07.07.09

Dossiê CCB – Primeira Parte

Enviado em Crenças tagged , , , às 10:13 am por Deborah Sá

Antes de começar este post é necessário frisar que eu não tenho nada contra quem acredita em Deus. Tenho consciência plena de que ter fé em algo não faz da pessoa um ser alienado e que há sim, os que seguem a vida de forma honesta e atentando para a máxima de “Amai o próximo como a ti mesmo”. Ou ainda se preferem “All you need is love”.

Minha mãe tinha apenas 19 anos quando nasci (conheceu meu pai na igreja). Sou a primogênita e cresci em um lar com bastante afeto, até os 5 anos morei em uma casa “nos fundos” de um quintal.
Nesta época fui introduzida na escolinha (pré) e gostava bastante, surpreendi a minha mãe em acenar adeus sorridente no primeiro dia de aula, ao contrário das crianças “comuns” que choram nesta data.
Gostava muito de desenhar e conversar (mais com as professoras/inspetoras do que com os alunos).

Na verdade sempre fui esta metralhadora de palavras, minha mãe conta que aprendi primeiro a falar e depois do primeiro tombo “fiquei com medo/preguiça e demorei pra tentar de novo”. Inclusive o dia que andei foi dentro da igreja (literalmente meus primeiros passos).

Quando meus pais passaram a viver com a recém nascida filha-girino deles (nasci de 7 meses e só tinha os olhões expressivos), meu pai foi “ordenado cooperador de jovens”. Eu gostava de ir a igreja (ao contrário da minha irmã), principalmente por gostar de cantar e “sentir a presença de Deus”.

Esse “sentir a presença de Deus” pode ser comparado a assistir um show de uma banda que você adora. Sabe quando vem uma banda estrangeira para o Brasil e você finalmente vê ao vivo? E eles tocam a sua música preferida? É algo assim.

Nesta igreja os homens têm muitos cargos no ministério da igreja (como toda igreja, há hierarquias) e para as mulheres só sobram três com pouco destaque “no poder efetivo”.

Mais detalhes no Post  Dossiê CCB – Segunda Parte

Me “agarrei” na religião porque meu histórico é complexo. Eu não achava paz. Seja em casa, na escola ou como era de se esperar na igreja também.

A praga dos piolhos

Por volta dos 14 anos, peguei piolho. Mas não eram piolhos simples, eram piolhos MUTANTES. Depois de gastar muito dinheiro com Scabim, Kllew e tantos outros me convenci que era uma praga de Deus.
Minha cabeça ficou cheia de feridas de tanto pente fino, vinagre, água quente…e eu podia jurar que era uma espécie de penitência. Eu estava pagando por algo errado, algo que nem imaginava o que era. Mas que de alguma forma devia aceitar essa “provação”.
Ao ir em uma médica ela me receitou um remédio via oral, pois meus piolhos (segundo ela), ganharam resistência com os remédios que tomava. Só mesmo com meu sangue “contaminado” eles morreriam. E ao tomar o remédio e acordar, meu travesseiro estava cheio de pontos pretos.

My body is a cage

Como qualquer garota comum, eu pensava muito em sexo. E como qualquer garota religiosa comum, eu me culpava por isso. Como podia não ter vergonha do meu corpo? Se eu era a “bola de sebo”, “a bola sete”, “a rolha de poço”? Ah tá, claro. Meu rosto era lindo, do resto uma bela bosta. Meu tesão por pescoços me matava. De que adiantava os moços de terno e gravata com o pescoço descoberto? Era uma provocação do diabo, só podia…

Cada lugar uma pregação

A CCB tem uma sede, de lá os anciões se reúnem e decidem os “Ensinamentos” que o povo precisa. Por exemplo: Lançaram o Twitter? Deve ter um monte de gente com dúvidas se Deus “se agrada disso”, então no Brás oram em conjunto e chegam a um consenso.

