30 março, 2014

I Festival Autônomo Feminista

Enviado em Eventos às 11:45 pm por Deborah Sá

 

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Nesse final de semana ocorreram  palestras, debates, exposições e apresentações no I Festival Autônomo Feminista, com a organização do coletivo 2ª Opinião.  Pude reencontrar mulheres que há algum tempo não abraçava. Bruna, Jéssica, Elisa, Djamila, Estela, Marina, Tamara, entre outras, uma grata surpresa! As comidas à venda eram da Arde Patriarcado – Culinária vegana (quão genial esse nome!) e Lar Vegetariano. As fotos são da página do coletivo no Facebook!

Os debates versaram sobre vários aspectos, entre eles, mulheres negras na luta, invisibilidade lésbica, a não monogamia, a política sexual da carne, violência obstetrícia. Agradeço ao coletivo 2ª opinião pelo convite e oportunidade em falar sobre a relação entre feminismo e consumo de carne, foi experiência de muito aprendizado. Estendo o agradecimento também a todas que deslocaram-se pela cidade comparecendo ao festival, ajudando na organização, participando, dividindo experiências e inquietações. Que venha o próximo!

19 março, 2014

Debate – A Política Sexual da Carne no Brasil

Enviado em Eventos às 2:55 pm por Deborah Sá

programaçãocolorida

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Estarei no I Festival Autônomo Feminista no final de Março. O debate “Mulheres fruta? A política sexual da carne no Brasil”, será introdutório e versará sobre a conexão entre onivorismo e patriarcado, por essa razão, não é necessário conhecer o tema de antemão. O festival contará ainda com outras rodas de conversa, apresentações, filmes e experimentações cênicas protagonizadas por mulheres.  Haverá espaço para crianças no evento, sendo os homens colaboradores, responsáveis por esse cuidado. Para mais informações, clique no folder.

Onde:  Tendal da Lapa - Rua Constança, 72 - Lapa – CEP 05033-002

7 março, 2014

Dia das mulheres: Pedra, lâmina ou papel?

Enviado em Gênero tagged , às 1:29 pm por Deborah Sá

PowerPoint

Pra comemorar essa semana em grande estilo, que tal um PowerPoint?: dia-das-mulheres-pedra-lamina-ou-papel

14 fevereiro, 2014

Essa é a minha deixa (com áudio)

Enviado em Com áudio às 4:27 pm por Deborah Sá

Ao nascer, ganhei uma bússola. Bem que tentei esconder, mas sempre descobriam meus esconderijos. Entortaram o ponteiro, riscaram o vidro, fizeram miséria. O último golpe foi o furto da tampa de proteção. A desventura foi muita, ao olhar aquele objeto com os olhos embotados, pude perceber não se tratar de peça comum. Com bastante esforço, li em letras minúsculas e cursivas: “Em caso de danos, deslize os dedos aqui”. Prossegui. Não havia mais ferrugem! Porém, as engrenagens ainda estavam expostas. Coletei algumas pedras coloridas aqui e ali, enfeitei em diferentes cores. Não importava a quantidade, um pedaço das engrenagens antigas permanecia exposto, como era de se esperar, eram guardiões daquele artefato. Em dias difíceis, só consigo reparar nos buracos e no som dos metais sussurrando. E nos dias como hoje, seguro contra o sol. Um caleidoscópio feito em escuridão e resplandecência. E nela, está o afeto.

(silêncio)

O amor está para além dos olhos, ao mesmo tempo, habita a luz e a sombra no piscar de seus cílios. O amor está onde o tempo quer que fique, melhor ainda, se puder sorver cada detalhe, a história que teu corpo me conta. Está nos seus joelhos e calcanhares estalando, em seus pulmões relaxando e expandindo o tórax. O amor vive no cheiro incenso detrás das tuas orelhas, é fumaça quente escalando minhas narinas. O amor está recôndito em cada esquina e sempre trás um ramalhete em agrado. O amor me rouba beijos, amolece as pernas, abocanha um pedaço teu. O amor me acolhe quando meus braços circundam tua cintura e sua língua capta meu gosto. O amor está mesmo se não há toque, mesmo se não sei teu nome, mesmo se há poucos minutos estamos juntos. O amor está na paisagem e em toda formosura, o amor está aqui, e ali. O amor é torneira aberta, e sou, permeável.

