11.04.09
Moça da Uniban
No último dia 22 uma moça estudante de turismo foi com um vestido curto para a faculdade.
Estes alunos não pertenciam a uma seita religiosa onde moças que usam roupas inadequadas merecem pedradas, coerção e ameaças de estupro. Estas alunas e alunos são pessoas “normais”. Estão ao nosso redor no shopping, ambiente de trabalho ou até dentro de nossas casas, provavelmente com formação cristã, comemoração natalina, carro na garagem e cachorro no quintal.
O motim se deu em um lampejo de revolta e reivindicação da ordem (moral), dando a idéia de “unidade”, pertencimento a um grupo com os mesmos propósitos. Quem era o “inimigo”? Uma moça sozinha com um vestido curto. A multidão precisaria se unir para combater esse “mal”? A transgressão da “moral e bons costumes” embora incentivada (quem não usa roupas curtas é considerada menos atraente e pouco “feminina”), quando cumprida sofre represálias.
Muitos dos comentários que ouço sobre o fato dizem:
“Está certo que a culpa é dos alunos, mas ela sabia que correria este risco”
Não há lugar seguro para uma mulher, horário, local ou idade para serem vistas como “estupráveis”. Este discurso tem uma linha tênue entre “Mas o que ela queria? De madrugada voltando pra casa depois de beber com roupa curta”?
“Se eles mexessem, falassem gracinhas era normal, o que não pode é chegar ao ponto de ameaça de estupro” / “Não tem como abrir queixa, nem encostaram nela, só falaram palavras obscenas”
Da mesma forma um homem que mostra o seu pau em público, se esfrega nos ombros das moças no ônibus, ou passa uma cantada ele está cumprindo seu papel de lembrar as moças que elas podem andar com decotes e roupas justas: Contanto que paguem “pedágio”. Se ele as julga pouco atraentes talvez reúna outros colegas (as cantadas costumam ser mais agressivas quando os homens andam em grupo) para ofende-la.
Absurdo o Fantástico chamar a consultora de moda Glória Kallil para falar que “A roupa é um instrumento que diz ao mundo o que somos, certamente essa moça não atentou para a mensagem corporal que a vestimenta dela seria interpretada – o que não justifica a ação destas pessoas”.
Se uma casa fosse roubada eles chamariam um engenheiro para analisar o quanto a casa não foi projetada de forma segura? Em algumas cidades do interior e alguns bairros de periferia, os moradores dormem com suas janelas completamente abertas ao contrário de um condomínio de classe média com suas câmeras de segurança.
Não culpam um homem branco, bem vestido dentro de um carro importado pela tentativa de seqüestro no seu bairro nobre.
Se uma mulher branca usa roupas decotadas e for estuprada, dirão que será por falta de senso estético e decoro, se a mulher for gorda, negra ou fora de algum padrão estético, não acreditarão que alguém tenha desejo por ela, nessa última percepção grotesca cometer um estupro não é uma relação de poder e sim o tesão elevado a máxima potência.
Neste raciocínio, uma mulher usando uma roupa justa é incoerente ao reclamar de uma cantada, a postura esperada seria a condescendência com quem invadiu seu espaço físico, levando em consideração sua natureza racional que compreende a produção involuntária de pulsões sexuais em homens escravos da sua própria testosterona.
10.27.09
Windowsill
Juro que se eu bebesse algo alcoólico, esse seria meu recurso esta noite. Como não o faço fui até uma lanchonete vegana e pedi um suco de maracujá. Talvez um dos mais amargos que já tomei, não por falta de açúcar, mas da raiva guardada e da impotência.
Queria mesmo é abrir meu coração para aquele atendente que nem sei o nome e dizer o quanto eu ando triste, o quanto a dor no peito vem rasgando nesses dias.
Semana passada minha irmã me disse que uma professora quando lecionava para crianças de 8/9 anos um grupo de garotos forçou uma menina da mesma faixa etária a praticar sexo oral neles. Ela tem deficiência mental. Os garotos não. A mãe da garota e a direção da escola não quiseram denunciar, alguns dos meninos eram “filhos de bandido”.
O Yuri sabe o quanto essa notícia acabou com meu dia, passei minha noite de sexta definhando chorando.
