14 janeiro, 2011

Só não tem medo de Polícia, quem nunca se manifestou contra o Estado

Enviado em Eventos às 12:52 pm por Deborah Sá

Ontem (13 de Janeiro de 2011), estive ás 16:50 em frente ao Teatro Municipal, sei que a maioria da população não possui um emprego que abre exceções e libera a participação em passeatas durante a semana, mas tive essa sorte e quero dividir isso com quem estiver disposto a ouvir o que “a grande mídia” não faz questão de noticiar.

Encontrei amig@s e pessoas que saiam do trabalho com faixas, cartazes e apitos, jovens (em maioria), idosos e até crianças eram vistas no local. A caminhada iniciou em direção da Prefeitura passando pelo Viaduto do Chá, as frases incluíam: “Dança Kassab, dança até o chão! Aqui é o povo unido contra o aumento do busão”, “Vem pra rua, vem, vem contra o aumento”, “Pu-ta que Pa-riu! É a tarifa mais cara do Brasil” e “Ei Kassab, vá tomar busão!”.

Percorremos a Rua Direita e Vale do Anhangabaú contando com a adesão de alguns passantes e trabalhadores que aprovavam a iniciativa, embora nem todos abandonassem o expediente. Panfletos foram distribuídos aos passageiros de ônibus e a quem aguardava no ponto, todo o trecho foi percorrido por escolta policial acompanhando de olhos atentos a concentração.

Quando chegamos na Av. Ipiranga na esquina com a Sete de Abril, parte do grupo decidiu seguir na rua lateral (da Feirinha da República que ocorre aos Domingos) e pediu para que os que estavam à frente (seguindo a direção da Av. Ipiranga) acompanhassem, nesta bifurcação a polícia agiu: Ouvi tiros e me afastei, retornando quando senti alguma segurança, a segunda onda de disparos foi mais intensa sendo possível ouvir o som de vidros quebrando, pessoas correndo em todas as direções e eu tentei me abrigar em uma loja quando uma bomba de gás explodiu muito próxima. Temendo o risco e prejuízos, lojistas fecharam as portas e só consegui me abrigar na terceira tentativa: Um bar.

O local completamente invadido pela fumaça branca fazia meus olhos lacrimejarem causando falta de ar, garganta seca e ardência no rosto, quatro manifestantes conseguiram entrar no mesmo lugar e aguardar com portas fechadas o tumulto se dissipar. Funcionários, clientes (incluindo três idosas) tentavam como podiam, respirar e beber água para conter as reações do gás. Logo o Yuri me ligou garantindo que havia conseguido um bom lugar para se proteger.

Permaneci no ambiente por cerca de quarenta minutos, é difícil aceitar tamanha truculência para conter uma manifestação pacífica, a atendente do bar disse que a Polícia acertou duas bombas quebrando painéis de vidro de uma lanchonete ao lado. Uma mulher trouxe na mão uma cápsula (?)

É o nome disto? Não sei identificar essas coisas...

Julguei imprudência tomar para mim este objeto que causaria repreensão violenta em uma abordagem, deixei o local e fui para casa encontrar-me com o Yuri e um amigo querido (que participou do ato).

Imagino o quão doloroso foi o período da Ditadura, bastaram algumas balas de borracha e bombas para sentir medo. A violência (e o despreparo) policial não é exclusividade no trato do Movimento Estudantil: Moradores de rua, Bolivianos, Negr@s, ambulantes (não raro, idosas que vendem milho correm de policiais)… Qualquer resistência pode gerar este confronto uma vez que o alvo não possui treinamento militar, instaura-se o medo para que a força de trabalho não cesse os lucros do capital. Tomemos as ruas de forma crescente! Nos negligenciam saúde, educação e distribuição de renda, certamente não concederão oficinas gratuitas de Krav Maga.

Foto: Marcos Gomes

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25 Comentários »

  1. Dånut disse,

    Nossa, o que é esse vídeo? Lembra os protestos no irã, quando da “reeleição” do Ahmadinejad. Muito triste isso. Pior é que não é um caso isolado. Já teve a polícia na USP, em Brasília também teve um caso ano passado, até aqui em Porto Alegre teve.

    Aí acaba que dá medo de ir para qualquer manifestação mesmo. Já é difícil as pessoas quererem sair de casa. Correndo risco de levar tiro da polícia, aí mesmo que ninguém vai (e aí eu me incluo, tenho um medo enorme de ir a qualquer manifestação… espero que com o PT no poder aqui isso mude…)

    • Yuri Scardino disse,

      Não muda e não muda por que o governo do PT (que era o mesmo dos oito anos do Lula) é o da cooptação dos movimentos sociais. E é bom lembrar que aqui em São Paulo temos o incrível PSDB há 16 anos, que busca criminalizar os movimentos sociais e tratar qualquer movimentação como caso de polícia.
      Além é claro da tradicional truculência da PM que adora bater em estudante

      • Yuri Scardino disse,

        perdão, que é o mesmo do governo lula…

    • Deborah Sá disse,

      Essa situação é mesmo triste =/

  2. Thiago Beleza disse,

    Acho que tem bem a ver com isso mesmo, de deixar a população com medo pra aceitar tudo de bico calado. Sempre foi assim… LAmentável que o PSDB vá completar 20 anos de [des]governo em SP e a porra da situação não muda…

  3. Mari Biddle disse,

    Se o Estado tem o monopólio da violência, quem nos protege dessa polícia bruta e despreparada? Inacreditável que uma passeata pacifica seja alvo de uma policia truculenta.

    Absurdo!

    • Deborah Sá disse,

      Também fiquei chocada!

