02.03.10
Um inseto na “buacht”
Ontem saí do escritório ás 20:00 por conta de um e-mail que cobrei desde ás 10:00 da manhã. Cansada esperei por mais de uma hora meu ônibus que não passava. A alguns pontos de distância abriu um Subway, estava com fome. Peguei o primeiro ônibus que levaria até a loja, afinal, já estava atrasada mesmo… Ao entrar no ônibus vejo o que eu deveria pegar atrás, desço correndo e dou o sinal. Ele passa reto. Ainda faltam dois pontos pro Subway.
Pego outro ônibus e desço no Subway, meu lanche com pão integral e sem queijo estava ótimo: Cebola, azeitona, pimentão, alface, tomate, rúcula, picles…
As pessoas sempre se espantam quando como pão com salada e mostarda. (Não vai querer mesmo queijo?). Enquanto sentava e comia meu lanche entrou um garoto pardo e sua mãe. Lembrei a minha infância.
Ele pediu um lanche de 30 cm (eu comia um de 15 cm, pois não estava morrendo de fome), vestia roupas de lojas de surf (é mais fácil garotos usarem roupas da moda, porque eles já usam roupas mais folgadas normalmente) e falava com uma voz fininha e meiga. O achei fofo. Certamente deve sofrer muitas humilhações na escola por suas características físicas. Ele pediu o lanche com o dobro de queijo, salada só alface e azeitonas. Senti que muitos na loja o olhavam pensando “Olha só o tamanho desse menino, comendo um lanche cheio de queijo, culpa da mãe que não soube educar”.
Terminei meu lanche tomei um chá de pêssego e saí. Peguei um ônibus e cheguei em casa ás 23:10. Minha mãe e o Yuri já estavam preocupados.
Tomei um banho e dormi, durante a noite algo inexplicável aconteceu ao meu nariz: Começou a arder muito e coçar desesperadamente, nisto acordei com uma baita confusão mental: Tocava a música Bulletproof – La Roux (ao ponto de realmente ouvi-la) e pensava “O laudo do fornecedor ainda não chegou, o laudo do fornecedor ainda não chegou” e o nariz coçando/ardendo. Minha vontade era gritar, mas não queria assustar minha mãe que dormia ao meu lado. O que eu ia dizer?
Imaginação
Eu: Ahhhhh! O que está acontecendo com meu nariiiiiz? Ahhh! Porque está tocando essa música? Mas o celular nem está ligado! Ahhhhgg
Mãe: Deborah?
Eu: Ah, desculpa te acordar acho que entrou um inseto no meu nariz fazendo do meu cérebro uma boate tocando La Roux enquanto me gritava que o laudo não foi entregue ainda.
Acordei, vim trabalhar, ao chegar tcharaaaam: Meu frasco de shampoo abriu na mochila! Yes! Melecou o segundo volume das Brumas, que lindo ![]()
Antes isso do que feijão (uma vez virei marmita), ou derrubar na privada (como fiz certa vez com um livro do Yuri).
Enem

Prestei o Enem e me inscrevi no Sisu minha nota pro curso que quero é 628,28.
Quando me inscrevi a nota de corte era 500 e uns quebrados, com o passar dos dias a nota aumentou e chegou a 725,13 =/
Agora é torcer pra que muita gente escolha ir pra USP.
Se não conseguir entrar na Unifesp, esse ano faço cursinho e vou pra USP >:(
Notícia boa: Vou pro show do Gossip ver minha musa Beth Ditto em Março ♥
01.29.10
Nine (Musical)
Assisti a pré-estréia de Nine semana passada (dia 24) e posso garantir: A única coisa que salva é o papel de Luisa (Marion Cotillard) a esposa traída.
Guido Contini é um cineasta responsável por criar o gênero “filme italiano” com belas mulheres brancas e jovens, e a caricatura da Itália. Na produção de sua nona película tem uma crise de meia idade não conseguindo resenhar absolutamente nada do roteiro.
Recorrendo a memória ele lembra todas as mulheres que “passaram” por sua vida e quais seus papéis na formação de sua identidade, vamos a elas:
Luisa – Esposa católica dedicada, símbolo de “mulher de valor” traída com uma mulher voluptuosa. A atuação dela é excelente e a única mulher a peitar (minimamente) Guido.
