27 abril, 2012
Nós
Não me falta teto, não me falta sangue
Não me falta tremor e gozo, não me falta corpo
Não me falta amor, não me falta o som das unhas no pêlo
Não me falta um gosto.
Sede ampla, sede aberta e desabrochada,
Sede úmida e tenra, como a manga em toda polpa
Sede líquido que desce por entre as pernas em torrente
Sejam nossas mãos entrelaçadas
Sejam os arranhões e as marcas nas ancas
Sejam seus sussurros em meu ouvido
Sejam rompantes das gargalhadas que escapam
Seja meu peso sobre o teu
Que o tempo seja uma categoria lá fora
Daquelas tantas que não nos cabem
E que sua língua me habite
Para quase todo sempre
20 abril, 2012
Ao direito do pesar
E estou condenada se o fizer, e estarei condenada se não o fizer. Então estou aqui para brindar no escuro, ao final da minha estrada estou pronta pra sofrer e estou pronta para a esperança. É um tiro no escuro mirando para minha garganta, porque procurando pelo céu, encontrei o Diabo em mim. Bem, que se dane, eu deixarei acontecer comigo. É difícil dançar com um demônio em suas costas.
Resquícios de pesar são o pó acumulado de móveis antigos, sendo mais suscetíveis as teias de aranha ao descaso e alguns dizem, ao arrastar de correntes. Esses fantasmas podem nos perseguir desde pequenos quando não compreendemos o que nos cerca, ou perdurar quando somos crescidos na certeza de que não sabemos. Minhas assombrações são do tipo que pregam peças, sem o menor aviso ou cerimônia me tomam de assalto, podem esperar que todos saiam para se aproveitar (como meu avô fazia) ou podem invadir em público, fazer troça da desorientação. Abarco sabotadores como elemento surpresa sendo o maior deles o supracitado que se decompõe em algum pedaço de terra, os outros, bem…São todos os outros. Ele queria pedaços de minha carne e tal qual um grupo de crianças atacou a mesa de doces, deixando copos descartáveis no chão, forminhas vazias e alguns balões estourados. Pode parecer estranho minha defesa, sobretudo em tempos de busca irrestrita de felicidade, de entorpecimento e fuga, mas requiro o direito do pesar, da dúvida, do remorso, de remoer falhas, o direito de errar, perder as chaves, mudar de direção, de perder o sentido, habitar o caos. Por certo o júbilo não é tão somente acessado em via de mão única no estreito lamaçal, mas por vezes, é essa massa anti-séptica que nos cicatriza e depois do banho na chuva, pomo-nos á dança.
27 março, 2012
A Novidade (que de nova, não têm nada)
Um comentário aqui, um parêntese acolá, uma piadinha machista que ouvimos quase sem querer durante o trajeto de volta pra casa, uma injúria racista que enerva e faz serrar os dentes, contar até dez, hoje durante o almoço o homem da mesa á frente contava ás gargalhadas como batia em seus três cães. Esse tipo de comportamento sádico e escarnecedor me faz profundamente incomodada, sinto a impotência de nada interferir na dose de Horrorshow diluída no cotidiano. No trem abarrotado ou no metrô, é perceptível a aglomeração de homens sorridentes que aos solavancos disputam a entrada quando as portas se abrem ao arrastar senhoras e seus netos pendurados sob os ombros. E ao conversar com outras mulheres, ao saber das notícias, sim, claro, vivo em um mundo machista, limitador, patriarcal e ao ligar a TV e ver apenas brancos, me recordo, ah, claro, esse mesmo mundo é racista, não posso esquecer esse adendo. E com o MP3 nos ouvidos (talvez se nascer contorcionista em outra vida, consiga ler as xérox da faculdade nestas condições), “A novidade veio dar a praia…”
Dano colateral da desigualdade, um desfecho trágico e isolado, tornei-me espectadora absorta do espetáculo de sereias despedaçadas por aqueles que tem muito além á usufruir e por costume desmantelam barbatanas e guelras. Recuso os beijos de Deusa, ao tão desigual enquanto tento (um tanto desengonçada), livrá-las de beijos forçados e partilha sangrenta. Enquanto isso o tilintar dos talheres segue em tímida seqüência “Uh, uh, uh, uh, uh, uh, uh, ah, ah”
11 março, 2012
Quando passei na faculdade
Imaginei euforia, imaginei gritaria mas não previa que o momento tão aguardado me traria silêncio, vontade de ficar só, lágrimas. E me perguntavam porque transparecia tanta tristeza em alcançar o que almejei por anos.
