14 novembro, 2011
Precisamos falar sobre o Kevin
Uma mãe que manda cartas ao ex-companheiro tentando entender as motivações de Kevin, filho de ambos e homicida (executou onze pessoas na escola que estudava). Esse é o ponto de partida e a instigante história talvez seja mais bem aproveitada se quem ainda não a leu fechasse essa página e retornasse depois para contrapor as impressões que exponho a seguir, portanto, se não quer saber de antemão como a trama é conduzida, não prossiga com a leitura.
Eva é sincera de uma maneira que a maioria dos adultos omite por vergonha, quando um casal hétero é unido por um período estável as perguntas sobre a futura prole são inevitáveis, não raro ouvem: “Quando estiverem na casa de vocês e sozinhos, notarão que faltará algo”, é triste imaginar que duas pessoas que se amam passem por um período em que a distância e o silêncio são tão perturbadores que um rebento é o melhor recurso disponível para quebrar o clima austero. Eva admite que sua vida embora com mais emoções que a maioria, tornou-se enfadonha. Quem sabe todas as maravilhas da maternidade alardeadas não teriam alguma valia? Não foi o que pareceu quando sentiu o hospedeiro (é assim que ela descreve) em seu corpo e até o desejo de dançar era transgressor, devia limitar seus movimentos por algo de maior valor, por exemplo, a adoção a contragosto de um estilo de “vida saudável”, simultaneamente era nítido o elo entre mulheres, a natureza e suas crias, quadris largos, tetas de cadelas que balançavam ao andar…Tudo parecia pavoroso, gostava de seu corpo magro e associava a gordura dos americanos (ela, descendente de Armênios) a um padrão risível, cultura essa que adorava em cada trejeito de Franklin, o robusto norte-americano, patriota, machista, consumidor de pornografia, cidadão-de-bem.
Franklin tentava fazer o possível para construir uma família ideal encarnando o pai perfeito (presente, que acoberta falhas, mas sem aquela responsabilidade imensa das mães que envolve desde preparar as refeições e levar ao médico até ajudar em trabalhos escolares), mas Kevin percebia (ao que tudo indica desde a mais terna idade) as encenações de seus pais sentindo repulsa quando não lhe pareciam sinceros ao perguntar “como foi o dia da escola”, faria parte do script ser sincero na medida em que fosse recíproco.
Eva mostrava a Kevin facetas não muito exemplares á medida que as provocações dele se intensificavam, carregando alguma vergonha de atos descompensados emendando desculpas o mais rápido que conseguisse. Qual mãe diria a plenos pulmões que causou uma fratura no filho? A vizinhança poderia julgar Kevin como desajustado e perigoso, contudo se essa ocorrência chegasse a público culpariam a educação de uma mãe não tão zelosa, especialmente se em contraste com o marido que levava o garoto a museus e fazia tudo para agradá-lo.
Isso dava algum contentamento a Kevin, ter o “poder” de trazer à tona a farsa construída com tanto esmero que é a polidez social, seu pai, uma criatura tão otimista e prestativa despertava ojeriza em um jogo que refletia na mesma moeda a dissimulação dos papéis interpretados, sendo plausível o deslumbre com o que há de belo e nobre, há quem contemple o sujo, feio e pérfido.
Era doloroso para Kevin não receber alguma espécie de gratidão, entretanto sua obrigatoriedade era inaceitável, ansiando por um amor espontâneo que não pôde experimentar, as atenções eram voltadas para Franklin e o ciúme foi condutor das primeiras teimosias. Fraldas? Até uma idade inaceitável para a média comum, quanto mais obstinado seu capricho tão maior era o esforço da mãe de não se mostrar vencida e verbalizar o comportamento inadequado, babás, professor@s, colegas de classe, ninguém passava imune a sua presença, como um vírus (metáfora explicada na sua coleção) que ameaça pela contaminação iminente e do quais alguns aventureiros se aproximam pelo prazer de correrem riscos, atestar a imunidade ou quem sabe, partilhar dessa áurea misteriosa e soturna. Eva decide ter uma filha e Franklin age com ressentimento devido a somatória do cansaço desse grande teatro que é o casamento em fiapos, brigas constantes e vida sexual escassa. Nasce Célia, herdando de Franklin a habilidade de suavizar asperezas e imperfeições, encontrando alguma beleza em criaturas abjetas, de uma fé inabalável e fragilidade espantosa.