Carla – Penélope Cruz interpreta a amante latina. Sim, pode imaginar todos os estereótipos possíveis de “mulher latina”, muita lingerie, salto alto e um número musical envolvendo close da bunda e deslizamento no cetim cor-de-rosa (não é figura de linguagem, estas cenas ocorrem). Corazón*
Claudia – Nicole Kidman é sua musa, tem a áurea de glamour e colar de pérolas, a deusa de marfim em cabelos dourados, protagonista de seus grandes filmes. Nutre amor por Guido e diz algumas frases interessantes.
Mãe- Sophia Loren, a “Mãe”: Dá colo e apóia: “Você sempre será meu filho, meu menino, o mundo é seu, é o centro do universo”.
Saraghina – Fergie interpreta um prostituta, em uma cena pavorosa de Buraco de Fechadura Guido vê um flashback da sua infância: Ele e outros garotos de sua idade (9 anos?) juntam moedas e vão ás risadinhas entregá-las a uma prostituta para que vejam seu corpo. É isso aí, irmandade masculina desde pequenos mostrando que ser homem é subjugar uma mulher pelo dinheiro. Pipi de ouro.
Figurinista – (Judie Dench) Uma espécie de figura materna que o incentiva a continuar: “Você tem um dom”.
Stephanie - Sem Cross Fox, Kate Hudson é uma jornalista que acredita na Revolução Sexual Feminina, por isso ela dá em cima de Guido achando muito excitante ser groupie do cineasta super badalado.
Como podem ver o filme é lotado de cenas que me causaram desconforto, vontade de sair correndo da sala e dizer “Acho que vou vomitar” e “Inacreditável”.
Prefiro Chicago.
* Acho que alguém precisa lembrar que Penelópe Cruz é mais que “latina” e que Monica Belucci é mais que uma beleza blasé.
01.18.10
Onde vivem os Monstros
A música Wake Up do Arcade Fire me arrebata de uma forma poderosa desde a primeira vez que a ouvi, com este trailer tão bonito é claro que contei os dias para assistir a película.
A estréia foi nesta sexta feira data em que cheguei cansada de Trindade, no sábado foi dia de uma limpeza mais pesada no quintal, com aplicação de anti-pulgas no ambiente, banho (e tosa do Ted) das crianças, e medicação anti-parasitas em todos (inclusive no Costela), tingir e cortar meu cabelo (voltei praticamente loira da praia)…. No domingo pude finalmente assistir. E. Quanta decepção!
{Atenção: Se não quiser saber de trechos importantes do filme, não leia daqui em diante.}
Max é um garoto que se sente solitário: Brincando constrói um “iglu” na neve em frente de sua casa e para atrair a atenção dos amigos de sua irmã mais velha, joga bolas de neve que são revidadas em um “montinho” em cima dele que se esconde na “fortaleza” destruída rapidamente. Furioso, espera sua irmã sair e com os pés cobertos de neve pula em sua cama, destrói o quarto. A mãe chega cansada do trabalho e põe-se a limpar a “travessura” do pimpolho.
Certo dia, quando sua mãe recebe um pretendente, Max enciumado coloca sua roupinha de “lobo” e sobe a mesa gritando:
- Me alimente mulher!!
- (sussurrando) Desça daí Max, não me envergonhe, saí já daí, agora!
- Grraaauuurrr! Vou te devorar (Pula em cima dela e morde o braço)!
- Ah! Você me mordeu! Está descontrolado!
- Não… Não é minha culpa (olhos mareados)!
Max foge e pula em um barco enfrentando tempestades até encontrar uma floresta encantada onde residem criaturas grandes e peludas. Cada uma destas criaturas é “uma parte” do que ele é:
Carol: Agressivo, másculo que no fundo tem bom coração, o legítimo “bate-assopra” que todos temem, “explode”, quebra tudo, sabe a figura de marido violento que tem ciúmes e bate por amor, é bem por aí…pavoroso.
KW: Maternal, par romântico de Carol que se afasta dele por motivos óbvios, mas que todos adoram e pedem que ela volte já que é extremamente amável.
Judith: Realista (a única desconfia que o garotinho conte lorotas), personagem para ser chata, amargurada, estraga-prazeres, personagem feminina “nhém, nhém, nhém”.
Ira: Companheiro de Judith, simpático e bom em fazer túneis.