Larguei meu antigo emprego, o último dia foi em uma sexta, entrei no novo na segunda, ou seja, não experimentei o desemprego o que é ótimo em termos de economia pessoal já que meu pé de meia nem é tão grande assim, no entanto é conturbado no sentido de adapta-me. Sou expansiva e sabia que para trabalhar no ramo que tenho experiência significaria colocar no “armário” algumas coisas que são importantes ao expressar individualidade. Cobri os fios laranjas com tinta preta, coloquei roupas mais sóbrias, tenho guardado meus decotes para os fins de semana, tenho de mudar e isso pode parecer bobo para quem não teve um histórico conservador e cristão, demorei uma “caralhada” de tempo pra assumir o que sou e agora me sinto triste em ter que sufocar isso pra atender uma demanda de mercado. Somado, ainda não dominei todas as atividades que assumirei nesse novo cargo e estou naquela fase de treinamento quase infantil quando o “não” impera. “Você não deve fazer isso, aquilo, aquilo outro”. Difícil ter segurança em um ambiente desses, mas pode ser apenas a fase de adaptação, então sigo.
No dia da matrícula da faculdade compareci por horas esperando a secretaria abrir, a hora da matrícula começar e minhas supervisoras no serviço não gostaram pois houve desencontro de informações. Me desesperei e sentada nos bancos de madeira da Unifesp apoiei o rosto nas mãos e chorei de lavar a alma, muita pressão, muita insegurança, muito de não saber do que será daqui para frente, as funcionárias da limpeza vieram perguntar se eu passava mal prometendo colocar meu nome na caixinha de orações da igreja. Fiz a inscrição e dias após vi uma palestra (?) no teatro (?) e encontrei um amigo (ele estudará comigo).
Um lado meu está tremendamente feliz por ter passado na Unifesp em Pedagogia (depois peço transferência para História), mas estou em um período forte de instabilidade, de não saber se serei hostilizada na faculdade, no serviço, se darei conta de conciliar os estudos e o trabalho. Sei que muito dessa incerteza está enraizada no meu passado, de me dizerem, de me agredirem, de me privarem, de lutar muito pra entrar em uma faculdade pública e agora arcar com mais responsabilidade, então não é um período de festa, é de refazer-se, de flexibilizar-se, de recriar-me na medida que as circunstancias surgem.
Amanhã começam as aulas e o que será daqui pra frente é uma incógnita, não vou me perder por aí, isso que importa. Se não fujo da alegria, tampouco ignoro a angústia e a incerteza, seja lá o que me aguarda, há forças para manter a cabeça erguida.
22 fevereiro, 2012
Ativista, uma postura pedagógica.
A possibilidade de ação é tolhida por arestas que delimitam o alcance, para minar as contenções seguimos o famoso “trabalho de formiguinha”. A chance de organizar um levante popular se torna possível em conjunto e adesão maciça e para tanto é preciso conjuntura, condição, solo fértil. E quem prepara esse terreno senão os que fazem parte dele? É no fazer-se que está o descobrir-se, reinventar-se, permitir-se.
Reconhecer condicionamentos é de grande valia como auto-análise, mas quando isolado é dado fatalista que amargura ou ainda, age no separatismo entre “libertos” e “marionetes”, parâmetro aplicado pelos detentores do “conhecimento”.
