8 fevereiro, 2013

La Mirada Circular

Enviado em Animais às 12:29 pm por Deborah Sá

Mirada
Está disponível on-line¹ o premiado curta espanhol “La Mirada Circular” que trata de Direito Animal. A diferença está no método de abordagem que difere de outros filmes ou documentários sobre o assunto. Nele, a vulnerabilidade animal é associada a infantil.  Cenas “fortes” (no sentido de abate e morte) são pontuais com fundamento na trama. Aviso esse dado de antemão, pois há quem não veja filmes como o nacional Amarelo Manga (que nada tem de vegetarino), por imagens assim. Ademais, a morte de não-humanos precisa ser encarada como o que é, a morte de um ser com coração, músculos e sangue. Querer que toda abordagem do tema seja asséptica tal e qual um bife na bandeja de isopor do supermercado, é como esperar que um martelada no seu dedo seja tão divertida quanto a que acerta um personagem de desenho animado.

28 novembro, 2012

Comida de criança é enlatado e fritura?

Enviado em Animais, Consumo tagged , às 9:42 am por Deborah Sá

Vi um vídeo que gostaria de compartilhar com vocês, é a palestra de um garoto de dez anos chamado Biel Baum. Ele reflete sobre a comida que oferecemos para as crianças e defende que cozinhar não deveria ser um privilégio de adultos. Tal tarefa pode ser divertida e variada, bem como a comida de uma criança pode ser mais que macarrão, nugget e batatinha, além de abordar a influência das gigantes corporativas na alimentação, Biel também fala sobre sua decisão em se tornar vegetariano.

Como alguns de vocês que acompanham o blog bem sabem,  defendo um Veganismo que leve em consideração as questões de classe e desigualdade social. Não adianta defender que o Veganismo é para qualquer um quando tanta gente ainda passa fome. O garoto do vídeo foi criado em uma família com dinheiro, ele faz viagens internacionais, tem condições de comer orgânicos todo dia.  Nunca viajei de avião e sequer saí do país, nesse momento em que escrevo não há um único alimento orgânico em minha despensa ou geladeira. Me tornei Vegana em 2007, se você é novo por aqui e deseja saber mais sobre dê uma olhada no F.A.Q Vegan ou nos arquivos do blog.

Estou cansada (de verdade) de ver o discurso de alguns membros da  esquerda que desdenham da empatia de quem nasceu em família de classe média ou mais endinheirada. Karl Marx? Nasceu em família de classe média e com pai advogado. Simone de Beauvoir? Uma acadêmica também com pai advogado. Nem por isso a gente desdenha das idéias dessas pessoas e da sua contribuição na mudança de percepções sobre as estruturas. Há quem defenda que os valores da cultura dominante não deviam ser ensinados na escola , que só os oprimidos deviam produzir o próprio saber. Concordo que é classista falar que a única forma de cultura legítima e boa é aquela que se vê na TV Cultura e nos Sarais de Poesia da Av. Paulista, a periferia também faz sarau, também faz poesia, também faz crítica social. Sem contar que o país é muito mais que o eixo Rio-SP. Educadores  de escolas públicas não precisam fazer o esforço de privar o acesso a cultura dominante (por cultura dominante me refiro aos costumes e normas cultas), seus alunos já são privados dela por morarem em bairros longe do Centro, por um Histórico Escolar sem prestígio. Aposto no oposto, na contramão, as pessoas devem ter acesso a produção intelectual porque são capazes de compreende-la e fazer uso dela. Não é só a pessoa com diploma que pode contemplar a solidão e a pequenez diante do mundo. Quando um caminhoneiro experimenta a melancolia da estrada vendo a vida passar na noite estrelada e silenciosa ele experimenta uma sensibilidade disponível para maioria de nós.  Isso me leva crer que não só é possível levar o debate do vegetarianismo/veganismo para mais pessoas como fazer o contrário é subestimar a capacidade alheia de se sensibilizar e tomar partido.

Se é possível obter água cavando o chão, se é possível enfeitar a casa, se é possível crer desta ou daquela forma, se é possível nos defendermos do frio ou do calor, se é possível desviar leitos de rios, fazer barragens, se é possível mudar o mundo que não fizemos, ou da natureza, por que não mudar o mundo que fazemos: o da cultura, o da história, o da política? Paulo Freire (2000)

6 novembro, 2012

Veganismo não é mamão com açúcar

Enviado em Animais tagged às 9:32 am por Deborah Sá


As pessoas querem (e devem!) ter o prazer de comer besteiras de vez em quando. Esse é um dos impasses do veganismo e a questão de classe, fácil falar que existe arroz, feijão, mandioca, lentilha (existe mesmo e é uma delícia), ignorando a larica que bate de comer bobagem. Se você precisa pegar um busão pra comer coxinha de soja de R$ 3,50 enquanto acha uma de R$ 0,90 no seu bairro é porque as coisas estão BEM demarcadas.

“O mundo é vegan se você quiser” uma ova, existem muitas questões nesse meio tempo e ás vezes mesmo quem tem consciência da indústria, do trabalho escravo e sente uma pontada de compaixão não quer largar mão do queijo, do chocolate. Se essas pessoas são minhas inimigas políticas? Não. Tomei uma atitude porque a consciência pesou e tive informações pra me alimentar, pude escolher o que comia. Fui criada a leite com pêra? Não, rolava um churrasco ás vezes. Nunca passei fome. Mas simplesmente não podia esperar abrir uma lanchonetezinha Vegan na Belmira Marim pra tomar uma postura, assim como não esperei o mundo ser Feminista pra enfrentar o machismo, ou que o mundo aceitasse eu ser gorda pra usar biquíni. As coisas não caem no colo, de mão beijada, ainda mais quando o que se luta é por uma justiça que parece absurda para tanta gente. Você vira motivo de piada, querem que tire da cartola todos os argumentos teóricos mais fodas pra te testar.