Alexander: Um bode que ninguém ouve ansiando por uma palavra de reconhecimento.
Douglas: Saco de pancada oficial do Carol, procura ajudar, mas sempre é arremessado ao ar contra uma árvore, rocha, parede…
Touro: Solitário, calado.
Hostilizado, Max afirma que é rei para não ser devorado, quando esta mentira é descoberta aos poucos Douglas (o único com coragem para contar isso ao Carol), tem seu braço arrancado.
- Olha o que você fez, arrancou meu braço!
O que ele faz? Coloca um graveto no lugar e o perdoa.
Max se dá conta que ele não é um rei. Ele é Max. Não é a o fim da infância: È como um menino se torna homem.
Ao voltar para casa, sua mãe não o repreende, apenas o abraça preocupada e serve sua comida. O filme termina em silêncio com Max contemplando sua mãe cansada, dormindo com os braços sobre a mesa.
O título original do filme é Where the Wild Things Are (Tradução livre: Onde as coisas selvagens vivem), a resposta que ele nos trás é:
Vivem dentro de cada homem (que por dentro é um garoto), em seu lado selvagem e bruto, sua natureza masculina: Aterrorizante, inconseqüente em seu furor machucando quem mais ama, quando na realidade só expõe sua carência afetiva e é até capaz de chorar.
Onde Vivem os Monstros naturaliza a violência masculina desde a infância chamando esta “travessura própria de garotos” de “modo masculino de expressar afeto”.
Trindade
Passei a última semana em Trindade, foi como uma semi-lua-de-mel com o Yuri em nossa primeira viagem juntos nestes três anos e sete meses de namoro. Levei o primeiro Volume das Brumas de Avalon e estou quase terminando (levando em consideração as poucas vezes que peguei no livro estou “devorando”).
Na ida uma senhora muito estranha nos encarava e fazia movimentos circulares com o indicador. Ao chegar tão logo corremos ao mar, a Praia do Meio é maravilhosa.

No dia seguinte fomos a Piscina Natural do Caixa d’aço, um lugar de águas serenas, transparentes e muitos peixinhos. Alugamos uma máscara de mergulho e pude vê-los mais de perto (e quase sempre levava um susto, olhos de peixe me dão medo).

Também fizemos trilha para uma cachoeira onde um lagarto me deu um susto, as pedras escorregadias me fizeram ganhar um charmoso raspão no tornozelo.
Na volta da trilha com os pés descalços, desci em uma pedra que estava muito quente graças ao sol, depois do piti “Ahhhh está queimando, está queimando!!!” coloquei os chinelos e voltei feliz para a pousada.
Nossa alimentação foi principalmente baseada em PF: Arroz, Feijão, Salada e (dá pra trocar a carne?) batata frita. Variamos com pizzas de legumes. Em um dia de chuva nossa janta foi bisnaguinha com mostarda.
Em Trindade onde quer que você vá encontrará um cão, algumas vezes gatinhos também. Embora eu chamasse nenhum dos cães me deu bola e nadavam longe de mim. Havia também muitas igrejas evangélicas (Deus é Amor principalmente).
Todos os empreendimentos comerciais são “de família”, ou seja, em um restaurante os funcionários são parentes, o que deve tornar a vida dos moradores bem entediante, suponho que devem se conhecer na igreja, casar com amigos de infância e continuar o ciclo daquele local.
O que me leva a crer que embora adore praia há menos tédio em centros urbanos.
Na volta choveu muito e uma árvore caiu no caminho o que atrasou um pouco nossa chegada à rodoviária, em uma das paradas havia algo genial: Um prato de salada por R$ 4,00 (servindo-se uma vez à vontade), isso para uma vegana acostumada a comer só batata chips em paradas de estrada é o paraíso. E havia variedade, até chuchu (só eu adoro chuchu?).
O que também recomendo muito são as bananinhas cobertas de chocolate da marca Tachão de Ubatuba. É vegan *o*
Viram só? Vegans sobrevivem muito bem a viagens
Foi revigorante: Muito fator 50 para agüentar o sol sem virar camarão, biquíni novo, carinhos, risadas e companheirismo. Perfeito para recarregar minhas baterias.