5 fevereiro, 2014

Woody Allen, masculinidade e violência

Enviado em Gênero, Só falam nisso às 12:57 pm por Deborah Sá

Como um sujeito franzino conhecido por suas neuroses pode ser acusado de violência contra meninas? Teria moldado o comportamento da filha adotiva de 12 anos ao tirar fotos dela nua? Seria transtornado ao esperar a maioridade para casar-se com ela? A carta aberta de Dylan é a prova cabal de um predador sexual? Aliás, com quantos homicídios se faz um assassino? Com quantos abusos se constrói um estuprador? Quem passa por violência sexual pode criar memórias falsas? As produções de Woody Allen merecem a fogueira pública?

Não interessa se algo comportamental ou físico aparentemente inocenta ele das acusações. Não existe “cara” de estuprador. Esqueça os contos de fada onde os traços de um rosto dizem tudo sobre o caráter, não somos Dorian Gray. As projeções de um corpo ou postura criam caricaturas facilmente aderentes e demasiadamente precipitadas. Ademais, a maioria dos estupros acontece em ambientes “seguros”, embaixo do nariz de presentes. Quem consuma esse ato abusa da confiança dos familiares e da própria criança, a qual enxergava na figura mais velha uma autoridade. Mia Farrow, fez o que qualquer adulto responsável, faria: Ouviu a criança, seu modo de explicar o ocorrido, não acusou, deu um voto de confiança. Criança sofre, sente medo e embora sinta as estruturas não sabe como nomeá-las. Sejamos honestos, por vezes, nem nós adultos, conseguimos enxergar as linhas invisíveis nos tolhendo. Imagine então, compreender o sexo não consentido (estupro), quando se é criança. Não interessa se ele “só” fez isso com algumas crianças e não com outras. Um molestador sabe aproveitar vulnerabilidades. Quem estupra está em uma relação de poder coercitivo, é alguém que tem todas as cartas do jogo. E ele como homem, figura mais velha e paterna, aclamado cineasta, provedor econômico, tinha muitos elementos deixando a balança pender para o seu lado. A constituição franzina não diminui as outras esferas de poder. Ele ainda as tem.

Mia Farrow, pouco aparece nas manchetes, seus filhos idem. Eles só existem para a mídia atual em função de Woody Allen. São sombras de uma figura maior em primeiro plano. Não deixarei de assistir um filme produzido por esse homem, especialmente em casa, já que sinceramente, prefiro dar dinheiro para outro tipo de bilheteria (de tão insosso, Para Roma com Amor poderia ser filmado pela Globo Filmes). Faço diferenciação entre a obra e o autor, muito embora saiba que tudo o que tocamos carrega nossas impressões. Se ele “moldou” Soon yi com quem é casado cabe a ela quebrar o silêncio. Se ela vive em uma relação abusiva e não encontra forças para sair do relacionamento, espero que consiga romper. Tratá-la como incapaz e totalmente manipulável não parece o modo mais respeitável de protegê-la. Não conheço a dinâmica interna da relação, aparecer sorrindo nas fotos não diz absolutamente nada. Casamentos sem qualquer indício externo podem ser tempestuosos e opressores. Se Soon yi não denuncia a violência, não posso supor que é vulnerável. Dylan, ao contrário, diz com todas as letras que vivenciou um estupro, por isso, acredito nela. Encarcerar ou matar um acusado por um crime não encerra incesto e o estupro. Quem pratica homicídio ou outro tipo de violação similar não é doente, “gene defeituoso” ou algo que o valha. A violação não consensual é instrumento de guerra contra mulheres e crianças. Nossa sociedade produz pessoas violentas, em especial, homens violentos. Essa consideração não pode ser eclipsada por binarismos de bem e mal. Há de se ressaltar a importância de problematizar a masculinidade hegemônica, mecanismo dorsal de hierarquias generificadas dos agentes da violência. De acidentes de trânsito à violência doméstica, em grande maioria, quem porta a arma, é o homem. Por isso não gosto do slogan “Homem de verdade não bate em mulher”, não faz sentido elaborar uma campanha  onde não bater em mulheres afirme a própria masculinidade. Para quê confrontar um padrão conservando suas raízes?