Não há lugar no mundo seguro para uma mulher
Crianças de 8 anos tem ereção? Tem porra já? Mas tem supremacia masculina, isso sim. São “imitações” inconscientes de uma estrutura familiar conturbada? Oras, se não vamos culpar crianças por estupro, podemos inocentar um serial killer de passado problemático?
Hoje ao sair do trabalho com minha irmã um grupo de garotos jogava pedra no mato, eu sabia que por ali existia um gato preto e me aproximei esperando o pior.
Eu: Ei, o que vocês estão fazendo? Não tem vergonha não?
Garoto: Ninguém te chamou, não é da sua conta.
Minha irmã: Não pode fazer isso, tacar pedra no gato, porque você está fazendo isso?
Outro garoto: Tem que tacar mesmo, ele estava matando um passarinho!
Eu: E você não come carne?
Garoto: Como…(cortado pelo “Líder”)
“Líder”: Escuta aqui, segue “seus caminho”
Garotos: (Jogam mais pedra)
Eu me aproximo e cruzo os braços de frente para um deles, ele fecha a cara e me imita.
“Líder”: Você quer bater na gente é?
Eu: Não, porque eu não sou covarde
Grupo: Viiiixeee olha só quanto nós somos
“Líder”: Segue “seus caminho”, segue “seus caminho”…
Outro garoto: Agora que eu vou matar esse gato, tem que matar mesmo, ele é preto!
TODOS os garotos eram negros.
Isso me deixou sem palavras por um instante.
Eu: Por isso mesmo, não podemos ter preconceitos.
“Líder”: Segue “seus caminho”, segue “seus caminho”…
Minha irmã: Isso é covardia
Os garotos saíram andando, perto uma senhora com seu Golden Retriever perguntou para minha irmã:
- O que aconteceu?
- Estavam tacando pedra no gato.
- Isso não pode! É crime! E começou a falar com os garotos que permaneciam. O líder disse algo como “Depois chamamos uns trutas pra dar um jeito nessas duas”.
E eu fui para a lanchonete.
Meu pai ligou preocupado, soube do ocorrido.
Uma coisa eu digo, não vou encostar a mão naquelas crianças, mas se vierem pra cima de mim vou revidar. E se eu morrer ser presa todo mundo já sabe o motivo.
Agora dá licença que vou preparar janta pra usar de marmita amanhã e pegar ônibus cheio.
Sempre vivi na periferia, estudei nas suas escolas, sofri a humilhação de gente que tinha tanto dinheiro quanto eu. Mas eles têm o “gueto” masculino, sua força, seus comparsas, eu só tenho vontade de chorar e lutar. Lutar sempre.
Fico pensando se quero mesmo ser professora de História, pra ter que agüentar gente que não tem metade da minha estatura querendo botar o dedo na minha cara. Seja porque tem o papai rico com mil advogados ou os mil manos em uma terra sem lei.
Este post foi escrito ao som de Windowsill do Arcade Fire
10.19.09
Ame seu corpo
Quando digo para algumas amigas que ás vezes me sinto feia elas não acreditam, outras dizem sofrer por ler sobre a indústria da moda, seus padrões e mesmo assim se culpam se engordam, as espinhas no período pré-menstrual e a frustração na imagem refletida no espelho.
Hoje no Metrô vi uma propaganda de uma espuma de barbear com o garoto propaganda Ronaldo-Fenômeno, se não fosse sua fama alguém que passa muito longe da imagem de galã representaria um modelo ideal?
Por que a maioria das mulheres demora tanto para se arrumar?
Nossa imagem corporal é de suma importância para nos relacionarmos com o mundo, cores de nossas vestes, simetria de nosso penteado, tudo isto tem de ser cuidadosamente planejado, é a primeira maneira de poder e aceitação social que conhecemos. Imagine que seu guarda roupa é responsável por julgamentos alheios do que você é.
Para uma mulher, todo dia é uma entrevista de emprego.
Por isto deixamos de sair “quando não temos roupa” mesmo com o guarda-roupa repleto, nos frustramos quando não reconhecem que mudamos o corte de cabelo ou notam que borramos/falhamos ao pintar nossas unhas (dormimos três horas mais tarde para fazê-las).
