6 maio, 2013
Á última dieta
Dieta é um plano emergencial que consiste em quebrar o lacre, retirar o martelo, estourar o vidro e pular do ônibus em movimento, um incidente com escoriações. Mas por que atitude tão abrupta? A dieta é movimento desesperado por controle que escapa dos dedos e pula direto na balança. Ah, a temida balança! Nela medimos o tempo, calculamos medidas perfeitas, calorias exatas. É métrica de antever passos, se tornar senhor das próprias pulsões e paixões, refrear. Por meio dela há o pressuposto de uma meta, um plano de ação que controle o futuro e como reagiremos a todas as “tentações” que o horizonte reserva, mas ao fim, é punição de curto prazo. Um rigoroso e quase exclusivo grupo de alimentos nada saboroso é calvário, uma cruz para carregar que quanto mais pesada, maior será a credibilidade, visto que quanto maior o pecado maior a penitência. A dieta serve como uma luva quando se trata de culpa. Por ser meta de curta duração é realizada com pouco prazer, traz no íntimo a sensação de que os resultados não serão duradouros e uma vez que as abstinências desse processo sejam abandonadas, recuperarão todos os quilos perdidos. Logo, a dieta é feita para o fracasso e quando esse término de privações chega ao fim e nos atiramos á forra, o ciclo está completo: Você entrou no projeto que pedia o máximo de comprometimento e “celibato”, depois do resultado alcançado (isso se não houver desistência antes), é hora de voltar com a vida social e sentir prazer novamente. O relógio volta com velhos hábitos e costumes; é dado o momento de procurar a nova dieta, entrar em um novo ciclo de penitência, vigia constante, rigidez.
A punição acontece por nos privar do prazer, tornando possíveis os paralelos com o deleite sexual. Somos todo corpo e em especial, somos estômago. Uma comida realmente fantástica é aquela que nos faz gemer. Guerrear contra a gula não é muito diferente de se opor á luxúria, o corpo nos trai, pede coisas não exatamente apropriadas ao momento ou situação, o núcleo desse raciocínio ocorre quando separamos as urgências da mente e do corpo. Não parece nada nobre se entregar ao prazer fugaz de uma colherada no brigadeiro, ou quem sabe, o sexo casual com o semi-desconhecido, mas o corpo pede e ás vezes, a gente cede. O que proponho é um exercício um pouco mais aprofundado e por essa razão, muito distante da necessidade de seguir uma dieta. Trata-se de ouvir a demanda do corpo ponderando pra depois agir, ir à contramão do plano impulsivo para respostas impulsivas. Combater compulsão alimentar com dieta é colocar fogo contra fogo e nesse embate, sairemos chamuscados seja pela escassez ou pelo excesso.
É possível se alimentar de solidão, mágoa, rancor, desamparo, quem nunca afogou suas mágoas em quantidades extras de açúcar? Se ninguém nos ama o bastante, o tablete de chocolate é carinho quase imediato. Podemos nos alimentar de raiva quando rapidamente e com violência ingerimos uma porção após outra sequer sentindo o sabor, pra sufocar, pra causar mal, de propósito. Dá pra comer vingança, mostrar á nós e ao mundo que eles têm razão em nos taxar de “um caso perdido”, “Já que sou gorda, vou me entupir”. Conheço e já degluti sentimentos de ódio, piedade, rejeição, medo. Também já os experimentei no outro extremo, privando de comer o que tenho vontade.
Se o corpo marca o tempo, ele também conta as experiências vividas por meio das rugas, sinais, pintas, nas pequenas ou grandes manchas, cicatrizes, na postura, no modo de sorrir, no sotaque. O que somos é denunciado pelos movimentos espontâneos como o tom de voz e a desenvoltura de falar em público. Mas, se nós aprendemos a ser, isso é, se nós nos construímos ao longo dos anos, não significa que esse processo tem data limite para intervenção. Se me construí como uma pessoa gorda pela minha interação social e minha experiência com o mundo até determinada idade, nada impede que mude de direção e busque outra forma de interagir com meu corpo e com quem me cerca. Note que isso demanda extrema franqueza sobre si, conhecer o próprio ritmo, respeito e zelo pela própria história, o corpo como unidade criadora e em permanente movimento. Nesses parâmetros, uma dieta restritiva, impulsiva, pouco reflexiva, que transforma seu organismo em inimigo é uma grande sabotagem. A honestidade com o corpo (e a consciência faz parte dele) permite uma ação bem direcionada e não imediatista. Se seu corpo foi construído (e ele sempre é, mesmo quando tratado de forma displicente) no decorrer das décadas, não é em um dia que recuperará o “tempo perdido”. Aliás, a dieta só considera tempo ganho aquele que acontece sob suas rédeas curtas, é dependência.
Quem se torna refém de uma dieta não trabalha o amor próprio no presente, é apenas no futuro que talvez, seus seguidores arrisquem abandonar inseguranças, só quando suas pernas forem bonitas o bastante, sua barriga estiver seca o bastante. Mas esse futuro nunca chegará, porque a ilusão da dieta é prometer que em algum momento se for realmente determinada alcançará ao corpo ideal. Se isso fosse verdade, modelos, atrizes e cantoras com corpos no padrão não seguiriam dietas restritivas para perder mais dez quilos, a mídia diz o contrário. Em dieta, não há permissão para se divertir ou comer algo realmente saboroso, a ração está suspensa por mau comportamento. A dieta nos transforma em carrascos, para burlar quebram-se as regras trazendo mais culpa e uma vez cansadas, envergonhadas e ansiosas, sairemos em busca por uma solução rápida que sane o aborrecimento e o investimento anterior. Estamos prontas à submissão voluntária de uma dieta mais rígida que a antecessora, a dieta do presente financiará a seguinte em uma hipoteca que consome emoções, esperança e amor-próprio. Nesse dia sem dieta proponho um projeto mais ambicioso que ficar 24 horas sem regimes, a intenção é que nunca mais você precise recorrer a esse sistema auto-punitivo. Parece loucura, eu sei, mas ainda mais ilógico é o fato de que tantos indivíduos vivam correndo atrás da própria cauda, inseguros ao ponto de não sair de casa, de pensarem (e até mesmo tentarem) suicídio, de sentirem vergonha por supostamente não merecer uma vida social, investir em um novo romance, trocar de emprego, terminar um relacionamento abusivo, experimentar novas roupas.