12.29.09
2009
[Estou viciada em Lulina, pra baixar e ouvir o álbum Cristalina clique aqui – Recomendo: Ler este post ouvindo “Bichinho do Sono”]
Neste ano me dei conta que blogo há 5 anos, mais precisamente desde 23/01/2004. Já tive outros blogs antes, mas os apaguei, pra remexer no meu passado é só fuçar aqui. Mudei muito de mentalidade nestes cinco anos, comia carne, acreditava em deus e outras coisas que não me orgulho como, por exemplo, rir de um filme do Cris Rock.
Meu senso de humor também, hoje eu não acho mais graça de filmes como American Pie e posso deduzir um enredo fraco como aquele e suas piadas. Já achei graça em Pânico na TV, dancei O Tchan e Carrapicho. Nunca gostei de Chaves.
Muitas das minhas mudanças vieram do enfrentamento do pensamento das pessoas “comuns” em conflito com o que eu considerava justo. Enfrentei familiares, rompi com o convívio de algumas pessoas, inclusive virtuais que por falta de argumentos apelavam para assombrosos preconceitos. Larguei as comunidades nerds, abracei as feministas.
Faz dois anos que trabalho em uma empresa de Gestão Ambiental, sou reconhecida no que faço. Faz três anos e seis meses que namoro o Yuri, amadurecemos juntos. Sou vegetariana há dois anos, (destes, um ano Vegan).
Cortei o cabelo este ano do modo mais curto possível e pintei de vermelho. Prometi a mim não me pesar (a não ser quando for ao médico) para que dígitos não limitem o meu corpo em expressar e contemplar sua individualidade, por esta mesma razão comprei um short curto (lindo) tamanho 46: Meu real tamanho. Eu não usava short desde meus 10 anos.
Procuro vigiar minha auto-estima quando cogito não comer um pedaço da deliciosa torta de manga que o Yuri fez pra mim durante nosso caloroso debate ideológico ás 3:00 da manhã (ei, é sério, tanto é que só brigamos por motivos ideológicos, não de casal).
Este ano
Tive crise de pânico e fiz terapia. Assumi minhas cicatrizes emocionais de modo escancarado, para dar forças para as que se sentem como eu e para fortalecer minha luta.
Bandas boas como Mika, Gossip, Lacrosse, Paulo Sérgio (brega niilista dos bons) e Ting tings marcaram meus fones de ouvido.
Filmes como: Avatar, Thelma & Louise e Caramelo foram boas surpresas.
Livros como O Mito da Beleza, Memórias da Transgressão, Os dois volumes de O Segundo Sexo, Deus um Delírio e SCUM manifesto me deram novas perspectivas.
O Wen Do fortificou meu amor pelas mulheres, conhecendo novos rostos, me aproximando das que estavam afastadas. Amo vocês profundamente.
Margareth Rago me inspirou a cursar história. Obrigada
Agradeço pelos braços abertos da faculdade Unifesp quando estive lá, desconstruído a idéia que eu fazia de hostilidade por ter estudado a vida toda em escola pública e ter concluído o ensino médio com supletivo.
Agradeço aos familiares mais próximos que mesmo apresentando receio as minhas idéias inicialmente, se esforçam em preparar pratos vegetarianos.
Agradeço a minha irmã por confiar em mim.
Obrigada as blogueiras maravilhosas que me inspiram e a todas as minhas leitoras.
Vocês fazem parte da minha revolução.
12.21.09
Avatar
Os Na’vi são um povo guerreiro que sobrevivem da caça e respeitam as formas de vida: Fazem uma oração para cada animal que matam. Dormem em uma grande árvore e logo abaixo dela há uma grande quantidade de um minério precioso.
Os humano-americanos (quem mais?) percebem este potencial lucrativo e investem em pesquisa combinando o DNA humano com o dos nativos de Pandora. Assim é um Avatar: Tem a aparência dos Na’vi, mas podem ser controlados por alguém que deitar em uma máquina que faz a “transferência dos corpos” (Matrix?).
Explicando de outro modo: Imagine que criam um corpo de índio parecido com o seu, você deita em uma cama especial e consegue entrar no corpo “oco” na cama ao lado. Agora é só levantar nesse novo corpo e interagir com a aldeia. Parece simples não? Mas os Na’vi têm razões de sobra para hostilizar os forasteiros e matá-los usando flechas com venenos de rápido efeito.