Um homem não precisa se preocupar com a própria imagem se sua relação com o mundo não está emaranhada com estes valores visuais, basta ser o que a genética lhe dá: Dentuço ou barrigudo, pode ser um modelo ideal em propaganda de loção pós-barba.
Desconstruir
* Olhe o próprio corpo nu no espelho, de frente, de lado, do modo que for, não tenha medo de odores, de gosto e suas formas. Qual é o formato da sua beleza?
Em nossa cultura mulheres são contemplativas em sua essência, por que não olhar isto de outra forma? Convidar nosso corpo a se olhar mais uma vez, de outro modo, deixar que ele dance, pule, se envolva nele mesmo, preste atenção em suas dobrinhas, no seu umbigo e cada história que ele conta de superação e resistência.
* Leia: Sobre a história das mulheres na China, no Brasil, no Nordeste ou no Afeganistão. Sobre Mitos e Ritos de Beleza, Ciências, Arte e Música.
* Compartilhe: Saia com suas amigas, comam algo muito saboroso juntas, brinquem de pega-pega, guerra de travesseiro e “lutinha”, ouçam suas dores para juntas superar obstáculos tão similares. Seja sincera, diga para elas o quanto são bonitas suas pernas, seu modo de andar ou qualquer outro traço que considere realmente bonito.
Este ano, em sua 12ª edição, o Love Your Body Day (Ame seu Corpo) será celebrado em 21 de outubro. Popular nos Estados Unidos, ele repercute principalmente entre a comunidade de blogueiras e ativistas pelos direitos da mulher.
10.06.09
Criticas a 4ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul
Estive presente no Cinesesc ontem para prestigiar a 4ª Mostra de Cinema (gratuita), retirei meu ingresso e aguardei a abertura para a sala sem tumulto. As pessoas bebiam o champanhe distribuído gratuitamente e pareciam despreocupadas, com satisfação notei a presença de alguns cegos (teriam uma cabine com narração) e muitos idosos sendo bem atendidos. Ao entrar na sala e ocupar um assento aguardei os 40 minutos de atraso. Após este atraso foram chamados ao palco os organizadores e responsáveis pelo evento. Cada um deles exerceu o direito ao pronunciamento nos microfones.
A sessão começaria ás 20:30, com duração de uma hora e meia. Eram 21:55 e foi chamada ao palco mais uma equipe para se pronunciar. Tive de ir embora, o governo de SP apoiou a Mostra mas não mudou os horários do transporte público, o metrô funciona de segunda a sexta até ás 00:00. Quem não possui carro (meu caso) não pode prestigiar a Mostra, o que dizer dos cegos presentes na ocasião? E os idosos? Será que todos eles tinham condições de voltar para suas casas ao término da sessão?
Atenciosamente,
Deborah Sá
10.05.09
Deixa ela entrar
Fãs de anime e suas narrativas (Elfen Lied em especial) gostarão desse filme. Simpatizei por identificação e algumas inovações, mesmo não sendo um filme espetacular.
Um garoto normal humilhado na escola é agredido e solitário. Certo dia, uma nova família com sua filha vampira chegam na vizinhança escondendo de todos este fato. O pai leva o “sustento” para a casa dopando um estranho, amarrando de ponta cabeça e sangrando com corte no pescoço. Essa cena é muito comum em abatedouros e chama-se sangria.
Os dois formam um par de namorados pré-púberes fofinhos nos moldes de amor “sem sexo” e muito afago. O que difere este filme de um anime convencional é a garota não ser “Nyyaaa”*. Odeio como a maioria das personagens femininas dos animes sejam frágeis e delicadas pegando pesado nos estereótipos ¬¬’
Ainda falando sobre a vampira do filme ela é corajosa, decidida, forte e incentiva o garoto indefeso a revidar oferecendo proteção e o “salvando”. O garoto diz que ela tem “um cheiro esquisito”, com receio ela pergunta diversas vezes se está cheirando mal, ele diz que não tem nojo dela. Mesmo quando “suja” de sangue” eles se abraçam, tive vontade de chorar.