Para tanto, é mais benéfico trocar a dieta por movimento, o que será mais prazeroso cabe a cada um descobrir: Caminhada, natação, esporte, musculação, capoeira, yoga… Se encontrar uma atividade prazerosa e fizer disso uma rotina de amor próprio, a endorfina e o sangue circulando serão bem mais motivadores que um jejum e o sabor de sopa aguada. E a melhor parte: Não é necessário sentir culpa em comer o que se tem vontade, entrementes, é possível se permitir experimentar coisas diferentes: Legumes, frutas, vegetais e sucos naturais são realmente deliciosos e ajudam no humor. Isso não significa que você só vai comer arroz integral com linhaça até o fim da vida, trata-se de expandir a cartela de cores do seu prato, fazer uma refeição variada oferecerá maior prazer e saciedade. Isso trará emagrecimento? Talvez. Mas a questão é: Você quer emagrecer? Se a resposta for afirmativa, é bom que pondere os modos que conseguirá isso. Se for com dietas, cápsulas e outras fórmulas de resultados bruscos as chances de falha são muito altas, não por culpa sua e falta de determinação, mas porque o corpo busca estímulo e prazer e uma dieta não corresponde a nenhuma dessas especificações básicas. Se você quer emagrecer precisa repensar a forma que lida com a comida, mudar hábitos, fazer exercícios físicos. Se mesmo assim, optar por seguir uma, não esqueça que junto do dinheiro que vai pelo ralo irá mais um pedaço da sua auto-estima que já não anda lá essas coisas. Não há qualquer garantia de que se finalmente vestir um manequim menor será efetivamente mais feliz.
Quem não tem aquela amiga magra com o corpo exatamente como sempre sonhou e que aperta “banhas imaginárias” reclamando que precisa perder medidas? Quantas ex-gordas não ficam em frangalhos se alguém as chama pelos antigos apelidos? A trajetória esperada tem sido se privar e sofrer primeiro para (talvez) se amar depois, porque não descartar a primeira parte? Porque é mais lucrativo para uma indústria bilionária de alimentos, revistas, cosméticos, cintas-redutoras, cápsulas e livros manter consumidores ávidos por soluções mágicas, se há culpa nas pessoas a dieta corrobora para que se expanda. Metaforicamente, é como se convencionasse que um tratamento adequado para um depressivo são terapias depressoras, com evidente falha, a solução seria encontrar outra ainda mais intensa. Ou seja, a dieta não contribui para que seu “quadro clínico” melhore, ela agrava os sintomas e ainda te culpa por isso. Se você quer emagrecer, o faz para que(m)? É o medo do que acontece depois da curva dos oitenta quilos? Dos três dígitos? Emagrecer para que seja tratado com respeito é comprar o discurso de que gordos merecem o ódio que os atinge. “O gordo é um estorvo para o sistema único de saúde” e todas as outras estatísticas que surgem quando ligamos a TV com matérias mostrando a barriga de pedestres anônimos. Dizem que os gordos são imprestáveis, preguiçosos, nojentos e diante da coação esses se convencem, tentam pedir desculpas pela própria condição emagrecendo para serem dignos de afeto, respeito, desejo. Meu convite é para que os gordos (e os que se sentem assim) saiam das sombras e se movam, disseram que nosso corpo era peso morto e acreditamos, não arriscamos atividades físicas, desconhecemos o tamanho da nossa força, nossa elasticidade, se somos ágeis ou se podemos surpreender com a leveza no requebrar de grandes quadris. Se observarmos atentamente, no verso de cada fita métrica se esconde uma faixa criminal.
23 abril, 2013
Material girl – A mulher interesseira, sexo e capital
Sexo (como entendido) é performático, genitalizado, heteronormativo, cis-sexual. As revistas femininas e o incentivo ao sexo da mulher é sempre nos moldes de “esse é o meu poder e dele faço uso pra conseguir o que quero”. Os sujeitos são estimulados a fazerem mais sexo, ao ponto de mentirem a freqüência nas pesquisas: “ dou duas sem tirar”, “eu tenho cinco orgasmos múltiplos”. Não pega bem dizer que gosta de sexo no escuro, aquela coisa ao som de Barry White. Ninguém gosta de ser considerado morno sexualmente porque morno não mela calcinha nem levanta pau. A coisa precisa pegar fogo.
E pode pegar de várias maneiras, depende do que você busca e com quem se relaciona. Não há sexo desinteressado se feito além de dois integrantes, veja bem, se quero sexo só comigo, me masturbo. Quando estimulo outro corpo além do meu (de forma consentida é óbvio), tocando, lambendo, chupando e beijando estou pensando no outro. Gosto de ver a cara contorcendo ao gozar, é uma massagem no ego, faz bem. Aí as relações de poder ficam complicadas de discernir, ou como alguns preferem, mais fluidas. No sexo oral, por exemplo, quando uma mulher chupa um homem a reação é “Ele está se dando bem, quem é chupado está no comando”, mas quando um homem chupa uma mulher dificilmente se diz: “Ela está no comando, ela está se dando bem”. Porventura não teria maior “controle” a boca que conduz movimentos ritmados? As mãos que deslizam e enrugam os dedos na umidade? Que estremecem pernas, arrepiam braços, produzem gemidos e a vontade de quase implorar para que aquilo não pare e dure por todo o sempre?
Essa dualidade (quem manda, quem obedece), é imprecisa. Se entregar abertamente demanda confiança plena, confiamos em quem está a nossa frente, confiamos em deixar o corpo soltar o que tiver de deixar sair no tempo que necessita. Ou seja, se gozo maravilhosamente é por permitir a mim e permitir-me ao outro. Se ele controla com a língua, eu controlo com os quadris e é de movimento que somos feitos. Somos corpo, dentro e fora do sexo, somos corpo e sentido. Sexo não é desinteressado também por outro motivo, nós buscamos capital. Sim, até os anarquistas. E que tipo de capital? Isso cada um dirá por si. Meu capital estético de interesse é um pouco fora do comum (eu digo um pouco, porque se Jennifer Lawrence quiser meu corpo nu é só ligar), mas claro que há uma série de características físicas que facilmente me fazem sucumbir. Também tenho interesse pelo tamanho do capital cultural aliado a sensibilidade, adora literatura? Musicais? É vegano e sabe cozinhar? Muitos pontinhos. Ainda por cima não bebe e não fuma? Por favor, mande currículo com foto. É, com foto. E quer saber? Mesmo com todos esses requisitos pode ser que não role a chamada química (menos com você, Jennifer, tenho certeza que daríamos certo).