Porque ser empático é tão démodé….nossa, que engraçadão ela defende “os animaizinhos” diz o cara hétero que se sente oprimido por tomar cerveja e comer carne #Lastimado

Sim, muito do “progresso” da humanidade veio com o uso de não-humanos, mas é em nome desse mesmo “progresso” e “ciência” que negrxs, indíos e mulheres foram mortos. O dono dos meios de produção paga um pobre diabo pra matar outros pobres diabos, um após outro. Somos todos propriedade privada. Por um veganismo de esquerda, feminista e laico, sem medo de se apresentar com todas as letras.

20 agosto, 2012

É justo comparar escravidão humana com a servidão animal?

Enviado em Animais, Só falam nisso tagged , , às 5:55 pm por Deborah Sá


Defensores de direito animal há tempos usam analogias entre a escravidão humana e animal, as palavras usadas variam para extermínio, holocausto, chacina e assassinato. Morrissey, líder da banda The Smiths, nos anos 80 lançou o emblemático “Meat is murder” (carne é assassinato).  Também não é recente que o uso de imagens ganhe mais destaque e impacto do que textos, ativistas tentam com materiais gráficos atingir um número maior de indivíduos, mas como cada um interpretará o conjunto de símbolos, letras e formas impressos é resultado do acúmulo de informação que se tem sobre determinado assunto. Um panfleto distribuído em via pública onde se vê lado a lado várias representações de casais LGBTTT com os dizeres “Toda forma de amor é válida” pode ser altamente ofensivo se visto por alguém que não entende o bê-á-bá sobre identidade de gênero, prática e orientação sexual, aos olhos de quem se ofende é completamente absurdo validar a afetividade não heterossexual. Similarmente um panfleto que compare um cão com uma vaca acompanhados da frase “Se você ama uns, por que come outros?” pode parecer um disparate para quem julga inconcebível colocar no mesmo patamar um animal de companhia e digno de cuidados com um animal de finalidade alimentícia. Mas se a distribuição é aleatória, não há como prever o acúmulo e consecutivamente a reação de quem tem acesso a esses materiais. Nesse processo os que dispõem de menos informação muitas vezes não estão dispostos a ouvir as argumentações de quem tenta disseminar o conteúdo, principalmente se isso vier em forma de um texto. Se o verso do panfleto trouxer mais de dez linhas poucos são os dispostos a correr os olhos por ali.

As pessoas tem preguiça de ler e não se trata de incapacidade, há pouco estímulo para esse hábito, talvez isso explique a imensa popularidade de pastores, eles dominam a linguagem das Escrituras interpretando em voz alta e em Libras, para os fiéis que se consideram inaptos para decifrar a Bíblia (o reconhecimento da própria pequenez é valor desejável para um rebanho). Ler demanda tempo, introspecção, reflexão e apuramento do conteúdo exposto e quem exerce essas competências possui um tipo de poder, de domínio. E a quem interessa um número expressivo de pessoas que tem medo de ler e escrever senão os que desejam manipula-los?

Se encararmos a compreensão de uma imagem como igual competência, recairemos no mesmo impasse, falta de estímulo e acúmulo para compreender a real intenção por trás da ilustração.  Embora seja uma forma distinta de transmitir conceitos, a ilustração é uma forma de expressão e linguagem. E isso nos leva há um ponto comum entre feministas, comunistas, socialistas e veganos: São de maioria branca, classe-média, com ensino superior, são letrados. Não importa se nas manifestações em ruas ou blogs, os integrantes majoritariamente têm rostos brancos devido a essa parcela tradicionalmente receber maior estímulo para leitura e produção de textos/imagens. Portanto, é imprescindível não se esquecer de qual lugar falamos, mas atentando para não cair no sofisma “se a maioria das veganas e feministas são brancas e de classe média, logo isso é uma ideologia de dominação”, uma inverdade quando o que se busca é diametralmente oposto, a autonomia, a liberdade, a não sujeição dos corpos. O esforço deve ser empregado para reformular essa afirmação: Sim, é evidente que a maioria nesses grupos é privilegiada pela classe social, raça e por vezes gênero, algumas das consequências diretas da desigualdade econômica são o baixo incentivo à escrita, leitura e produção de imagens. Isso não deslegitima a veracidade dos argumentos apresentados pelos grupos que detém os meios criativos, mas faz urgente a inclusão de outros indivíduos até então ignorados convertendo-se em agentes nesse processo.

Esperar que cada vegano fique prostrado diante de um quiosque em uma espécie de “Plantão de Dúvidas” frente às calçadas mais movimentadas aguardando por tempo indeterminado, para atender os curiosos, é exigir muito de alguém com vida social ativa. Devido ao impacto de mais rápida assimilação o uso de imagens é boa ferramenta para divulgação, porque faz uso de arquétipos significativos na cultura, símbolos praticamente universais em um só material.  Cada grupo se articula com uma ferramenta de divulgação, uns fazem o papel pedagógico de base respondendo as perguntas mais elementares, outros acham melhor partir para uma abordagem mais direta, por exemplo, dizer sem firulas que carne é assassinato e o sangue que suja o prato depois de um almoço não é a base de urucum e groselha, é o mesmo tipo de sangue que quando nos cortamos sem querer vemos brotar do indicador.