Aos poucos um ex-fuzileiro (Jake Sully) em corpo Na’vi ganha a confiança da “tribo” e é treinado em seus costumes para se tornar um deles. Isto só é possível graças a um sinal de Eywa (a Deusa deles).
Não pretendo contar o filme todo aqui, mas garanto que é bom e vale a pena ser visto.
Alguns dos pontos negativos:
* Não há humanos negros.**
* Embora tudo indique que a sociedade deles é matriarcal (as mulheres lutam ao lado dos homens e não são tratadas como inferiores), elas têm cargos de poder apenas na esfera religiosa. Os líderes guerreiros são todos homens.
* Isso pode dar margem para a Mística Feminina e a ligação da mulher com a natureza, que por sua vez pode ser problemática.
* É heteronormativo. Quando o protagonista finalmente termina seu ritual de iniciação, ele “tem o direito de escolher uma mulher para ele”. Então responde: “Mas a mulher que quero tem que me escolher também”. Ok, legal, mas não tira o caráter de que amar o mesmo sexo é considerado inexistente onde só o homem escolhe (mesmo em um local matriarcal).
* O protagonista só é pleno quando larga o corpo de humano cadeirante para ser um humanóide que anda sobre as duas pernas.
Pontos positivos:
* Todas as personagens femininas são fortes e tomam iniciativa, inclusive Neytiri (o par romântico) é quem salva o Jake Sully.
* É Deusa e não Deus.
* A mensagem de respeito a todos os seres vivos, até a menor forma de vida. Matam para sobreviver e comer, mas fazem uma oração antes (ao contrário do que praticamos hoje onde a maioria das pessoas com casa poderia ser vegan…).
* Embora seja um filme para as massas (assim como Star Wars é) com muitos efeitos especiais (idem), consegue trazer diversas questões interessantes: O conceito de colonizar alguma nação considerada “selvagem”, choque de culturas, valores morais, visão holística, viés feminino nas crenças… Uma ótima prova de que é possível investir em efeitos e ação sem abrir mão de um roteiro cativante. Sinceramente Star Wars caiu muito no meu conceito depois desse filme. Aprenda LucasArts.**
** E o George Lucas só colocou o Lando (personagem negro para quem não sabe) porque o movimento negro reclamou. E ainda arranjou pretexto pra colocar a Léia como escrava sexual.
**² Vi em uma edição em quadrinhos do Universo Expandido onde mostrava uma loira erotizada com roupa de Storm Trooper (só pra mostrar que os deslizes não se restringem aos filmes).
12.17.09
Mais uma pessoa tenta me converter
Ontem resolvi cortar o cabelo, já que o dito cresce em uma velocidade impressionante. Enquanto esperava me divertia com o livro Deus um Delírio do Richard Dawkins (meu presente do Dia das Crianças), a mulher terminava de fazer chapinha em uma ruiva de farmácia, a moça foi acompanhada do namorado que tirava sarro dela, enquanto ficava visivelmente insegura.
Terminada a chapinha a mulher lavou meu cabelo (adoro massagem na cabeça), ouvi o rapaz rindo e a cabeleireira perguntou:
“Não gostou não?”. Sentei na cadeira e ela me disse:
- Não entendo! Uma moça bonita daquela, namorando um moleque que ri da cara dela.
- É, eu não agüento essas coisas não, tem que mandar se lascar
- Você descoloriu seu cabelo?
- Não, tingi várias vezes até pegar o tom que quero, aliás, preciso tingir novamente, tá amarelando… E você já usou muitas cores?
- Já, até raspei, a melhor coisa que já fiz na vida, mas não pode ligar para o que falam.
- E corta cabelo há muito tempo?
- Por que pergunta?
- Sempre pergunto para as pessoas como elas começaram na profissão, se gostam do que fazem…
- [Imaginem o máximo de tom místico pra contar a história] Ah, a história é muito confusa, é muito longa, você não vai entender…
- Desculpe. Se não quiser, não precisa contar.
- Eu era casada, e eu fui até uma pessoa… Falou que eu tinha que procurar uma profissão, ia passar por um período difícil e precisava me arranjar…
-… Economicamente
- Não, profissionalmente.