Vítimas de estupro, em especial na infância, podem apresentar lacunas na memória e até imaginar novos trechos. Isso não invalida a experiência de horror. Tornar pública nos mínimos detalhes uma experiência dessa magnitude desgasta, expõe e estigmatiza a mulher violentada. Ela será sempre olhada com desconfiança ou pena, desequilibrada. Se optar pela continuidade da própria sexualidade será vista como mentirosa. Se optar pela assexualidade, chamarão frígida. Buscamos trejeitos enunciadores de virtudes ou falhas morais nos gestos mais banais.

Como sobrevivente de violência sexual infantil, sei que os flashes perturbadores nos tomam de assalto, por vezes, com riqueza de detalhes sórdidos e a primeira reação é sublimar, tentar focar a cabeça em outra coisa. Basta uma insegurança para a sensação de ser criança, daquela forma que eu era, tomar meu corpo. Me sinto pequena, vulnerável, com mãos indesejáveis passeando pelo corpo inerte. Ao escrever isso, meu corpo é invadido pelo medo gelado que passa do ventre para as costas. Minha cabeça fica muito, muito quente. Sinto misto de raiva e vergonha. Contei com o apoio de pessoas para expelir o refluxo desagradável amargando a boca. Essa é, a maior de minhas cicatrizes, sei que ela nunca sairá da minha memória, felizmente, não mais, ao ponto de me engolir. Enfrentei esse medo diversas vezes e hoje sei defletir o golpe, mesmo que vez ou outra cause um novo hematoma por estar distraída.

Fruto de minhas inseguranças mais basilares, é por meio dele que sinto estorvo, erva daninha a tudo que ousa esgueirar. O sentimento desumanizador de se sentir um monstro, forquilha do que há de mais perverso. Nó na garganta que tenho de enfrentar ao me aproximar de gente nova em um dia que nada vai bem. Pesar que invade quando tenho vontade de falar em público e uma voz desagradável diz que não vale a pena. Ao mostrar crises de choro inesperadas tudo fica do tamanho da minha dor. Imagino que me achem covarde. Depois que o choro cessa, respiro e consigo ver a panorâmica. Não estou presa, passei e é melhor deixar fruir do que engasgar. Aquilo, não me reduz. O corpo precisa de um tempo para expelir um corpo estranho, nesse ínterim, há sintomas desagradáveis, prefiro não mascará-los, escolho criar anticorpos. Porém, não é fácil, quase sempre, é preciso muito empenho. O descrédito de outrem leva à dúvida da percepção. Mesmo o personagem mais neurótico do cinema parece são mediante a palavra de uma mulher.