E por que alguns defensores de direito animal fazem o paralelo entre a escravidão? Vejamos a definição do seguinte verbete:

Escravo
adj. e s.m. Que ou quem está sob o poder absoluto de um senhor que o aprisionou ou o comprou.

Assim, escravos são aqueles que podem ser comprados, coisas medidas segundo a utilidade para seu senhor, eles não tem “alma’, podem ser machucados no manejo e transporte se isso for necessário para conter seus passos e direção, açoitados, aprisionados, trocados e substituídos por outro de igual valor. Com pistola de pressão ou machadada, propriedade privada. Ter um escravo humano já foi direito assegurado por lei. E com base na analogia entre o escravo humano de outrora e o escravo não-humano que persiste  até nossos dias, o movimento de direito animal pegou outra palavra emprestada, o Abolicionismo:

Abolicionismo
Sistema de princípios sociais que propugnava pela extinção do tráfico e da escravatura dos negros.

Quando se compara através de termos ou imagens a exploração animal e a escravidão hedionda pelos quais os negros foram submetidos historicamente, a intenção não é menosprezar ou rebaixar essa memória, mas evidenciar um subjugo na prática muito similar repetido com outras vítimas. O Judeu nascido na Polônia, Isaac Bashevis Singer, em The Letter Writer escreve: “Em relação (aos animais), todas as pessoas são nazistas; para os animais, é um eterno Treblinka

Ao contrário do que a dedução precipitada leva a crer, isso não é afirmar que todos os que comem carne e tomam leite são sádicos e assassinos, mas que estão inseridos em um registro onde animais são vistos como propriedade, com as carnes dependuradas na artificialidade das gôndolas de supermercados não residindo nenhum crime prescrito em lei, para quem adquire um peixe com os olhos saltados e inertes ao lado de seus pares sob uma bancada de gelo.

Desleal seria arranjar outro termo para degola e sangria para que o sofrimento dos não humanos parecesse mais justificado, arbitrário seria assumir que queimar com ferro quente uma numeração no corpo de um bovino para demarcar o domínio seja muito diferente de assinalar um escravo, absurdo é castrar sem anestesia um sujeito em cativeiro para que a loucura não seja responsável por canibalizar, oportuno é ignorar que por baixo da nossa pele humana guardamos músculos, gordura, tendões, cartilagem e ossos, a vulnerabilidade onde por baixo do couro guardamos um naco de carne.

10 julho, 2012

A Política Sexual da Carne – Brasil

Enviado em Animais tagged , , , às 1:43 am por Deborah Sá


O consumo de carne no Brasil é um traço cultural marcante, tradicionalmente a celebração entre amigos se faz com um churrasco, sendo ainda mais costumeiro assistir as partidas de futebol com essa prática. Uma festividade que envolva a culinária popular Brasileira também conta com o prato típico feijoada, na realidade, a maioria dos pratos servidos no Brasil tem como ingrediente principal a carne. Nos estabelecimentos comercias não é raro encontrar presunto até nas saladas! O consumo de bebidas alcoólicas, em especial de cerveja, também é muito estimulado com a publicidade massiva nos principais meios de comunicação. O Brasil também é conhecido por sua música, samba, Funk e o Carnaval. O que todos esses pontos têm em comum?  Eles representam a masculinidade do homem brasileiro e conforme o esperado, sua publicidade é propositalmente sexista.

Uma peça publicitária produzida em 2012 para uma marca de cerveja consiste na seguinte cena: Um homem branco, interpretando um vegetariano, assa vegetais em uma grelha durante um churrasco, outro homem (também branco), interpretando um onívoro, se aproxima e pergunta “Onde está a carne?”, o vegetariano então indica para uma porção de carne de soja e o onívoro claramente desapontado se retira da cena. O plano de imagem muda onde podemos ver cientistas observando a cena na qual mudam o processo introduzindo cerveja na situação, alterando então o posicionamento dos personagens: Desta vez, o onívoro assa as carnes na grelha e o vegetariano se aproxima com a cerveja na mão enquanto diz: “Onde estão as frutas que prometeu?”, o onívoro aponta para três mulheres-fruta e encerra perguntando ao vegetariano: “Gosta da fruta?”. O que em português, representa uma piada óbvia sobre a orientação sexual do rapaz. No Brasil, usualmente as cantoras de funk carregam uma alcunha que é associada a partes de seus corpos, alguns desses apelidos fazem referências a frutas como um dispositivo que equipara seus formatos ás partes da anatomia feminina.  Essas mulheres são conhecidas como “mulheres-fruta”.