O equívoco é presumir que os que não seguem determinado esquadro são inconscientes de suas coreografias orquestradas, alheios ao olhar de autônomos que os vêem como roedores de pesquisa científica, isso é subestimar a capacidade de aprendizado em uma pedagogia (paternalista, diga-se de passagem) de mera absorção e réplica, inevitavelmente gerando dogmas de respaldo em reverência exacerbada por fontes e bibliografias.
O que falta em certos ativistas e acadêmicos é admitir sua postura de educador, um ortodoxo, prepotente, ultrapassado e intransigente, mas ainda assim, um educador. Em nada se distanciando daquele professor de vocabulário rebuscado tomado pela cólera de um aluno que ousa questionar seus métodos. Um ativista ou educador que se acomoda entre seus pares repetindo velhos discursos e não se atualiza, não compartilha e abusa de discursos de autoridade “Vá estudar antes de falar comigo”, “Você sabe com quem está falando?”, “Você é alienado”, tem grandes chances de ter a hostilidade e desprezo voltado no estilo bumerangue. E ao contrário do que presumem isso não se deve ao fato de que “a verdade é para poucos”, mas de que o alto nível exigido é impraticável e sua postura mesquinha é de imenso desserviço.
As informações devem circular para que idéias originais não encerrem em si mesmas, mas criem outro ponto de partida na elaboração compartilhada. De que adianta um novo pensar se em nada dele é extraído? Se o toque é impróprio, a crítica é blasfêmia e a intervenção é vandalismo, deixem que os guardiões das tradições regozijem na sisudez.
Prefiro o saber quanto mais democrático, quanto mais popular, que inquieta, instiga, emociona e não é determinado pelas certezas. Da ciência da abertura permanente de ser incompleto, nem por isso triste e confuso, nem por isso acostumado. Pra que o expressar da dúvida não seja motivo de vergonha ou desconforto, mas uma amostra genuína da curiosidade que nos aproxima de quem acrescenta o entusiasmo diante do que é inédito.
Se a margem para gozar em liberdade é tão estreita, é por não se tratar de um direito, mas um privilégio restrito. Somos construídos pelo meio e circunstâncias combinados ao acaso aleatório, não nos cabe mensurar o livre-arbítrio.
8 fevereiro, 2012
Marcado, feito tatuagem
Saudade, de despedida tão repentina, desolada de me ser tomado dos braços e ver a cabeça pendendo para trás. Saudade, de um corpo vívido e repleto de energia, da sagacidade de quem colocava as patas sobre meus ombros, saudade do abraço que nunca mais vou ganhar do baixote de alguns centímetros que me mudou irreparavelmente. O nome dele era Snoopy e já contei nossa história aqui.
Ele era bonito de uma forma que nem imagina, as coxas firmes com os músculos a vista, as orelhas finas de um pêlo curto e brilhoso, o focinho bem molhado e temperamento genioso, irresistivelmente genioso. Quando voltava do banho era com a cabeça molhada, pois esperneava tanto que não deixava ninguém passar com o secador por ali. Ele odiava coleira e em um dia específico foi necessário pendê-lo para que um moço entregasse as compras do supermercado, o cão gritava e rodopiava escandalosamente que por temor a enforcar-se corri para livrá-lo da corrente e o segurei para que o moço terminasse o serviço. Se o pano que dormia estava sujo o empurrava para debaixo da casinha (tal qual o personagem ele preferia dormir no telhado) e pulava no varal para pegar um novo. Uma má influência para outros do quintal, ele quem entrava primeiro na casa e em dez minutos urinava em locais diferentes e ainda dava um jeito de roubar pão sem derrubar o saco de cima da fruteira (!), foi ele que ensinou aos outros como abrir o portão e se encurralado na porta depois de uma transgressão (eram muitas), deitava de barriga para cima com olhar de súplica, deixando à mostra a barriga rosada e repleta de pintinhas pretas. Se eu demorava em voltar para casa ele rodava ao redor formando uma “bolinha” e esperava em um cantinho até meu regresso, para fazer sorrir depois de um dia que era um fardo. Ele foi minha luz em tempos difíceis, quando nem a súplica aos céus me livrava das trevas, quando não tinha força sequer para articular um pedido de socorro. Ele ofereceu o abraço, o carinho, o amor, o cuidado que eu precisava.
