11.04.09
Moça da Uniban
No último dia 22 uma moça estudante de turismo foi com um vestido curto para a faculdade.
Estes alunos não pertenciam a uma seita religiosa onde moças que usam roupas inadequadas merecem pedradas, coerção e ameaças de estupro. Estas alunas e alunos são pessoas “normais”. Estão ao nosso redor no shopping, ambiente de trabalho ou até dentro de nossas casas, provavelmente com formação cristã, comemoração natalina, carro na garagem e cachorro no quintal.
O motim se deu em um lampejo de revolta e reivindicação da ordem (moral), dando a idéia de “unidade”, pertencimento a um grupo com os mesmos propósitos. Quem era o “inimigo”? Uma moça sozinha com um vestido curto. A multidão precisaria se unir para combater esse “mal”? A transgressão da “moral e bons costumes” embora incentivada (quem não usa roupas curtas é considerada menos atraente e pouco “feminina”), quando cumprida sofre represálias.
Muitos dos comentários que ouço sobre o fato dizem:
“Está certo que a culpa é dos alunos, mas ela sabia que correria este risco”
Não há lugar seguro para uma mulher, horário, local ou idade para serem vistas como “estupráveis”. Este discurso tem uma linha tênue entre “Mas o que ela queria? De madrugada voltando pra casa depois de beber com roupa curta”?
“Se eles mexessem, falassem gracinhas era normal, o que não pode é chegar ao ponto de ameaça de estupro” / “Não tem como abrir queixa, nem encostaram nela, só falaram palavras obscenas”
Da mesma forma um homem que mostra o seu pau em público, se esfrega nos ombros das moças no ônibus, ou passa uma cantada ele está cumprindo seu papel de lembrar as moças que elas podem andar com decotes e roupas justas: Contanto que paguem “pedágio”. Se ele as julga pouco atraentes talvez reúna outros colegas (as cantadas costumam ser mais agressivas quando os homens andam em grupo) para ofende-la.
Absurdo o Fantástico chamar a consultora de moda Glória Kallil para falar que “A roupa é um instrumento que diz ao mundo o que somos, certamente essa moça não atentou para a mensagem corporal que a vestimenta dela seria interpretada – o que não justifica a ação destas pessoas”.
Se uma casa fosse roubada eles chamariam um engenheiro para analisar o quanto a casa não foi projetada de forma segura? Em algumas cidades do interior e alguns bairros de periferia, os moradores dormem com suas janelas completamente abertas ao contrário de um condomínio de classe média com suas câmeras de segurança.
Não culpam um homem branco, bem vestido dentro de um carro importado pela tentativa de seqüestro no seu bairro nobre.
Se uma mulher branca usa roupas decotadas e for estuprada, dirão que será por falta de senso estético e decoro, se a mulher for gorda, negra ou fora de algum padrão estético, não acreditarão que alguém tenha desejo por ela, nessa última percepção grotesca cometer um estupro não é uma relação de poder e sim o tesão elevado a máxima potência.
Neste raciocínio, uma mulher usando uma roupa justa é incoerente ao reclamar de uma cantada, a postura esperada seria a condescendência com quem invadiu seu espaço físico, levando em consideração sua natureza racional que compreende a produção involuntária de pulsões sexuais em homens escravos da sua própria testosterona.
10.19.09
Ame seu corpo
Quando digo para algumas amigas que ás vezes me sinto feia elas não acreditam, outras dizem sofrer por ler sobre a indústria da moda, seus padrões e mesmo assim se culpam se engordam, as espinhas no período pré-menstrual e a frustração na imagem refletida no espelho.
Hoje no Metrô vi uma propaganda de uma espuma de barbear com o garoto propaganda Ronaldo-Fenômeno, se não fosse sua fama alguém que passa muito longe da imagem de galã representaria um modelo ideal?
Por que a maioria das mulheres demora tanto para se arrumar?
Nossa imagem corporal é de suma importância para nos relacionarmos com o mundo, cores de nossas vestes, simetria de nosso penteado, tudo isto tem de ser cuidadosamente planejado, é a primeira maneira de poder e aceitação social que conhecemos. Imagine que seu guarda roupa é responsável por julgamentos alheios do que você é.
Para uma mulher, todo dia é uma entrevista de emprego.
Por isto deixamos de sair “quando não temos roupa” mesmo com o guarda-roupa repleto, nos frustramos quando não reconhecem que mudamos o corte de cabelo ou notam que borramos/falhamos ao pintar nossas unhas (dormimos três horas mais tarde para fazê-las).