23 janeiro, 2014

Senha A22? A23?…

Enviado em Cotidiano, Crônicas e contos às 1:05 pm por Deborah Sá

Ao meu lado, pele parda, boné, barba por fazer, leve hálito de bebida. Onze horas da manhã esperando o atendimento na mesa do banco. Passou meia hora e mais outra meia hora. Baforamos, os dois com um pouco de pena da atendente sozinha, clientes sucessivamente. Apontou para o pedaço de minha tatuagem despontando na gola do vestido cinza.
- Ei, bonita, hein?
- Obrigada.
- Tenho a minha também.
Mostrou dragão em um braço, no outro, pergaminho com o nome da filha. Estava lá para fazer empréstimo. Baixou a cabeça em desalento. “Sabe como é…a gente começa e não sabe mais parar”. Contou as primeiras vezes na cocaína e as poucas vezes que experimentou crack. Histórico familiar: Esquizofrenia. Diz trabalhar armado, às vezes ouve vozes as quais mandavam ele se matar. Era herói para filha e esposa, agora, uma vergonha. Claramente sentia embaraço. Na infância apanhava do pai, chegava tarde, sempre depois das sete, ameaçando colocar fogo na mãe. “Eu não quero ser igual meu pai, não quero ser alcoólatra”. “Não sei o que fazer com a minha raiva”. Já trabalhou de segurança em banco, explicou como funciona o detector, o peso de um bom colete à prova de balas (porque 38 é oval, entra e para, não é igual metralhadora e outros modelos). É soldado. Nunca operou alterado. Já viu colega de trabalho comparecer ao serviço “se mordendo”, “com pupila gigante”. Diz não saber por onde começar. Sugeri que escrevesse. Escreve, no celular “tem quase dez páginas, já”. Tentou duas vezes entrar na polícia. Na primeira foi sincero “Estou aqui pra matar bandido”. Não passou. Na segunda buscou dicas “Quero proteger a sociedade”. Aprovou. Melancolia exalando mais que o etílico. Não cessava. Sugeri fazer faculdade de Filosofia, já tentou, “muito parado!”. Pensou em fazer Psicologia, porém, afirmou não ser bom ouvinte. “Às vezes as pessoas só precisam de uma palavra amiga”, pontuou. Espontaneamente depois de quase meia hora abrindo o peito, soltou: “Era fechado, falava nada, fiz teatro, adorei. Sou noveleiro. Adorava o teatro, era feliz ali”. Eu o disse: “Isso, teatro é uma ótima, quem sabe, né?” A moça chamou meu número. “A24?” Levantei, aprumei o vestido. Acenei desejando boa sorte, o desconhecido agradeceu. Quiçá haverá outro encontro entre nós, talvez eu de punho em riste, talvez correndo, talvez, ele, fardado, cassetete na mão.

18 janeiro, 2014

Rolezinho

Enviado em Eventos tagged às 9:24 pm por Deborah Sá

Em Junho de 2006 fui em um Orkontro. Era assim que nós, rejeitados e desajeitados encontrávamos nossos pares. Escolhíamos um shopping com o intuito de conhecer pessoalmente quem desabafávamos on-line em conversas privadas, MSN. O fórum/comunidade era Orgulho Nerd. Foi assim que conheci Yuri, meu companheiro até hoje, além de outras pessoas queridas com as quais mantive contato na migração ao Facebook. Mas por que milhares de jovens fazem há tempos Orkontros e simulares e isso nunca foi notícia? Nosso grupo não era tão grande e a cor majoritária de nossa pele branca sequer levantava suspeita.

Desrespeitoso supor que o rolezinho não tem o direito de existir, criticar a expansão da inclusão digital. Se são barrados e ridicularizados por fazer coisas que sempre fizemos, está posto o privilégio. Não é só aí que eles são impedidos, nos fóruns de discussão on-line é exigida certa etiqueta gramatical, por exemplo, se faz piada com quem não tem ensino superior ou estudou até o ensino médio. Passar mais de dez anos dentro da instituição escolar, cursar a universidade, nada disso nos dá, senão, privilégios de uma organização social meritocrática, vantagens no mercado de trabalho. Quanto maior a grana, maior a grade, a diferença é muitos ganham pulseirinha, brindes, chaves e acesso a conteúdos exclusivos. O rolezinho escancara esse manto fino, quase transparente, mas, fortemente distintivo. O que barra a circulação desses jovens é a hexis corporal: A história e os signos inscritos no corpo de cada indivíduo.

Integrantes do rolezinho provavelmente sentam-se calados em ritos religiosos. Fazem barulho no templo do consumo porque estão em grande número, assim como fazemos em aglomerações. Encontro com amigos e gente nova não é procissão ou enterro onde se tira o boné em respeito. Que o rolê esteja em toda parte.