Faz oito anos que recebi o vaso de violetas como condolências, que morte, vida, saudade, companheirismo, silêncio, amizade e igualdade (dessa que você fita nos olhos de quem não tem seus privilégios e sente vergonha pela conduta opressora que “os seus” praticam) construíram meu presente esperançoso, terno e nem por isso frouxo de direção. Queria marcar isso em minha pele de modo que ao mirar o reflexo de um espelho, encontrasse um signo que sintetizasse minha própria história.
Não sou hábil em traçar harmoniosamente cores, tons e forma, para tanto pedi que Caroline Jamhour (você pode conhecer o trabalho lindíssimo dela aqui) trouxesse vida a minha idéia e para prática chamei Ana Anami (aqui o site, contato e endereço do Estúdio).
Com elas, consegui resolver alguns entraves iniciais: Não encontrava imagens de tatuagem de violetas no Google para inspiração, nem queria tatuar em alguém que houvesse treinado em porcos ou qualquer outro não-humano sem consentimento. Esperei a cicatrização completa para escrever essa experiência e as dúvidas mais comuns:
Doeu?
Sim, consideravelmente. Mas não há como adivinhar como o seu corpo reagirá com a dor; já passei por tratamento de canal, tirei quatro dentes do siso, usei aparelho, fiz essa tatuagem no peito, mas não me depilo com cera nem uso salto porque dessas dores faço questão de abrir mão. Mas o propósito é bem parecido, sabemos que é incômodo, mas o “resultado final” valerá o esforço. Dizem que tatuagens no pé e na costela são as que mais doem e obviamente é um grau de sofrimento menor desenhar uma estrela pequena comparada com fechar as costas com a figura de um dragão.
Coçou?
Sim, muito, mas não coce. A primeira etapa depois de feita a tatuagem é escorrer bastante tinta enquanto envolta no PVC (não se assuste), e até cicatrizar é necessário proteger do sol. Soltará uma casquinha (que parece aquela pele fina que solta quando a cola escolar seca nas mãos) e não pode ser arrancada/cutucada, tem de soltar naturalmente.
Demorou?
Entrei no estúdio ás 13:00 e saí por volta de 17:30, em um só dia foi desenhada e colorida.
E se você se arrepender?
Quem faz tatuagem pensando em apagá-la é melhor nem começar
E quando você ficar velha?
Terei uma tatuagem bonita, muita história pra contar e rugas. Provavelmente farei bolos, tortas e mousses ainda mais gostosos.
Qual a dica para manter uma tatuagem com cores fortes?
Essa dica é valiosa: Depois de feita a tatuagem precisa ser lavada com água morna e para preservar a cor use água gelada para finalizar, essa ducha fria fará um choque térmico que ajuda no processo de cicatrização. Incorporei isso na minha rotina diária pós-banho, o efeito é excelente.
Que produtos usar na cicatrização?
Limpei apenas com sabonete de glicerina (Phebo) e água (no processo descrito acima, com choque térmico), depois do banho usei guardanapos de papel para enxugar com cuidado (batidinhas suaves). Existem alguns produtos para cuidado pós-tatuagem que são Veganos, a lista completa aqui.
Quais os cuidados com a alimentação?
Se você é onívoro e bebe: Não beba, evite carnes em geral (especialmente de porco), frituras, chocolate, queijos, frutos do mar, pimenta, comidas muito condimentadas e alimentos gordurosos em geral.