Um homem não precisa se preocupar com a própria imagem se sua relação com o mundo não está emaranhada com estes valores visuais, basta ser o que a genética lhe dá: Dentuço ou barrigudo, pode ser um modelo ideal em propaganda de loção pós-barba.
Desconstruir
* Olhe o próprio corpo nu no espelho, de frente, de lado, do modo que for, não tenha medo de odores, de gosto e suas formas. Qual é o formato da sua beleza?
Em nossa cultura mulheres são contemplativas em sua essência, por que não olhar isto de outra forma? Convidar nosso corpo a se olhar mais uma vez, de outro modo, deixar que ele dance, pule, se envolva nele mesmo, preste atenção em suas dobrinhas, no seu umbigo e cada história que ele conta de superação e resistência.
* Leia: Sobre a história das mulheres na China, no Brasil, no Nordeste ou no Afeganistão. Sobre Mitos e Ritos de Beleza, Ciências, Arte e Música.
* Compartilhe: Saia com suas amigas, comam algo muito saboroso juntas, brinquem de pega-pega, guerra de travesseiro e “lutinha”, ouçam suas dores para juntas superar obstáculos tão similares. Seja sincera, diga para elas o quanto são bonitas suas pernas, seu modo de andar ou qualquer outro traço que considere realmente bonito.
Este ano, em sua 12ª edição, o Love Your Body Day (Ame seu Corpo) será celebrado em 21 de outubro. Popular nos Estados Unidos, ele repercute principalmente entre a comunidade de blogueiras e ativistas pelos direitos da mulher.
08.17.09
Mutante
Compartilhei aqui no blog grande parte da minha trajetória, a origem evangélica e outros percalços mais tortuosos, mas nunca mencionei “meus primeiros passos” fora desta “formação”.
Quando eu parei de estudar (aos 15) comecei a trabalhar com meu pai ajudando-o no suporte aos clientes (ele é analista de sistemas autônomo). Fiz um curso básico de HTML e de Clipper sendo que neste último descobri maneiras de fazer animações em formato “quadradão”. Eu gostava de desenhar e ler tirinhas, o professor se surpreendeu porque nunca nenhum aluno dele teve essa idéia. Infelizmente (?) não fiz backup e perdi as “preciosas” animações.
Nessa mesma época entrei em uma paranóia com a minha aparência (minha barriga era o alvo principal) e ia caminhando para o curso em um sol escaldante com os cabelos muito compridos, a saia marrom com desenhos na barra e uma blusinha laranja. Sempre bebendo muita água. Perdi 10 quilos rapidamente e os ganhei quase por completo. Pesava 78 quilos aos 15 anos com 1,64 de altura. Embora tenha ganhado muitos elogios pela modificação da silhueta, continuava triste. Sentia que a gordura me impedia de ser bonita e atraente. Até porque cansei de ouvir que não era feia, só era gordinha e tinha o rosto bonito. Então a associação imediata foi que a única coisa que me impedia nesses anos todos de ser considerada bonita, inteligente e agradável eram mesmo os meus pneuzinhos.
Certo dia eu peguei o caderno com as matérias do meu curso de Clipper e joguei todas fora, restando apenas algumas páginas em branco. Foi aí que eu comecei a escrever e ler o que escrevia, me analisando a partir dali. Percebi que isso me fazia muito bem, era uma conversa franca com minha consciência.
Passei a arriscar cada vez um pouco mais. A primeira mudança foi cortar o meu cabelo.
Depois comecei a encurtar as minhas saias e passei a usar calças.
E não sentia tanto medo de Deus assim…Resolvi que daria uma chance para um moço que parecia legal. Ele foi o meu primeiro namorado.
No dia do meu primeiro beijo (aos 17) estava em um SESC ao ar livre e durante o beijo senti uma coisa cair no meu braço. Era cocô de passarinho. Ele não tinha papel na bolsa que usava sempre a tiracolo. Eu também não, então a saída foi limpar com o ticket do SESC.
No dia em que perdi a virgindade pensei que Deus ia me matar com um raio na cabeça. Só repetia: “A qualquer momento, a qualquer momento”. Ou que o ônibus ia bater e ficaria paraplégica. Dessas “pragas” que adoram rogar nas igrejas pra quem não “andava pelo caminho da justiça e da luz”.