Há uma mulher, cujo apelido é relacionado a um pedaço de carne, que posou para a Playboy de 2008. Alguns exemplares foram embalados em bandejas de isopor e comercializados em açougues. Bancas de jornais a anunciavam como ingrediente de um cardápio e banners foram impressos com o corpo da modelo marcado com indicativos gráficos que a comparavam com os pedaços de um bovino abatido. Aliás, “abate” é uma expressão idiomática comum para se referir a mulheres com as quais se deseja ter relações casuais. O funk produzido no Brasil é feito com versos que falam sobre o cotidiano, violência e a sexualidade de uma camada marginalizada da população: Negros, pobres e também mulheres que estão dentro desses recortes de classe e raça. A acusação mais comum que se faz sobre o funk é contra sua linguagem explícita e seu potencial para reduzir mulheres a meros objetos sexuais, embora a publicidade mencionada acima represente as mulheres-fruta sem qualquer participação mais relevante do que dançarinas, todas as cantoras desse gênero fazem ao menos uma canção muito similar em conteúdo a “Short Dick Man” e “Lick It” produzidas pelo grupo 20 Fingers, populares nos anos 90. Ou seja, letras que representam uma mulher independente sem medo de falar abertamente sobre sua sexualidade, ao mesmo tempo em que tenta subverter sua objetificação a usando como vantagem.

As mulheres com grande destaque midiático (atrizes, cantoras, participantes de reality show, etc.) são convidadas para participarem dos eventos relativos ao Carnaval. Aos olhos de um estrangeiro, um país cujas mulheres vão a público falar sobre sua sexualidade e tem como celebração o carnaval, onde dançam nuas ao vivo, há de se imaginar um ambiente onde a figura da mulher seja fortemente empoderada. Isto é um erro. A violência contra as mulheres no Brasil é alarmante. Em 2001 a Fundação Perseu Abramo trouxe a triste estatística de que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil. Em 2006 foi decretada a lei Federal de nº 11.340 conhecida como “Lei Maria da Penha”, que visa punir com maior rigor e coibir as agressões sofridas por mulheres em âmbito familiar e doméstico. Maria da Penha Maia Fernandes, foi uma mulher espancada brutalmente e agredida diversas vezes pelo marido durante seis anos de seu casamento.  Seu esposo tentou assassina-la com uma arma de fogo a deixando paraplégica e em outra ocasião, a eletrocutou.  Seu cônjuge só foi punido depois de dezenove anos de julgamento, cumprindo apenas dois anos em regime fechado.

Embora haja avanços significativos na paridade entre os gêneros, o Brasil possui o discurso ambíguo de preconceitos velados também em outros âmbitos que abrangem uma imensa variedade de minorias: O racismo está presente nas piadas, as mulheres que ousam andar nas vias públicas com saias curtas tem sua moral questionada, e se por ventura sofrerem algum assédio ou violência, culparão a vítima por seu vestuário. Ademais, o Brasil tem a seu dispor uma das maiores Paradas Gay do mundo sendo recordista na violência contra Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. A contradição não se encerra nessas circunstâncias: Nosso estado laico contém o nome de Deus em suas cédulas, e o Congresso possui uma bancada de forte cunho religioso. A agressão e violência contra animais de estimação e outros não-humanos é socialmente condenada, mas também tolerada se feita em âmbito privado. Ao mesmo tempo, somos o país com a maior empresa em processamento de proteína animal do mundo e denúncias de trabalho escravo no setor pecuarista. Rejeitar o consumo de derivados de animais não é apenas encarado com estranhamento pela maioria da população, sobretudo tal ato é visto como um insulto e afronta contra a identidade cultural de um país que encobre sua desigualdade e violência com uma injusta e muito recente democracia.

Elaborei o texto acima a pedido de Carol Adams, autora de The Sexual Politics of Meat, traduzido recentemente para o Português em A Política Sexual da Carne – A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. Cujo título já indica, faz as analogias entre o consumo de carne e o patriarcado.

A tradução e revisão do texto para o inglês  foram realizadas com a ajuda do meu companheiro Yuri, a intenção era retratar a publicidade brasileira para explicar que nosso contexto e costumes adequam-se perfeitamente no raciocínio exposto há vinte anos atrás, quando Carol lançou a primeira edição de seu livro. Através do Blogueiras Feministas, por pedido da Editora Alaúde, elaborei três perguntas para Carol, as respostas estão nesse link.

2 novembro, 2011

O Veganismo precisa de gente como você?

Enviado em Animais tagged às 9:26 pm por Deborah Sá

É notável a recente onda de ataques a Vegetarianos e suas práticas, sobretudo de Onívoros que por acreditarem serem o alvo perfeito para o recrutamento, fazem uma série de exigências ao camarim, como se o Veganismo fosse uma banda a brilhar no palco em busca de novos talentos, mas não satisfeito, esse “convocado” põe-se a desmoralizar ativistas que se esforçam em prol dessa causa. Sei que pode ser duro para alguns onívoros ouvir isso caindo como uma bigorna em suas cabeças, mas serei direta: Nós não precisamos de você, sequer somos astros, líderes espirituais ou qualquer outra qualidade apresentada ao som de fogos de artifício.