Se você é Vegan: Não beba, não coma chocolate, pimenta, alimentos muito condimentados, ou frituras.
Existe tatuagem não Vegana?
O pigmento que dá cor a tinta é tipicamente derivada de plantas ou metais. A cor preta, no entanto, é oriunda de um processo de queima de osso de animais queimados. Esse pigmento é chamado de “black bones” (osso preto). As tintas também podem conter goma-laca. O liquido que faz a suspensão e carrega o pigmento, mantém a tinta uniformemente misturada, o que facilita a aplicação. Essa suspensão contém: água purificada, álcool etílico, propilenoglicerol e glicerina e também pode conter hamamélis.
A glicerina utilizada pode ser de origem vegetal ou produzida a partir da gordura animal. Há em torno de 10 marcas de tintas veganas.
Classic Colour Systems , Dermaglo , Electric Ink (essa é a mais comum usada no Brasil), Eternal Inks , Intenze , SilverBack Ink , Bloodline and Skin Candy ranges , Stable Colour
27 janeiro, 2012
Que sejam
Que sejam biscates, que sejam bichas luxuosas,
Que sejam saias minúsculas e sorrisos debochados
Que sejam sapatões de moicano e cabelos coloridos
Mulheres de cueca, homens de fio dental
Batom vermelho ornamentando vastos bigodes
Que sejam Poliamor, multiamor, multicolor
Que explodam faíscas de olhares fascinados.
Que sejam corpos e fluídos, sorrisos e gozos.
Que sejam descobertas e desabrochares
Que sejam o suor de alívio e o tremor de deleite.
Que sejam corpos de tons vívidos
Matizes sob o prisma de prateadas jóias.
Indevidos são os que se acometem com nosso alvoroço
Entorpecidos por despertarmos luxúria
Incorretos são os que pensam que assim somos por ansiarmos ódio
Por não nos “darmos respeito”.
Todos os que estão abaixo do sol merecem deferência
Discretos ou escancarados
Com a altivez de um trotar indomável
Nem acima, tampouco abaixo
Somos onde quer que transitemos, majestosos.
23 janeiro, 2012
Lei da Palmada – Instrução ou punição?
Faz praticamente vinte anos que olhei meu braço e vi ranhuras de um chinelo, uma havaiana branca de tiras azuis, corri quase como uma quadrúpede ensaiando bipedismo ao colocar os braços na frente pra evitar chineladas. E elas vieram, sem que recorde o motivo. Presenciei adultos punindo crianças entre elas minha irmã de rosto corado depois de levar uma bronca, sem compreender porque truculência resolveria ambas as dificuldades. Quando somos realmente pequenas (os) e os adultos parecem figuras majestosas e soberanas é absolutamente inquestionável qualquer coisa que venha deles, um ângulo que revelam para qualquer hóspede cotidiano é o quanto vivem a beira de um colapso nervoso, a vida adulta é um copo de cólera tilintando o excesso.
Nem todas as crianças são anjos de candura, algumas podem ser ardilosas o bastante para acusar injustamente colegas mais dispersos, incitar intrigas, agredir os mais novos, maltratar animais, punir essa minoria (que costuma atear o comportamento de manada) não a tornará mais maleável se a fórmula para o delito e intransigência inexiste, nem todo pedófilo foi molestado na infância, nem toda criança que é ferida o repete em estruturas menores.
A Lei da Palmada inquieta porque retém um dos plenos poderes da educação ortodoxa: O “direito” de agredir quem contraria suas expectativas de aprendizagem, se essa descrição soa tremendamente injusta é porque o é. Qual a diferença entre uma criança frustrada que quebra os bibelôs de sua mãe para uma tutora que belisca quem não soube lavar a louça da forma que ela esperava? É a violência patrimonial e física, alternada e imediata, o jogo de poder entre crianças e adultos transtornados sobre o que sentem em relação um ao outro, um teste de nervos. Sim, o (a) tutor (a) pode estar em “um dia difícil”, sobrecarregado com as atribuições da modernidade, mas isso não significa que a criança esteja satisfeita em seus dissabores. O mínimo que se espera é que haja maturidade de quem tem mais vivência para estabelecer a conciliação.
