16 novembro, 2011
Feminismo biológico (ou uterino) e Transfobia

Homem pode ser Feminista? Sim. A confusão se dá porque no caso do Feminismo o vocábulo é diferente de quem simpatiza com o Movimento Negro, não existe termo para “branca-que-defende-as-bandeiras-do-movimento-negro-mesmo-não-sendo-diretamente-afetada-por-ele”, já no caso do Feminismo é uma expressão usada por quem trás consigo a certeza de que mulheres são indivíduos, algumas Feministas defendem que o máximo que um homem pode ser é pró-Feminista. “Feminista de verdade”, é quem tem corpo de mulher, vivência de mulher etcetera, etcetera. Reduzindo muito a empatia de terceiros, por que a palavra de um homem ou um@ trans que são feministas tem menor valia se comparada a uma mulher não feminista? Isso é biologizante.
Por ventura uma transexual deve ser silenciada em seus posicionamentos feministas porque concluiu sua transformação corporal após os 20 anos, alinhando seu gênero aos contornos de corpo? Se uma mulher nasceu biologicamente do gênero feminino, mas pede que o tratamento seja por nome social masculino, altera suas roupas, modifica/muda seu corpo (usando faixas nos seios, tomando hormônios), não o chame por ela e sim ele. Isso não é misoginia, não é ódio ao próprio corpo. A defesa do feminismo é que o nosso corpo é nossa escolha está mais do que na hora de entender que nosso gênero também. Se você tem um amigo ou amiga que passa por essa dolorosa situação culpá-l@ e forçar algo (que é quase em totalidade o já realizado pela sociedade), não auxilia em nada além do desamparo. Oferecer apoio e compreensão é o mínimo esperado se amamos quem enfrenta esse embaraço, qual o intento de adicionar mais pensamentos tacanhos de um misticismo biológico?
O que me faz mulher não é o que tenho entre as pernas, as cólicas ou menstruação, não sou sagrada e alterar o corpo não é profano. O Feminismo que me representa não é esse que policia outras ativistas e enxerga companheiras de luta como “marionetes do patriarcado” ou “inimigas”, que corta laços e manda mensagens quilométricas para quem não segue a risca os mandamentos que brotam em alguma pedra medieval (a La Avalon), talhada por imaginação, menosprezando bissexuais as encarando como indecisas e temerosas em assumir a própria sexualidade, reduzindo ser Feminista a viver em uma bolha virtual (um Lesbos cibernético e impraticável). Aprecio e apoio elos e fortalecimentos entre mulheres, mas não é apenas a elas que chamo de irmãs.
Deborah Sá é Feminista autônoma, Vegana sem ser vaca e defende negr@s e suas ações afirmativas sendo branca, não importando se picotam sua carteirinha de feminista em pedacinhos.
Ana P. disse,
16 novembro, 2011 às 6:29 pm
Deborah, muito bem colocado!! O modo como nos parecemos fisicamente é completamente irrelevante na caracterização de quem somos como pessoas! Homens, Transexuais podem sim, serem feministas, assim como Mulheres podem ser machistas.
Também acredito que essa separação só nos torna mais pobres e enfraquecidos. Todos temos os mesmos direitos!
Raiza disse,
16 novembro, 2011 às 8:51 pm
Concordo em gênero,número e grau.
Anelisa disse,
16 novembro, 2011 às 10:41 pm
Muito muito bom! Impossível concordar mais.
Confesso que hoje aconteceu uma coisa bem chata relacionada ao movimento feminista, que tem a ver com isso. Enfim, foste perfeita em suas palavras.
Mulheres, homens, transexuais, tomos podemos defender essa causa, assim como qualquer ser humano pode defender o direito dos negros, índios, papagaio, formiga.
Talita R da Silva disse,
17 novembro, 2011 às 12:55 am
Pois é, também acho que dá para ser uma feminista autônoma, e, na verdade, acho que nossa militância é mesmo autônoma e se dá, sobretudo, naquele momento em que pesamos nossos pré-conceitos (e todos os temos) e decidimos sair dos binômios, dos quadradinhos, inclusive da sexualidade.
Homens feministas? Por que não? Mas que são poucos, ah, isso são, haha.
Beijos.
Olívia disse,
17 novembro, 2011 às 8:27 am
Isso nem deveria ser um conflito, se é que se pode dizer assim, afirmar que só mulheres podem ser realmente feministas é enfraquecer o movimento, aliás, se todos fossemos ao inves de isso ou aquilo, só humanistas e entendessemos isso como TODOS e IGUAIS, minorias e excessões seriam tratadas não como movimentos à parte, tentando romper com os dogmas sociais, mas uma forma de admitir que somos diferentes, com necessidades diferentes, mas temos o direito de sermos tratados como iguais e para isso mudanças principalmente nas concepções tradicionais de pessoa e de pessoa de direito.