“Não mostre o que tem na carteira, mostre o que tem na cabeça”, “Cubra seus peitos e mostre sua personalidade, mulher” é só um modo de dizer que não se faz tanta questão do que carregam na carteira, mas no coração, nas idéias, no tamanho do capital cultural. Na apropriação de uma cultura legítima e quem sabe até, ver o filme esloveno e a última animação da Pixar com o mesmo gosto e olhos embotados de lágrimas.
Fazer uma cirurgia plástica pra conseguir um homem rico que banque é se desvalorizar? É ser nada feminista? Bem, alguém que julgue esse tipo de capital importante precisa literalmente investir no corpo, com malhação, dieta balanceada, cirurgias e toda a parafernália possível, esse alguém, pode realmente julgar que estabilidade financeira é algo mais importante do que ser colunista da revista Piauí, Caros Amigos ou ganhar um Jabuti. E essas pessoas não são imbecis, elas não “sofrem de baixa auto estima”, elas não precisam ser ”iluminadas”. Uma patricinha, uma piriguete ou um rapaz gay que é bancado em troca de sexo não merecem desprezo. É muito fácil sentar a bunda e escrever usando vinte e dois teóricos sobre o assunto quando na vida isso não enche barriga. É totalmente diferente da prostituta que trabalha na rua com discriminação e o perigo da violência, mas mesmo assim, há uma aproximação: Não adianta oferecer curso de fazer bolsa em garrafa PET ou dar um livro teórico achando que isso afastará mulheres, travestis e transexuais desse mercado. É preciso ouvir, construir políticas públicas, lutar para que sejam respeitadas.
Os sujeitos tem o direito de ter acesso ao patrimônio intelectual da humanidade, mas julgar que trabalho ou o gosto por atividades ditas intelectuais são mais nobres que as do corpo, especialmente as que envolvem sexo como moeda de troca, é esquecer que sexo é interesse. Fazer sexo por interesse financeiro é apenas um dos vários tipos de capital (estético, cultural). Isso não nos transforma em um objeto, isso não é “contribuir para que não respeitem”, as pessoas tem o direito de buscar a forma que acharem mais conveniente de se sustentarem. “E quando essas mulheres começarem a ficar velhas? Não serão trocadas?” pode ser que sim, pode ser que não. Igualmente, ser feminista ou ativista não impede que as pessoas pisem na bola, troquem parceiros, encontrem “alguém melhor”. Assim como o marido não tem poder sobre a esposa, a namorada não pode mandar na namorada, um cliente (ou um mantenedor) não pode bater em quem fez sexo com ele (ou quem dele depende economicamente). Não é porque há um contrato implícito e uma das partes tem um maior capital – ou prestígio – cultural, econômico, estético, que poderá ditar as regras sobre o corpo de quem está ao lado. Usar o sexo como moeda de troca não é se transformar em mercadoria e nem sempre é sintoma de vulnerabilidade econômica, muito embora, existam tais aproximações; além da evidente segregação de quem tem faz dessa a maior fonte de renda. Ao mesmo tempo em que é importante frisar que nada é neutro, é bom que saibamos que essa liberdade irrestrita e sem fronteiras simplesmente não existe.
Se o relacionamento é aberto ou fechado, se é papai e mamãe ou orgia, se é assim ou assado sempre há paredes de contenções, o mundo sempre nos supera, criam-se combinados, modos de entrar e sair, formas de convivência. Alguns tem muros maiores, outros menores. Não me cabe aqui gritar aos quatro ventos o quanto a minha água é mais limpa que a de meus vizinhos, o céu não tem cobertura e se chove me molho tanto quanto quem me lê.
17 fevereiro, 2013
Mais desejosos que desejáveis
Mais desejosos que desejáveis são os corpos gordos e flácidos. Neles há movimento em um mundo que pede rigidez e contenção. Desejosos, são todos os corpos feitos pela ânsia de existir, contrariando as previsões de baixa expectativa para um ponto fora da curva. Mais desejosos que desejáveis são os corpos modificados, tatuados, alargados, decotados, perfurados. Mais desejosos que desejáveis são os fios de cabelos volumosos e coloridos, espiralados em cachos de nuvem, trançados em volta de tecidos. Mais desejosos que desejáveis são os ventres que fazem dobras, os pelos que nascem na virilha. Ao contrário do que diz a precipitação, nem todo corpo desejoso é entorpecido. Ele é eletrizante de vontade, pela luz e pela indiscrição. Seu oposto, o corpo fatigado, se alimenta de solidão e tédio, sofrendo de um refluxo quase involuntário da auto-punição. Esse, vê na entrega não uma oferenda, mas um castigo merecido de desconforto. Corpos desejosos, ao contrário, não fogem do próprio prazer, celebram a própria condição. Corpos desejosos afrontam só por estarem perto, pois não se contentam em roupagem comum, quebram protocolos, silêncios, vazios. Corpos desejosos são excêntricos e não raro, extravagantes e teatrais. Debochados, sarcásticos, feito um palavrão. Corpos desejosos preenchem o imaginário e despertam o estranhamento de cobiça e vertigem, como a altura que convida com frio na barriga. Corpos desejosos são lâmpadas, com mariposas que dançam em sua volta. Corpos desejosos são frutas mordidas por elas mesmas, o empoderamento sem qualquer vestígio de remorso por ter o domínio de si, refestelar-se. Corpos desejosos são a melancia no pescoço que para de pesar.
11 fevereiro, 2013
Um feminismo de sangue?