Assumir o caráter irrevogável da violência na educação de jovens e menores é presumir que enquanto estiverem abaixo da hierarquia dos guardiões das tradições, maior será a vulnerabilidade á palmatória de seus mestres e se porventura os subjugados apanham é por merecerem tal tratamento, seguindo o abominável ditado: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Somente é dado poder equivalente para os infantes quando se tornam gerentes de sua própria prole, ou seja, sua peculiar semi-propriedade privada. Para os que temem um reinado opressor de quem mal saiu das fraldas, o que os difere dos maridos que temem a falsa acusação de suas esposas na Delegacia da Mulher?
Não pretendo definir se a índole inata da criatura humana na civilização minimamente estabilizada (guerras, conflitos extremos, ser apartado do convívio social, são fatores que extrapolam a análise) é boa ou má, todavia não parece razoável o ataque para cada descompasso que enfrentamos entre nossos pares, que dirá aplicar rigorosas penas aos que como espectadores e integrantes do seu redor podem não ter a completa dimensão das estruturas que circundam, mas inevitavelmente são afetados pelos impactos das condições do presente.
Os filhos de pisadelas e beliscões não necessitam reger em antigos compassos.
28 dezembro, 2011
Do que se passou em 2011
Comecei a andar de bicicleta e caí por duas vezes, ainda não tenho coragem de ocupar a via pública. Foi como se sempre soubesse desse equilíbrio, recluso. É assim que sinto uma porção de vezes diante das dificuldades, que estou trancada, que não consigo expor, que falta a chave para abrir mais uma jaula. E uma vez aberta mesmo que presa em armadilha antiga; recordo como escapei para lançar o corpo fora das grades corroídas de ferrugem. Raspei os cabelos mais uma vez, depois de crescidos foram descoloridos e tingidos com anilina cor de laranja, coloquei um piercing na orelha, planejei o desenho da futura tatuagem que espero fazem em breve. Aprendi as quatro operações matemáticas… E sofri. Ter de explicar que não é frescura, que não é uma reação exagerada, que não lido com isso da mesma forma que a imensa maioria das pessoas, que não é querer ser “boa em tudo”. Tem a ver com minha infância, com o abuso do meu avô, com sentir-se incapaz.
Não há nada que deseje fazer que meu corpo impeça: Dançar, correr atrás para pegar o ônibus partindo do ponto, usar o cabelo curtíssimo, listras horizontais, Yoga, entretanto não foram apenas essas limitações que me impuseram, logo percebi minha auto-estima intelectual em frangalhos, me sentia “burra”, humilhantemente estúpida, embaraçada de conviver com pessoas de nível acadêmico maior (andei com mais universitários esse ano), não que adquirissem posturas esnobes, mas em algumas conversas sentia um nível de abstração que colocava minhas idéias para fora daqueles espaços, parecia outro idioma. Esse ano fiz uma carteirinha em uma biblioteca “de verdade”, não como das escolas que freqüentei de livros escassos, capengas, das cadeiras desconfortáveis e rachadas, fui em uma dessas com bancos de dados e muitos títulos a disposição, ao ver o carimbo com a data e o prazo de entrega para mais quinze dias tive vontade de chorar, parecia que o mundo estava aberto diante de mim, se pareço apaixonada é porque realmente me dedico de coração e essas conquistas assumem grande dimensão em vista de onde parti. Dessa trajetória e minha relação com os estudos escrevi para Lola, nesse Guest Post, somado entre outros desabafos nesses quase quatro anos de postagens no blog.