Acabei relaxando e aproveitando aquele momento, mas ainda ia a igreja. No último dia que eu fui, o Cooperador disse na “Palavra”: “Se você não concorda com o que está aqui, vá embora! Deus não precisa de você!” E eu fui.
Com o tempo julguei que o melhor a fazer era romper com meu primeiro namorado. E assim o fiz. Nessa altura eu estava com mechas loiras no meu cabelo (nem tão) comprido.
Conheci mais alguns rapazes e entre eles estava o Yuri. [Que estou a 3 anos cheios de cumplicidade, risos, conchinhas e muito, muito diálogo. Ele não lê meu blog com muita freqüência mas se estiver lendo isso aqui, já sabe que te amo
]
Com o tempo fiz tudo o que sempre tive vontade de fazer: Cortei meu cabelo, pintei de vermelho, uso a roupa que quero na hora que quero, seja saia ou calça jeans, me tornei vegana e encontrei amigas maravilhosas que me aceitam como eu sou: Feminista, atéia, vegana, chorona e atrapalhada.
Agradeço ao apoio dos meus familiares, do meu namorado, minhas amigas, o Wen Do e a União de Mulheres. Amo vocês.
07.29.09
Espaços Femininos
Não ter referenciais de beleza que retratem a diversidade de corpos faz mal a auto-estima feminina e deturpa a expectativa estética masculina.
Seriam necessários “Espaços Femininos”, onde mulheres pudessem conversar entre si, sendo proporcionada uma “zona de conforto” onde trocassem experiências, nadassem, dançassem ou exercessem qualquer outra atividade corporal e intelectual desejada.
Há saunas, clubes, bares, estádios de futebol e outros locais onde homens convivem em “fraternidade” . Os “Espaços Femininos” disponíveis visam à manutenção da beleza e consumismo (clínicas estéticas e shoppings) ou celebração da maternidade (berçários e chás de bebê).
Não seria maravilhoso ter um espaço nosso? Uma cachoeira ou riacho onde pudéssemos nos banhar, a liberdade de estar com outras mulheres sem a preocupação de um intruso nos observar/filmar, julgando nossa capacidade atrativa?
Nisso também incluiria a possibilidade de ficarmos nuas em coletivo, de calcinha, de biquíni ou como bem quisermos.
Despir
Quase toda mulher vê suas familiares peladas (mães, tias, irmãs…) da mesma maneira que se vê no espelho de relance, reconhecendo alguns traços em si. Na contrapartida vemos corpos na mídia que parecem manequins surrealistas se comparados a estes referenciais.
Se olharmos para os corpos de nossas amigas em um gesto contemplativo, a beleza da diversidade não nos pressionaria a mudar nosso corpo “defeituoso”.
“O valor das indulgências está realmente na despesa causada ao penitente. Seu significado psicológico básico reside no cálculo do quanto o penitente está disposto a sacrificar para obter o perdão. Também os vendedores ameaçam amaldiçoar uma mulher se ela não pagar. Nem é mesmo o inferno da feiúra o que ela teme, mas um limbo de culpa. Se ela envelhecer sem os cremes, dir-lhe-ão que a culpada é ela mesma por não ter se disposto a fazer o sacrifício financeiro adequado. Se ela de fato comprar os cremes e envelhecer — o que iria acontecer de qualquer jeito — pelo menos saberá o quanto pagou para evitar o sentimento de culpa. Uma conta de cem dólares é prova concreta de seus esforços. Ela realmente tentou. A força propulsora é o medo da culpa, não o medo da velhice.”
O Mito da Beleza - Página 159
As nossas “imperfeições” são vistas como um crime gravíssimo e um atentado Ao Mito da Beleza. Por que nossas rugas, nossos cabelos grisalhos, nossos peitos, nossa flacidez é considerada “mortal”? Nenhum homem se preocupa com o formato da própria bunda, com a inclinação do pau, a pele enrugada das bolas. Se as mulheres tivessem testículos, fariam lifting.
07.27.09
Lingerie Day
E o primeiro round começa.
Embora a arena seja tradicional o que a difere é uma mesa redonda localizada no centro. A platéia está cheia, do lado direito estão as moças que participaram do Lingerie Day, reivindicando sua posição libertária em sua sexualidade.
Do lado esquerdo estão as feministas que não criticam as moças em si, mas o fato de ignorarem o sistema que estão inseridas, do quão machista é esta campanha que serviu para satisfazer a paleta de exposições femininas com cores de corpos-comuns.