As mulheres são ensinadas que tudo que o corpo delas produz é feio, sujo e repleto de bactérias, nessa cena o que vemos é o amor. O suspense quando ocorre é convincente. Um filme para entretenimento com alguns diferenciais que fazem valer a pena, só não o veja com muitas pretensões.
* Interjeição de arrependimento/suspiro/tédio/felicidade de muitas personagens femininas nos animes.
10.02.09
Considerações sobre o Estupro
O POVO DO ESTADO DA CALIFÓRNIA CONTRA ROMAN RAYMOND POLANSKI. QUINTA-FEIRA, 24 DE MARÇO DE 1977.
P. Samantha, quantos anos você tem?
R. 13.
P. Você mora com sua mãe e irmã em Woodland Hills?
R. É.
P. Por favor responda sim ou não.
R. Sim.
P. Em 13 de fevereiro de 1977, você encontrou Roman Polanski na residência dele?
R. Sim.
P. O sr. Polanski indicou que queria fotografá-la?
R. Sim. Ele me mostrou a Vogue que ele tinha feito e me perguntou se eu queria ser fotografada.
P. Você já tinha o encontrado na residência dele antes?
R. Sim.
P. O que você fez?
R. Eu tirei a minha camisa.
P. Você falou para a sua mãe que vocês tiraram fotografias de topless?
R. Não.
P. Na casa de Jack Nicholson, em algum momento, o sr. Polanski ofereceu bebidas?
R. Sim, eu disse que estava com sede. Fomos para a cozinha e abrimos a geladeira, tinha suco, cocas, vinho. Ele pegou uma garrafa de champanhe. E perguntou se deveria abrir. Eu disse que tudo bem.
P. O que aconteceu depois que ele abriu?
R. Ele encheu as taças.
P. Você bebeu?
R. Sim.
P. Quanto?
R. Não tenho ideia.
P. O sr. Polanski tirou fotos?
R. Sim.
P. Quando você estava com a taça na mão?
R. Não.
P. Você tirou a sua camisa ou foi o sr. Polanski?
R. Eu tirei.
P. Por que ele requisitou ou foi por vontade própria?
R. Porque ele pediu.
P. Você posou?
R. Sim.
P. Ele dirigiu as suas poses?
R. Sim.
P. O que aconteceu depois?
R. Ele foi me mostrar a jacuzzi do Jack Nicholson.
P. O que aconteceu depois?
R. Ele disse que queria tirar umas fotos minhas dentro.
P. A que horas você tirou a sua roupa?
R. Eu tirei pouco antes de entrar na jacuzzi.
P. Por que você tirou?
R. Porque eu não queria entrar na jacuzzi com ela.
P. O que aconteceu quando você entrou na jacuzzi?
R. Ele tirou fotos.
P. Em algum momento ele parou de tirar fotos?
R. Sim.
P. O que ele fez depois?
R. Disse que iria entrar nela.
P. Ele estava vestindo alguma coisa?
R. Não.
P. O que ele fez quando entrou?
R. Ele ficou na parte mais funda.
P. E você?
R. Fui para o outro lado.
P. O que aconteceu depois?
R. Ele ficou me chamando. Eu dizia, não, quero sair. Ele dizia, vem cá só um segundo. Então eu fui. Então ele perguntou se eu não me sentia melhor. Então eu saí.
P. O que você fez depois?
R. Me enrolei numa toalha.
P. O que você fez quando ele disse para irem para o quarto?
R. Eu estava pensando que era melhor eu ir embora, porque eu estava com medo. Então, fui lá e me sentei no colchão.
P. Do que você tinha medo?
R. Dele.
P. Mesmo assim você foi lá e se sentou no colchão.
R. Sim.
P. O que aconteceu quando você se sentou?
R. Ele se sentou atrás de mim perguntou se estava tudo bem.
P. O que você respondeu?
R. Que não.
P. E o que ele disse?
R. Que eu ia ficar melhor. Mas eu disse que queria ir embora. Então ele me abraçou e me beijou. Eu dizia, não, fique longe. Mas eu tinha medo dele, porque só estávamos nós dois lá.
P. O que ele fez depois?
R. Ele colocou a boca na minha vagina. Ficou lambendo, e eu estava prestes a chorar, eu estava tipo, “não, pare”, mas eu estava com medo.
