3 junho, 2014

Esse é um escrito de amor

Posted in Afetos at 11:51 am por Deborah Sá

Esse é um palavreado como tantos outros do mundo, toneladas devem ter sido reescritas e rascunhadas com conteúdo similar na história da humanidade. Talvez foram alvo de sabotagem, empurrados para a clandestinidade. Riscadas em pergaminhos e guardanapos, pelas paredes e cascas de árvore.  Em tavernas, escritórios, até nos banheiros. Melhor que amar uma vez, é amar quantas vezes couberem. E estou. Estuporantemente apaixonada. Um pouco de presunção cai bem e sinto que dada a própria mesquinhez de existir, tentamos fazer algo realmente novo. Nem nos nossos círculos, nem nas músicas, nem na literatura, não há modelos. Caminhamos pela incerteza e dizemos sem pesar: Não fazemos a mínima ideia de onde isso vai dar. E vamos.

Eu amo o despedaçado em você, suas histórias e seus reflexos. Eu amo até o pedaço mais escondido das suas entranhas, o riso convidativo e desafiador. Eu amo. A repetição não se encerra pois denota a intensidade do que sinto. Eu amo as letras por trazem um punhado teu. Eu amo a devassidão e libertinagem sem precedentes na breve história de nossos corpos. Eu amo. E você saberá ler o público privativo, saberá ler. Eu amo.

30 abril, 2014

Notas de uma anormal

Posted in Corpo at 2:00 pm por Deborah Sá


Dizem que a ajuda médica é necessária quando atrapalha a vida social. Bem, nunca experimentei a placidez de uma vida normal, nem pude observar, na parcela em que me cerco, traços desse êxtase quase cotidiano. A infância, esse conceito transformado desde a idade média, me abateu como a centenas de crianças do final dos anos 80, bastante amor, alguma dose de amargura. E passaram-se os dias sem avisar, pois, duvido que a maré nos acerte quando estamos prontos, a gente aprende a nadar forçosamente. Freestyle, tirando algum proveito da intempérie.

Por essa razão, não busco tratamento para o mar-de-dentro, esse que escoa pelos olhos e poros, nasci com ele, e se tem uma coisa que meu corpo aprendeu direitinho é a chorar. Nem sempre funciona quando espero e na intensidade prevista, mas surge, me faz engasgar um pouco com a água salgada, ao fim, sobrevivo, no corpo a corpo, no boca a boca, na transpiração. Há quem precise de remédios, quem os busque, não tenho nenhuma pretensão em ser prescritiva, até porque, a minha assinatura não vale nem os dois dígitos da minha conta bancária.

Todavia, faço a defesa pessoal (e os que nela encontram familiaridade, sejam bem vindos), pelo direito a anormalidade nem sempre tão sutil. Isso é, vez ou outra, arrepios me fazem tremer sem razão. Desde os onze anos de idade, em momentos de cansaço e tensão tenho dificuldade em levantar uma pálpebra. Sem contar, todas as vezes que fui chorar no banheiro do trabalho, da faculdade, ou ainda a paralisia generalizada que já experimentei em  manifestações ou lugares muito lotados. Já estive em profissionais da saúde mental, nos três casos, diagnósticos diferentes: Stress pós-traumático, síndrome do pânico, depressão e pasmem, bipolaridade. Nesse último, a profissional do SUS (em quinze minutos olhando para minha fuça), receitou um tarja preta e segundo sua avaliação precipitada, eu era bipolar porque falava rápido e gesticulava muito.

Pois bem, caríssimos profissionais da saúde: Sentar em um espaço e “me abrir” para ouvir em outras palavras que sou anormal ou outros impropérios bem ofensivos, não representa qualquer novidade. Isso sei desde o jardim de infância, dos bancos escolares aos religiosos. As pessoas anormais vivem da maneira que é possível. Ou seja, tenho uma vida afetiva bastante rica, com experimentações diversas e o fato, de certas práticas soarem excentricidades, não as esvazia de sentido, toda prática é carregada de intencionalidade e serve a propósitos específicos. Não pretendo construir um discurso ancorado no princípio de que esquisitos possuem a mesma demanda de pessoas normais, algo como “- Anormais também merecem um emprego, uma vida saudável”, porque no fundo, isso pode facilmente ser confundido com “- Eles merecem ser tolerados, contanto pareçam normais”.