A escrita é uma espécie de ensaio pra vida pública, o momento de admitir pra nós mesmos o que borbulha do lado de dentro. E o que estoura nessa ampola são discordâncias com certas concepções do feminismo. Por exemplo, a busca por um retorno matriarcal idílico, como na citação de Monique Wittig:
Houve um tempo em que tu não eras escrava… lembra-te disso. Um tempo em que caminhavas sozinha, cheia de riso, em que te banhavas nua no mar… Podes ter perdido a lembrança desse tempo, mas procura lembrar-te… Podes dizer que não há palavras que descrevam esse tempo, podes dizer que ele não existe. Mas recorda. Faz um esforço para o relembrares, ou, se não conseguires, inventa-o!
Embora reconheça a beleza de imaginar um tempo de liberdade, isso não me basta. Assim como não basta existir em busca de um paraíso além-matéria. Desanima viver com os pés no passado em um saudosismo de um tempo onde a opressão inexistiu. Até porque, duvido que houve um momento de comunhão unânime, a Age of Aquarius¹ não parece factível. Da mesma forma é improvável uma origem ou produção “pura” sem intervenção do meio. Em uma metáfora, faço uso do embate Cultura Dominada X Cultura Dominante² levantada por Cuche. É um erro supor que a Cultura Popular (feita pelas massas), é um simulacro mal acabado da classe dominante, porém, também é ato falho acreditar que tudo o que é produzido pelas massas não possui certa margem de autonomia e contestação. Dentro de um feminismo mais maniqueísta, o que é produzido por homens é naturalmente ruim e perverso enquanto o que produzido por mulheres é praticamente… Mágico! Ao ponto insólito de enxergarem em um ato não-humano (um leão mordendo a leoa ao acasalarem, por exemplo), como amostra clara do desejo natural de homens dominarem mulheres. Entra o sentimento essencialista de “ser mulher”, como se uma mulher que um dia possuiu (ou ainda possui) um pênis fosse de alguma forma “menos mulher”. Como se “ser mulher” fosse uma espécie de qualidade hereditária e tivéssemos o tal “sangue azul” ou como prefiro chamar o “sangue roxo”. Quando pensei em cursar História (nem faz tanto tempo assim)³, foi pra realizar pesquisas na área de gênero e combater a idéia da História considerada relevante, aquela que vira estátua (como a pavorosa de Borba Gato, incrustada em SP). Essa percepção é parcialmente verdade, em linhas gerais, as pessoas tem uma visão de que “grandes nomes” compõem a História, mas qualquer Historiador(a) minimamente comprometido(a) sabe que novas concepções não são rompantes que brotam de mentes “iluminadas” do dia para a noite. Os valores do Século XVIII não mudaram instantaneamente com o raiar do Século XIX. Percebendo que já havia um número considerável de produções acerca do tema, desisti de estudar as mulheres (que mulheres? De qual período?), não invalido quem trilha esses caminhos na Universidade, nem desdenho do Feminismo que se faz muito pertinente, mas não o vejo com os mesmos olhos de antes.
Ainda há muito o que conquistar: Os índices de violência contra mulher permanecem altos, os salários baixos, ainda vivemos, oras, em um patriarcado que limita a todos. Por essa mesma razão, defendo espaços exclusivamente femininos, ainda há mulheres que não se fortaleceram em sua condição, que precisam de espaços de segurança para desabafar e se fortalecer. Todavia, não considero essa ancestralidade, a sisterhood feita de sangue roxo (herdado) e de sangue uterino (binário e biológico). O feminismo por si só, não basta para explicar a opressão que atinge a cada grupo minoritário de forma específica, ser cis-mulher tem suas desvantagens, porém, se levarmos em conta a vivência de uma mulher transexual percebemos que terá dificuldades distintas, a começar por conseguir um emprego de carteira assinada, ser apresentada para os pais como namorada, ter um círculo de amigos para se relacionar e andar em via pública sem ser importunada 4, etc. Isso não pode ser desconsiderado. Já que as estruturas de poder são múltiplas não podem ser sintetizadas em um ponto de vista somente. Não se trata de uma olimpíada pra ver quem sofre mais, por vezes é o mesmo peso que nos esmaga, mas nos fere produzindo marcas diferentes. Fazer parte de uma estrutura dominante não nos converte imediatamente em calhordas da pior espécie, se pode não compactuar com o modo como os privilégios são distribuídos socialmente, ou ainda, se sensibilizar e reverter posturas. No primeiro caso temos o Dr. King Schultz de “Django Livre” e no segundo, Wiesler do excelente “A vida dos Outros”. Ou seja, refutar um argumento com “claro que você não achou machista, você é homem”, é encerrar a discussão ali. Pois se a relevância for um parâmetro essencialista, é como se não existissem mulheres mal intencionadas e sádicas, como se todo proletariado fosse o bom selvagem que não despertou seu senso de coletividade, é imaginar que a arte e a música “em seu estado puro” só podem surgir desses grupos como flor de lótus. Essa distinção polarizada, essencialista e saudosista não me comove. Meu feminismo não se ancora em Éden passado ou futuro, ele é feito da construção permanente daqueles que se levantam contra a injustiça que fere a própria carne, mas também por meio dos que renunciam o comodismo para estender a mão.
Fontes
¹ Me refiro a Era de Aquário, a idéia de que uma nova era de alinhamento entre os planetas culminará na fraternidade de todas as nações. Como a presente no ótimo musical Hair
² CUCHE, D. Cap. 5 – Hierarquias sociais e hierarquias culturais. In: A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, EDUSC, 2002
³ Guest Post que escrevi em 2011 para a Lola – Invadindo um espaço que não me pertence
4 Há esse vídeo excelente sobre a Invisibilidade Trans e o mercado de trabalho
20 novembro, 2012
Vários dedos de raiz
Minha primeira Barbie era negra, uma moça da igreja me deu de presente de aniversário. Por crescer na periferia era mais do que natural conviver com pessoas negras, vivíamos na casa dos fundos de aluguel para uma mulher com seus dois filhos, também negros. No ambiente escolar a minoria era branca. Lembro de uma casa que eu adorava visitar porque era muito maior que a nossa, tinha um limoeiro no quintal e os meninos do casal tinham um carrinho desses que parece um pedalinho por dentro, queria muito dirigir, mas o menino dono do carrinho só me deixava andar de carona e como comportada que era, aceitava. Eles tinham a pele muito bonita, a família inteira, negra.