P. E o que ele dizia?
R. Não me lembro, ele dizia coisas, mas eu não escutava.
P. Quanto tempo ele ficou com a boca na sua vagina?
R. Poucos minutos.
P. O que aconteceu depois?
R. Ele começou a me penetrar.
P. O que você quer dizer com “penetrar”?
R. Ele colocou o seu pênis na minha vagina.
P. O que você disse para ele?
R. Eu apenas murmurava “não, pare”, mas eu não estava lutando contra, porque não tinha para aonde ir.
P. O que ele disse?
R. Ele não me respondeu quando eu disse “não.” Depois, ele perguntou se eu estava fértil. Eu disse que sim. Ele perguntou se eu usava pílulas. Eu disse que não. Então ele me perguntou se queria que ele penetrasse por trás. Eu disse não.
P. Você já tinha se relacionado com outros homens, antes.
R. Sim, duas vezes. Então ele levantou as minhas pernas bem alto e penetrou no meu ânus.
P. O que você quer dizer com “penetrou no meu ânus”?
R. Ele colocou o seu pênis no meu…
P.Você disse alguma coisa pra ele?
R. Não.
P. Você resistiu?
R. Um pouco. Mas não muito.
P. Por quê?
R. Eu estava com medo. Então ele parou.
P. Você acha que ele atingiu o clímax?
R. Sim.
P. Quando você diz isso, é porque acredita que ele chegou ao clímax no seu ânus?
R. Sim. Seu sêmen saiu.
P. Você viu ou sentiu o sêmen?
R. Senti.
Fonte: http://blog.estadao.com.br/blog/marcelorubenspaiva/?title=o_povo_da_california_contra_polanski&more=1&c=1&tb=1&pb=1
Castração
Muito se diz sobre a necessidade de matar um estuprador ou castrá-lo quimicamente.Um estupro pode ocorrer de várias formas no caso acima (segundo a nova legislação), sexo oral, penetração vaginal e por fim sexo anal. Deveríamos cortar a língua fora, os dedos para que não masturbasse, arrancar os olhos para que não visse mulheres com lascívia? Deveríamos tal qual em Laranja Mecânica incutir ânsia de vômito ao olhar uma mulher?
Se mostrar meu dedo a pessoa entenderá a mensagem, se mostrar o símbolo de buceta, o que pensarão? <>
Castrar um homem é reforçar o poder do pau que por si só é algo inofensivo: Uma coisinha mole de poucos centímetros que mesmo dura é bem sensível e incapaz de machucar alguém.
“É provável que as mulheres possam ser treinadas com facilidade para ver os homens em primeiro lugar como objetos sexuais. Se as meninas nunca passassem pela violência sexual, se a única abertura que uma menina tivesse para a sexualidade masculina fosse uma série de imagens baratas, bem iluminadas e fáceis de se encontrar de rapazes pouco mais velhos do que ela, no final da adolescência, dando um sorriso encorajador e exibindo simpáticos pênis eretos da cor das rosas ou de moca, ela bem poderia olhar essas imagens, masturbar-se com elas e, quando adulta, “precisar” da pornografia da beleza baseada nos corpos de homens. E se um desses pênis iniciadores fosse apresentado para a menina como tendo uma ereção pneumática, sem inclinação nem para a direita nem para a esquerda, como tendo o gosto de canela ou de frutinhas do mato, sem a presença de pêlos ocasionais e com uma disponibilidade constante; se eles fossem apresentados tendo ao lado suas medidas de comprimento e circunferência em centímetros; se eles parecessem estar à disposição dela sem nenhuma personalidade problemática vinculada a eles; se o prazer dela parecesse ser a única razão para eles existirem; nesse caso, um rapaz de verdade provavelmente se aproximaria da cama de uma jovem com, no mínimo, muito medo de fracassar.”
O Mito da Beleza – Páginas 203 e 204
Virar “mulherzinha”
A segunda “punição” desejada para maioria das pessoas é a “surra de pica”, “virar mulherzinha na cadeia”, mais uma vez o pau é atribuído de valor corretivo e coercivo. O cu masculino por sua vez, ganha o duro fardo de ser sua honra, “seu selo hétero de qualidade”.