Há interesses humanos acessados por todos, tais como a busca por reconhecimento, afeto e prazer, porém, parece um tanto mais evidente, que pessoas anormais, esquisitas, excêntricas ou qualquer adjetivo de dissidência que se queira usar, possuem demandas outras. E é com isso que não conseguimos lidar. Porque certos corpos/espíritos/desejos inclinam para direções tão opostas? E sabendo que a sociedade em sua maioria não sabe lidar com esses pontos fora da curva, não seria de responsabilidade desses últimos tentar adequação, sem sofrer o peso da diferença inscrita em seus corações e mentes? A minha resposta é: Não.

Será de imensa valia cultivar o empoderamento daqueles que são agredidos de diversas formas por seu desvio, mas, ainda mais desafiador, é problematizar a força motriz que legitima alguém ser agente desse padrão hegemônico[1], coagindo e sancionando normas pela incapacidade de lidar com outro que não atende suas expectativas de demandas aceitáveis. Culpabilizamos os anormais, pelas emoções e contrações musculares involuntárias, se nascemos ou não com essas inclinações, pouco importa, a verdade é que elas nos atravessam. Como um raio que percorre o corpo e precisa descarregar e se em sobrecarga, invariavelmente causa danos aos mais próximos. O gerenciamento (não extinção), da anormalidade, demanda tempo e não é possível controlar todas as reações e variáveis encontradas no caminho. Entrementes, acreditar no controle absoluto de algo ou mesmo na cura e estabilidade absoluta, é a maior das ingenuidades. Vivenciar pressupõe ruptura e solavanco, não existe experiência sem memória, escombros ou souvenir. Ao planejar, escrever, repensar, fazemos um ensaio, ganhamos um pouco mais de segurança, mas, ao abrir os olhos e defrontar com a realidade, o roteiro não é mais disponível, a cena está posta, o cenário montado. Minha decisão em não me medicar implica em jogar o ponto auditivo pela janela. Querem os anormais mais normais possíveis, postura de programa editado, só que em programa ao vivo e com platéia cheia.

[1]  Assumo aqui que as pessoas não são robôs, agir, em determinada circunstância em consonância com o discurso da norma, não significa que a pessoa não tenha dias ruins, angústias, medos, sonhos, etc.

30 março, 2014

I Festival Autônomo Feminista

Posted in Eventos at 11:45 pm por Deborah Sá

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Nesse final de semana ocorreram  palestras, debates, exposições e apresentações no I Festival Autônomo Feminista, com a organização do coletivo 2ª Opinião.  Pude reencontrar mulheres que há algum tempo não abraçava. Bruna, Jéssica, Elisa, Djamila, Estela, Marina, Tamara, entre outras, uma grata surpresa! As comidas à venda eram da Arde Patriarcado – Culinária vegana (quão genial esse nome!) e Lar Vegetariano. As fotos são da página do coletivo no Facebook!

Os debates versaram sobre vários aspectos, entre eles, mulheres negras na luta, invisibilidade lésbica, a não monogamia, a política sexual da carne, violência obstetrícia. Agradeço ao coletivo 2ª opinião pelo convite e oportunidade em falar sobre a relação entre feminismo e consumo de carne, foi experiência de muito aprendizado. Estendo o agradecimento também a todas que deslocaram-se pela cidade comparecendo ao festival, ajudando na organização, participando, dividindo experiências e inquietações. Que venha o próximo!