Socializando com “irmãos”

Certa vez me voluntariei para ajudar na limpeza. Sempre que o culto acaba, algumas pessoas resolvem pegar umas vassouras e dar uma limpada na igreja. É um bom motivo para socializar entre “irmãos”. Nesta época (uns 15 anos), conheci algumas pessoas que foram simpáticas. Mas fui descobrindo que viviam de aparências (conheci uma moça que fazia sexo anal pra permanecer virgem) e eram tão estúpidos quanto os garotos comuns. E pior, não dava nem pra conversar de música ou seriados já que não dava pra saber de imediato se a pessoa que você conversava achava a TV uma maldição no lar. Música secular era no máximo Família Lima.
Claro que tinham uns “moderninhos”, eles costumavam gostar de filmes como Velozes e Furiosos 1, Capital Inicial e tudo que tocava na MIX FM. As “moderninhas” usavam cabelo na altura dos ombros, saias na altura do joelho, esmalte de cores claras e em regiões mais nobres da cidade vi moças de batom vermelho. Já na periferia era comum ver moças com o corpo “mais coberto” o cabelo cheio de creme e perfumes fortes. Conheço uma moça que não pôde tocar o órgão no dia em que usava base nas unhas (base é aquele esmalte transparente).

Dentro de casa meus pais sempre foram liberais, mas eu fiquei tão alienada na igreja que me “entreguei de corpo e alma” e fui afundando em tristeza. Na verdade da minha casa, eu fui a última a “largar” a igreja.

Minha mãe foi/é mega mal vista pela maioria das pessoas que se diziam suas amigas. Cortou o cabelo, tingiu, encurtou as saias e usa maquiagem.

Meu pai “perdeu a liberdade” por uma série de mal entendidos e conchavos mal intencionados.

Minha irmã nunca gostou mesmo…

Perder a liberdade nesta igreja significa só ter o direito de assistir ao culto. Não podendo chamar hinos, orar, nem exercer nenhum tipo de ação ativa.

É claro que há pessoas que ainda me cumprimentam na rua, que ao verem meu pai perguntam de mim e etc. Mas a maioria virou a cara mesmo.

Por ter uma vivência de longa data nesta instituição – dos 0 aos 16 anos-, não conseguirei resumir em apenas um post.

Confira Dossiê CCB – Segunda Parte e Dossiê CCB – Terceira Parte

17 Comentários »

  1. Lola disse,

    Muito interessantes esses dossiês, Deborah! Pois é, quando eu vejo cristãos criticarem o jeito que as mulheres muçulmanas são tratadas, eu só consigo pensar: “vocês têm muito em comum”.

  2. Iara disse,

    Oi Deborah! Rolou uma identificação agora. Namorei um menino de uma igreja presbeteriana pentecostal. Eele tava afastado da igreja quando a gente se conheceu, mas me levou lá uma vez, eu me encantei pelo culto, e acabamos virando freqëuntadores. Eu chegeu a ser batizada e tudo. O louvor é realmente uma catarse, difícil não se envolver, mas o discurso… Era uma fase em que eu estava muito carente e insegura, senão teria comprado altas brigas. Não brigava, mas remoía aquilo sofrendo, me sentindo contrariada, pensanso que eu teria que deixar de ser eu pra ser bem aceita. Quando o namoro acabou, não voltei mais, mas sentia uma culpa enorme.
    Um dia fui a uma festa com meu melhor amigo, de quem eu tinha me afastado durante o namoro. Esse amigo estuda filosofia, e era esse pessoal de humanas que estava lá (depois eu também passei a fazer parte da turma das humanas, porque fiz letras, mas não época ainda fazia cursinho). Em dado momento o dono da casa começou a conversar comigo e, sei lá quem puxou o assunto, mas ele contou que foi criado numa família crente e tinha rompido com a religião, e entendia essa culpa monstruosa que fica acompanhando a gente. Olha, me fez tão bem! Porque eu passei a enfrentar a culpa. Até gosto de repetir que culpa é uma invenção da civilização judaico-cristã pra gente ser cordeirinho.

    Li outras coisas no seu blog e gostei muito. Você parece ser muito inteligente e batalhadora, e admiro muito isso nas pessoas. Beijo!

    • Barão Von Halder disse,

      Déborah

      Vc fala desta forma pq não conhece a congregacão e leu aki o relato de uma pessoa q foi desde pequena mas q não entendeu
      faça uma visita na ccb q poderoso é Deus pra fazer vc entender o ela não entendeu …

      • Deborah Sá disse,

        Barão,

        Eu sou a mesma Deborah, a dona do blog. E há uma diferença entre “fazer entender” e “acreditar/concordar”.

    • rafaela disse,

      iara nossa historia é bem parecida,passei a frequentar a igreja por causa do meu ex,e tbm sinto essa culpa enorme…mas percebi que eu tinha deixado de existir ,para viver uma farsa

  3. Anderson disse,

    Oh, que coincidencia.

    Eu tb sou da CCB.

    Não muito bom é verdade, por n motivos, mas oficialmente ainda continuo.