-…
-Então eu tinha passado em frente uma escola de cabeleireiros e perguntei pra pessoa: “Tipo o que?” e ela disse: “Cabeleireiro”. Aí fui crescendo na profissão. E ai, gostou? Tá bom (o corte)?
- Gostei sim, obrigada.
- Eu pensei que não ia ficar bom não, mas ficou. E essa sobrancelha aí? Não vai tirar não?
- Essa é de estimação. Sabe quando algo faz parte do que você é?
- *Faz careta* Mas é porque fica bonito.
- Não obrigada.
Júnior: – Ai que linda que você está, que diferente.
- Obrigada ^^
Me despedi e saí.
Quando estava a poucos metros de casa uma moça atrás de mim diz:
- Moça, moça.
- Oi
- Posso falar uma coisa rapidinha pra você? Qual seu nome?
- Claro. É Deborah e o seu? *pensei que era mais uma pessoa que ia perguntar a tinta que uso no cabelo, no domingo uma mulher me parou no Bazar Vegano pra perguntar isso*
- Bianca (acho que era esse o nome dela…), eu sou uma serva de Deus e queria saber se posso orar por você.
- Pode sim *na sua casa né?*, sem problemas.
A moça colocou a mão no meu ombro: Repete depois de mim?
- Não, vou me sentir desconfortável.
- Oh senhor (cobrindo os olhos com uma mão enquanto outra colocava no meu ombro)! , abençoa a Deborah, a família dela. Tire do caminho todas as armadilhas de Satanás…
[Nisso minha mente viajou, o que será que ela viu em mim? Meu guarda-chuva? O porteiro achou estranho, se levantou...]
…Oh, senhor, guarda ela…
[Será o Deus um Delírio que me fez rir minutos atrás em minhas mãos?]
Tu sabes de tudo Senhor…
[Ou meu recém corte de cabelo?]
…derruba ele Senhor, entra na vida dela agora e para sempre. AMÉM. *Olhos de esperança aguardando ouvir “meu” amém*
- ….(sorriso amarelo)
- Fala “amém”!
- Não… Vou me sentir desconfortável.
- Você tem telefone? *A moça tinha olhinhos de piedade*
- Tenho, mas… Vou me sentir desconfortável. E ele é onipresente né? Sabe onde estou não precisa…
- Deixa só anotar seu nome no papel, é Deborah né? Vou orar por você, posso? Na minha casa? *_*
- Pode sim, sempre que quiser. E…
- Siiim *_*
- Boa sorte…na sua vida aí…
- Obrigada pra você também! *______*
Entrei no prédio:
Porteiro: Tudo bem (apreensivo)?
- Tudo, estão orando por mim.
Porteiro: Mas será mesmo? Se for tudo bem. Ela pegou algum dado seu?
- Meu nome.
Porteiro: É por que não sabe pra que vão usar (ele insinuou que a moça ia “por meu nome na macumba” ou algo do tipo).
- Eu não tenho medo dessas coisas não, tenho medo é de faca, coisas que cortam, físicas, reais…
Porteiro: Ah, mas se você é forte com Deus como você está falando, então nada te pega! Que bom que você acredita tanto assim.
Entrei absorta no elevador. Por que não falei pra ele que era filha de Iansã?*
*Parafraseando uma colega de faculdade do Yuri que respondeu isto a um garoto que perguntou se era de alguma igreja. Como negou, ele emendou “É da macumba então?”
**Confesso que simpatizo mais com os Orixás do que com os Santos católicos.
OBS: Lembram do gatinho preto? Tirei uma foto dele ontem:
11.30.09
As dificuldades em conviver com o meu silêncio
Não sei por que estou tremendamente triste, tenho visto ótimos filmes (Besouro e Thelma e Louise), voltei de uma viagem ao Guarujá, estive bem com meu corpo e meu trabalho é reconhecido.
Nada do que tenho feito tem prolongado a minha sensação de bem-estar, sinto que preciso reorganizar todos os meus desejos.
A única certeza que tenho é que quero muito fazer a minha tatuagem.
Quase sempre não relaxo, a tensão faz parte do meu modo de encarar a vida. É a vegan.
Não espero fazer sentido, ontem o Café Filosófico foi brilhante, embora discordasse quando a psicóloga informou “quem têm depressão não tem imaginação”.