A Culpa é da Vítima
Por não ser virgem quando o estupro ocorreu, muitos acreditam que Samantha era suficientemente “maliciosa” para não tirar foto nua na companhia de um homem mais velho, não levando em consideração que algumas profissões exigem nudez, se estamos com uma autoridade no assunto, confiamos nela. Vamos supor que você adora um pintor muito famoso que te chama para posar, lisonjeada você aceita com certa timidez, diante de um modelo de autoridade que você respeita. Vocês bebem, as coisas tomam um rumo inesperado e ele te estupra. A culpa é sua? Qualquer mulher e criança estariam sujeitas a esta situação, seja um padre que vai ensinar piano, um pastor que convida para conversar ou um avô que te chama para deitar-se com ele em um dia comum.
Qual a idade ideal para começar a vida sexual?
Cabe ao indivíduo decidir sobre isso, conheço moças que começaram a vida sexual aos 12 enquanto eu comecei aos 17. Com quem elas devem fazer sexo? Com quem bem entenderem.
Independentemente da idade sabe-se como e com quem fazer sexo. Usar roupas “indecentes” e trepar no primeiro encontro não é aval pra ser estuprada.
Não dá pra culpar os gays pela homofobia. Nem as negras pelo racismo.
Há várias ramificações dos problemas da sociedade, não dá pra culpar um único foco, muito menos o alvo.
Pornografia do Estupro
O que você faria se ao abrir a porta do quarto seu filho estivesse batendo punheta para um vídeo de estupro? E para pornografia infantil? E se fosse “só” um Hentai? E especificamente Hentais com bebês (Toddlercon)?
Por que é considerado asqueroso sexo forçado com crianças e bebês enquanto o tesão em cenas de estupro de mulheres adultas é “compreensível”? Se um homem branco diz ter desejo erótico de bater com um chicote em um negro ele será acusado (com toda razão) de racismo, se fossem produzidos vídeos em larga escala onde negros apanham, são humilhados dizendo “não” sorrindo e “no fundo gostando” não seria repulsivo?
Normatizar este tesão é assumir que o estupro faz parte da natureza masculina.
Analisando o contexto
Discordo totalmente do posicionamento da Lola
Polanski tem de ser preso, não pagou pelo crime como devia fugindo do país na época. Alegou que não sabia que nos EUA era ilegal fazer sexo com menores. Ele não fez sexo, estuprou.
Dane-se que psicólogos dizem que ele merece passe livre para a sociedade, que ninguém mais o acusou. Um homem que estupra somente uma mulher merece ser solto? Um homem pobre teria as mesmas regalias do renomado diretor?
Sei que o sistema carcerário não “reabilita”, põe de “castigo”, o Estado tem de buscar outras maneiras de auxílio ás pessoas, isso não é desculpa para liberar Polanski.
09.28.09
Watchmen
Não li a HQ mas a adaptação para as telas é bastante convidativa em conhecer a obra original. O diferencial neste filme e os demais lançamentos blockbusters é a construção da personalidade “humana” dos personagens. Os primeiros minutos de introdução são fantásticos, nele podemos entender como os antigos heróis morrem, são coibidos de usar suas fantasias e máscaras e por fim, os que se “cansam”. Há uma heroína lésbica, quem mata o casal escreve “Vagabundas lésbicas” na parede deixando explícito a lesbofobia. Algo inegável, mas importante de ser esclarecido.
Rorschach – Este personagem sociopata tem o perfil comum de um Serial Killer: Apanhava da mãe prostituta, sofria humilhações escolares, quando adulto tem pensamento extremamente conservador/religioso, julgando ser um “enviado” capaz de realizar uma “limpeza” na sociedade matando prostitutas ou qualquer outro símbolo que ele eleja como “contaminado”. Jackie Earle Haley (o pedófilo de Pecados Íntimos *calafrios*) é extremamente convincente no papel.