Olívia disse,
17 novembro, 2011 às 8:31 am
precisam ser feitas, difundidas, mas sem deixar o RESPEITO DE LADO. Sinceramente, dizer quem pode e quem não ser feminista o mesmo que nos fizeram durante séculos (o que podíamos ou não ser) e um movimento que pregue a igualdade não pode “selecionar” assim.
Ps; comentário cortado, descupe.
Vinicius disse,
24 novembro, 2011 às 1:28 pm
Oi!
O que vc acha da posição de que homens não podem ser feministas por terem a possibilidade de usufruir das relações de dominação machista… Algo do tipo “potencial machista”?
Deborah Sá disse,
24 novembro, 2011 às 9:47 pm
Acho que as pessoas são capazes de se colocar no lugar dos outros, limitarem isso na biologia e gênero é subestimar a empatia de terceiros.
Sou Vegana pelos animais, nunca saberei o que é ser um frango nem receberei congratulações por isso, então por que me abstive desse consumo? Porque o modo como esses animais são subjugados fere preceitos morais, isso não faz de mim acima de quem me cerca, vai pelo o caminho oposto ao reconhecer uma série de privilégios antropocêntricos e abrir mão deles, não é sacrifício, é o mínimo que faço para alinhar consciência com prática.
Cintia disse,
24 novembro, 2011 às 5:15 pm
Eu confesso q tinha uma imagem errada do que é ser feminista. Mas lendo os seus posts e os de outros blogs eu fui abrindo a cabeça pra td oq eles falavam. E apesar de ter mt oq aprender eu acredito estar num processo de esclarecimento e crescimento pessoal.
Obrigada por me ajudar nisso.
Deborah Sá disse,
24 novembro, 2011 às 9:49 pm
Puxa, fico muito feliz com seu comentário
Obrigada pelo carinho.
Abraços apertados.
Ícaro Longo disse,
25 novembro, 2011 às 4:00 pm
Olá!
Gosto dos seus comentários e venho compartilhar alguns links, quem sabe para um futuro post ou comentário
http://youtu.be/bqU-lNPT_9M
http://youtu.be/G_BCNio07gU
http://g1.globo.com/economia/noticia/2011/11/campanha-polemiza-com-beijos-entre-lideres-politicos-e-religiosos.html
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/11/benetton-anuncia-retirada-de-fotomontagem-de-beijo-com-papa.html
Acho que você gostará
Ricardo disse,
6 dezembro, 2011 às 11:26 am
Olá Deborah, antes de ler seu poste eu sempre ficava me perguntando: “Será que trans-mulheres e travestis podem ser feministas?” ou “Será que elas podem participar de grupos de discussão onde só tem mulheres?” Sei que as feministas sempre foram acusadas de serem sectárias pelos homens por promoverem esses espaços de discussões onde só mulheres participam. Eu acho que esses espaços devem existir sim, isso não é ser sectário, elas teriam uma atitude sectária se a discussão feminista se restringe somente a esses grupos fechados, é preciso discurtir o feminismo com homens héteros e os não-héteros também. Mas voltando, particularmente a figura da travesti, esta é uma das representações da ambiguidade, da androgenia, de uma ideia de feminino, elas não se consideram homens nem mulheres, será que o fato de elas terem pênis e não se considerarem mulheres, mas sim, uma representação do que é ser feminino, isso implica na não participação dos grupos que são constituidos só por mulheres?
Deborah Sá disse,
7 dezembro, 2011 às 8:30 am
Ricardo,
Essa é uma boa questão e cabe a cada grupo discutir a inclusão ou não de outros, se eu tivesse um coletivo, travestis ou transexuais que se considerassem feministas estariam inclusos nos debates, “meu espaço feminista” é esse blog e todos que simpatizam serão bem vindos
Ricardo disse,
6 dezembro, 2011 às 12:22 pm
“…, isso implica na não participação NOS grupos que são constituidos só por mulheres?” tinha escrevido dos grupos, agora corrigido.
Rondnelly Nunes disse,
22 dezembro, 2011 às 5:56 pm
Acho meio foda porque rola uma coisa bem preconceito cis contra trans. Como se a minha experiência masculina de vivenciar o patriarcado não fosse suficiente pra eu aderir à causa, mesmo autônomo. Como se eu, praticamente o único homem no meio de uma família de, sei lá 7 mulheres, não fosse capaz de perceber como isso oprime – tirando que consideram minha experiência como sujeito que sofre opressão completamente inválida, ainda que eu não me encaixe no ideal de masculinidade vigente (sabendo eu que tenho privilégios só por ser homem e considerando isso completamente idiota e injusificável).
Vanessa F. disse,
12 janeiro, 2012 às 9:49 pm
Ainda não cheguei a nenhuma posição sobre muitas questões apresentadas no texto, mas devo confessar que o último parágrafo diz muito sobre meu “desânimo” em meu contato com feministas.
Gosto muito de você
Deborah Sá disse,
13 janeiro, 2012 às 10:18 am
Obrigada linda, também gosto muito de você <3