Portanto, nós não precisamos adequar nosso discurso para sermos mais agradáveis, se você tem preguiça de lavar rúcula ou acha oneroso refogar uma abobrinha, não interessa. Há uma forte tendência e maior abertura na atualidade sobre Direito Animal e alimentação Vegetariana, contudo estamos em esmagadora minoria (menor que qualquer movimento pró-direitos humanos), se no Brasil há esse tímido espaço não significa que urgentemente devemos tratar com decoro qualquer um que se acha precioso demais para ser ignorado por “conversores”. Talvez resida aí um dos primeiros mitos sobre Vegetarianos que necessita o quanto antes de adequado descarte, nem todos nós queremos “conversão” a todo custo, invariavelmente muitos confundem essa Filosofia e Ativismo com religião, para tanto, pretendo esclarecer o abismo que separa essas motivações e a quem realmente buscamos atingir, ou em vocabulário mais adequado a metáfora, oferecer “salvação”. Sob a ótica cristã (ortodoxa), a evangelização leva a redenção a cada uma das almas cujas ações, se boas, levarão ao júbilo eterno e se más, ao enxofre e ranger de dentes. É dado o livre arbítrio, embora o discernimento ofereça uma prévia das conseqüências pós-morte. Mesmo quando uma criança não é fruto de genitores cristãos (até seu nome predestinado é Bíblico), há uma série de referências teológicas ao redor, o calendário, feriados, Natal, em sátira ou levado a sério também há espaço em emissoras de TV, jornais, revistas, é muito fácil encontrar igrejas a poucas quadras de qualquer domicílio, se necessário for, os missionários “vão até Maomé”.
No Veganismo a eternidade e outras dimensões não estão em jogo, não sendo necessária muita perspicácia para notar que beira o surreal equiparar a oferta de informação em ambos os casos, após difundida a informação sobre Veganismo, sobra o livre arbítrio, mas o que ocorre se um onívoro optar por continuar seus hábitos usuais? Morrerá? Será assombrado por fantasmas no rolete? Pagará multa? Entrará para o contrabando de queijo coalho para burlar a segurança nacional? Em verdade, sua vida permanecerá idêntica e no consenso geral não há nada nesse ato que salte os olhos. E o que implica essa “escolha”? Ao comer uma fatia de pizza coberta de queijo não se condena a alma de outros ao inferno, mas se encerra prematuramente (se comparada fora do confinamento) a vida de uma vaca que foi concebida com esse propósito, alimentar uma indústria, alimentar um patrão e por último, te alimentar.

Fazendo-me explícita, o foco não é pensar na sua alma, na sua eternidade, o propósito são outros sujeitos afetados nessa escolha, é a privação, segregação, dor, abuso e morte de alguém incapaz de requerer alforria. São integrantes de uma realidade extremamente concreta, os que perambulam em jaulas pequenas fazem o retrato de desordem psíquica sem qualquer alento. Mas se não há lucro nessa conduta moral, porque alguém se dispõe a reexaminar uma série de condutas perfeitamente justificadas em seu tempo?

Segundo Comte, “a Moral consiste em fazer prevalecer os instintos simpáticos sobre os impulsos egoístas”, é o genuíno altruísmo que por si só não precisa de embasamento, esse impulso empático inerente em alguma medida a cada um de nós, é o que nos faz tomar as decisões justas mesmo que não acarrete benefício próprio. A ética por sua vez é a justificativa teórica para essas medidas, se o assassinato é punido perante a lei, antes foi regulamentado por bases éticas sendo socialmente “errado” em sua moralidade e através da ética é permitido ao acusado a chance de defesa. Conforme a percepção dos indivíduos e seu recorte histórico, suas bases morais adquirem multifacetadas interpretações, embora seja esperado ver em uma calçada de grande movimentação os transeuntes saborearem pedaços de porco envoltos no pão, a comoção seria outra se o vendedor agisse dessa forma:

Minha mãe quando garota, não gostava de presenciar minha avó degolando galinhas ou codornas na sua frente, meu avô paterno era um jardineiro que caçava nas horas vagas, desses que matam uma cobra ou um macaco, levam para casa, limpam, temperam, cozinham e comem com gosto. Para essa geração é um ritual que faz parte de suas vivências, algumas pessoas mais velhas contam que no início relutaram e por fim se acostumaram, como se arrancar o último pio de uma ave causasse o mesmo impacto de escutar o estalo de pilhas que saltam de um controle remoto forçados diante de nossa impaciência. A maioria das pessoas da minha geração não teria coragem de abater um porco sem remorso e não raro, os que hoje acham essa atitude “uma tremenda bobagem” (em média quase duas décadas mais velhos) são os mesmos que dizem “Pra mim, depressão é curada na pancada, apanhei muito e nem por isso fiquei louco”.

Uma contestação presente em muitos argumentos anti-vegetarianos é de que a empatia com não humanos é descabida por ser demasiadamente pessoal e de um sentimentalismo pueril, por exemplo, o termo estupro não poderia se aplicar se alguém o fizer com uma vaca, tortura, cárcere, nada disso faz sentido quando o afetado é desprovido de atributos humanos (e não há dúvidas que o conceito de humanidade foi modificado através do tempo). Em uma cena do clássico “Planeta dos Macacos” de 1968 um humano é levado a júri:

- Prezados juízes, meu caso é simples. Baseia-se em nosso primeiro artigo da fé. De que o Poderoso criou o macaco á sua imagem, que lhe deu alma e mente. Que os diferenciou dos animais da selva e o fez senhor do planeta (…) O objetivo apropriado de estudo do macaco é o próprio macaco. Mas alguns jovens cínicos optaram por estudar o homem (…) O Estado acusa Dra. Zira e um cirurgião corrupto chamado Galen de fazer experiências com este animal, modificando-lhe o cérebro e a garganta, criando um monstro que fala. (…) Isso raciocina? Com a permissão do Tribunal, exporei essa farsa com um exame direto. (…) Diga, Olhos Brilhantes [nome do humano], qual é o segundo artigo da fé?

- Não conheço sua cultura, admito.

- É claro que não conhece nossa cultura, ele é incapaz de pensar!

- Por que todos os macacos foram criados iguais?

- Alguns macacos são mais iguais que outros.