19 março, 2014

Debate – A Política Sexual da Carne no Brasil

Posted in Eventos at 2:55 pm por Deborah Sá

programaçãocolorida

Clique para ampliar

Estarei no I Festival Autônomo Feminista no final de Março. O debate “Mulheres fruta? A política sexual da carne no Brasil”, será introdutório e versará sobre a conexão entre onivorismo e patriarcado, por essa razão, não é necessário conhecer o tema de antemão. O festival contará ainda com outras rodas de conversa, apresentações, filmes e experimentações cênicas protagonizadas por mulheres.  Haverá espaço para crianças no evento, sendo os homens colaboradores, responsáveis por esse cuidado. Para mais informações, clique no folder.

Onde:  Tendal da Lapa - Rua Constança, 72 - Lapa – CEP 05033-002

7 março, 2014

Dia das mulheres: Pedra, lâmina ou papel?

Posted in Gênero tagged , at 1:29 pm por Deborah Sá

PowerPoint

Pra comemorar essa semana em grande estilo, que tal um PowerPoint?: dia-das-mulheres-pedra-lamina-ou-papel

14 fevereiro, 2014

Essa é a minha deixa (com áudio)

Posted in Com áudio at 4:27 pm por Deborah Sá

Ao nascer, ganhei uma bússola. Bem que tentei esconder, mas sempre descobriam meus esconderijos. Entortaram o ponteiro, riscaram o vidro, fizeram miséria. O último golpe foi o furto da tampa de proteção. A desventura foi muita, ao olhar aquele objeto com os olhos embotados, pude perceber não se tratar de peça comum. Com bastante esforço, li em letras minúsculas e cursivas: “Em caso de danos, deslize os dedos aqui”. Prossegui. Não havia mais ferrugem! Porém, as engrenagens ainda estavam expostas. Coletei algumas pedras coloridas aqui e ali, enfeitei em diferentes cores. Não importava a quantidade, um pedaço das engrenagens antigas permanecia exposto, como era de se esperar, eram guardiões daquele artefato. Em dias difíceis, só consigo reparar nos buracos e no som dos metais sussurrando. E nos dias como hoje, seguro contra o sol. Um caleidoscópio feito em escuridão e resplandecência. E nela, está o afeto.

(silêncio)

O amor está para além dos olhos, ao mesmo tempo, habita a luz e a sombra no piscar de seus cílios. O amor está onde o tempo quer que fique, melhor ainda, se puder sorver cada detalhe, a história que teu corpo me conta. Está nos seus joelhos e calcanhares estalando, em seus pulmões relaxando e expandindo o tórax. O amor vive no cheiro incenso detrás das tuas orelhas, é fumaça quente escalando minhas narinas. O amor está recôndito em cada esquina e sempre trás um ramalhete em agrado. O amor me rouba beijos, amolece as pernas, abocanha um pedaço teu. O amor me acolhe quando meus braços circundam tua cintura e sua língua capta meu gosto. O amor está mesmo se não há toque, mesmo se não sei teu nome, mesmo se há poucos minutos estamos juntos. O amor está na paisagem e em toda formosura, o amor está aqui, e ali. O amor é torneira aberta, e sou, permeável.

5 fevereiro, 2014

Woody Allen, masculinidade e violência

Posted in Gênero, Só falam nisso at 12:57 pm por Deborah Sá

Como um sujeito franzino conhecido por suas neuroses pode ser acusado de violência contra meninas? Teria moldado o comportamento da filha adotiva de 12 anos ao tirar fotos dela nua? Seria transtornado ao esperar a maioridade para casar-se com ela? A carta aberta de Dylan é a prova cabal de um predador sexual? Aliás, com quantos homicídios se faz um assassino? Com quantos abusos se constrói um estuprador? Quem passa por violência sexual pode criar memórias falsas? As produções de Woody Allen merecem a fogueira pública?