Na terceira série minha melhor amiga (negra), tinha o cabelo comprido e todo trançado, eu achava divino o modo que as tranças moviam com seu caminhar, seus olhos eram pretos, redondos e grandes como jabuticabas, seu sorriso largo e luminoso, ela era mais alta que eu, esguia. Pode apostar que se me perguntassem como eu gostaria de ser, seria como ela. Acho que nunca disse o quanto a admirava. Fiquei triste em anos mais tarde vê-la na lotação com os cabelos escorridos. A avó do meu pai era Italiana, veio para o Brasil de navio tentar a sorte e claro, era muito pobre. Tem gente na minha família (uns reacionários do interior de SP) que chamam fulaninhos como nós de “gente que não tem o sangue puro dos Henrique”, fazendo questão de lembrar que minha avó tinha Aparecida com dois P no RG. Meu pai foi um adolescente com um pôster da Donna Summer no quarto, minha mãe é uma Pernanbucana de Lagoa do Ouro que veio pra SP ainda muito pequena. Algumas pessoas da família da minha mãe acham muito bacana ter sobrenome de Português. Ao final, meus dois sobrenomes são de origem Portuguesa, trago a mistura de muitos locais inclusive da colonização primeira.
Na igreja ou entre familiares era de praxe ouvir um comentário mais ou menos assim “tomara que seu filho puxe o avô/tataravô/de olhos verdes/azuis”, lembro de garotas usarem lentes de contato que imitavam essa pigmentação, algumas alisavam o cabelo com ferro e perdi as contas de quantas vi com um risco na testa por esbarrar em uma chapinha muito quente. Foi na escola que descobri que em determinado período da história do país negros eram açoitados. Impressionada com as figuras nos livros didáticos fui perguntar para o meu pai se aquilo era mesmo “de verdade”, ele confirmou. Pasmei. Tudo o que remete aos traços negros ou características de pessoas negras sempre me pareceu empoderador. Os cabelos e penteados, a voz grave, os lábios grossos, o porte altivo, para ser bem sincera desde muito pequena acho a negritude majestosa, negras e negros parecem reis e rainhas.
Já raspei a cabeça na zero muitas e muitas vezes, absurdo é abrir mão do privilégio do cabelo-de-branca, como se no meu cabelo estivesse tudo o que sou, como se todo meu amor, meu corpo e minha capacidade fossem embora tal qual Sansão, a tesoura-Dalila aparentemente só enfraquece fios lisos. Quanto aos meninos negros embora não recebam formol ou passem por chapinha e escova aos seis anos (há meninas que passam por isso ainda mais novas), não vêem os cabelos encaracolarem, descerem dos ombros, virarem um rabo de cavalo. Há homens que nunca deixaram os cabelos crescerem, eles não sabem nem qual é o formato de seus cachos, se grandes e espaçados, se pequenos e próximos. No Ensino Médio durante o intervalo dezenas de garotas se espremiam na pia para passar mais creme de pentear nos cabelos e em seguida colocavam uma faixa para esconder suas raízes, é exatamente isso que o racismo exige de negras e negros: O disfarce como pedido de desculpa por existir, o encobrir de toda raiz.
Sei que meninas entram aqui no blog procurando “formas de ser branca”, “como clarear a minha pele”, “quero ser branca” . Se for o seu caso acredite, você é linda! Você não precisa alisar o cabelo pra ser amada, não precisa ter olhos verdes pra despertar amores, você não precisa clarear e apagar sua pele, sua história! Você é belíssima! Seu cabelo não é ruim, ele não faz mal para ninguém, ele precisa ser cuidado com carinho e não com raiva, ele é macio e cheiroso, triste é aquele que nunca acariciou algo tão macio e fofinho feito nuvem. Espero que um dia esses desafortunados sejam capazes de perceber quão bonitos são braços e pernas entrelaçados em outros tons.
10 novembro, 2012
Está ouvindo os gemidos? São da engrenagem

Das primeiras fantasias sexuais que me recordo, embora os cenários variassem, uma coisa era certa: Sentia tesão em imaginar alguém com tesão em mim. O que transformava qualquer material pornográfico em algo monótono e completamente sem graça. A fantasia era tátil, demandava olhar sincero, mãos firmes, corpos entrelaçados, cheiros, línguas, deslizes, sorrisos maliciosos, a imprevisibilidade, o frio na barriga.
Uma vez no Multishow de madrugada vi uma mulher em salto alto com as pernas abertas se esfregando em um pneu gigante (de caminhão?), como se a agonia não fosse o bastante ela puxava e torcia os mamilos com a mesma emoção de quem lava uma louça, a diferença é que ela mordia os lábios e parecia raivosa. A cara dela não era de prazer, era tédio misturado com raiva e não entendi como alguém poderia se excitar com uma pessoa visivelmente insatisfeita. Nos sites de vídeos pornográficos, uma busca rápida por sexo oral levará a milhões de picas de caras feios igualmente raivosos, só que xingando. A impressão que dá é que nenhum deles parece feliz na cena, mas ao menos o cara extravasa com gritos enquanto a mulher só pode gemer e se beliscar. Masturbação feminina é coisa patética de se ver nesses sites, pra começar o que são aquelas unhas gigantes? E aqueles tapinhas na buceta? E a voz masculina comandando toda a ação mesmo quando são duas mulheres? E os gemidos mais forçados do que o sorriso que se dá para o chefe quando na verdade gostaríamos de mandá-lo pro quinto dos infernos? Porém, quando assumo que sou anti-pornografia a primeira acusação é de que sou frígida, anti-sexo, sex-negative, como dizem alguns.