16 janeiro, 2014

Relacionamento não-monogâmico: Romance e ciúme

Enviado em Afetos tagged , , , , às 1:30 pm por Deborah Sá

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Cecília conhece Roberto, eles começam a namorar. Embora Roberto ame muito Cecília, se apaixona por Letícia, colega de trabalho. Letícia era casada com Antônio e descobriu uma traição “virtual”. Furiosa, cedeu às investidas de um amigo, João. Em uma quinta-feira, Letícia contou a decisão para Antônio com um sorriso nos lábios e em seguida, emendou o pedido de divórcio. As histórias e os nomes fictícios da pequena narrativa mostram dilemas que qualquer relacionamento pode enfrentar. Não-monogâmico é aquele que questiona a monogamia como constituinte do afeto, sexo e/ou amor. Cada relacionamento é elaborado com base em acordos verbais de tal forma que o interesse de todos os envolvidos tem de ser respeitados, negociados.

Cecília e Roberto, por exemplo, haviam acordado que o que havia entre eles era amor e o que viviam nas relações paralelas era somente sexo. Tudo muda, quando Roberto passa a amar duas pessoas ao mesmo tempo: Cecília e Letícia. Eles viviam um relacionamento aberto, ciente de que terá de escolher entre uma das duas, está posto o entrave. Cecília exigia exclusividade e não aceitaria dividir o tempo de Roberto com mais ninguém. Letícia, também separava conceitualmente sexo de amor e afeto, era permissiva ao sexo casual de seu marido Antônio, contudo, julgava inadmissível o compartilhamento emocional para outra e ele fez isso on-line. Letícia sabia que João era o único homem com quem Antônio não toleraria envolvimento.

O oposto do ciúme é a compersão, isso é, ficar muito feliz quando alguém que amamos está com outra pessoa. Ao invés de sentir raiva ou medo de perder, surge felicidade. Um relacionamento poliamor é aquele que envolve três ou mais pessoas, os acordos podem ser múltiplos, desde polifidelidade (entre as pessoas daquele núcleo) até definir quem é/será secundário ou prioritário na dinâmica. Em RLi (relações livres) não está em questão a negociação da profundidade ou o envolvimento com terceiros, o amor, o afeto, o sexo, são componentes que priorizam o desejo, não há ninguém secundário, promessa de fidelidade parcial, afetiva, sexual. Independentemente da escolha, as relações não-monogâmicas não são frias. O romance não é incongruente em qualquer uma das dinâmicas. Ciúme, sentimento de posse, não é certeza do amor. Quantas pessoas ainda escondem ciúmes de ex-parceiros?

Mesmo em um relacionamento RLi, a compersão pode não existir em todos os casos, da mesma forma que nem sempre os amigos de nossos amigos despertam simpatia. Em um relacionamento não-monogâmico que pressupõe um núcleo e hierarquia, o ciúme tem maior probabilidade de ocorrer. Isso é trabalhado nos acordos, por exemplo: “Podemos/não podemos ficar com nossos amigos”, “Fique com quem quiser, só não me conte os detalhes/quero saber tudo detalhadamente”, cada casal ou grupo sabe das próprias diretrizes. Ao refletir sobre práticas afetivas e sexuais como construção social nunca mais sentiremos ciúme? A resposta é não. Há uma distância considerável (por vezes, abismal), entre o que acreditamos e o que temos condições de levar à prática. Uma pessoa virgem pode pensar muito em sexo, porém, não se sente pronta para quebrar essa barreira tão cedo. Semelhantemente, um indivíduo pode atravessar o período de transição em monogamia/relacionamento aberto/poliamor/RLi de maneira bastante dolorosa. São hábitos arraigados desde idade remota reforçados pela cultura, os valores tradicionais, a forma de se portar no mundo. Por mexer com certezas tão profundas leva à incompreensão. Não-monogâmicos podem ser falsamente interpretados como sujeitos sem amor-próprio ou ainda, egoístas e mesquinhos. Nos videoclipes, nas letras de música, nos filmes, o amor “de verdade” é aquele que dói, faz espatifar vasos e pratos, é “ter olhos para mais ninguém”. A gente compra a ideia mesmo com os sentimentos e desejos nem sempre caminhando nessa direção.

