04.03.08
Toda a masculinidade
Ontem quando peguei o ônibus cheio para voltar para casa, havia três garotos que aparentavam a faixa etária média de 15 anos. Eles conversavam e riam demasiadamente alto depois de visivelmente retornarem do colégio. Eis trechos das conversas:
- Manooooo (gesticulava como um rapper) você ficou com a Natália? / “Qui ô” a Natália é “mó” feia. / Olha aqui a foto do meu celular! – Eeeeita (coro) mó gata! (1)
- Meu conheci um fulano que foi obrigado a andar de cueca na rua /- Por quê? / A mãe dele o obrigou por que…-béééé buzinas e outros barulhos urbanos me impediram de ouvir- / Uhahahah ah mano o problema é se…(gesticula ereção com o braço) / Hehehehe (um pouco envergonhados) (2)
- Mano, aquela lan house só tem computador porcaria. / Vixe, mas tem um monte de “jogo”… / Eu quebrei mesmo o teclado, daí falei: Mano eu quebro mesmo esse bagulho! /Os outros fazem cara de admiração- (3)
- Meu, odeio matemática, aula de leitura também, odeio ler…ah, mas na aula de informática, vixe eu arregaço! / A professora de História é muito folgada, os moleques destruíram o carro dela! / Sério mano? / Sério destruíram! / Nossa, ela é muito feia, o cabelo assim todo pra cima “espiguento”! / É, ela é muito feia. (4)
- O que tem de música aí? / Ah, tem a Gaiola das Popozudas e Sem Calcinha (sic) – /(Começam a cantar) Abre, abre bem as pernas, ela senta em cima e mete, mete, mete. (5)
Cansada, com sono depois de um dia de trabalho é isto que eu ouço… Eu estudei em escola pública minha vida toda e sei que é assim mesmo que “a banda toca”.
Este tipo de garoto acha que “tudo é culpa do governo”, que acha Zorra Total e Casseta e Planeta muito engraçado, que o sonho é comer a gostosa da vez, mesmo que esta atenda pelo pseudônimo de Mulher Melancia. Não, eu não cresci ouvindo Chopin, aprendendo piano e lendo Nietsche.
Mas mesmo em meus tempos de “tentativa frustrada de inclusão social” nos quais: Dancei É o Tchan e Carrapicho (bate forte o tambor que eu quero é tique-tique-táááá), desejei ardentemente ser tão gostosa como a Geri das Spice Girls e “tinha temor de Deus no coração”.
Eu não era como eles! Eu gostava timidamente dos garotos quietos e “estranhos” que tinham fama de gays, gostava de ler algo (os livros da série vagalume) e “pensar na vida”. E nunca gostei de nenhum “popular”. E isso tudo é tão destrutivo! Quantas vezes chorei por não “ser gostosa”! Quantas vezes neguei “minha essência” por medo de não ser aceita?
E talvez no meio daqueles garotos que vi ontem exista um que esteja mentindo sobre suas opiniões (1), fingindo masculinidade (2), coragem (3), autoridade (4) e que são “muito machos mesmo”. Sobre o comentário ao cabelo da professora deles: Mas que merda é essa de que só as características “de branco” são bonitas?
Ao chegar em casa, meu namorado informa no telefone uma pérola proferida por um motorista de ônibus: “A mulher que mostra o dedo do meio para um homem é pior que uma meretriz”
Glossário Tacape 2008
Mulher: Ser inferior, frágil, que tem de respeitar sua posição hierárquica. As que não se portam como a dama que são, são tão somente mulheres tentando igualar-se ao homem. Ex: Mulher falando palavrão, tentando escrever um livro ou falando sobre sexo.
Meretriz: Mulher que cumpre sua função social inata, que nós (homens) devemos condenar publicamente, mas das quais periodicamente devemos usufruir de sua labuta.
Aa disse,
8 Julho, 2008 às 8:41 am
Puxa, Deba, você teve um encontro com brasileiros! xD
lol, to brincando, também estudei em escola pública e conheço o tipo. . .