Vamos às considerações básicas: A publicidade tem por função vender, se o produto é novo cria-se a necessidade dele, inventa-se um problema antes imperceptível, dá-se um jeito, o consumidor precisa ter certeza de que a vida dele não será mais a mesma se não tiver uma câmera com duzentos megapixels, um sabonete íntimo ou o novo boné de grife. Pela perspectiva histórica ou social também é crível admitirmos que os valores e conceitos modificam-se com o passar tempo. Somos seres culturais condicionados desde muito cedo, você não escolhe em que família nascer, o mundo já é mundo quando surgimos e nem pode-se desejar o que nunca foi apresentado como possibilidade. Não se pode vibrar com o Quadribol antes de Harry Potter, só desejamos e queremos o que sabemos que existe, ou o que nos dispomos a inventar.
A pornografia dita comportamentos e cria expectativas por isso mesmo é um prato cheio para as frustrações. Sabe a história de que mulheres lêem muitos contos de fada e esperam príncipes encantados se esforçando pra serem “princesas”? A atriz pornô encarna a “princesa encantada” de muitos homens, só que ao invés de estar montada em um cavalo branco está montada em um pau enquanto chupa outro. O que leva o sujeito a pensar que tem “algo de estranho” com sua parceira se aperta os mamilos dela como botões esperando que saia algo dali (um orgasmo barulhento) mas nada sai. Na pornografia não-hétero essas referências ativo/passivo também se manifestam aos montes e atire a primeira pedra quem nunca viu a mesmíssima reprodução de expectativas em casais de lésbicas e gays.
Após Linda Lovelace ser estuprada e espancada para fazer o filme Garganta Profunda, cafetões levavam suas prostitutas e namorados levavam suas namoradas para aprenderem como imitar a atriz. Reconheço que nem toda atriz passou por esse calvário, por ora, meu ponto é tão somente esse: É uma indústria que carrega forte caráter pedagógico de sexualidade normativa e como todo produto cultural, definitivamente não é neutro. Pelo bom senso, parem de sacralizar a pornografia e tirem dessa redoma inquestionável. Pornografia não surge do vácuo, não é o Santo Graal, não é sinônimo de sexo, é a apropriação e representação capitalista do erótico, é a mecanização em uma espécie de paralelo com a Revolução Industrial.
A Revolução Pornográfica converte a encenação sexual em saber sexual, por exemplo, quando se sugere para alguém que fantasie algo que não envolva os genitais, a cara é de total espanto porque esse saber foi depositado na pornografia, parafraseando a bíblia “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. Concordar com isso é assumir que o prazer é tão complexo e burocrático que somos incapazes de exercer reflexão e criatividade, de inventar. Um produto com um marketing tão bem sucedido que se transformou em sinônimo de sexo.
A pornografia é o controle dos corpos, o que se deve, como e onde fazer. E não pense que isso faz das novas gerações mais esclarecidas, garotas ainda não são estimuladas a conhecer o próprio corpo, garotos aprendem de forma muito restrita sobre corporeidade e lésbicas são abordadas por sujeitos desagradáveis que acreditam que elas precisam de um pinto. Quem encara a pornografia como um enunciado de “sua primeira vez” tem grandes chances de se decepcionar, seja do que se espera do próprio corpo tanto quanto do corpo de quem se relacionará: Fluídos apoteóticos, posições que disfarçam “defeitos”, palavras de ordem que mais parecem a moça do Google Tradutor… A pornografia é como um álbum de fotos de uma rede social onde o importante é parecer feliz, na prática significa que é mais urgente tomar viagra e impressionar do que admitir que algo não anda bem, é mais essencial pagar mais de cinquenta reais em uma lingerie e fingir o orgasmo do que ter coragem de sugerir que a pessoa te toque de outra forma, ou ainda, que você está muito carente e só queria mesmo um abraço. A masturbação que pode ser incrível e divertida se reduz ao tédio de quem vê do outro lado da tela opaca seu reflexo mecânico.
Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Anti-Pornografia
29 agosto, 2012
A Feminista Perfeita
A feminista perfeita não leva desaforo pra casa, ela rebate todas as cantadas que ouve na rua. A feminista perfeita não usa maquiagem, não sente ciúmes, não é romântica, não usa vestidinhos floridos, ela quase não sorri. A feminista perfeita, nasceu na família com tradição política e tem fotos dela quando bebê no colo da mãe socialista durante a passeata do PT. A feminista perfeita tem um irmão gay, um pai trotskista e uma vira-lata chamada Pagu. A feminista perfeita não ouve música comercial, ela samba não qualquer samba, mas um de raiz com os companheiros de luta. A feminista perfeita não faz dieta, nunca fez chapinha e não pensa em mudar o próprio corpo, aliás, ela não precisa se sentir bonita pois o corpo é instrumento de luta, basta ser forte pra aguentar a vida. A feminista perfeita não usa brincos, não usa sutiã e jamais depila a virilha. A feminista perfeita só tem música de mulher no mp3, cantoras com letras politizadas. A feminista perfeita bebe cerveja que não faz comercial machista. A feminista perfeita só ri da Mafalda, das tiradas sarcásticas de Persépolis e do brilhantismo da Beauvoir. A feminista perfeita não fala palavrão de forma convencional, ela está de útero cheio. A feminista perfeita só frequenta bares lésbicos e a exposição no oito de Março sobre as mulheres no Irã. A feminista perfeita não assiste novela, não usa roupas curtas, justas ou decotadas. Não gosta de moda, as únicas cores do seu guarda roupa são cinza, preto e no máximo um roxo da camiseta do coletivo.