Quem assiste do lado esquerdo? A platéia só tem cinco moças.
Quando as moças entram no lado esquerdo são chamadas de barangas, mal-comidas, gordas e feias.
As que optam pelo lado esquerdo, são chamadas de modernas, gostosas, “bifão” e “Ê lá em casa”.
Do lado direito da platéia estão uma multidão de homens e garotos de todas as idades, o que eles têm em comum? A Ruffles costelinha e a cerveja que dividem fraternamente.
Deixando claro que não tenho nada contra AS moças. O corpo é delas. E quisera eu, que as mulheres tivessem de fato uma sexualidade liberta e poder para mostrar como bem entendessem seus corpos. Elas só foram “ouvidas” por serem “gostosas”, eles querem dar a liberdade corporal pra quem atenda suas expectativas. Lembrando que há prejuízos em ser bonita.
Tratando-se da minha perspectiva, assino embaixo aqui, aqui, aqui e aqui.
07.16.09
Quanto vale ou é por quilo?
Estou pasma. O “Metrô News” distribuído diariamente aos passageiros de SP publicou uma vaga de emprego absurda:

Sim, um homem busca por uma empregada-puta por R$ 1.395,00 trabalhando de segunda a sexta, que seja “liberal e faça massagens relaxantes” e com direito a carteira assinada!
Não dão condições a uma mulher concorrer ao mercado de trabalho com um salário igualitário, detonam a auto-estima dela através da mídia e oferecem empregos sexuais. É claro que surgirão muitas mulheres desesperadas para essa vaga de emprego.

Assisti ao Roda Viva com a Gabriela Leite fundadora da Da Vida, uma ONG que luta pelos direitos trabalhistas das prostitutas. Ela era de classe média baixa e deixou a faculdade pois estudava e trabalhava não restando tempo pra se divertir. Ao olhar as putas “se divertindo” em boates ela achou o máximo. Beber, jogar conversa fora e ganhar o dinheiro assim parecia menos estafante do que sua dupla jornada de trabalho. Nunca trabalhou “na rua”, apenas em “casas noturnas”. Segundo ela, as putas não trabalham de terça-feira e não beijam na boca, atualmente são Workaholics e não tem mais tempo de se divertir, trabalham de “sol a sol” e procuram “fazer um pé de meia” pra comprar uma casa longe do local de trabalho. Defende a legalização da prostituição conquistando respeito e libertando-as das “mãos” dos cafetões que as agenciam inescrupulosamente.
É grande o número de prostitutas que sofrem violência, afirmou que os piores locais que visitou são o norte e nordeste do Brasil, onde as meninas são acorrentadas e presas para que não fujam do local.

Os anúncios que li hoje (e a qualquer dia da semana neste mesmo jornal) oferecem uma hora de anal sem parar por R$ 20,00, beijo na boca e “tudo” inclusive drinks por R$ 30,00. O mercado da prostituição é direcionado ao público masculino, até os garotos de programa em sua maioria atendem homens.

Se o maravilhoso mundo da prostituição é mesmo tão estupendo, por que os homens são minoria nele? Por que a última opção de um homem é virar mendigo, enquanto uma mulher não pode ser mendiga sem correr o grande risco de ser estuprada?

Nós já nascemos putas. Não importa se somos largadas nas ruas aos 5 anos, se fugimos de estupros dentro de casa e acabamos na rua ganhando umas moedas pra isso, se temos diplomas acadêmicos e não conseguimos mais pagar as contas. Se colocarmos a roupa curta, o batom vermelho e as cores escandalosas, em cada esquina estarão homens dispostos a comprar nosso sexo.

Se perguntassem para cada puta do Brasil: O que quer? Deixar de ser puta ou ter outro emprego que lhe dê melhores condições de moradia, segurança e autonomia?

O que acham que responderiam? É muito hipócrita querer que as putas deixem de ser putas quando em um “emprego comum” elas ganhariam menos dinheiro. Eu por exemplo, sou secretária e ganho menos que “a puta-empregada” mencionada acima. Deixando claro que não estou defendendo “os bons costumes”. Se uma mulher QUER ser prostituta e se sente bem assim, deve ser respeitada e protegida por lei. Mas não é o que vejo em qualquer documentário/depoimento pessoal sobre prostituição.
A pornografia, o capitalismo, a heteronormatividade e a misoginia alimentam esta profissão.

