27 março, 2012
A Novidade (que de nova, não têm nada)
Um comentário aqui, um parêntese acolá, uma piadinha machista que ouvimos quase sem querer durante o trajeto de volta pra casa, uma injúria racista que enerva e faz serrar os dentes, contar até dez, hoje durante o almoço o homem da mesa á frente contava ás gargalhadas como batia em seus três cães. Esse tipo de comportamento sádico e escarnecedor me faz profundamente incomodada, sinto a impotência de nada interferir na dose de Horrorshow diluída no cotidiano. No trem abarrotado ou no metrô, é perceptível a aglomeração de homens sorridentes que aos solavancos disputam a entrada quando as portas se abrem ao arrastar senhoras e seus netos pendurados sob os ombros. E ao conversar com outras mulheres, ao saber das notícias, sim, claro, vivo em um mundo machista, limitador, patriarcal e ao ligar a TV e ver apenas brancos, me recordo, ah, claro, esse mesmo mundo é racista, não posso esquecer esse adendo. E com o MP3 nos ouvidos (talvez se nascer contorcionista em outra vida, consiga ler as xérox da faculdade nestas condições), “A novidade veio dar a praia…”
Dano colateral da desigualdade, um desfecho trágico e isolado, tornei-me espectadora absorta do espetáculo de sereias despedaçadas por aqueles que tem muito além á usufruir e por costume desmantelam barbatanas e guelras. Recuso os beijos de Deusa, ao tão desigual enquanto tento (um tanto desengonçada), livrá-las de beijos forçados e partilha sangrenta. Enquanto isso o tilintar dos talheres segue em tímida seqüência “Uh, uh, uh, uh, uh, uh, uh, ah, ah”