A feminista perfeita não desabafa com outra pessoa sobre como o trabalho dela anda uma merda, ela não sofre do cotidiano, das pequenezas. Ela dorme e acorda pensando em lutar, diversão é para os alienados e o amor é uma construção social de controle. A feminista perfeita não é simpática, isso é fazer o jogo do mercado, se algo ganha destaque obviamente é porque vendeu a alma. A feminista perfeita não quer ser mãe, casar, não gosta de cozinhar e nem de dormir de conchinha. A feminista perfeita tem a cara amarrada, a postura altiva e a língua ferina. A feminista perfeita não tem medo da solidão, porque as amizades vem e vão mas a peleja fica. A feminista perfeita jamais é tímida, não tem medo do escuro, nem de barata. A feminista perfeita fala inglês, alemão e francês para traduzir textos imensos das outras feministas. Se você se identificou com ao menos três dos itens acima, parabéns! Isso é completamente irrelevante! Mas se você, cara feminista, se sente triste por não atender os parâmetros da “feministabilidade” recomendo que se aproxime mais de “seus ícones”. No começo de minhas pesquisas sobre feminismo tive receio de conhecer as moças que admirava, me pareciam boas demais, politizadas demais, que pularam do ventre assim, formadas, contestadoras e seguras. Ao me aproximar o que comprovei é que feministas choram com poesia e gostam de histórias de amor, feministas sabem dar um soco e também sabem carinhar, costurar, cozinhar. Feministas se derretem ao ver filhotes de gato e adoram chocolate, feministas são livres para construir e desconstruir. Feministas também pisam na bola, podem ser insensíveis e tolher a liberdade alheia. Elas tem crise com o namorado que dá mancadas consideráveis, pode apostar. Há feminista que não consegue sair de casa sem maquiagem e feminista que gasta dinheiro com sapatos e bolsas. Desmistifique a feminista padrão que está no imaginário, não ame a liberdade de quebrar uma fôrma lustrando outra com tanto esmero.
15 agosto, 2012
Femen Brasil

Para início de conversa, não tenho problema com nudez. É uma ótima forma de alimentar o amor-próprio e nem sempre há de se ter um caráter político, subversivo, chocante, a nudez pode ser plácida e descompromissada, como alguém que toma sol na varanda ou saltita pelado pelo corredor da casa. Minha prática nudista (pois é, adoro ficar pelada) tem muito mais a ver com conforto do que qualquer outra coisa. Não tiro a roupa porque quero ser agredida e despertar raiva, tiro a roupa porque gosto da sensação e os corpos são para si e para ser. Aprecio a coroa na cabeça das Femen (tenho uma tatuada no peito com um propósito não-feminista). Portanto minha oposição não tem a ver com o fato delas usarem a nudez, flores ou serem bonitas. Sempre há risco de uma ativista ser mau interpretada, com ou sem roupa.
Divergências: O rito de iniciação, a pré-seleção das candidatas, o alistamento, a idéia de se militarizar¹, Soldadinhos de Jesus, Soldadinhos do Capitalismo² agora aparecem as Soldadas do Neo-Feminismo? Um dos valores que mais aprecio é autonomia e se essa depende de apadrinhamento, não me apraz. É saudável aprender com os outros, se inspirar em alguém para construir algo, mas a partir daí supor que é preciso hierarquizar ao transmitir conhecimento é presumir que a ação não se constrói coletivamente, vira reprodução de uma fórmula fechada.
Se apartar: “Você tem que abraçar essa idéia sabendo que pode perder amigos, família…” não me parece nada agradável demarcar essa diferença nas relações pessoais, a renúncia. Outra premissa para militar no Femen é ter peitos, não qualquer peito, mas peitos “de mulher” grandes o suficientes para fazerem o formato circular, símbolo do grupo. Seriam aceitos homens com peitos (siliconados, ou não)? Mulheres magras sem volume suficiente? Por que fugir da palavra “feminista”? Prezo por certas radicalizações, ser feminista, ser de esquerda, não deveria ser indecoroso, tornou-se uma necessidade em tempos onde a direita aparece descolada no programa do Bial enquanto os ícones da esquerda permanecem na academia. A meritocracia é uma das características do Feminismo burocrático onde existem pré-requisitos para ser promovido.
No meu entendimento as ativistas do Femen não são “inimigas”, elas só escolheram outros métodos para lutar contra coisas que também julgo importante defender, como o direito ao parto natural em casa, contra o turismo sexual e o machismo. Porém, me oponho fortemente a militarização implícita. Se você tem algum pensamento que destoa da maioria, esperarão uma boa explicação que o justifique (a normalidade não precisa de motivo além de “é o que todo mundo faz”). Existem várias formas de divulgar uma causa, uma delas é “sê o exemplo” onde por via de um bom testemunho desperta-se a curiosidade alheia pela postura diferenciada, também dá para panfletar, colar cartazes e lambes, usar um megafone… O Femen acredita que em comparação com todas as tentativas anteriores o que trará mais visibilidade é tirar a roupa. Se isso será eficiente só o tempo dirá e para ser honesta, não acho que isso desgasta ou suja a imagem do feminismo. Isso é superestimar o Femen e subestimar a luta feminista construída por gerações, a história não funciona assim, do dia pra noite “puf”, uma ideologia é substituída por outra, as releituras e readaptações felizmente são imprevisíveis e incontroláveis. Não é preciso tanto afobamento. As pedras no sapato do feminismo permanecem as mesmas: O machismo, a ignorância, a misoginia, o patriarcado.
Discordo de quem diz que o Femen Brasil representa uma vertente “feliz” do Feminismo convencional, ao contrário, me parecem sérias e compenetradas (se preparam psicologicamente para apanhar de policiais, serem xingadas nas vias públicas e o rachaço social). Não compactuo com os métodos do Femen pelo fato de tudo que me parece rijo demais causa estranheza, e de bruto, basta o que rodeia, dá pra lutar sem abrir mão do sorriso. E não quero entrar nas farpas de qual vertente feminista é mais “durona”. Curioso esse tempo onde escapar um prazer é sinônimo de sucumbir.
¹ Em momentos de tensão e ruptura, a barbárie costuma imperar com poucas alternativas diplomáticas. Reconheço que centenas de pessoas, principalmente negras e pobres morrem na periferia de SP e em tantos outros lugares por aparato bélico. Nas argumentações acima me refiro a um registro de mínima estabilidade democrática, onde as pessoas possam vivenciar um evento “pós-traumático” e superar, ao contrário de um lugar onde esse “pós” simplesmente não existe e a agressão intensa é recorrente, em exemplo, as experimentadas por mulheres no Congo.
² Funcionários que trabalham e choram escondido pelo esporro do patrão premiados pela competitividade e o lamber de botas. É uma das coisas que mais me enojam no ambiente corporativo (e programas do tipo “O Aprendiz”): Pelo prestígio de manter uma profissão metem-se em roupas desconfortáveis, aguentam sorrisos falsos e tapinhas nas costas, cumprem metas e simulam personagens que não são.