Fico nessas de tentar me manter “ok” a maior parte do tempo. Sei sim, o que acaba comigo é me deixar fragilizada, exposta, e ando me sentindo assim. Ontem no Guarujá estava tudo lindo e do nada um cocô bóia no meu braço, comecei a gritar histericamente (pode rir, dou risada disso também). Na hora quase vomitei e me senti realmente muito mal, um grande medo meu. Nisto a construção social foi muito forte, tenho um nojo MORTAL de bosta humana, de animais não humanos limpo numa boa. Pra ter noção, nem exame de fezes eu faço.
Sinto-me melhor. Na verdade não foi só o episódio da merda que me deixou assim, o Yuri (com razão) brigou com uma moça na volta do ônibus porque ela ouvia música alta no celular e incentivava o sobrinho a fazer barulhos irritantes. Acordei sentindo medo no meio da discussão entre eles. E sabe? Odeio conflitos, até brigo com as pessoas, mas tenho um impulso imediato de mediar conflitos, construção do gênero feminino de apaziguar sempre, se anular pra não desagradar os outros. E pra ajudar os noticiários sempre aterrorizam as pessoas falando de discussões que terminam em morte. Fico eu, com cu na mão, me sentindo impotente diante de uma multidão. Os eventos parecem gigantescos; para os outros é algo extremamente banal. Por esta razão quando alguém diz pra me conter e “descer do palanque”, “largar minhas bandeiras” fico realmente brava, já me policio além do necessário. O bastante pra cogitar suicídio, seus merdas.
11.04.09
Moça da Uniban
No último dia 22 uma moça estudante de turismo foi com um vestido curto para a faculdade.
Estes alunos não pertenciam a uma seita religiosa onde moças que usam roupas inadequadas merecem pedradas, coerção e ameaças de estupro. Estas alunas e alunos são pessoas “normais”. Estão ao nosso redor no shopping, ambiente de trabalho ou até dentro de nossas casas, provavelmente com formação cristã, comemoração natalina, carro na garagem e cachorro no quintal.
O motim se deu em um lampejo de revolta e reivindicação da ordem (moral), dando a idéia de “unidade”, pertencimento a um grupo com os mesmos propósitos. Quem era o “inimigo”? Uma moça sozinha com um vestido curto. A multidão precisaria se unir para combater esse “mal”? A transgressão da “moral e bons costumes” embora incentivada (quem não usa roupas curtas é considerada menos atraente e pouco “feminina”), quando cumprida sofre represálias.
Muitos dos comentários que ouço sobre o fato dizem:
“Está certo que a culpa é dos alunos, mas ela sabia que correria este risco”
Não há lugar seguro para uma mulher, horário, local ou idade para serem vistas como “estupráveis”. Este discurso tem uma linha tênue entre “Mas o que ela queria? De madrugada voltando pra casa depois de beber com roupa curta”?
“Se eles mexessem, falassem gracinhas era normal, o que não pode é chegar ao ponto de ameaça de estupro” / “Não tem como abrir queixa, nem encostaram nela, só falaram palavras obscenas”
Da mesma forma um homem que mostra o seu pau em público, se esfrega nos ombros das moças no ônibus, ou passa uma cantada ele está cumprindo seu papel de lembrar as moças que elas podem andar com decotes e roupas justas: Contanto que paguem “pedágio”. Se ele as julga pouco atraentes talvez reúna outros colegas (as cantadas costumam ser mais agressivas quando os homens andam em grupo) para ofende-la.
Absurdo o Fantástico chamar a consultora de moda Glória Kallil para falar que “A roupa é um instrumento que diz ao mundo o que somos, certamente essa moça não atentou para a mensagem corporal que a vestimenta dela seria interpretada – o que não justifica a ação destas pessoas”.
Se uma casa fosse roubada eles chamariam um engenheiro para analisar o quanto a casa não foi projetada de forma segura? Em algumas cidades do interior e alguns bairros de periferia, os moradores dormem com suas janelas completamente abertas ao contrário de um condomínio de classe média com suas câmeras de segurança.
Não culpam um homem branco, bem vestido dentro de um carro importado pela tentativa de seqüestro no seu bairro nobre.
Se uma mulher branca usa roupas decotadas e for estuprada, dirão que será por falta de senso estético e decoro, se a mulher for gorda, negra ou fora de algum padrão estético, não acreditarão que alguém tenha desejo por ela, nessa última percepção grotesca cometer um estupro não é uma relação de poder e sim o tesão elevado a máxima potência.
