos vídeos que comprovam que mulheres/crianças gostam disso mesmo que inconscientemente, tem a lei de tal parágrafo que permite isso…você acha que as leis aprovariam atos repressores?
Ao se manifestar você é taxado de opressor, sendo que coagido a manter silêncio, variavelmente não consegue se segurar depois de ouvir tantas “pérolas”, eles sim, eles podem falar o quanto querem, pois são protegidos e fortificados na certeza de que a maioria das pessoas está ao seu lado. Em seus argumentos ponderados e medianos são ovacionados.
Os tomates quase podres dão um bom molho.