Não interessa se algo comportamental ou físico aparentemente inocenta ele das acusações. Não existe “cara” de estuprador. Esqueça os contos de fada onde os traços de um rosto dizem tudo sobre o caráter, não somos Dorian Gray. As projeções de um corpo ou postura criam caricaturas facilmente aderentes e demasiadamente precipitadas. Ademais, a maioria dos estupros acontece em ambientes “seguros”, embaixo do nariz de presentes. Quem consuma esse ato abusa da confiança dos familiares e da própria criança, a qual enxergava na figura mais velha uma autoridade. Mia Farrow, fez o que qualquer adulto responsável, faria: Ouviu a criança, seu modo de explicar o ocorrido, não acusou, deu um voto de confiança. Criança sofre, sente medo e embora sinta as estruturas não sabe como nomeá-las. Sejamos honestos, por vezes, nem nós adultos, conseguimos enxergar as linhas invisíveis nos tolhendo. Imagine então, compreender o sexo não consentido (estupro), quando se é criança. Não interessa se ele “só” fez isso com algumas crianças e não com outras. Um molestador sabe aproveitar vulnerabilidades. Quem estupra está em uma relação de poder coercitivo, é alguém que tem todas as cartas do jogo. E ele como homem, figura mais velha e paterna, aclamado cineasta, provedor econômico, tinha muitos elementos deixando a balança pender para o seu lado. A constituição franzina não diminui as outras esferas de poder. Ele ainda as tem.

Mia Farrow, pouco aparece nas manchetes, seus filhos idem. Eles só existem para a mídia atual em função de Woody Allen. São sombras de uma figura maior em primeiro plano. Não deixarei de assistir um filme produzido por esse homem, especialmente em casa, já que sinceramente, prefiro dar dinheiro para outro tipo de bilheteria (de tão insosso, Para Roma com Amor poderia ser filmado pela Globo Filmes). Faço diferenciação entre a obra e o autor, muito embora saiba que tudo o que tocamos carrega nossas impressões. Se ele “moldou” Soon yi com quem é casado cabe a ela quebrar o silêncio. Se ela vive em uma relação abusiva e não encontra forças para sair do relacionamento, espero que consiga romper. Tratá-la como incapaz e totalmente manipulável não parece o modo mais respeitável de protegê-la. Não conheço a dinâmica interna da relação, aparecer sorrindo nas fotos não diz absolutamente nada. Casamentos sem qualquer indício externo podem ser tempestuosos e opressores. Se Soon yi não denuncia a violência, não posso supor que é vulnerável. Dylan, ao contrário, diz com todas as letras que vivenciou um estupro, por isso, acredito nela. Encarcerar ou matar um acusado por um crime não encerra incesto e o estupro. Quem pratica homicídio ou outro tipo de violação similar não é doente, “gene defeituoso” ou algo que o valha. A violação não consensual é instrumento de guerra contra mulheres e crianças. Nossa sociedade produz pessoas violentas, em especial, homens violentos. Essa consideração não pode ser eclipsada por binarismos de bem e mal. Há de se ressaltar a importância de problematizar a masculinidade hegemônica, mecanismo dorsal de hierarquias generificadas dos agentes da violência. De acidentes de trânsito à violência doméstica, em grande maioria, quem porta a arma, é o homem. Por isso não gosto do slogan “Homem de verdade não bate em mulher”, não faz sentido elaborar uma campanha  onde não bater em mulheres afirme a própria masculinidade. Para quê confrontar um padrão conservando suas raízes?

Vítimas de estupro, em especial na infância, podem apresentar lacunas na memória e até imaginar novos trechos. Isso não invalida a experiência de horror. Tornar pública nos mínimos detalhes uma experiência dessa magnitude desgasta, expõe e estigmatiza a mulher violentada. Ela será sempre olhada com desconfiança ou pena, desequilibrada. Se optar pela continuidade da própria sexualidade será vista como mentirosa. Se optar pela assexualidade, chamarão frígida. Buscamos trejeitos enunciadores de virtudes ou falhas morais nos gestos mais banais.