O que é mais difícil? Oferecer a estas mulheres cursos de defesa pessoal, faculdades e cursos técnicos, prepararem a polícia para atendê-las com respeito e dando credibilidade aos seus relatos, inseri-las no debate público, se assim desejarem inseri-las no mercado de trabalho (convencional)?
Ou conscientizar os homens do que “eles consomem”, da violência contra a mulher, da mercantilização dos corpos femininos, da exploração sexual infantil que gera prostitutas adultas?
Sei que algumas delas se casam e formam uma “família” e que há homens que se apaixonam por putas e enfrentam todo o preconceito.

Mas quando leio estes anúncios, a última coisa que imagino é um homem (cliente) perguntar a uma prostituta qual sua história, quais seus sonhos e o que ela realmente quer pra si.
07.10.09
Eternas mães
Mulheres preferem chocolate á fazer sexo
Não gosto destas generalizações de revistas femininas utilizadas em correntes de e-mail, usei este exemplo para tentar entender o motivo que talvez leve algumas mulheres a colocar o sexo em segundo plano.
Mulheres costumam assumir para si a responsabilidade pelo bem estar de todos que a cercam. Elas chegam em casa, fazem a comida, limpam a casa, cuidam dos filhos e prosseguem com sua tripla jornada. O que levam muitas delas á Síndrome de Amélie Poulain.: “Se ela cuida da bagunça dos outros, quem cuidará da sua bagunça?”
Centrando sua energia em outros, seu esforço não é reconhecido tornando até motivo de chacota “rá rá a mãe é mesmo paranóica com limpeza/saúde/estudos dos filhos”. Quem (geralmente) “corre” com os filhos para o hospital? Quem olha o caderno de lições? Quem se preocupa em convencer o filho a comer feijão senão o exame de sangue pode acusar anemia novamente? E em caso afirmativo, a culpa será toda dela, afinal, seu fracasso como mãe é refletido nos estudos/saúde do filho.
A estrutura familiar é posta em grande parte nos ombros das mães, estes seres que não são perfeitos nem maculados por parirem. Alguns defendem que uma mulher nunca será completa até gerar (ou no mínimo adotar) um bebê completando esta última etapa de sua vida, devotará sua energia para nutrir e guiar todo o desenvolvimento cronológico que a separa do cordão umbilical do feto. Um dia este filho parte e sobra apenas A Síndrome do Ninho Vazio.
Mulheres são neuróticas
Uma das características usadas em comédias é a mulher neurótica. Pintam nossos traços em caricaturas histéricas e voláteis que em um momento choram e no seguinte beijam, até mesmo comédias românticas mostram essa “faceta” feminina. Que mulher não se contradiz emocionalmente ao gritar com o namorado, se arrepender, correr para o chocolate e chorar? Essa “confusão mental” nos envergonha por fugir do padrão esperado da racionalidade e autocontrole. Sentimos-nos “loucas” e “paranóicas”.
O amor da mulher é suicida enquanto o do homem é homicida
Não nos ensinam a bater, gritar, xingar, falar palavrões. O que fazemos com a nossa raiva? Com nossa frustração? Desde pequenas aprendemos que não podemos “culpar ninguém além de nós mesmas”. E nestas condições resta o nosso já tão odiado corpo para extravasar.
Obviamente há homens que se matam por suas namoradas, mas estatisticamente a maior parte das pessoas que tentam suicídio são mulheres (proporção de 3 á 4 para 1), enquanto a taxa de homicídios mostra claramente que os autores são masculinos. É alto o índice das que flagelam o próprio corpo. Ao se desenvolver a criança precisa de estímulos que a encoraje e fortaleça a auto-estima. A criação sexista falha muito nesse aspecto.
Temos de provar o tempo todo que somos capazes, tanto (ou mais) quanto um homem. Uma mulher de tailleur tem de se esforçar mais que seu companheiro de trabalho que é visivelmente incompetente e nem precisa se preocupar com as olheiras ostentadas ás 8:00, ou ainda se o gel no cabelo o faz parecer garoto propaganda da Grecin 2000.
A maioria delas está insatisfeita com a própria aparência e dispostas a recorrer a processos cirúrgicos.