Dr. Manhattan – O musculoso azul traduz muito bem a idéia que eu tenho de “Deus”*: A visão cartesiana dele beira a apatia. Seu pai era relojoeiro permitindo que ele conhecesse na infância o mecanismo desta máquina de engrenagens. Adulto, torna-se físico e tal qual o Hulk sofre um acidente nuclear, tornando-se azul ao invés de verde. Descobre uma gama *hein, hein, entenderam o trocadilho?* de poderes como ser onipotente, onipresente e em alguma medida onisciente. Tendo controle sobre a matéria, pode desintegrar, transformar, ficar gigante e destruir Vietnamitas que foi o propósito adequado segundo Nixon alistando-o para servir a pátria. De tão blasé faz sexo com a esposa enquanto um clone fica trabalhando. Crê que cada atitude humana sendo boa ou ruim não impede o mundo de girar, cabendo a ele contemplar o horizonte niilista em marte enquanto ergue da terra vermelha um conjunto de engrenagens similares a um relógio. Segundo ele: “Não posso mudar a natureza humana”. O que nos leva a um grande problema…
Comediante - Misógino, machão e adjetivos similares caem como uma luva. Luta no Vietnã ao lado do Dr. Manhattan, usa um charuto na boca, é sarcástico e tem pose de cafajeste. Quando volta a cidade tenta estuprar a heroína Sra. Sally Júpiter que é salva quando outro homem abre a porta. Essa cena me embrulhou o estômago, me senti incomodada em saber que em outra ocasião ela o procura. Este tipo de cena só reforça que mulheres violentadas não têm nenhum tipo de aversão ao agressor, no fundo elas até gostam. Nas palavras do comediante: “Você disse Não, que se soletra S-I-M”. Nisto o Dr. Manhattan torna-se omisso, deixa claro em diversas ocasiões que as formas de violência são inatas no comportamento humano, subentendendo aí o estupro. Estupro é uma construção social baseada em privilégios masculinos, transformar isto em entretenimento ou em um gesto inato, é asqueroso.
Srta. Júpiter – Não sei se a culpa é da atriz ou a personagem é insípida. O fato é que a personagem não tem carisma, protagoniza cenas desnecessárias de sexo (o que foi aquela bunda no luar?), não tem nenhuma profundidade e perto de outras atuações tão marcantes como do Rorschach ela simplesmente desaparece. Aquele discurso do Dr. Manhattan para ela em Marte me soou muito anti-aborto, argh.
Homem Coruja – Com sua nave em formato dos olhos do Wall-E (a primeira coisa que me veio à mente foi a voz dizendo “Waall-eee), torna o filme um pouco mais leve, faz o tipo paladino-bonzinho-semi-bundão bem carismático. E ele broxa, o que o torna mais humano. Gostei.
Ozymandias – O “vilão” foi meu personagem preferido (não é só por ser vegetariano, juro), pela pose, charme e boas intenções. Os vilões convencionais querem o mundo á seus pés, ser adorados, ele quer trazer a paz mundial de um modo nada ortodoxo. Fazendo-nos refletir se concordamos com ele, tentaríamos impedir ou aprovaríamos suas atitudes.
Mesmo com tantos deslizes o filme se sustenta e oferece muito mais do que efeitos especiais, mulheres gostosas e Linkin Park.
09.24.09
Anticristo
Anticristo é um filme misógino. Reitera as crenças do místico feminino como algo abominável, indomável, sádico e mortal. Dividido em capítulos, o prólogo em câmera lenta (em preto e branco) conta a morte do bebê do casal e o intercurso no chuveiro.
Esse foco “peniano” é incômodo, qual a relevância de mostrar um pênis entrando em uma vagina? Não há nada “chocante” nisso Von Trier. O mundo “real” já é heteronormativo: Publicidade, linguagem, anedotas…a gama de referências é abundante. Antes de me aprofundar na trama, posso adiantar que o filme é horrível.
*Spoiler daqui pra frente, se quiser pule tudo*
A mãe entra em profunda depressão, levada aos médicos se entorpece com remédios. O marido terapeuta preocupado (e salvador) leva a esposa novamente para casa e tenta tratá-la buscando a fonte de seus medos. Ela confessa ter medo da floresta (Eden).