27 julho, 2012
Querida Dieta,

Sei que você ainda pensa em mim, na verdade, continua me vigiando. Dizem, que éramos um belo casal, o que as pessoas não entendem é que você trazia malefícios, sua companhia era destrutiva e apenas cedia suas investidas se não me sentia segura. Se aproveitava da minha fragilidade, bem sabe. De querida não tem nada, se te trato nesse tom é pela formalidade de ser uma conhecida em outro tempo, além disso, quando percebem que estamos separadas falam que a culpa é apenas minha. Se descobrirem que estou lhe escrevendo para que suma da minha vida, ficarão possessos. Dizem que é um partidão (vê se pode?), pagam pra ter o ventre rasgado por sua influência, não sei como isso pode ser isso sinônimo de amor-próprio. Você me sugava ao ponto de me tornar uma sombra miúda beijando seus pés, causava tonturas, ânsias, ás vezes não compreendia se me fazia tremer por frio, ou medo. Me davam valor em especial quando em sua companhia, fazendo-me crer que jamais seria amada, desejada, querida e respeitada, se não fosse ao seu lado. Que bom que eu mudei! As pessoas não sabem o quanto fui arrasada, do quanto me sujeitei, das armadilhas psicológicas e de dependência. Não conseguia me alimentar antes de lhe pedir permissão e se tentava sabotar seus planos, sentia teus olhos pesando atrás dos ombros. O que me deixa furiosa acima de tudo, é ter de explicar o nosso rompimento para meus familiares, chegou-se ao ponto de desconhecidos oferecem panfletos com seu nome, a TV, as revistas, as dicas infalíveis de como te reconquistar em até três semanas… Sei que é boa de lábia, fez sua fama por décadas e constantemente se renova, porém não estou disposta a lhe dar mais sangue, mais força. Detesto relações unilaterais e de possessão e você é muito, muito ciumenta, por isso nunca quis me casar com você, firmar um pacto “até que a morte nos separe” com alguém da sua laia, é penar por tempo indeterminado. Os verdadeiros amigos são os que amam como sou e os melhores amantes beijam minha barriga (da qual, se referia por apelidos humilhantes). Você foi péssima e me mantinha em rédea curta, jamais admitindo uma melhora, pois nunca serei suficientemente boa em teus parâmetros surreais. Falam que se quero me reaproximar basta “fechar a boca”, no entanto farei uso dela para que saibam o quão desprezível é a sua presença. Sei que ganha muito dinheiro, tem contatos e adora colocar informantes a paisana, então não venho por meio desta rogar um pedido, mas decretar uma ordem: Vai-se embora, tenho mãos, dentes, facas e garfos, sem medo de usa-los.
18 julho, 2012
Como você lida com a beleza do seu lado?

Já escrevi muitas vezes sobre como os padrões de beleza na grande mídia impactam diretamente a vida de mulheres*, mas e quando seu padrão de beleza está mais próximo, vividamente encarnado? Uma colega de trabalho, uma vizinha, sua chefe, sua melhor amiga? Ela parece muito mais leve, solta, decidida, bonita sem esforço. E se você vive em um meio com muitas delas, como uma agência de publicidade? Quem nunca teve aquela amiga super bonita da qual se aproximam de você para perguntar se ela tem namorado, qual o nome e telefone?
Indivíduos deslumbrantes nos deixam maravilhados, com um sorriso bobo e um olhar perdido, coração batendo, mãos suando. É mais que atração, é a admiração de um totem, uma espécie de monumento carnal e palpável, ao mesmo tempo de difícil aproximação pelo excesso de consideração e respeito. Quando além de bonita a pessoa é inteligentíssima, carismática tudo se torna ainda mais irresistível (ou penoso). Mas nem sempre quem admiramos secretamente percebe tamanho magnetismo.
Certa vez estava em um local e avistei uma moça linda, dessas que a primeira vista se destaca na multidão, ela era (é) belíssima e tem olhos que amolecem qualquer coração, já havíamos trocado umas palavras antes daquele dia e ela me parece mais linda a cada vez que a encontro. Mas como dizia, no fatídico dia me aproximei com a intenção de ganhar um beijo e quando o consegui, desacreditei, como costumo brincar, um dos meus lemas é “muita coragem e pouco otimismo”. Tempos depois descobri que essa mesma moça não usava biquíni, ainda mais descrente fiquei “se eu tivesse esse corpo, nunca teria problemas de auto estima”. Foi então que decidi contar a ela o quanto a achava indiscutivelmente bela, do tipo que nem me daria bola.
A que admiro a bunda quer por silicone, a que tem muito estilo e é cobiçada era virgem até pouco tempo atrás, a que seria a mulher dos sonhos em qualquer contexto morre de amores por um cara que não lhe dá valor, a que tem um corpo exuberante tem nos pulsos as marcas de tentativa de suicídio e punição, a que cresceu ouvindo que era inteligente queria também ser considerada gostosa. Não são metáforas aleatórias, essas mulheres existem. Discordo da Tati Bernardi, não acho que as mulheres se odeiam. Elas odeiam a si mesmas quando não sabem o que fazer com a admiração que sentem pelas outras. Elas parecem mais felizes e completas que nós mesmas: Indisciplinadas, assimétricas, insípidas, triviais. Resgato mais uma vez O Mito da Beleza, onde as limitações físicas são baseadas em rédeas psicológicas, não é um problema simples e de imediata resolução se a insegurança foi convertida em parte da nossa prática.
Qualquer comportamento que vira hábito é difícil de alterar pois não pensamos a respeito dele, simplesmente agimos. É por isso que a ex-gorda ainda carrega alguma ressalva e parcimônia em novos relacionamentos, que os apelidos maldosos e gozações de infância não nos saem da memória, que a mágoa e a frustração nos acompanham por mais tempo. Porque a maioria já teve um coração partido, uma humilhação, uma exposição vexatória, quase todo mundo guarda uma fatia de melindre, há muito desgosto em se expor e ser machucado. E isso não é exclusividade das mulheres, nem da pressão estética, é a cobrança pelo triunfo que chegou para quem está ao lado mas tarda a bater em nossa porta, a admiração sem onde pôr, que se não racionalizada vira o remorso de uma fruta que só dá caroço.