O que um homem não encontra em casa, busca fora.dela
Se antes as mulheres se sentiam culpadas por pensar em sexo, hoje somos obrigadas a cumprir metas sexuais. A “obrigação conjugal” é uma das muitas pressões exercidas como deveres de uma esposa/namorada/amante. Mais do que se perguntar por que as mulheres fingem orgasmos, seria justo perguntarmos por que tantas delas começam o ato sexual sem estarem molhadas e com tesão para isto.
Nossos passos são monitorados: Sejam os pneus que aparecem em uma roupa de trabalho, nossos filhos quando não tiram boas notas, nossa disposição física não se manifestando como nos comerciais de energéticos, nossa performance sexual, nossos pais envelhecendo precisando de dinheiro pra os remédios… Somos o tempo todo, as “mamães do mundo” com “crias” penduradas na barra de nossas saias.
Em meio a tantas frustrações podemos mascarar nossa carência afetiva com aqueles tabletinhos cheirosos de chocolate. E só por aquele instante você se entrega e “derrete” na boca todo o prazer que precisava naquele momento. Este prazer é rompido quando lembramos que nosso corpo não nos pertence e cogitamos não jantar para compensar tamanho deslize.
Queremos paz de espírito, para tanto é preciso fazer as pazes com o espelho. O desgaste de nossa energia no cotidiano de pressões, trás o abatimento que enfraquece nossa força. Quem consegue lutar quando se está exausta?
07.08.09
Vigiai e estai sempre atentos
É muito mais fácil influenciar pessoas cansadas, desprotegidas e com carência afetiva. Nisto, as mulheres tornam-se um público-alvo interessante.
Toda a estrutura social fragiliza a confiança das mulheres em si mesmas, reafirmando a idéia de sacrifício que é comumente veiculada com o mito do amor romântico. Deus, projeta a idéia máxima do apogeu masculino “o homem foi feito a semelhança de Deus”, a submissão e a eterna vigilância.
Que mulher não se “policia”? Não é o que nos dizem as revistas femininas? Para atentar para cada alimento ingerido, o número de mastigações, o intervalo entre refeições, as calorias vazias? Cada quilo ganho é um fardo “um pecado”. Cada jejum e quilo perdido uma vitória, elevação.
Há dietas para “purificar o corpo” e é essa prova de resistência e “temor a Deus (beleza)” que nos faz envaidecer da “luta contra a carne”. E logo “pecamos” em um doce super calórico que nos faz sentir mal por este descontrole.
A energia utilizada nesta vigilância desgasta a mente e o corpo. Lembro que em minha dieta mais extrema, além de comer pouquíssimo tomava muitos copos d’água. Sentia muito frio, sono e cansaço. Uma candidata assim é perfeita para uma mídia que vende sonhos em cremes rejuvenescedores e de “funções terapêuticas”.
Negando o desejo oral (alimento), a mulher permite esfregar no próprio corpo produtos que aludem aos alimentos “proibidos”. São hidratantes de chocolate, perfumes de morango com chantilly, sabonetes de pêssego. Esses produtos também “acalmam” com fragrâncias de camomila e maracujá.
Em algumas religiões há autoflagelação em busca da plenitude no êxtase religioso. Muitas mulheres submetem-se a bisturis, próteses e outros métodos menos invasivos á estrutura corporal como salto alto e cintas modeladoras.
É rentável ao “mercado” que as mulheres permaneçam frustradas. Essa frustração no passado fez as vendas de máquinas de lavar e outros eletrodomésticos aumentarem. Hoje lucram a industria dietética, a de academias de ginástica, cosmética, revistas femininas, livros de auto-ajuda, esotérica e tantos outros nichos imagináveis.
Esse culto a beleza não é mera associação. Assim como na religião ele inclui a noção pecado/resignação, vigilância constante, penitência, jejum e desprendimento da antiga identidade “Agora sou de Jesus, joguei meus discos de rock no lixo” / “Agora serei magra, joguei minhas fotos “gordas” no lixo”. Evitando sempre os lugares onde existam “tentações”. Sendo estes sorveterias ou discotecas.
O que os difere é o número de adeptos e o nível de alcance da “pregação”. Todos são “vigilantes” de nossa aparência. Citam nossa forma física em conversas informais, estampa em toda a mídia o modelo “a seguir” implantando a culpa em condutas esperadas em manchetes “A atriz perdeu 7 quilos com a dieta do agrião, caminha 3 quilômetros por dia, cuida dos 3 filhos e do marido também ator”
Qual foi a última vez que você comeu algo realmente delicioso sem se culpar?