Sei que a inteligência é um parâmetro subjetivo, mas assim como uma mulher com acúmulo feminista sente-se “feia” e cogita em um lapso recorrer a métodos que tornem seu corpo parte da norma exclusivamente para livrar-se da pressão, aprendo paulatinamente não me culpar pelas lacunas de minha educação, se não domino algumas disciplinas de caráter técnico que são disponibilizadas para uma pequena parcela é porque me privaram disso, assim como tantas outras possibilidades que me foram extirpadas sem que me dessem a chance de experimentá-las. Enquanto parte dessa margem meu desejo é expandir, compartilhar o que tenho acesso dedicando-me a educação, ser professora. Distante… Mas quais das minhas bandeiras são simplórias e de curto prazo?
Também foi um ano de rever meus ativismos, com mais senso crítico, mais honestidade. Não há muito tempo atrás, sentia medo de trazer a tona o que me incomodava no Feminismo, por exemplo, a Transfobia, o discurso biologizante que faz parte de algumas discussões, ou o elitismo evidente que perpetua alguns debates como o das empregadas domésticas. Com isso não estou “jogando fora” os anos de luta, as válidas reivindicações, questionar uma vertente de pensamento não deveria ser tratado como blasfêmia. Da referida honestidade apliquei ao Veganismo por ser um tema mais delicado que o Feminismo, evitava aprofundar para não entrar em conflito com pessoas próximas, inclusive do meio Feminista. É “aceitável” (muitas aspas, porque vivemos em um país de preconceito velado) reclamar do machismo em uma peça publicitária, em uma letra de música, de uma piada misógina, no entanto o que dizer da onipresença onívora? Da liberdade dada a qualquer humano para que crie uma galinha e a sacrifique no seu quintal? Que atravessar um anzol nos lábios de um peixe seja sinônimo de diversão? Que aves sejam esvaziadas de seus órgãos e recheadas com farofa para comemorar os anos que seguem um após outro? São fatos inconvenientes, eu sei. Mas precisam ser ditos sem eufemismos de uma mentira bucólica, nem romancear o estado de decomposição de quem não escolheu falecer, estou ciente que a pecuária é a campeã do trabalho escravo (mais que a indústria de carvão, setor têxtil e cana de açúcar), o que sugiro é que pensemos além do próprio umbigo, lançar mão do status de ápice da criação, centelha divina, o que parece difícil, pois se inicialmente as religiões ocidentais nos prendiam nesse agraciamento cósmico a ciência têm razões de sobra pra cimentar nosso antropocentrismo.
Conheci e reencontrei pessoas incríveis, me afastei de quem me magoou e parece nem sentir falta. Cumpri a resolução do ano passado que era me desfazer de todas as roupas que me deixavam desconfortável e vestir apenas o que deixava segura. Completei cinco anos ao lado do meu companheiro que me amparou e deixou que minhas lágrimas molhassem sua blusa por repetidas vezes oferecendo conforto quando me sentia absolutamente solitária, o elo com minha irmã permanece pois somos inseparáveis desde que a vi pequena com os cabelinhos cacheados, desde que tive a sorte de tê-la como amiga. Minha mãe se formou em Serviço Social aos quarenta e cinco anos e ao ajudá-la nos trabalhos escrevi pela primeira vez em ABNT. Meu pai mesmo longe, vibra com cada conquista.
Permiti declarar ainda mais falhas, não que fossem secretas, mas compartilhá-las continua um exercício de compreender, perdoar e enfrentar. Ao me reinventar, descobri a mim mesma e agradeço quem se dispôs a acompanhar e desejar-me sorte, sou grata também a quem se abriu nesse espaço compartilhando suas vivências, ensinando por outros olhares, obrigada a quem faz dessa Deborah, alguém que aprende com você.