Neste raciocínio, uma mulher usando uma roupa justa é incoerente ao reclamar de uma cantada, a postura esperada seria a condescendência com quem invadiu seu espaço físico, levando em consideração sua natureza racional que compreende a produção involuntária de pulsões sexuais em homens escravos da sua própria testosterona.
10.27.09
Windowsill
Juro que se eu bebesse algo alcoólico, esse seria meu recurso esta noite. Como não o faço fui até uma lanchonete vegana e pedi um suco de maracujá. Talvez um dos mais amargos que já tomei, não por falta de açúcar, mas da raiva guardada e da impotência.
Queria mesmo é abrir meu coração para aquele atendente que nem sei o nome e dizer o quanto eu ando triste, o quanto a dor no peito vem rasgando nesses dias.
Semana passada minha irmã me disse que uma professora quando lecionava para crianças de 8/9 anos um grupo de garotos forçou uma menina da mesma faixa etária a praticar sexo oral neles. Ela tem deficiência mental. Os garotos não. A mãe da garota e a direção da escola não quiseram denunciar, alguns dos meninos eram “filhos de bandido”.
O Yuri sabe o quanto essa notícia acabou com meu dia, passei minha noite de sexta definhando chorando.
Não há lugar no mundo seguro para uma mulher
Crianças de 8 anos tem ereção? Tem porra já? Mas tem supremacia masculina, isso sim. São “imitações” inconscientes de uma estrutura familiar conturbada? Oras, se não vamos culpar crianças por estupro, podemos inocentar um serial killer de passado problemático?
Hoje ao sair do trabalho com minha irmã um grupo de garotos jogava pedra no mato, eu sabia que por ali existia um gato preto e me aproximei esperando o pior.
Eu: Ei, o que vocês estão fazendo? Não tem vergonha não?
Garoto: Ninguém te chamou, não é da sua conta.
Minha irmã: Não pode fazer isso, tacar pedra no gato, porque você está fazendo isso?
Outro garoto: Tem que tacar mesmo, ele estava matando um passarinho!
Eu: E você não come carne?
Garoto: Como…(cortado pelo “Líder”)
“Líder”: Escuta aqui, segue “seus caminho”
Garotos: (Jogam mais pedra)
Eu me aproximo e cruzo os braços de frente para um deles, ele fecha a cara e me imita.
“Líder”: Você quer bater na gente é?
Eu: Não, porque eu não sou covarde
Grupo: Viiiixeee olha só quanto nós somos
“Líder”: Segue “seus caminho”, segue “seus caminho”…
Outro garoto: Agora que eu vou matar esse gato, tem que matar mesmo, ele é preto!
TODOS os garotos eram negros.
Isso me deixou sem palavras por um instante.
Eu: Por isso mesmo, não podemos ter preconceitos.
“Líder”: Segue “seus caminho”, segue “seus caminho”…
Minha irmã: Isso é covardia
Os garotos saíram andando, perto uma senhora com seu Golden Retriever perguntou para minha irmã:
- O que aconteceu?
- Estavam tacando pedra no gato.
- Isso não pode! É crime! E começou a falar com os garotos que permaneciam. O líder disse algo como “Depois chamamos uns trutas pra dar um jeito nessas duas”.
E eu fui para a lanchonete.
Meu pai ligou preocupado, soube do ocorrido.
Uma coisa eu digo, não vou encostar a mão naquelas crianças, mas se vierem pra cima de mim vou revidar. E se eu morrer ser presa todo mundo já sabe o motivo.
Agora dá licença que vou preparar janta pra usar de marmita amanhã e pegar ônibus cheio.
Sempre vivi na periferia, estudei nas suas escolas, sofri a humilhação de gente que tinha tanto dinheiro quanto eu. Mas eles têm o “gueto” masculino, sua força, seus comparsas, eu só tenho vontade de chorar e lutar. Lutar sempre.
Fico pensando se quero mesmo ser professora de História, pra ter que agüentar gente que não tem metade da minha estatura querendo botar o dedo na minha cara. Seja porque tem o papai rico com mil advogados ou os mil manos em uma terra sem lei.
Este post foi escrito ao som de Windowsill do Arcade Fire