Naturalmente por não possuir tais respostas é taxado de aberração bestial, anomalia e injúria ao criador.  Pois bem, deveríamos abdicar de descrever qualquer situação que envolva membros de outra espécie? ”Vi um cão que roçava na grama em um dia de sol, ele estava muito feliz” ou “O homem chutou o gato”, são frases que não fazem sentido se o olhar especista for grande o suficiente para encarar animais como que em uma fábula na qual por mágica um objeto trivial ganha vida: Um cofrinho tragicamente encontra o martelo para esfacelar seu gesso. Triste no contexto, todavia só um punhado de pó branco que pode ser escondido embaixo do tapete,  nesse eufemismo, solidão, canibalismo, alienação, relutância, corte, morte, sangue, desmembramento e decomposição são enfeitados com folhas de alface ou uvas de plástico na tentativa de levar alguma leveza ás vitrines de um açougue. Não é algo bonito de se ver, se fosse de sua responsabilidade definir, qual seria a faixa etária permitida para assistir as filmagens de um abate?
Crianças não são inconscientes do ambiente que estão inseridas, a mídia expôs imagens de Kadafi ensangüentado e certamente crianças de variadas idades tiveram acesso a isso, por volta dos onze anos (quando não antes), elas já sabem o que significa seqüestro, tortura e outros termos oriundos da violência. Quando estarão prontas para ver como é feita a sangria de um boi?  Sejamos honestos, nem a maioria dos adultos tem estômago para tanto.

O Veganismo deve ser construído por quem se importa com os animais, bem verdade que a maioria de nós na infância já experimentou o que é se preocupar além de nossos semelhantes, pedindo para levar um cão para casa, enfrentando os adultos ou mais velhos se necessário. As formas de preconceito e ódio são aprendidas, a mão que puxa para afastar infantes de novas amizades é a mesma que aos gritos manda se afastarem do vira-lata pedindo atenção. Se nada disso lhe desperta comoção, caro leitor, acredite, não fará falta. Felizmente em maioria estão aqueles que desejam mudar, embora não se sintam prontos ou não saibam por onde começar. Pedimos respeito, não por nós mesmos, mas pelos que estão em seu garfo sem um minuto de silêncio.

8 agosto, 2011

Ridicularização

Enviado em Animais tagged , , às 12:25 pm por Deborah Sá

Um método utilizado para legitimar a violência, é realizado na medida em que ressaltamos as disparidades entre nós e de quem emitimos juízo. Dessa forma, a ridicularização é uma estratégia das mais eficientes. Ridicularizar é tornar vulnerável encobrindo qualquer possibilidade de defesa, divertindo-se com a condição “subalterna” do próximo a anular sua autonomia, diretos e anseios.

A monstra (1680). Juan Carreño de Miranda (1614-1685). Óleo sobre tela, 165 x 107 cm. Museu do Prado (Madri).

A monstra desnuda (1680). Juan Carreño de Miranda(1614 – 1685). Óleo sobre tela, 165 cm por 108 cm. Museu do Prado (Madri)

Essas pinturas realizadas na Espanha do Século XVII foram executadas a pedido do Rei Carlos II; retratam Eugenia Martínez Vallejo, que em 1680, a fim de atender aos caprichos e às excentricidades da família real foi convidada a morar no palácio. Foi uma das muitas pessoas com defeitos físicos ou mentais responsáveis pelo divertimento régio. Por conta de sua aparência, ficou conhecida como a gorda, ou “A Monstra”.¹

No final do século XIX e início do XX, espetáculos conhecidos como Freak Shows (Circo de Aberrações), exibiam humanos e não-humanos que possuíam alguma mutação genética, doenças ou quadros ainda não diagnosticados pela medicina. Em “O Homem Elefante” filme de 1980, Bytes, proprietário de um desses ramos de entretenimento faz uso oportuno de Joseph Merrick, que por sua aparência é nomeado de “Homem Elefante”. O modelo de adestramento consiste em agressão severa até que Merrick se resigna na antropomorfia. O pretexto para tamanha punição é sua aproximação com o que não é humano, sublime ou divino, ele é espancado e ferido para lembrar-se de seu caráter selvagem. Vira instrumento, escravo, abominação. Bestializar o oponente é a prerrogativa usada para justificar a perversidade, interpretando seus agentes como heróis (enquanto essa violência é compreendida como parte de um processo “civilizatório”); ou em absoluta indiferença a desgraça a aqueles que recebem golpes. Qual senhoril trata com compaixão seus escravos, se a função dessas existências é tão somente de vassalagem aos olhos de vossos senhores?

A linguagem e as produções artísticas, não permitem um recorte absoluto da mentalidade de uma época, mas apontam para fortes tendências dentro de determinado período, se a tática de ridicularização perpassa a equiparação entre humanos e animais (para muitas ofensas há um animal símbolo), é pouco provável e talvez fosse de um esforço redundante animalizar não-humanos. Eles já ocupam nossa escala mais baixa de consideração. Qual o propósito de um leão pular entre aros de fogo? Ou de um cavalo responder cálculos matemáticos com as batidas de seu casco? Provavelmente isso não é muito útil entre seus semelhantes em espécie, mas oferece a garantia de alimento entre as grades. Relembrando que a maioria dos animais criados nessas condições apresenta desordem mental. Não obstante a imensa lista de “serventias” por nós determinadas aos animais (incluindo a data de validade) abordo de forma breve algumas amostras de representações contemporâneas e seu uso no entretenimento. Começando por um comercial de caminhões:

A ironia inicia pela trilha sonora (O velho Mac Donald tinha uma fazenda), aludindo a imagem bucólica que faz parte do imaginário de quem vive em cidades e jamais presenciou um desses grandes animais de perto, sequer imaginando o que escondem as paredes de um abatedouro (depois que a “vida útil” chega ao fim, é enviada ao abate). Vinculado nos principais canais de comunicação, essa linguagem é direta e trivial, é banal assistir vacas leiteiras transportadas semelhantemente a caixas, no entanto a comoção pública seria outra se um esquema de leite humano fosse denunciado e ao invés dessas, outras lactantes (dessas de polegares opositores), transparecessem similar satisfação. Os bastidores desse vídeo que levou oito horas para ser produzido estão aqui.