Em conversa ao telefone com meu amigo Elias, chegamos na analogia de que o ciúme é uma criança aborrecida. Sente fome, sono, faz birra, quer seu paninho ou chupeta, atenção. Ignorar o chamado ou colocar no “cantinho da disciplina”  é abrir espaço para a traquinagem, colocará taxinha na cadeira, jogará chiclete no cabelo, riscará o carro, furará pneu, gritará mágoas. Excesso de cólera faz parte do ciúme, bem como a urgência e a vingança. A insegurança e a carência são a ocasião perfeita para o surgimento dessa avalanche. Ao invés de nos culparmos, sentir remorso ou descontrole sobre as próprias emoções, é mais justo respirarmos fundo e questionarmos com sinceridade: Qual o motivo da raiva? De que exatamente temos medo? Esse ataque é para se defender contra o que? É preciso respeitar a consciência, o desejo. A aprendizagem leva tempo até ser reconhecida e assimilada. Recurso teórico auxilia o refutar, ter projeção, um plano de ação possível dentro das condições do presente. Acalmemo-nos: a vida é desfazer nós, nós de nós mesmos.

Guest Post – A História de horror de M.

Enviado em Guest Post às 12:27 am por Deborah Sá

M. entrou em contato através de meu e-mail e compartilhou a difícil experiência a qual foi submetida na infância. Como deseja tornar a história pública sem quebrar o anonimato, pediu que publicasse aqui no blog sua história. Em respeito a ela e a todas as pessoas que vivem após semelhante acontecimento, expresso profunda admiração e respeito. Eis o relato:

“Deborah, li seu post “A minha história de horror” e tenho uma história quase parecida. O sujeito da minha história é meu irmão, 4 anos mais velho que eu. Eu era tão criança, que não sei dizer com que idade começou, mas acho que a primeira vez eu tinha 6 ou 7 anos. Ele me sugeriu penetração numa tarde em que não tinha ninguém em casa. Eu não brincava na rua, eu mal tinha amiguinhas na escola; eu só tinha ele pra brincar. Depois ele foi me mostrando sites pornográficos, me instigando a querer aquilo. Quando eu tinha de 8 pra 9 ou 9 anos era quase que diário. Penetração anal c/ calcinha de um jeito que eu não sentia quase. Só via depois que minha calcinha ficava melecada. Era meio que uma condição pra eu jogar o video game dele “estando bem” com ele. Mas até aí, era algo viciadamente consentido, porém, “consentido”. Meus hormônios foram agindo, meu corpo foi crescendo e eu passei a não querer mais; pensava que poderia engravidar e me sentia muito suja. Tenho uma família muito católica e tinha muito medo do que poderia acontecer se descobrissem. E então, ele passou a passar a mão em mim quando eu menos esperava. Qualquer favor que ele me fazia era cobrado com uma apalpada na bunda. Depois, ele começou a visitar meu quarto no meio da noite pra apertar meu peito e ir embora. Eu ficava imóvel. Quando ele ia embora, me acabava de chorar. Eu me sentia tão violada, invadida, violentada. Era uma raiva imensurável. Comecei a escrever carta pra minha mãe, pensei em roubar a chave e trancar a porta do quarto dele depois que ele a fechasse, pensei em matá-lo e depois me matar, pensei em como eu contaria uma coisa dessas, e que, se eu contasse, ia acabar com a minha família. Detalhe esquecido: eu tinha medo do escuro, por isso dormia de abajur aceso e porta aberta. Isso tudo acabou quando eu passei a fechar a porta do quarto. Eu tinha uns 11 anos. Graças a isso tudo e outros indicativos de falta de caráter e escrúpulos desse ser, não tenho nenhum tipo de relação com ele mesmo ainda morando na mesma casa. A primeira pessoa pra quem contei foi meu atual namorado, com quem estou há 2 anos. Eu tinha 17 quando contei pra ele. Durante meses a gente conversou muito sobre isso e eu fui entendendo melhor o que me havia acontecido. Ganhei segurança o suficiente pra contar pros meus pais. Contei em janeiro de 2013. Eles ficaram chocados, mas também, só isso. Minha mãe na época tinha me perguntado do jeito dela e eu disse que não, por ter nojo/vergonha. E na hora eles resolveram que meu pai ia falar com ele. Uns 15 dias depois, a madrasta do meu pai faleceu, o que adiou (MUITO) essa conversa, que acabou acontecendo enquanto eu tava numa festa e meu pai trabalhando. Eu até hoje não sei se essa conversa aconteceu mesmo e dela nada mudou. Aqui nessa casa a moral cristã faz com que tudo seja em tom conciliatório, que tudo “fique bem”. NENHUMA medida, além da “conversa” e de me cobrarem sugestões de medidas quando eu cobrei atitudes, foi tomada até hoje. Já faz mais de um ano. Eu tenho uma vontade enorme de que todo mundo saiba o que aconteceu. Eu queria escrachá-lo, dá-lo uma surra eu mesma, qualquer coisa que descontasse minha raiva. Mas, quando meus pais estavam decidindo ainda o que iam fazer eu tive uma certa “dó” dele! Me odiei muito por sentir isso. É realmente asqueroso, doloroso pra mim sentir qualquer esboço de afeto por esse demente (sim, eu tenho indícios de que ele é um doente, mas aí é outra história). Mas, pensando com mais calma depois, vi que ele e outras coisas traumáticas que aconteceram comigo não conseguiram destruir algumas coisas que eu considero essenciais em um ser humano. Escrevo, divulgo, mesmo que anonimamente, porque pra mim ainda não acabou (eu convivo com ele, divido o banheiro, minha mãe se refere a ele pra mim como “seu irmão”), não que o meu caso seja ultra excepcional, mas gostaria e acho necessário que seja debatido.