Como sobrevivente de violência sexual infantil, sei que os flashes perturbadores nos tomam de assalto, por vezes, com riqueza de detalhes sórdidos e a primeira reação é sublimar, tentar focar a cabeça em outra coisa. Basta uma insegurança para a sensação de ser criança, daquela forma que eu era, tomar meu corpo. Me sinto pequena, vulnerável, com mãos indesejáveis passeando pelo corpo inerte. Ao escrever isso, meu corpo é invadido pelo medo gelado que passa do ventre para as costas. Minha cabeça fica muito, muito quente. Sinto misto de raiva e vergonha. Contei com o apoio de pessoas para expelir o refluxo desagradável amargando a boca. Essa é, a maior de minhas cicatrizes, sei que ela nunca sairá da minha memória, felizmente, não mais, ao ponto de me engolir. Enfrentei esse medo diversas vezes e hoje sei defletir o golpe, mesmo que vez ou outra cause um novo hematoma por estar distraída.

Fruto de minhas inseguranças mais basilares, é por meio dele que sinto estorvo, erva daninha a tudo que ousa esgueirar. O sentimento desumanizador de se sentir um monstro, forquilha do que há de mais perverso. Nó na garganta que tenho de enfrentar ao me aproximar de gente nova em um dia que nada vai bem. Pesar que invade quando tenho vontade de falar em público e uma voz desagradável diz que não vale a pena. Ao mostrar crises de choro inesperadas tudo fica do tamanho da minha dor. Imagino que me achem covarde. Depois que o choro cessa, respiro e consigo ver a panorâmica. Não estou presa, passei e é melhor deixar fruir do que engasgar. Aquilo, não me reduz. O corpo precisa de um tempo para expelir um corpo estranho, nesse ínterim, há sintomas desagradáveis, prefiro não mascará-los, escolho criar anticorpos. Porém, não é fácil, quase sempre, é preciso muito empenho. O descrédito de outrem leva à dúvida da percepção. Mesmo o personagem mais neurótico do cinema parece são mediante a palavra de uma mulher.

23 janeiro, 2014

Senha A22? A23?…

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos at 1:05 pm por Deborah Sá

Ao meu lado, pele parda, boné, barba por fazer, leve hálito de bebida. Onze horas da manhã esperando o atendimento na mesa do banco. Passou meia hora e mais outra meia hora. Baforamos, os dois com um pouco de pena da atendente sozinha, clientes sucessivamente. Apontou para o pedaço de minha tatuagem despontando na gola do vestido cinza.
- Ei, bonita, hein?
- Obrigada.
- Tenho a minha também.
Mostrou dragão em um braço, no outro, pergaminho com o nome da filha. Estava lá para fazer empréstimo. Baixou a cabeça em desalento. “Sabe como é…a gente começa e não sabe mais parar”. Contou as primeiras vezes na cocaína e as poucas vezes que experimentou crack. Histórico familiar: Esquizofrenia. Diz trabalhar armado, às vezes ouve vozes as quais mandavam ele se matar. Era herói para filha e esposa, agora, uma vergonha. Claramente sentia embaraço. Na infância apanhava do pai, chegava tarde, sempre depois das sete, ameaçando colocar fogo na mãe. “Eu não quero ser igual meu pai, não quero ser alcoólatra”. “Não sei o que fazer com a minha raiva”. Já trabalhou de segurança em banco, explicou como funciona o detector, o peso de um bom colete à prova de balas (porque 38 é oval, entra e para, não é igual metralhadora e outros modelos). É soldado. Nunca operou alterado. Já viu colega de trabalho comparecer ao serviço “se mordendo”, “com pupila gigante”. Diz não saber por onde começar. Sugeri que escrevesse. Escreve, no celular “tem quase dez páginas, já”. Tentou duas vezes entrar na polícia. Na primeira foi sincero “Estou aqui pra matar bandido”. Não passou. Na segunda buscou dicas “Quero proteger a sociedade”. Aprovou. Melancolia exalando mais que o etílico. Não cessava. Sugeri fazer faculdade de Filosofia, já tentou, “muito parado!”. Pensou em fazer Psicologia, porém, afirmou não ser bom ouvinte. “Às vezes as pessoas só precisam de uma palavra amiga”, pontuou. Espontaneamente depois de quase meia hora abrindo o peito, soltou: “Era fechado, falava nada, fiz teatro, adorei. Sou noveleiro. Adorava o teatro, era feliz ali”. Eu o disse: “Isso, teatro é uma ótima, quem sabe, né?” A moça chamou meu número. “A24?” Levantei, aprumei o vestido. Acenei desejando boa sorte, o desconhecido agradeceu. Quiçá haverá outro encontro entre nós, talvez eu de punho em riste, talvez correndo, talvez, ele, fardado, cassetete na mão.