Vinculado essa semana em horário nobre na Rede Globo, o filme Zohan de 2008, abusa de piadas escatológicas, a intenção é fazer um humor com “crítica política” a Palestinos e Israelenses, a maneira encontrada é uni-los em caricaturas xenofóbicas: Do tom de pele ao sotaque, misturar Hummus em todo alimento, tomar refrigerante exótico e usar a interjeição: “Babaganush (!)”. Como não deixaria de ser, o trato grosseiro aos animais é expandido fomentando com a natureza “selvagem” dos personagens. Incluindo uma cena de “embaixadinha de gato”.

No mesmo ano, houve a participação do artista Costa-Riquenho Guillermo “Habacuc” Vargas em uma Bienal da América Central. A intenção com sua obra “Exposición nº 1″ era criticar a invisibilidade da morte de um imigrante Nicaragüense: Natividad Canda Mayrena morto por dois Rottweilers na Costa Rica. Policiais que presenciaram a cena, justificaram o não envolvimento alegando que atirar contra os cães inevitavelmente feriria Natividad. Um motivo nobre para protestar, questionável foi o processo escolhido por Habacuc: Retirou um cão das ruas e o nomeou Natividad, prendeu-o em uma corrente curta não oferecendo água ou alimentação,e acima dele escreveu com flocos de ração canina: “Você é o que lê”. Houve indignação e o cão “desapareceu” não deixando pistas de seu paradeiro. ²

No comercial há a exposição de suscetibilidade. No filme, o absurdo permissivo próprio da comédia, no entanto, nele é feito uso de digitalizações, ao contrário de Amarelo Manga, Manderley e Old Boy onde o sacrifício de animais é real com intenção de causar espanto e asco. Na exposição de arte, há um cenário para a inanição. Assegurar direitos aos não humanos em sua integridade física e moral, não se trata de iluminação ou transcendência. É desconstruir a prepotência em que nos lançamos a delírios de poderes por nós investidos, repassados geração após outra. Indago a nós, Deusas e Deuses, Rainhas e Reis, Príncipes e Princesas, quantos manjares, altares e sacrifícios bastarão? Deixemos, pois, o cetro rolar.

3 agosto, 2011

O verdadeiro Babe, O Porquinho

Enviado em Animais, O pessoal é político tagged às 10:51 am por Deborah Sá


O curta Pig Me foi realizado por Rebecca Bang Sørensen, Ditte Gade, Marie Louise Højer Jensen, Israel Hernandez e Mette Tange, e ilustra os esforços de um jovem porco e suas tentativas de aproximação entre humanos.

Recomendado pela Luka, através do Smelly Cat.

27 julho, 2011

Expandindo sua percepção

Enviado em Animais, O pessoal é político às 11:47 am por Deborah Sá

O vídeo que compartilho é uma palestra com duração de uma hora de Gary Yourofsky, um ativista de Direito Animal que esclarece e se posiciona sobre várias questões inerentes ao consumo de origem animal.

Pontos de vista podem ser revistos e qualquer material que desperte nosso senso crítico deve ser divulgado ao maior número de pessoas para que criemos novas possibilidades de interpretação. A abordagem desse conteúdo se diferencia por interagir com diferentes vertentes ideológicas: Não importa se você é Cristão ou Ateu, Comunista, Anarquista ou Democrata, é possível compreender a Filosofia Vegana, pois sua “raiz” é ética e parte do princípio de igualdade; se você é contra a exploração, morte, tortura e sadismo que atingem inocentes, está muito perto de compreender as motivações Veganas.
É importante delimitar as diferenças culturais entre Vegans Estadunidenses e Vegans Brasileir@s, por lá há uma infinidade de produtos emuladores em sabor, textura e aparência, de mortadela a peru recheado, no Brasil nem sempre chegamos a réplicas fiéis mas sejamos criativos: A culinária Vegana nos dá muitos recursos, precisamos viver na sombra de antigos temperos, formas e cores?

No Brasil, Vegans são motivo de escárnio, inclusive entre os que se dizem de Esquerda, minha intenção não é falar de Direito Animal apenas para aqueles com maiores chances de assimilação a Libertação Animal (dedutivamente existem mais oportunidades para esse debate se compararmos a mesma situação com Reacionários), o Feminismo e seus discursos, por exemplo, não devem ser restritos aos espaços universitários, representado em sua maioria por mulheres brancas e de classe média. Não adianta nos unirmos pelo Gênero e nos apartarmos pela Raça, falarmos e debatermos entre “nós” como um grupo de amigos em uma espécie de “panelinha”, os discursos de igualdade devem ser conhecidos em maior número e o Veganismo não é exceção. Dedico esse vídeo a você, seja quem for.