Queria publicar isso num blogueiras feministas da vida com foto, nome completo e rg dele, mas eu ainda MORO com ele e não queria causar mais sofrimento aos meus pais com a exposição pública do caso. Ele era “criança” também, e me estuprou. Acho que é algo a se pensar. Me desculpe por gastar tanto tempo e espaço seus, mas se eu fizesse isso por qualquer outro meio eu não estaria anônima.

Vi em você alguém aberta a relatos como o meu. Obrigada por ser esse portal. 

Beijão,

M.”

Conforme disse por e-mail,  o julgamento em não denunciar esse homem diz respeito a sua consciência. É perfeitamente compreensível nutrir raiva por ele, não se culpe. De acordo com a última informação que tive acesso, o estupro prescreve até 20 anos depois da data do ocorrido se envolve menores de idade. Não sei o que acontece se os dois envolvidos eram crianças (alô, advogadas). Você tem o direito de tornar a história pública se assim desejar e a lei, tem obrigação de proteger. Sei que é difícil, especialmente em dias de tristeza, mas você não fez nada para merecer essa violência coercitiva, o estupro. Foi um crime e marcou profundamente sua trajetória, contudo, é possível olhar como episódio de superação. Obrigada pela confiança.

Beijos feministas,

7 janeiro, 2014

Gorda, um posicionamento político

Enviado em Corpo tagged , , , às 4:13 pm por Deborah Sá

Fumo, bebidas alcoólicas, dormir tarde, beber pouco líquido. Praticar atividades físicas, comer de três em três horas, retirar o glúten. São alternativas diferentes de se relacionar com os usos e funções do corpo, a administração do tempo. Tem gente que prefere criar uma dinâmica funcional e utilitária, nutricional, contam-se as porções, busca-se ganhar massa, reduzir medidas. Outras pessoas, preferem escolher pelo prazer farinha branca e alimentos açucarados. Para todos esses hábitos, há corpos magros e gordos, jovens e velhos, com mais ou menos idas ao médico.