    • rafaela disse,

      eu conheci um rapaz,e começamos a namorar,e ele é da congregação,depois de algum tempo de namoro,passei a frenquentar a igreja e me batizei,pois vim de uma familia católica,so q antes de me batizar ele terminou o namoro comigo,pelo motivo de estar sendo precionado por namorar uma garota de outra denominação,ai começou o nosso dilema……depois que me batizei reatamos o namoro,mas com alguns mêses depois,ele novamente terminou o namoro,pois ele ja foi casado e seu divorcio ainda não saiu, e congregação não permite nosso namoro,então ele pediu que eu esperasse por ele ,até esse bendinto divorcio sair,para q possamos nos csar,porém não vou aceitar essa situação pois não adimito uma série de hipocritas mandando em minha vida….e gostei muito da sua historia Deborah

  4. Andréia Freire disse,

    Que igreja radical. Oo Tudo que é radical me enoja.

    A que eu conheço, que é a Presbiteriana é bem mais liberal. Não tem isso de mulher sentar separado de homem, pode usar maquiagem, cortar cabelo, tingir, usar brincos, essas coisas (não pode é claro, usar decote, saia curtíssima…), mulheres participam da banda, cantam, tocam, participam da organização de acampamentos e eventos, por exemplo, todos juntos. E a banda é com violão, bateria, teclado. Enfim, bem mais moderna.

  5. Tati disse,

    Olá, Débora….
    nossa, que descrição heim…rsrs
    mas acho que ainda faltou mais posts..
    tem muito mais coisas né…
    mas assim, achei bem interessante o que vc escreveu…
    me identifiquei com sua história….

  6. patricianardelli disse,

    Genial esse post, Deborah! Gostei muito mesmo.
    Abraços!

  7. Kell disse,

    Oi,Debora
    Cheguei aqui através do blog da Lola, lendo os posts do concurso, e lendo mais cheguei nos dossiês da CCB.Só quando a gente está do lado de fora, é que passa a enxergar o absurdo da CCB em particular e das religiões no geral, a noção de Deus pra mim está cada vez mais parecida com um amor platônico, dedicar seu amor incondicional e a sua vida algo do qual não há uma certeza quanto a existência ou reciprocidade. Posso dizer que me libertei há uns 3 anos, não sem culpa, na época, mas nunca me senti melhor na vida do que me sinto agora. É muito bom tomar o controle da própria vida nas mãos.

  8. aparecida disse,

    nossa se voce for ver por esse lado nenhuma alma vai se salvar porque quem morreu por nós foi o senhor jesus. pra nós salvar não foi nenhum desses que ti condena .continua olhando os defeito dos outros nós temos que olhar pra um só o senhor jesus cristo esse não condena e foi ele quem morreu por nós não foi nenhum que esta dentro da igreja que morreu por vc

    • Deborah Sá disse,

      Aparecida,

      Que bom que está feliz na sua igreja. Minha “religião” é o meu esforço em promover a igualdade e a auto-estima de todos.

  9. rafaela disse,

    eu acredito que Deus ama a todos e não condena a seus filhos de uma forma tão cruel ,como essas igrejas pregam por ai,faço parte da congregação cristã no Brasil….porém sou a diferente na igreja,pois uso calça.shorts,maquiagem,brinco, e até mesmo vestido curtos ,que são considerados sensuais….pinto unhas ,meu cabelo é curto,mas a minha fé em Deus não muda em nada por causa do meu ,ja me tentaram mudar meu jeito,mas nunca dei espaço p isso

    • Deborah Sá disse,

      Rafaela,

      Você sabe o quanto há patrulhamento lá dentro. Seja feliz, dentro ou fora da igreja.

      • rafaela disse,

        é verdade Débora…por isso ja não frequento mais…e esse seu blog é um show..me indetifiquei muito com vc.te desejo tudo de bom…muuuuuita felicidade p vc

      • Rhenan disse,

        O importante, é seguir a Jesus, estudar a palavra de Deus!! Seja livre, porq quando estamos em Cristo, estamos livres!!! porem, todos sabem que devemos nos frear e evitar de desagradar o nosso Deus, que é bom conosco!!! vai pra uma igreja Batista, ou presbiteriana!! acho q vc vai se identificar!! pra vc ver como é diferente, na minha(Batista) tem alguns grupos de louvor onde toco baixo e guitarra em um, e outro deles, é só de mulheres, bateria, violao, voz e saxofone!!muito legal!! experimente!!

        Deus seja louvado!!\o/


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