Rompe con el miedo a saber,

Proporcional al miedo a actuar.
Abre la jaula
que habita en tu cabeza,
el orden y la ley
tienen a otros entre rejas.
Todos somos animales:
queremos libertad,
no cárceles más grandes

Veganismo es justicia - Eu Libre

Rompa com o medo de saber,
Proporcional ao medo de agir.
Abra a jaula
Que habita em sua cabeça ,
A lei e a ordem
Mantém outros atrás das grades.
Somos todos animais:
Queremos liberdade,
Não cárceres maiores

*Vídeo retirado do Vista-se

4 julho, 2011

Sustentabilidade e Bem Estarismo

Enviado em Animais tagged , , às 2:34 pm por Deborah Sá

A Sustentabilidade se baseia na produção de bens de consumo reduzindo sempre que possível, os impactos ao meio ambiente. Atendendo a demanda, empresas investem em divulgações que tornem explícitas o quão cautelosa é a seleção de mão de obra, material, origem e transporte até que o produto seja consumido. Em 2007 Anya Hindmarch criou a “I am not a plastic bag”, uma sacola para transportar itens dispensando as costumeiras embalagens plásticas, a idéia foi recebida com entusiasmo inclusive no Brasil, onde qualquer feira livre dispõe de sacolas estilizadas há décadas.

Se o conceito da Ecobag é reduzir, essa capa é contraditória

Assim as Ecobags atenderam um novo público: “@ consumidor@ consciente”. Geralmente de classe média, maior acesso a informação e poder aquisitivo suficiente para investir em compras que não pesarão tanto na consciência e que de alguma maneira faça valer sua participação enquanto cidadã@.

Companhias petrolíferas e grandes corporações proclamam em peças publicitárias ensolaradas todo o esplendor da Nova Era Sustentável, que pode ser resumida em: “Fique tranqüilo, nós não queremos apenas seu dinheiro também o usamos para um mundo melhor e você faz parte disso. Obrigado”.

Depois de acalmar os ânimos e congratular pelo benefício coletivo indireto, nos resta sorrir pela satisfação de dever cumprido. Se essa Sustentabilidade é abraçada pelo Capital, há muitas razões de sê-lo. A abordagem propositalmente superficial limita os questionamentos éticos que envolvem o sistema Capitalista e suas manobras, em verdade, cria pessoas realmente orgulhosas e aliviadas em aumentar os lucros de logotipos familiares.

Optando tão somente por essa interpretação, atos como desligar a torneira enquanto se escova os dentes e reciclar o lixo ganham ares desproporcionalmente heróicos. Para amplitude do debate, cabe uma honesta questão: São atos que se bastam? Se a maioria das latinhas de alumínio no Brasil é reciclada, quem as recolhe? Fazem isso pelo planeta ou porque é fonte de renda? A empresa que produz refrigerante aproveita a deixa “Nós reciclamos, faça sua parte” e o consumidor muito feliz, deixa-se levar.

Sustentabilidade alheia a má distribuição de renda, os métodos de produção, a desigualdade entre as minorias sociais e toda a cadeia de eventos até as prateleiras, é um engodo sedutor excepcionalmente lucrativo para seus produtores vistos como benfeitores. A coligação com o Bem Estarismo não poderia ser mais acertada, nesse vídeo, os argumentos para os produtores são ressaltados:


“Em um hematoma, perde-se cerca de 400g de carne. Então, quanto o produtor está perdendo por não implantar boas práticas?”

“Um produto com esse selo (de Abate Humanitário), custa 150% mais caro que no molde convencional, mas graças a Deus, toda nossa produção é vendida”

“O objetivo é que o animal seja abatido e não tenha percepção do que está acontecendo com ele, que ele esteja inconsciente, não sinta dor. Muitas vezes as pessoas podem questionar ‘Mas se o animal vai pro abate, o que importa sentir dor ou não? ’ Nós temos que pensar que os animais produzem alimento para nosso consumo e é importante que até o momento da sua morte, nossa obrigação ética é dar um meio adequado para esse animal, do nascimento ao abate”.

Mesmo sob a ótica Bem-Estarista, animais não cedem em nenhum momento sua “mão de obra”, ou “produção”, eles são usados ao bel-prazer de outra espécie, que encarcera, insemina e estipula qual será “a data de validade” e o custo da mercantilização de seus corpos. Se o tratamento dispensado a esses animais fosse direcionado aos humanos, chamá-lo de “humanitário” seria indubitavelmente macabro.

Comercial de chá, proposta de bem estar: Uma mulher desperta e se espreguiça na janela, a música tema é de flautas transversais. A câmera foca a luz vermelha em sua nuca. Ela cai, convulsiona e morre. Locução: Isso é… Bem Estarismo. ;)

O que esses animais realmente ganham? Uma vida digna pela honra de estarem entre talheres? A felicidade em comer uma carne “contente”?  Há quem diga que não importa o quanto Defensores de Direito Animal se oponham, o pragmatismo diante da realidade oferece como paliativo o Bem-Estarismo e devemos ser grat@s. Não, não seremos grat@s pelo fatalismo.

Quem não tem condições de pagar por um Abate Humanitário merece ingerir derivados com antibióticos, hormônios e pus; não raros acrescidos de canibalismo? Se a classe média “consciente” faz questão de certificar a origem do que consome, se preocupa com o que sua empregada oferece aos filhos? A quem a Sustentabilidade Bem-Estarista oferece amparo e conforto?

O seu amor é canibal, comeu meu coração, mas agora eu sou feliz.

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