18 janeiro, 2014

Rolezinho

Posted in Eventos tagged at 9:24 pm por Deborah Sá

Em Junho de 2006 fui em um Orkontro. Era assim que nós, rejeitados e desajeitados encontrávamos nossos pares. Escolhíamos um shopping com o intuito de conhecer pessoalmente quem desabafávamos on-line em conversas privadas, MSN. O fórum/comunidade era Orgulho Nerd. Foi assim que conheci Yuri, meu companheiro até hoje, além de outras pessoas queridas com as quais mantive contato na migração ao Facebook. Mas por que milhares de jovens fazem há tempos Orkontros e simulares e isso nunca foi notícia? Nosso grupo não era tão grande e a cor majoritária de nossa pele branca sequer levantava suspeita.

Desrespeitoso supor que o rolezinho não tem o direito de existir, criticar a expansão da inclusão digital. Se são barrados e ridicularizados por fazer coisas que sempre fizemos, está posto o privilégio. Não é só aí que eles são impedidos, nos fóruns de discussão on-line é exigida certa etiqueta gramatical, por exemplo, se faz piada com quem não tem ensino superior ou estudou até o ensino médio. Passar mais de dez anos dentro da instituição escolar, cursar a universidade, nada disso nos dá, senão, privilégios de uma organização social meritocrática, vantagens no mercado de trabalho. Quanto maior a grana, maior a grade, a diferença é muitos ganham pulseirinha, brindes, chaves e acesso a conteúdos exclusivos. O rolezinho escancara esse manto fino, quase transparente, mas, fortemente distintivo. O que barra a circulação desses jovens é a hexis corporal: A história e os signos inscritos no corpo de cada indivíduo.

Integrantes do rolezinho provavelmente sentam-se calados em ritos religiosos. Fazem barulho no templo do consumo porque estão em grande número, assim como fazemos em aglomerações. Encontro com amigos e gente nova não é procissão ou enterro onde se tira o boné em respeito. Que o rolê esteja em toda parte.

16 janeiro, 2014

Relacionamento não-monogâmico: Romance e ciúme

Posted in Afetos tagged , , , , at 1:30 pm por Deborah Sá

quadrinho-tiago-silva

Cecília conhece Roberto, eles começam a namorar. Embora Roberto ame muito Cecília, se apaixona por Letícia, colega de trabalho. Letícia era casada com Antônio e descobriu uma traição “virtual”. Furiosa, cedeu às investidas de um amigo, João. Em uma quinta-feira, Letícia contou a decisão para Antônio com um sorriso nos lábios e em seguida, emendou o pedido de divórcio. As histórias e os nomes fictícios da pequena narrativa mostram dilemas que qualquer relacionamento pode enfrentar. Não-monogâmico é aquele que questiona a monogamia como constituinte do afeto, sexo e/ou amor. Cada relacionamento é elaborado com base em acordos verbais de tal forma que o interesse de todos os envolvidos tem de ser respeitados, negociados.

Cecília e Roberto, por exemplo, haviam acordado que o que havia entre eles era amor e o que viviam nas relações paralelas era somente sexo. Tudo muda, quando Roberto passa a amar duas pessoas ao mesmo tempo: Cecília e Letícia. Eles viviam um relacionamento aberto, ciente de que terá de escolher entre uma das duas, está posto o entrave. Cecília exigia exclusividade e não aceitaria dividir o tempo de Roberto com mais ninguém. Letícia, também separava conceitualmente sexo de amor e afeto, era permissiva ao sexo casual de seu marido Antônio, contudo, julgava inadmissível o compartilhamento emocional para outra e ele fez isso on-line. Letícia sabia que João era o único homem com quem Antônio não toleraria envolvimento.