  4. Deborah Leão disse,

    Depois as pessoas se admiram que os franceses vão às ruas, os argentinos vão às ruas, e os brasileiros, não. “Tudo bundão”, dizem uns, “covardia”, dizem outros. Mas não vamos lá tomar as balas de borracha.

    Sociedade civil no Brasil ainda é ameaça, baderna, subversão, perigo potencial. Passeatas e manifestações são vistas como coisa de desocupado, não como formas legítimas de reivindicar e se fazer ouvir.

    O que o status quo quer é que o povo permaneça calado e bem comportado, que não atrapalhe o trânsito, nem façabarulho, porque “é assim que as coisas são”. E aplaude quando a polícia “contém as manifestações”, vagabundo precisa mais é apanhar, mesmo.

    Tudo truncado nessa democracia.

    • Deborah Sá disse,

      Concordo em absoluto

  5. Mayara disse,

    O Brasil tem muito o que evoluir em muitos aspectos. O governo fala em democracia, o povo fala em liberdade de expressão e no entanto o que temos é uma Ditadura mais tímida, implícita nos gases que a polícia completamente despreparada solta contra aqueles que têm a tão sonhada LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Despreparo e falta de respeito só pode chegar em um lugar: violência.

  6. É impressionante como essa situação se repete.

    Por um lado, é bom ver que as pessoas continuam se manifestando, mas, não importa onde seja no Brasil, a repressão é sempre da mesma forma, truculenta, inescrupulosa.

    Aí dá aquela sensação de impotência, porque assim, o que a gente faz? A gente denuncia, faz vídeo, divulga como pode… mas sempre volta a acontecer da mesma forma. Não sei como nem exatamente o que, mas alguma coisa tem que ser repensada nesse processo.

    Lembrando sempre que esse tipo de repressão não pode nos tirar das ruas! =)

  7. Paula Mariá disse,

    Puta Deborah, que foda.

    Mas foi um ótimo post. Excelente mesmo. Se quer saber, eu não acho que sequer uma manifestação contra o Estado seja necessária, já vi a polícia descendo o cacete na galera em saída de show de Rock. Tipo, gente que tava atravessando a rua Oo

    E a gente ainda tem que chamar isso de Segurança Pública. Se tem alguém na história que eles não protegem é justamente o povo.

    • Deborah Sá disse,

      Também já presenciei abusos, mas o que fazer? Denunciar para quem? Ir contra esses caras truculentos, visivelmente alterados e armados?

  8. triste coincidência: aumento das passagens de onibus em joao pessoa esta sendo do mesmo jeito. a cidade tem o tamanho de um cu e o bilhete custa agora 2,10$. isso, pra termos ônibus que nunca chegam na hora, que tao sempre lotados e sujos (existem verdadeiras cidades de baratas em algumas linhas, coisa nojenta mesmo). aih a populacao, os estudantes, vao protestar e recebem balas. 2011: pessoas vao protestar e recebem balas.

    sem mais.

  9. Luke disse,

    Eu estava na manifestação também, mas acabei indo embora antes. Amigos meus ficaram e passaram por todo esse horror também.
    “Questão social é questão de polícia” nessa cidade.

  10. Carla Jaia disse,

    querida Deborah,

    fiquei parada no título. li tudo e voltei ao título. uma sacada dolorosa, bela e inteligente. olho-me no lugar de privilegiada – que é o lugar para o quel vc sempre convida que olhemos – e penso no que vc diz mais adiante: “A violência (e o despreparo) policial não é exclusividade no trato do Movimento Estudantil: Moradores de rua, Bolivianos, Negr@s, ambulantes (não raro, idosas que vendem milho correm de policiais)… ” eu não sei, Deborah, o que é ter medo sempre. e fico sem saber o que fazer com esse não saber. como é que a gente luta – mesmo num lugar privilegiado? como é que a gente luta pelo outro e por si?

    admiro-a, sempre. de um jeito que me desmonta!

    • Deborah Sá disse,

      Carla,

      É sempre ótimo contar com seus depoimentos, quanto a sua dúvida, ás vezes me pego sem saber como reagir, restam-me as pequenas resistências: Esse blog, minhas conversas, minhas militâncias, é até onde a mão alcança.
      Vivemos em tempo de urgência e as mudanças são progressivas, cabe-nos agir e ver (mesmo que em passos curtos) a história ganhar outras direções (esperançosamente libertárias).

      Beijos e abraços apertados,
      Deba

  11. Luiz disse,

    Por mais incrivel q pareça, meu irmão mais novo perguntou,”As passagens do Onibus aumentaram e não teve nenhum protesto? Que estranho”, isso pq a midia faz de tudo pra esconder as manifestações feitas pelo povo em busca dos seus direitos, e acho um absurdo a PM se meter numa manifestação pacifica e se aproveitar disso, para poder fingir q estão trabalhando qdo realmente não fazem o seu trabalho. E o pior é q pagamos por tudo isso, por isso q falam q brasileiro so se ferra, vc paga impostos e dinheiro é usado contra vc. Só aqui mesmo nesse páis. Q Vergonha!!!

  12. Luiz disse,

    Tbm quero dizer q Deborah vc pode contar comigo, se precisar fazer outras manifestações!!

  13. Deborah, recomendo que sempre que fizerem essas manifestacoes chamem a midia, qualquer midia que disporem acesso. Se possivel, grave a conversa do pedido a imprensa, e discrimine depois do fato quem foi notificado. Liguem e se correspondam com midias como a Carta Capital e Caros Amigos ou a Piaui, mas liguem.

    Forca sempre!

    Roy


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