15 dezembro, 2011
Virgem aos _____ anos

Há muitas maneiras de aproveitar o sexo, juntinho com carícias e juras de amor, com a emoção aflorando, um retorno após o desentendimento, aquele delicioso, escancarado, de peito aberto, gemidos, arranhões e até daqueles que tiram sua alma e a devolvem mais leve, trôpega e levemente desorientada. Sexo pode ser um pedaço de transcendência, sentir-se vivo, pulsando dos pés a cabeça ou ainda, um fardo, a monotonia das paredes, a indiferença. Não há como renunciar que praticá-lo é expor além da anatomia: Mostramos nossa corporeidade, a languidez performática na realidade está mais próxima dos pés que se enroscam ao tirar a calça. Imaginar-se como sujeito e objeto do desejo podem gerar medo e constrangimento das incertezas nesse momento cercado por suposições fantasiosas (não raro, falaciosas). O despertar da minha sexualidade não ocorreu no tempo que esperavam de uma mulher comum, o primeiro beijo foi aos 17 (quase 18), não conseguia me aproximar de quem sentia atração temendo que o amor próprio já escasso fosse reduzido a pó. De passos cautelosos diante do piso que range, apresentei-me despida… e adorei.
Um dos temores que a virgindade desperta é a reação que a nudez causará, antes de fazer sexo acariciamos, abraçamos e aproximamos os corpos o que oferece dados para noção espacial tornando possível imaginar uma “prévia” da silhueta, portanto se você é um sujeito magro não pense que esperarão um torso musculoso ou que por baixo das roupas de uma Betty Ditto se esconde uma Twiggy.
Há contemplação em cada corpo que a sua maneira (pintas atrás das costas, estrias, celulites e cicatrizes), traz demarcações que contam seu trajeto, nesse silêncio aberto de suposições pode ser angustiante quando não sabemos o que passa na mente de quem nos vê, será que miram exatamente o que nos deixa embaraçados? Não há como garantir o que essa nudez despertará, pode ser que tire um pouco do fôlego, pode ser um arrepio, pode ser amor. E são variadas as formas de amar, inclusive por uma noite de quem sequer sabemos o nome. O momento correto é o de maior segurança e conforto (o mesmo vale para o local escolhido), não existe idade limite, há quem realize antes dos dezessete e quem espere mais algumas décadas. “Esperar” é um direito que deve ser respeitado, um dos lemas do Feminismo é a autonomia aos corpos, incluia aí a escolha do momento propício para iniciar, pausar ou interromper a vida sexual. Cabe avaliar o motivo desse adiamento e se trás algum sofrimento, qual sua origem, por exemplo, o medo da rejeição.
Ser virgem é passear pelo Éden enquanto a publicidade da maçã diz que aquele é o pedaço mais sagrado, suculento e indissolúvel da existência, porém, nossos vínculos afetivos ultrapassam a troca de fluidos, somos capazes de amar outras espécies, pessoas que conhecemos on-line e não sabemos o cheiro do corpo e a textura da mão, permanecemos sentinelas se companheir@s adoecem, inclusive se não puderem oferecer a mesma quantidade sexual (a qualidade é subjetiva e continuamente reinventada). Sexo é imaginação e com nossa permissão, concretude, sua recusa, adiamento ou execução devem partir tão somente da prerrogativa pessoal, fazendo valer os desejos ao invés de emular comportamentos que atendam expectativas para que nos considerem dignos de afeição, não há nada mágico em “perder a virgindade”, seu corpo não mudará, não se tornará mais sábi@, não é isso que nos faz criaturas maduras e gentis. Trata-se de uma das possibilidades de sentir prazer, cabe a você usufruir.
OBS: Não há consenso científico sobre Asexualidade sendo variadas suas interpretações, práticas e identidade entre os que nela se identificam, por exemplo, alguns fantasiam o erótico sem inclinação a torná-lo real, outros se masturbam e há quem busque uma relação romântica sem sexo. Não considero patologia ser assexuado ou o celibatário (são diferentes), para mais informações consulte esse site.