Com os hormônios em disparate o desejo de Kevin pela mãe parece mais forte acompanhado de pecado e culpa, a expiação se dá por roupas justas (dois números –ou mais- abaixo de seu manequim, o que delineava bem seus mamilos e genitais), sapatos menores, comidas extremamente salgadas e engorduradas, com todo desconforto físico alcançável encontrar “paz de espírito” não parece uma possibilidade, mas um clichê de mau gosto que leva a frustração. A trégua foi dada em um momento febril ainda na infância: Agradeceu os cuidados da mãe e a leitura feita de Robin Hood bem como o desenho da irmã, mas tão logo recuperado a virilidade indiferente retorna. Exprimir emoção era “fraqueza” e parecia decidido disciplinar quem cruzasse o seu caminho, apegar-se a uma ideologia, rodopiar em um salão sem medo do ridículo, destacar-se em sala de aula, a missão consistia em descortinar frivolidades trazendo a tona vísceras ainda quentes. Traço comum em Seriais Killers, é um missionário e executor da eugenia social.
Assim, meu palpite sobre Kevin além do Complexo de Édipo e Sadomasoquismo (com predominância sádica) é de que a angústia crescente ficou insustentável ao passo que alguns fatores desagradáveis poderiam ser eliminados com alguma finalidade. Uma família de classe-média alta com recursos financeiros de sobra, uma casa dos sonhos, no entanto o que fazer com um coração que já não bate nem apanha? Esse despropósito facilmente reconhecível é palpável para maioria de nós enquanto aguardamos sabe-se lá o que desolados diante de uma visão turva. Esse é o principal elemento que forma infratores? Há como antever e remediar?
A delinqüência juvenil possui ares de “incivilizada” já que freqüentemente atrelada às classes sociais malquistas, o desespero da classe média é encontrar essa possibilidade germinando abaixo de seu nariz, se os filhos de outros não possuem filtros pensam eles, é isso que os torna violentos sendo indicado reforçar a redoma de vidro para proteger seus herdeiros do ardil que espreita além do quintal. Assistentes sociais, Psiquiatras, Psicólogos, Advogados e espectadores, buscando o porquê do ruído de engrenagens pelo som da ferrugem; a similaridade entre eles, nós e Dana Rocco reside na ingenuidade de que compreendemos a fórmula do delito.
Trecho do musical West Side Story

Verônica disse,
14 novembro, 2011 às 9:25 pm
Que paulada… vou precisar digerir esse post. Parabéns.
carlajaia disse,
15 novembro, 2011 às 7:24 pm
TALVEZ HAJA SPOILER EM MEU COMENTÁRIO….
Esse livro mexeu mto comigo, em vários aspectos. Kevin, vazio de paixão – e ressentido com as simples paixões dos outros – conta a história da vida classe média que ele levava. Vida essa em que Franklin buscava ver perfeição – mas falhava. Franklin não podia sustentar sua farsa, não diante do filho. Vida essa que Eva desprezava “vc é mto dura com as pessoas”, Kevin chegou a dizer algo assim para ela. E havia Celia – e Celia era de uma doçura cortante, como se não coubesse ali. Ou como se coubesse ali exatamente para ser ferida e aceitar as feridas com meiguice.
O que Kevin amava? Ou quem? Teria ele buscado o amor da mãe? Teria ele buscado um sentido – um sentir? Não há respostas para o que ele fez e é interessante como Eva começa a narrativa com respostas mais claras do que ao final. No final, ela nada sabe. Nada mais. Nem mesmo sabe sobre a “culpa da mãe”, que parece tão óbvia em nossos discursos, que parece tão óbvia quando ela confessa que não amou o primeiro filho.
Ótima a sua resenha! Quero tb escrever sobre esse livro. Há algumas reflexões interessantes, lá pelo meio, sobre maternidade, sobre como a classe média se percebe como intocável e, diante da tragédia, não sabe como agir – a figura da Mary, mãe da Laura, ilustra mto isso.
Se eu conseguir escrever algo interessante, mando pra vc!
Bjos
Deborah Sá disse,
16 novembro, 2011 às 4:46 pm
Compartilho com você as impressões, se escrever algo sobre, me avise
Beijos