Qualquer texto criado por uma pessoa gorda que explicitamente não segue dietas emagrecedoras (nem pretende seguir), é visto como um grande disparate, um passaporte só de ida ao leito do hospital. O que não se considera é que há muitas razões para alguém se tornar gordo e deliberadamente, continuar gordo. Nem todo gordo tem uma relação de ódio e punição com o que ingere, nem todo gordo é desconectado do próprio corpo. A separação entre esses pólos, inclusive, pode acontecer por meio de dietas e mortificação dos desejos. A cinta modeladora, as cirurgias plásticas e a fita métrica são cilícios, mais ou menos abrasivos. Segundo o ditado é indelicado perguntar para uma mulher sua real idade, também se tornou indecoroso perguntar o peso e o manequim.  Ao experimentar a tensão de não entrar na etiqueta de costume, pode se tomar duas decisões: Ou se compra apertado “porque merece, ninguém mandou comer demais” ou abandona-se a loja. O leitor pode supor que aí está a prova de que gordos naturalmente se odeiam. Discordo. O gordo que repete para si que é uma pessoa desprezível e descontrolada, é como a criança que em uma brincadeira imita a mãe repreendendo. Lembra da regra aprendida e a aplica. Adultos ou não, somos sujeitos extremamente suscetíveis aos estímulos externos. Ódio, culpa, remorso, agressividade se aprendem, para dentro e para fora ao longo da vida.

Mas vamos supor que alguém realmente toque o foda-se e resolva se esbaldar com alimentos gordurosos. Vamos supor, que as pessoas sobrecarreguem um pouco seus fígados. Vamos supor, que as pessoas descarreguem suas ansiedades e frustrações em hábitos pouco saudáveis. Chamá-las de “comedoras de lixo” por consumirem muito carboidrato, “fracas e perdedoras” por usarem entorpecentes, “estúpidas” por suas escolhas alimentares e sedentarismo; faz a meritocracia e o capacitismo baterem palmas. Parabéns (só que não). Superar limites, se sentir dono do próprio corpo e comer de forma consciente não tem como resultado último a perda de peso. Inacreditável que enquanto mulher, o maior êxito que devo aspirar é ter um corpo magro e jovem até o final dos meus dias. Pela escolha em permanecer gorda, assumem que eu odeie meu corpo ou seja dissocio com escolhas alimentares pouco conscientes. Mesmo que seja vegana desde 2008, não tome refrigerante há dois anos (me deixa estufada e tira o apetite), pratique exercícios com certa regularidade, adore espelhos e movimento, problematize a separação entre mente e corpo, espírito em sobreposição da matéria. Aparentemente, a única forma de auto cuidado possível é perder peso e manter as unhas feitas, do contrário, faço apologia a gordura como máxima estética e o desmazelo de modelo. Minha proposição é de que é mais importante ouvir as pessoas e respeitar suas angústias do que julga-las imaturas e desequilibradas por costumes. Elas não são dignas de cirrose, câncer no pulmão, overdose, perna amputada pela diabete. Merecem mais do que mau agouro e maldições. Já não basta fiscalizarmos a sexualidade? Os orifícios e genitais? Temos de estender o controle dos corpos em suas proporções? Por que raios incomoda tanto a circunferência abdominal alheia? Quando quero saber se alguém precisa de amparo pergunto se está tudo bem, se precisa desabafar. Não faz qualquer sentido abordar uma pessoa triste com o imperativo disfarçado de pergunta: “Já pensou em emagrecer?”. Culpamos a pessoa gorda pela tristeza que sente em ser maltratada, pelas grosserias que ouve. Minorias sociais tem mais tendência a depressão e a tentativa de suicídio e essa vulnerabilidade, é aberta com o preconceito sistemático. Os gordos aceitáveis são os que tentam não agir ou parecer gordos, os que estão em busca da desconversão. Defender a vivência da sexualidade sem restrições significa acreditar que gays, sejam pobres ou ricos, comedidos ou espalhafatosos, de terno, barba e/ou salto, merecem igual reconhecimento. Pouco me importa se a mulher escolhe casar virgem ou ser biscateira, tem o direito de usufruir a liberdade.  Puta, viado, sapatão, se foi possível apropriar dessas identidades, por que ainda relutamos tanto em sermos gordas? Que mal há em transformar isso em símbolo de resistência, beleza e empoderamento? Passou da hora de não mais pedirmos ou procurarmos desculpas.

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