Neste local há tempos atrás levou o bebê para esboçar páginas de sua tese sobre genocídio, mais especificamente sobre feminicídio. Em determinado dia, ela ouve um choro de bebê e ao segui-lo encontra o filho feliz, embora ainda ouça o choro. Era um chamado da “natureza”(!).
No trem a caminho do Éden, o marido pede que imagine andar nos arredores deitando na grama e fazendo parte do local. Este é o segundo contato com a “mãe natureza”. Ao chegarem, o terapeuta insiste em rituais que ligue ela a esse mito, como andar na grama por exemplo.
No Éden a mulher pede por intercurso, ele tenta recusar acreditando que atrapalhará o “tratamento”. Não resiste, são constantes os closes da bunda do William Defoe contraindo por cima dela. Esta cena se repete com freqüência.
Não espere preliminares ou sexo oral na mulher -por que o cinema é tão relutante em mostrar a mulher gozando na boca de homem? – deita por baixo e o coelhinho em pouco tempo goza.
O contato sexual entre eles torna-se misógino:
Ela: – Me bate.
Ele: – Não farei isso.
Ela: – Então não me ama de verdade.
Ele: – Talvez não te ame
Ela: Corre para uma grande árvore, deita-se e se masturba.
Ele: Corre até ela, dá uns tapas na cara e ocorre o intercurso que ilustra a capa do filme.
Ela chega a conclusão: Se a maldade do ser humano é inata, a mulher como ser humano também é. Sendo má, ela merece ser punida.
Ele diz que a tese dela era provar que as mulheres mortas queimadas não o mereciam só por ser mulheres, para seu espanto “inverteu o jogo”.
O marido tem sonhos estranhos da natureza o amedrontando, a cena mais emblemática é uma raposa dizendo com voz gutural “O Caos Reina”. *Me segurei pra não rir*
Descobre na autópsia que os pés do bebê eram ligeiramente tortos. Ao olhar as fotos do Éden consta que o sapato esquerdo está no direito e vice-versa. Percebe que a esposa é “uma bruxa”.
Ela entra no cenário gritando e o acerta na cabeça o deixando desacordado, ainda com raiva bate no pau dele com uma madeira, tornando-se ereto. Bate punheta nele voando sangue. *Algo me diz que Lars Von Trier é fã de Ero-Guro*
Não satisfeita, usa uma furadeira manual abrindo um buraco na perna dele e coloca um peso de malhar (sabe aqueles “anéis” com peso?). Ainda com muita raiva corta o clitóris com uma tesoura.
Sai correndo, o marido tenta fugir mas é em vão: A floresta é a favor dela. Quando se esconde na toca da raposa (a mesma do sonho) encontra um corvo. Este corvo faz tanto barulho que a esposa o encontra e o soterra empurrando terra na parte superior do buraco.
Cansada, o remove e auxilia a tirar o peso da perna. Ele bate nela, amarra em um tronco de árvore e taca fogo.
A árvore ganha brilho e pisca. A bruxa voltou de onde veio: Da natureza sombria, onde tem de ser domada pelo homem. Com seu sobrenatural poder enfeitiça e cega os pobres homens reféns de seus desejos de cópula, dispostos a arriscar sua preciosa vida se for necessário.
Por fim, ele está na floresta (em preto e branco) enquanto uma multidão de mulheres sai das árvores e andam em sua direção.
Um filme que justifica a inquisição deve mesmo ser considerado uma obra-prima? Esse conceito existe há séculos e críticos chamam esse filme de inovador? Provocativo? Leiam a bíblia, vão se espantar.
09.20.09
Roça?
O vídeo está com qualidade ruim, a Sparta me atrapalha (e quase faz meu celular cair no chão), há vacas, bezerros e até pintinhos. Um passeio com as crianças
PS: Tem receitas novas: Samossas e Arroz de forno no www.escolhavegan.wordpress.com
09.09.09
Chá das cinco
Transfiro qualquer sentimento
Em gotas de chá também há lamento
Confundo tédio com sono e vontade de comer
A preguiça de um post com a vontade de viver
Meio termo nunca sei se senti
Enquanto o mate aumenta a angústia
A camomila me faz dormir
PS: Era exatamente esse tipo de coisa que eu escrevia no meu caderno/diário. Esses desabafos tão pequenos sempre me aliviaram.