O oposto do ciúme é a compersão, isso é, ficar muito feliz quando alguém que amamos está com outra pessoa. Ao invés de sentir raiva ou medo de perder, surge felicidade. Um relacionamento poliamor é aquele que envolve três ou mais pessoas, os acordos podem ser múltiplos, desde polifidelidade (entre as pessoas daquele núcleo) até definir quem é/será secundário ou prioritário na dinâmica. Em RLi (relações livres) não está em questão a negociação da profundidade ou o envolvimento com terceiros, o amor, o afeto, o sexo, são componentes que priorizam o desejo, não há ninguém secundário, promessa de fidelidade parcial, afetiva, sexual. Independentemente da escolha, as relações não-monogâmicas não são frias. O romance não é incongruente em qualquer uma das dinâmicas. Ciúme, sentimento de posse, não é certeza do amor. Quantas pessoas ainda escondem ciúmes de ex-parceiros?

Mesmo em um relacionamento RLi, a compersão pode não existir em todos os casos, da mesma forma que nem sempre os amigos de nossos amigos despertam simpatia. Em um relacionamento não-monogâmico que pressupõe um núcleo e hierarquia, o ciúme tem maior probabilidade de ocorrer. Isso é trabalhado nos acordos, por exemplo: “Podemos/não podemos ficar com nossos amigos”, “Fique com quem quiser, só não me conte os detalhes/quero saber tudo detalhadamente”, cada casal ou grupo sabe das próprias diretrizes. Ao refletir sobre práticas afetivas e sexuais como construção social nunca mais sentiremos ciúme? A resposta é não. Há uma distância considerável (por vezes, abismal), entre o que acreditamos e o que temos condições de levar à prática. Uma pessoa virgem pode pensar muito em sexo, porém, não se sente pronta para quebrar essa barreira tão cedo. Semelhantemente, um indivíduo pode atravessar o período de transição em monogamia/relacionamento aberto/poliamor/RLi de maneira bastante dolorosa. São hábitos arraigados desde idade remota reforçados pela cultura, os valores tradicionais, a forma de se portar no mundo. Por mexer com certezas tão profundas leva à incompreensão. Não-monogâmicos podem ser falsamente interpretados como sujeitos sem amor-próprio ou ainda, egoístas e mesquinhos. Nos videoclipes, nas letras de música, nos filmes, o amor “de verdade” é aquele que dói, faz espatifar vasos e pratos, é “ter olhos para mais ninguém”. A gente compra a ideia mesmo com os sentimentos e desejos nem sempre caminhando nessa direção.

Em conversa ao telefone com meu amigo Elias, chegamos na analogia de que o ciúme é uma criança aborrecida. Sente fome, sono, faz birra, quer seu paninho ou chupeta, atenção. Ignorar o chamado ou colocar no “cantinho da disciplina”  é abrir espaço para a traquinagem, colocará taxinha na cadeira, jogará chiclete no cabelo, riscará o carro, furará pneu, gritará mágoas. Excesso de cólera faz parte do ciúme, bem como a urgência e a vingança. A insegurança e a carência são a ocasião perfeita para o surgimento dessa avalanche. Ao invés de nos culparmos, sentir remorso ou descontrole sobre as próprias emoções, é mais justo respirarmos fundo e questionarmos com sinceridade: Qual o motivo da raiva? De que exatamente temos medo? Esse ataque é para se defender contra o que? É preciso respeitar a consciência, o desejo. A aprendizagem leva tempo até ser reconhecida e assimilada. Recurso teórico auxilia o refutar, ter projeção, um plano de ação possível dentro das condições do presente. Acalmemo-nos: a vida é desfazer nós, nós de nós mesmos.

Próxima página

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 160 outros seguidores